Foi no final da passada segunda-feira que soou o alarme: na zona costeira do Algarve que fica entre a Ilha do Farol (Faro) e a Vilamoura (Loulé) o mar tornou-se vermelho com a presença de uma alga e a Autoridade Marítima Nacional, aconselhada pela Agência Portuguesa do Ambiente, decidiu interditar as praias afetadas, já que a tal mancha era tida como “potencialmente perigosa para a saúde pública”. O Observador confirmou esta terça-feira junto da Polícia Marítima de Faro que a interdição ainda se mantém. Contudo, a vice-reitora da Universidade do Algarve, que é bióloga marinha já refutou a ideia de que este fenómeno pode ser prejudicial para a saúde.

Entretanto, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) anunciou na tarde de terça-feira que foi proibida a apanha e a comercialização de moluscos bivalves na sequência da “maré vermelha”. Em comunicado enviado às redações, o instituto explica que a apanha e comercialização de conquilhas entre Lagos e Albufeira e entre Faro e Olhão “já se encontrava interdita por toxinas lipofílicas”. Agora, e “a título preventivo”, o IPMA impede a apanha e venda das restantes espécies bivalves.

O fenómeno já tinha sido identificado no passado domingo, apesar da interdição a banhos só ter surgido na segunda-feira. Por muito que a pesca não tenha sido proibida, a Polícia Marítima de Faro conto ao Observador que não aconselhava nem a pesca nas zonas afetadas nem o consumo de peixe ou marisco capturado nessas mesmas regiões. A culpa de tudo isto, afirmou a Agência Portuguesa do Ambiente após analisar as águas em questão, seria a presença de um organismo prejudicial para a saúde humana. Segundo Lígia Sousa, uma investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Lisboa, os organismos em questão chamam-se “dinoflagelados”, são “componentes essências do fitoplâncton” , “geralmente vivem isolados mas, em alguns casos, formam colónias” e podem produzir substâncias tóxicas perigosas para os humanos.

Mas esta terça-feira, na TSF , a bióloga marinha e vice-reitora da Universidade do Algarve, Alexandra Teodósio, afirmou não haver qualquer perigo inerente ao contacto com estes micro-organismos. “Esta espécie [os tais dinoflagelados] não é prejudicial aos banhos, a pessoa pode tomar banho na mesma”, assegura. Estes organismos chegam a ter uma componente atrativa, já que por serem “uma espécie bioluminescente” — durante a noite produzem  fluorescência — dão origem a um fenómeno “muito bonito de ver”. “Há sítios, como a Tailândia, onde as pessoas pagam para fazer esta atividade”, acrescentou a especialista.

Apesar de esta espécie “não ser prejudicial aos banhos”, a bióloga refere que no caso dos bivalves da região, a história é diferente: “Estão interditos. Não se pode consumir bivalves nem outros organismos que sejam filtradores.”

Marés vermelhas são “bastante comuns”, diz Capitania de Faro

O Nuno Cortes Lopes é o capitão da Capitania de Faro, a autoridade que operacionalizou as indicações do Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e do Delegado de Saúde local, e explicou ao Observador que a ordem de interdição vai manter-se até receber ordens para a levantar. A cumprir o seu terceiro verão neste cargo, Cortes Lopes explica que este fenómeno “é bastante comum, tem-se verificado nos últimos dois anos em que esteve em funções” mas com a particularidade de nunca ter sido tão intenso e abrangido uma área tão grande.

Na passada segunda-feira, conta, a APA fez análises à água cujos resultados, cruzados com o Delegado de Saúde, ditou a interdição. “Recebemos instruções por escrito para contactarmos os concessionários de praia entre Faro e Vilamoura e pedir-lhes que colocassem bandeiras vermelhas, que foi o que fizemos.” Segundo o capitão, ainda nesta terça-feira serão feitas novas análises, só depois de escrutinados os resultados é que se saberá se as praias são reabertas ou não.

É destacada a necessidade de manter a calma e explicado que as micro-algas em questão só são perigosas para quem as ingerir. “O contacto com a pele não causa danos”, afirmou Nuno Cortes Lopes.

A culpa não é da poluição

“Isto é um fenómeno comum, há anos com mais crises de volume tóxico e anos com menos. Não tem é nada a ver com poluição”, é desta forma que Margarida Reis, professora de microbiologia na Universidade do Algarve, começa por clarificar o tema, falando com o Observador via telefone.

Segundo a especialista, estes fenómenos ocorrem quando se verifica um fenómeno natural chamado de upwelling, uma corrente marítima ascendente que traz à tona nutrientes  e cistos de microrganismos depositados no fundo do mar. Se os cistos de dinoflagelados encontrarem condições favoráveis de radiação e temperatura germinam (ou eclodem). Se forem cistos deste Lingulodinium polyedra temos este tipo de maré vermelha.

Fotografias da Dra. Carla S. de Freitas a uma amostra recolhida pela DR. Ana Flor Vidal. São estes os micro-organismos que estão a “tingir” parte da costa algarvia.

A grande questão que se levantava era se tudo isto era prejudicial à saúde ou não e a resposta, para Margarida Reis, não é direta. “Analises laboratoriais permitiram-nos perceber que estes organismos são potencialmente tóxicos, mas a verdade é que nunca houve ninguém a ficar intoxicado por culpa deles”, conta. Tem tudo a ver com a diluição/concentração destas substâncias. Manchas como a que foi identificada no Algarve não têm uma concentração suficientemente alta para afetar a saúde de um ser humano — “precaucionisticamente, num excesso de zelo muito pessoal, não colocaria crianças pequenas na água, a tolerância delas é menor que a de um adulto”. Contudo, os bivalves são um caso sério a ter em conta.

“Eles concentram uma quantidade elevada destas toxinas e isso pode fazer mal”, explica Margarida. É por isso mesmo que apenas aconselha a que as pessoas não apanhem ou consumam bivalves que sejam apanhados na zona afetada.