As gargalhadas romperam com o sossego tipicamente lisboeta no fim de agosto. No palco, humoristas nacionais e internacionais fizeram o que melhor sabem: transformar piadas em espetáculo. Luís Franco-Bastos e André de Freitas foram alguns dos comediantes que atuaram esta quinta-feira no Cinema São Jorge, em Lisboa, no dia inaugural do Worten Mock Fest, um novo festival que ao longo de três dias propõe mais de cinco horas diárias de comédia, com shows de stand-up, podcasts ao vivo, conversas e até um ciclo de cinema de humor.
Nesta que é a primeira edição sobem a palco nomes da comédia nacional e internacional como o brasileiro Rafi Bastos, o escocês Daniel Sloss, o australiano Jim Jefferies ou os portugueses Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela e Miguel Góis (ex-Gato Fedorento). O festival é organizado pela Kilt, agência fundada por Ricardo Soares que ao longo dos últimos sete anos tem acompanhado a evolução do setor do humor em Portugal gerindo as carreiras de diversos artistas (Diogo Batáguas, Guilherme Geirinhas, Luana do bem) e produzindo alguns dos mais populares projetos ligados ao género, do podcast Falsos Lentos ao programa Bom Partido.
“Faltava um festival de verão para pagar as contas à malta”, brinca o humorista Diogo Batáguas, ao lado do fundador da KILT e organizador do Worten Mock Fest, Ricardo Soares, na apresentação à imprensa. Para este último, o nascimento do festival é “sinónimo da evolução do setor da comédia em Portugal”. “Estamos muito perto de esgotar”, afirma ao Observador. As vendas, garante, superam as expectativas.
Uma hora antes da abertura de portas, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, junta-se à organização para a apresentação do que classifica como um possível “web summit do humor”. Ao lado de Batáguas — que não raras vezes visa o autarca no programa Conteúdo do Batáguas — Moedas lembra como “o humor e a comédia são tão importantes para o mundo hoje”. “O humor é o catalisador para que as pessoas não tenham medo, não tenham medo de si próprias. Rirmo-nos de nós próprios é importantíssimo para a democracia”, defende, notando como poderia ter trazido uma botija de hélio para o palco.
Não é só fairplay de Moedas em dia de celebração. Além do apoio logístico, a Câmara Municipal de Lisboa financia com 30 mil euros o festival de comédia, uma verba ainda assim longe dos 300 e os 400 mil euros que deverá custar o evento, avança a organização ao Observador. Ricardo Soares não esconde que a primeira edição “vai dar prejuízo”. “Foi uma aposta nossa, tem sido o trajeto da KILT, estou tranquilo em dizer isto, que não vai dar lucro, mas é um investimento”.
“Vocês é que foram os grandes sponsors”, dirige-se Carlos Moedas aos responsáveis da Worten, a marca patrocinadora que dá nome ao evento. Em clima de festa, o autarca é o primeiro a dizer que “gostava muito que o festival continuasse”. O Mock Fest pode vir a ser “o maior festival de humor da Europa”, nota. “Não é só o web summit, não é só o Tribeca, quero também marcas portuguesas”.
O presidente da CML diz não ter jeito para piadas secas, mais para mandar “umas bocas”, e em clima de pré-campanha não perde a oportunidade para integrar na órbita da comitiva Filipa Veiga, candidata da coligação Por Ti Lisboa (PSD, CDS-PP e independentes) à junta de freguesia de Santo António. “Esta senhora é que vai ser a nossa presidente da junta, para o ano é com ela que falam”, atira.
Festival será anual, mas não deverá ser em agosto
No arranque do primeiro dia do festival, também a organização já perspetiva futuro. “Inicialmente não havia bem a intenção, mas dado o sucesso…”, começa por dizer Ricardo Soares, em resposta a uma pergunta do Observador. “Vamos ter de continuar, estamos já a trabalhar nisso, a intenção é que o projeto seja anual e que estejamos aqui por muitos e bons anos”.
As primeiras métricas, ainda antes do arranque do evento propriamente dito, são as várias sessões esgotadas, algo encarado com surpresa dada a altura do ano (que não se deverá repetir em edições futuras). “Fomos fazer isto no último fim de semana de agosto, quando quase não há lisboetas em Lisboa”, aponta Ricardo. Mas quando a noite cai, a imagem de uma Lisboa desprovida de gente rapidamente se dissipa, com centenas de pessoas a romper pela Avenida da Liberdade na área circundante ao Cinema São Jorge, equipamento municipal que celebra este ano 75 anos. É certo que o palco exterior — com programação gratuita — podia apelar ao público transeunte, mas a maioria da gente que por ali passava era a mesma que transitava entre sessões no interior do edifício.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
A programação é desdobrada entre diferentes palcos. No final de tarde desta quinta-feira, na sala 3, uma plateia composta escuta uma conversa subordinada à pergunta “Será que o humor influencia o nosso humor?”. Rui Maria Pêgo modera o diálogo entre a neurocientista Luísa Vaqueiro Lopes, o humorista Diogo Batáguas e o psiquiatra Gustavo Jesus. Descobrimos como todos temos capacidade de rir, mas nem todos sentido de humor, e ainda menos a capacidade de perceber ironia e subtileza.
“Sabes quem é que me fazes lembrar, Pina?”, ouve-se no piso de cima. A Sala Manoel de Oliveira, nomeada por estes dias Palco Super Bock, está quase cheia quando arranca o primeiro podcast ao vivo. Trata-se de Irritações, o longevo programa da SIC Radical que tem encontrado uma nova geração de fãs no formato áudio. “Cá estamos. Estamos a 50 metros do JNcQUOI”, diz Pedro Boucherie, numa referência a uma piada recorrente no programa sobre a frequência de Luís Pedro Nunes no reconhecido restaurante do grupo Amorim.
▲ Da esquerda para a direita: José de Pina, Pedro Boucherie Mendes, Manuel Rosa e Luana do Bem durante a sessão "Irritações ao vivo", na sala principal do Cinema São Jorge
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Mas o cronista, diretor do jornal satírico Inimigo Público e membro fixo do painel do programa de humor, não está presente. No ecrã gigante vemo-lo num vídeo, mergulhado numa piscina de hotel, algures no estrangeiro. “O que é que me irritou por estes dias?”, pergunta-se, diringido-se à câmara. “Os Tuk Tuk em Lisboa”. A gargalhada é geral.
A sala está pejada de fãs do programa, uma mistura de idades que prova como a audiência se foi renovado ao longo dos anos, ao que não será alheio a mudança dos painelistas, agora com Luana do Bem, o elemento capaz de converter mais palmas. A sua irritação da semana — o programa, como o nome sugere, tem por base irritações do quotidiano — é: voltar de férias. Ou antes: voltar de férias e encontrar pessoas que ainda vão de férias. Não é difícil de perceber como a irritação colhe simpatia.
▲ Algumas das sessões estão esgotadas há semanas. A primeira conseguir o feito foi a que inclui o humorista Ricardo Araújo Pereira
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É seguro dizer que foi uma das maiores enchentes do primeiro dia. Martina e Joana, de 26 e 24 anos, vieram só para assistir àquele podcast ao vivo. “Isto agora ficou bué famoso, mas eu já ouço desde 2020”, diz a primeira ao Observador. Usa o verbo ouvir, porque nunca vê o programa. “É mais fácil ouvir o podcast”. As jovens de Sintra saíram satisfeitas da sala. “O [Pedro] Boucherie é um ícone da minha infância desde os Ídolos”, diz Martina. “E está igual!”, completa Joana. Ficaram surpreendidas por ver tanta gente à chegada ao São Jorge. Até há umas horas não tinham percebido que era um festival, pois compraram apenas o bilhete para aquela sessão. Martina é uma fã assumida de José de Pina. “Como é que este homem tem o dobro da minha idade e tem as minhas irritações que eu? Porque é que cortam o bolo assim?”, diz divertida, referindo-se a uma irritação do argumentista sobre a forma de cortar bolos de pastelaria.
Por essa altura, na sala 2 vive-se uma roda viva de stand-up, nacional e internacional. Nos momentos de Jump in the Pool, uma iniciativa de acesso gratuito, qualquer comediante pode subir ao palco — desde estreantes em open mic até vencedores de Globos de Ouro, anuncia a organização. Na altura em que o Observador passa pela sala, um jovem humorista tenta levar a bom porto um texto que, em meros minutos, vai de um diálogo com um homem de etnia cigana até uma visita ao Red Light District. O público morno não parece convencido, mas assistir a open mic é mesmo isso: uma roleta russa. Como dizia Beckett, às vezes é preciso “tentar outra vez”, “falhar outra vez, falhar melhor”.
▲ A organização estima que cerca de 2600 passaram pelo Worten Mock Fest esta quinta-feira, e que 10 mil passarão ao longo dos três dias
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A organização estima que cerca de 2600 passaram pelo Worten Mock Fest esta quinta-feira, e que 10 mil passarão ao longo dos três dias. Nos corredores, não é fácil definir qual é o público do festival: avistam-se humoristas, figuras públicas (como o deputado da Iniciativa Liberal, Carlos Guimarães Pinto) e muitos curiosos.
Tiago Oliveira, 34 anos, arrastou a namorada para o espetáculo de Luís Franco Bastos, um dos nomes cimeiros do certame neste primeiro dia. “Já o sigo há uns cinco anos, vi um teste dele há uns tempos e ouvi o Hotel, o podcast que ele tem”, justifica. Tiago conhece os comediantes portugueses do cartaz, mas não os estrangeiros. “Só conheci o Daniel Sloss porque fui pesquisar”, admite.
Também é esse o espírito de um festival, seja ele de música ou humor, descobrir novos artistas. Assim foi para quem comprou bilhete para assistir ao primeiro de três line-ups improváveis. Por exemplo, Luís Franco-Bastos, uma das figuras mais destacadas da stand-up comedy em Portugal, era o grande chamariz do público para a sessão, mas em nada ficou atrás Dagu, humorista e bailarino que soube como agarrar a audiência desde o primeiro segundo. “Podemos concordar que o mundo está perdido?”, começou por dizer. Foram precedidos por João Miguel Costa, jovem do Porto com um texto original que foi do fado à sua experiência com cycling subaquático (se houver um tsunami em Lisboa, está mais preparado que o comum mortal). Madalena Malveiro, nome emergente da comédia, abriu a sessão com a história de como foi despedida através de um áudio de Whatsapp.
▲ Os humoristas Dagu (à esquerda) e Luís Franco Bastos (à direita) eram os nomes maiores da cena humorística portuguesa no primeiro do festival
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Sem sessões esgotadas neste primeiro dia, a maior afluência deu-se às 22h, altura em que Rafi Bastos foi recebido numa sala quente depois de uma digníssima abertura do português emigrado André de Freitas — que abordou tópicos como dating ou questões raciais. Ao brasileiro, cabeça de cartaz do evento, cumpria-lhe não deixar cair o público que quase encheu a sala Manoel de Oliveira. E conseguiu, num espetáculo de cerca de uma hora, quase integralmente em inglês.
“Há aqui pessoas que não falem português?”, inquiriu, logo a abrir, mas os três “yes” vindos do topo da sala obrigaram-no a continuar na língua inglesa. Da sua chegada à América até aos clichês sobre o Brasil, passando pelos recém completados 49 anos de vida ou pela descoberta da infertilidade, Bastos cativou o público que já ia conquistado — ou não fosse este um festival cujos bilhetes são vendidos espetáculo a espetáculo. O momento mais alto foi conseguido quando quebrou do inglês e contou um episódio em bom português sobre senhas do Facebook e respetivas dificuldades. Mas “não foi para isso” que foi contratado, como fez questão de frisar, antes de retomar o inglês, um dos maiores nomes da comédia do Brasil, atualmente a residir nos EUA.
▲ O comediante português André de Freitas (à esquerda) abriu o espetáculo do brasileiro Rafi Bastos (à direita), o responsável pela maior enchente do primeiro dia do Worten Mock Fest
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Foi um primeiro dia sem filas nem constrangimentos e com um saldo positivo. Do arranque do Worten Mock Fest fica a sensação de que Lisboa conquistou o festival de humor que lhe faltava. Há público, há palco e há vontade de repetir. No fim, ecoa a máxima dos próprios humoristas: mais vale rir — e Lisboa parece mais do que disposta a continuar a fazê-lo.
O festival continua até sábado, com nomes como Daniel Sloss, que regressa com um Work in Progress, um espetáculo em construção, feito de material novo, ou Diogo Batáguas, que vai aproveitar para testar um “bit” mais pessoal, inspirado numa experiência de vida “borderline tragédia” que vai transformar. Numa piada, claro.