Foram eles que, em parte, ajudaram tanta gente — fãs de música ‘mainstream’, fãs de música alternativa, fãs de música e ponto final — a suportar um ano terrível como 2020. A arte entreteve quem teve a felicidade de não adoecer e não ser mais uma vítima da Covid-19. Ocupou-nos a cabeça, desviou-nos a atenção permanentemente centrada na evolução de uma pandemia, desassossegou-nos e inquietou-nos com inquietações antigas, com preocupações artísticas de que todos temos saudades. Mas também nos desassossegou e inquietou com questões antigas (ainda) muito atuais, como as tensões raciais, a morte de George Floyd e o racismo que motivou protestos nas ruas, sim, mas também canções atrás de canções.

Em 2020, a arte e a música agiram mas também reagiram. “A cultura salva”, escreveu-se avulsamente nas redes sociais. Se não literalmente, pelo menos metaforicamente. Os músicos ficaram impedidos de trabalhar, impossibilitados de atuar ao vivo e mostrar as suas canções presencialmente a pessoas. Mas foram, tantos deles, revelando canções novas, editando discos inéditos.

Estas são as 35 cantigas internacionais que mais nos ficaram no ouvido ao longo do ano — sem elas, 2020 não teria sido a mesma coisa, teria sido ainda pior. De fora ficaram canções que quase seriam elegíveis mas foram reveladas ainda em 2019: “Blinding Lights” de The Weeknd, e “Texas Sun”, a colaboração dos Khruangbin com Leon Bridges, As canções nacionais seguem dentro de momentos.

Adrianne Lenker – Anything

Comecemos pelo óbvio: é evidente que há pelo menos uma mão cheia de canções no disco que Adrianne Lenker editou em 2020, Songs, que mereciam entrar numa lista de melhores cantigas do ano. Temas como “forward beckon rebound”, “dragon eyes” e sobretudo “zombie girl”, por exemplo. É fácil perdermo-nos nas palavras, nos poemas, na voz, na guitarra acústica tocada por Lenker. Mas esta “Anything” é um mundo único, um planeta qualquer distante no cosmos em que Lenker, pela instrumentação e pela maneira “rápida” de cantar — como se estivesse a narrar uma história muito rapidamente, mas muito docemente — tira o ouvinte da Terra por três minutos e vinte e dois segundos e lhe derrete o coração.

Anderson .Paak – Lockdown

Fazer uma canção que simultaneamente evoca a pandemia da Covid-19 e que aborda as tensões raciais e os protestos na sequência do homicídio de George Floyd? Check. “Lockdown”, de Anderson .Paak, começa com sons de sirenes, prossegue para Anderson .Paak naquele estilo meio cantor meio rapper cheio de ginga, a disparar sobre aqueles que “ficam quietos” quando “matam niggas” mas são muito audíveis a condenar os motins (“got opinions comin from a place of privilege / sicker than the Covid how they did him on the ground”). E ainda tem Jay Rock a rimar como quem declama, antes de .Paak voltar a dançar e gingar sobre as desigualdades raciais. Uma prova de que está aqui um dos artistas maiores da atual música americana.

Arlo Parks – Black Dog

O mundo tem vindo a perceber nos últimos tempos e a edição de várias canções (além desta, também “Caroline”, “Green Eyes”, “Hurt” ou “Eugene”) tem ajudado: Arlo Parks tem alguma coisa de especial. O talento desta cantora e compositora britânica de apenas 20 anos, também poeta, é por demais evidente. As batidas, apesar de se inscreverem nesta neosoul moderna, suave, com um groove delicado, têm alguma coisa que a demarca — e a voz tão ilusoriamente frágil, que parece deslizar no beat com limpidez e uma incisão na forma de dizer as palavras (parece que aborda a canção como nenhum cantor a abordaria), faz o resto. Das várias canções reveladas este ano, esta tem uma capacidade especial de apelar ao coração. Quando a ouvimos cantar “It’s so cruel / What your mind can do for no reason”, apetece ficar a viver dentro de “Black Dog”.

Benny the Butcher ft Freddie Gibbs – One Way Flight

No campeonato hip-hop, esta é uma das melhores canções que se retiram de 2020. Do primeiro ao último segundo, sente-se uma pujança nas rimas — a chamada fome — que a batida só ajuda a elevar aos píncaros. Começamos a ouvir uma voz feminina a cantar, ouve-se “Griselda” (uma referência à sua editora) com uma voz feminina sobreposta, um “yeah”, uma voz de gravação manhosa que só ajuda ao sabor clássico e um introdutório “don’t ask me no questions, just listen to this shit”. E depois vêm as rimas. A percussão juntar-se-á mais tarde, rimas como “what’s a stage with no mic and no voice of a poet? / what’s more important, the flower or the soil that grow it?” ficam na memória, mas não é pela letra que a canção nos convence — é pela batida, pela voz feminina em fundo, pelo flow (a maneira de dizer as palavras) de Benny The Butcher e a sua agressividade no ataque ao beat. À frente entra Freddie Gibbs, badass das ruas e das palavras, e a junção torna-se perfeita.

Bill Fay – Filled With Wonder Once Again

O grande artesão do cancioneiro clássico, o homem que fez o melhor disco que quase ninguém ouviu e a que quase ninguém ligou patavina (Time of the Last Persecution), disco esse só possível de ser feito por alguém com genialidade (a palavra é devidamente pesada), voltou no início desta década ao ativo depois de 40 anos incógnito. Os discos têm-se sucedido desde aí e Countless Branches, editado no arranque deste ano, é já o terceiro desta encarnação veterana de Bill Fay. Em “Filled With Wonder Once Again”, como em “In Human Hands” e “Love Will Remain” — mas ainda mais do que no restante punhado de canções —, voltamos a ser confrontado com o génio eremita barbudo perfecionista, obcecado por compor canções com alma e fogo lá dentro. O homem místico, nas suas análises crípticas e críticas (mas também otimistas) sobre o mundo, que está “cheio de maravilhamento de novo” mas que reconhece que “este mundo pode certamente manter um homem acorrentado”. A voz, entre o cansaço e a serenidade, acompanha a lindíssima melodia quase como se esta fosse uma canção definitiva, a última que Bill Fay algum dia gravaria. Esperemos que não seja assim porque quem faz isto, faz tudo.

Billie Eilish – Everything I Wanted

Em 2019 Billie Eilish tornou-se a adolescente mais respeitada dos famosos da música pop — como Lorde o fora antes de si, mas talvez ainda mais popular, talvez ainda mais capaz de arrastar uma legião mundial de fãs. A diferença face a outras grandes figuras é que os críticos não lhe torceram muito o nariz. Bem pelo contrário, abraçaram-na como uma boa renovadora do mainstream. O disco que editou, aclamado (porventura mais do que os seus méritos justificavam), mostrava boas ideias, mostrava algumas boas canções, mas para efeitos de popularidade foi uma canção só, “Bad Guy”, que a tornou uma das maiores entre os maiores.

Reclamando novas tendências jovens na internet, mais alertas para os perigos do embelezamento irreal, mais estranhas — quando a escolheu para a capa, a revista Rolling Stone escreveu que era “o triunfo da estranheza” —, Billie Eilish pegou em algumas boas fórmulas de artistas como os The XX, apostando na mistura entre silêncios e pop eletrónica, numa espécie de solidão e infelicidade sentida por alguém que está no meio de uma festa eufórica, sozinho no meio da multidão. Em 2020, Billie Eilish revelou uma bela canção que compôs para o próximo filme da saga 007 (“No Time To Die”), uma boa balada chamada “my future”, uma mais desafiadora, pop língua de fora, “Therefore I am” e sobretudo esta solitária, quebradiça, sussurrada “Everything I Wanted”, onde a dada altura Billie Eilish canta que “agora toda a gente quer alguma coisa de mim / e eu não quero desapontá-los” e onde se pergunta “fá-lo-ia novamente?”. Canções como esta fazem-nos crer que Billie Eilish terá um grande 2021.

Bob Dylan – Murder Most Foul

Uma canção com dezasseis minutos é um convite claro a uma espécie de ingestão musical de LSD: num mundo apressado, com distrações permanentes, notificações e alertas e mensagens e atualizações, deixar tudo de parte por 16 minutos para ouvir uma canção é quase como habitá-la, entrar num mundo paralelo. Não surpreende até porque há muitos anos que Bob Dylan não parece habitar bem este mundo, há muito que parece viver num cosmos só seu, que só existe dentro da sua cabeça. “Murder Most Foul”, uma das grandes canções do primeiro disco de originais de Bob Dylan em oito anos (há outras, como “I Contain Multitudes” e “Key West (Philosopher Pirate)”), ainda por cima é uma canção que torce o nariz ao presente como tudo: a letra torna-a uma viagem interminável ao século XX, às referências da cultura popular e do mundo ocidental que formaram Dylan. Acresce as cordas lindíssimas que se ouvem, o piano encantador, a voz de Dylan como um velho profeta a narrar o passado. É um presente ao mundo que só temos de agradecer.

Carne Doce – Hater

Do Brasil, terra fértil em boa música, continuam a chegar-nos belíssimas cantigas. Esta “Hater”, dos Carne Doce, uma das melhores do novo álbum da banda de pop eletrónica tropical — outra é “Temporal” —, convida àquela dança lânguida, em que uma pessoa balança lentamente, nunca se soltando totalmente mas relaxando os músculos. Salma Jô, a vocalista, está a cantar cada vez melhor e aqui aponta um dedo aos “haters” caguinchas, tão dengosa que juraríamos que adoraria engatá-los para depois se rir deles. Que pinta tem a banda, a tocar e cantar diretamente aos que ocupam o tempo a odiar: “É só falando de mim / que você se sente bem / que você faz seu melhor / que você é um sucesso / mas se eu passo por perto / baixa a cabeça e paralisa / esquece como se respira / já não parece tão esperto“.

Christine and the Queens – People I’ve Been Sad

“Gente, tenho andado triste”, cantava no início do ano Héloïse Adélaïde Letissier, conhecida na música pelo nome artístico Christine And The Queens, antes do mundo todo se lhe juntar na tristeza. Lançada a 5 de feveriero, esta canção de pop eletrónica movida a sintetizador mostra a cantora e compositora em grande forma, a cantar com ‘drama’ em inglês e francês sobre as suas tristezas. Quando uma voz se lhe junta, a cantar com efeitos eletrónicos, “People I’ve Been Sad” fica uma canção triste-dançável — o que é uma combinação muito apreciável e menos choramingas do que as baladas do costume ao piano ou à guitarra.

Dinner Party, Cordae, Phoelix – Freeze Tag

Como nas listas de melhores discos do ano encontramos habitualmente álbuns completos, e não mini-álbuns (EP’s), não encontraremos por lá o disco que juntou uma nova super-banda que cose com jeito os vários ritmos da música negra, antiga e atual: o jazz, o funk, o hip-hop e a neosoul (ou soul eletrónica, ou R&B). A nova super-banda chama-se Dinner Party e junta três músicos de excelência e um produtor musical do mesmo gabarito: Kamasi Washington, Robert Glasper, Terrace Martin e 9th Wonder.

Neste 2020, os Dinner Party lançaram um EP com sete canções, homónimo e delicioso na sua fusão jazzística com as novas sonoridades da música popular (nem erudita nem jazz). Mais tarde, pegaram nessas mesmas sete canções e recriaram-nas com convidados como Buddy, Punch, Bilal, Herbie Hancock, Rapsody e Snoop Dogg, entre outros. A nova versão de “Freeze Tag”, além de juntar os Dinner Party a Phoelix, juntou-os igualmente a Cordae. O que já era bom ficou ainda melhor: a canção de neosoul torna-se, quando entra o jovem talento do rap Cordae, também uma canção de hip-hop jazzístico e com groove, cheia de grandes rimas. O belíssimo vídeo, um alerta sobre a violência sobre negros (a que a canção também alude: they told me put my hands up behind my head / I think they got the wrong one / I’m sick and tired of running / I been searching where the love went) mas também sobre os perigos do efeito ricochete da violência, é um bom extra.

Disclosure ft Fatoumata Diawara – Douha (Mali Mali)

O disco festivo e longo que os irmãos Lawrence, isto é os Disclosure, editaram este ano talvez soe demasiado em contraciclo com o estado do mundo para que o possamos apreciar como merecerá. Mas mesmo macambúzios, podemos e devemos reconhecer que canções como “Watch Your Step” (com Kelis como convidada), “My High” (com Slowthai e Aminé) e esta que destacamos são temas dançantes de grande gabarito. Se escolhemos “Douha (Mali Mali)” é pela capacidade que tem para nos transportar para pontos do globo mais remotos, com a energia da cantora maliana Fatoumata Diawara — que vive em Paris — a fazer desta uma festa mais global, aliando Inglaterra ao Mali. Quando abrirem as pistas, vamos querer ouvir isto.

Drake, Lil Durk – Laugh Now Cry Later

Confesso-vos já: ao contrário do resto do mundo, que a achou além de ridícula (que o é) também péssima e frouxa, quando saiu “Tossie Slide”, uma canção que Drake compôs para poder inventar uns passos de dança e servir de banda sonora a ‘Tik-Toks’ em todo o mundo (pôs meio mundo a fazer uns passinhos ridículos nessa rede social), não me pareceu uma canção frouxa e má. Pelo contrário, pareceu-me que Drake interpretou com lucidez o estado do mundo e dos ouvintes confinados em casa: era preciso uma canção de Drake que soasse a Drake, sim, mas em que aquela pose de manda-chuva meloso tivesse um contrapeso, uma espécie de letargia e sombra quer na duração quer no tom da canção. Um tédio qualquer. Continuava a ser uma canção de Drake, mas já não era exatamente uma canção melódica de festa, euforia ou discoteca. Em “Laugh Now Cry Later”, que gravou com Lil Durk e revelou depois, o rapper e cantor canadiano volta a mostrar que quem lhe compõe as batidas instrumentais consegue inventar fórmulas novas e sons (barulhos) novos na sua estética já tão explorada ao longo destes anos. É uma canção pop viciante que insiste numa coisa de que alguns ingénuos se aperceberam em 2020: sometimes we laugh / sometimes we cry / but I guess you know now.

Fiona Apple – Under the Table

Não se pode dizer que o tempo que Fiona Apple levou a fazer um álbum novo depois de The Idler Wheel…, editado em 2012, seja uma surpresa ou que este seja um regresso depois de um longo e inesperado interregno. A novaiorquina nunca foi uma artista que lançasse canções e discos muito rapidamente  — desde o seu segundo álbum que assumiu que mais vale esperar, deixar o tempo inspirar canções que soem realmente novas. Em Fetch The Bolt Cutters não há propriamente singles fáceis, há canções que soam originais, de um universo próprio que se distingue de todos os outros. Outras canções, como “I Want You To Love Me”, “Shameika”, “Relay” e “Ladies” poderiam estar aqui destacados, mas em “Under the Table” temos Fiona Apple no seu melhor: o piano a comandar, o Mellotron a ouvir-se, uma voz que se ergue e desafia convenções, machismos, paternalismos, regras de bom comportamento para uma senhora e para chatos em geral. Ouvimos Fiona a queixar-se de que não queria ir para um jantar, a declarar que o “fancy wine” não vai “apagar este fogo” quando ouvir algo de que não gosta e a desafiar um destinatário como tão bem faz: “Kick me under the table all you want / I won’t shut up”.

Fleet Foxes – Can I Believe You

Se há diferença do novo disco que os Fleet Foxes editaram em 2020 para os anteriores, ela não passa pelo esqueleto das canções — a fórmula não muda muito, continuam a depender muito das harmonias vocais e dos crescendos épicos e folk — mas por outras coisas: o apuramento das melodias até se aproximarem da perfeição, as novas vozes que se ouvem além de Robin Pecknold e uma espécie de “groove” subtil que nunca deixa o ouvinte aborrecer-se. Muitas outras canções do disco poderiam estar aqui (as primeiras quatro são fantásticas, “For a Week or Two”, “Going-to-the-Sun Road” e “Shore” também são acima da média), mas esta “Can I Belive You” é especial. Pode ser a voz feminina de Uwade Akhere que dá mote ao arranque, a força da entrada da guitarra a seguir, a belíssima voz de Robin Pecknold, a canção erguer-se no fim quando o ouvinte já pressente que está perante a quietude final ou a vontade de um barbudo campestre encontrar numa canção uma ascensão, uma transcendência qualquer. A letra como de costume é boa, o arranjo é certeiro e a força da canção, construída com detalhe e blocos distintos, é enorme.

Haim – The Steps

Fossem todas as canções do disco que a banda norte-americana Haim lançou em 2020 como o primeiro trio de cantigas — “Los Angeles”, “The Steps” e “I Know Alone” — e este seria um disco espantoso, de pop feita exemplarmente. O nível das irmãs Este, Danielle e Alana Haim não se mantém nos píncaros ao longo de todo o disco, mas há aqui grandes canções. Como esta “The Steps”, com a percussão a dar o mote, a guitarra elétrica a intrometer-se em grande estilo, a canção a ir avançando gingona como uma caminhada ao sol de alguém que acabou de se libertar de um peso qualquer (percebemos mais tarde que é o peso da opressão masculina). O refrão, um tiro na mouche, chega depois da expressão “take off all my clothes” — e quando chega, apetece marchar ao lado das Haim. Nos comentários do Youtube alguém escreve “agressivamente não usar sutiã enquanto esmago os pratos da bateria é a minha nova religião” e ficamos de sorriso rasgado. Experimentem ouvir isto e vejam se não ficam a cantarolar, ainda por cima mais despertos para a muito saudável emancipação feminina: “Every time I think that I’ve been takin’ the steps / You end up mad at me for makin’ a mess / I can’t understand / Why you don’t understand me / Baby? / And every day I wake up and make money for myself / And though we share a bed You know that I don’t need your help / Do you understand? / You don’t understand me / Baby“.

Jorja Smith – By Any Means

Na sequência do homicídio de George Floyd e dos protestos contra as desigualdades de tratamento por motivo de cor de pele que se seguiram, foram muitas as canções que quiseram abordar o racismo e a violência policial. A cantora britânica, que em 2021 deverá lançar o seu segundo disco, tem aqui uma canção afirmativa, com a suavidade e balanço da mistura entre hip-hop e soul em que se está a notabilizar muito presentes. Escreveu-a depois de ir a uma manifestação do movimento “Black Lives Matter”, que se globalizou com a indignação, e em “By Any Means” promete lutar como pode pela justiça racial — artisticamente também? — e ainda atira uma provocação evocativa da abolição da escravatura: “Broke these chains just to put our hands up”.

King Krule – Alone, Omen 3

Nos últimos anos, Archy Marshall, o rapaz britânico de sardas ruivas, com pose de semi-rufia que se passeia por sítios mais recônditos, menos limpinhos, das ruas do Reino Unido, tem-se mostrado como um artista mais de discos do que canções. Em 2017 lançou The Ooz, um disco com palavras cuspidas (às vezes gritadas, outras vezes cansadas), com rock experimental e jazz nublado, sem singles memoráveis. E a fórmula manteve-se mais ou menos no novo Man Alive!, editado este ano, que o mostra como um dos miúdos que vai fazendo canções mais inovadoras por estes tempos. Mas Man Alive! tem uma enorme canção, que se eleva acima de todas as outras e que se sustenta sob quase todos os pontos de vista de análise: “Alone, Omen 3”, tema que começa com o som de uma chamada telefónica, entra naquela toada meio rock movido a calmantes e relaxantes musculares, envolvendo o ouvinte na evolução instrumental e prendendo-lhe a atenção através da voz. Ele, King Krule, a falar para os tipos desalinhados, incompreendidos, inconciliáveis com este mundo de selfies e sorrisos e multidões e investimentos financeiros e paz interior: “Don’t forget you’re not alone / Deep in the metropol‘”. As aliterações, a forma com os sons das palavras se enroscam entre si, mostra outra coisa: que Marshall é já um escritor de canções prodigioso.

Laura Marling – Held Down

O percurso de Laura Marling é bom para nos fazer interrogar o que raio andamos nós, comuns mortais, a fazer da nossa vida: com 20 anos, a britânica tinha dois discos editados; com 21, já tinha três; e com 25 anos, quando muita gente ainda anda a tentar perceber o que vai mesmo fazer da sua existência, Laura Marling já tinha uma mão cheia de álbuns (e mais importante do que isso: alguns dos quais, excelentes). Neste 2020, Laura Marling, que tem hoje 30 anos, revelou um disco novo, o sétimo da sua discografia. Chama-se Song For Our Daughter, foi pensado para uma filha que pelo menos por ora é imaginária e isso, somado à escuta, permite-nos perceber uma coisa: Laura Marling quis cantar e compor várias canções com a feminilidade, a educação das mulheres e o futuro das mulheres em mente. É um disco cheio de grandes canções, que mostra que Laura Marling alia uma série de qualidades que habitualmente não se conjugam: escrever boas letras, cantar muito bem, dotar as canções de melodias e arranjos certeiros que podem parecer folk pura, só voz e guitarra, mas são um bocadinho mais do que isso.

Esta “Held Down” é uma das mais impressionantes, havendo outras, como “Alexandra”, “Strange Girl” e “Only The Strong”. Como um grande conto musical, começa com um grande arranque (“I woke up, it was four in the morning / Clear as all hell that you’d already gone / (Gone, gone, gone) / Your note said: ‘Dear, you know I hate to disappear / but the days are short and the nights are getting long‘”). Ouvimos Laura Marling a cantar com aquela voz que não encontramos em muitos cantores atuais da música popular, sobre ninguém gostar de ser desiludido, de ter desgostos de amor, de ter uma coração partido. É uma das mais bonitas canções de desamor que se ouviu este ano.

Leon Bridges, Terrace Martin – Sweeter

Os versos são repetidos insistentemente, tornam-se o centro da canção, como se Leon Bridges e Terrace Martin tivessem pensado fazer um tema propositadamente para dizer isto às pessoas via música: “Hoping for a life more sweeter / Instead I’m just a story repeating“. Como quem diz ao ouvinte: por mais esperança que se tenha, as histórias repetem-se e destroem o otimismo e a crença num futuro melhor. Escrita e gravada depois da morte de George Floyd e da explosão do movimento Black Lives Matter, esta é uma canção em que o cantor de soul e pop Leon Bridges, aliado ao músico de R&B e jazz Terrace Martin, questiona-se porque tem temores por ter “uma pele tão escura como a noite”, confessa “não conseguir sentir paz com esses olhos julgadores”, queixa-se que lhe rouberam o direito de poder “ser”, sem condicionamentos nem temores resultantes da cor de pele. A versão ao vivo que se segue ainda exponencia a pinta da canção, que pode ser ouvida na sua versão de estúdio (com teledisco) aqui:

Lianne La Havas – Bittersweet

No campeonato das canções suaves, doces, que nos embalam e adocicam o ouvido, Lianna La Havas entrará certamente nos lugares cimeiros de 2020 pelas cantigas do álbum homónimo que editou. O disco tem uma ou outra canção menor, uma mão cheia de belas cantigas e um tema maior: esta “Bittersweet”, single de apresentação do álbum, canção sobre o processo de se juntar cacos e renascer (“I’m born again”), mudando. A voz de Lianne La Havas vai-nos embalando baixinha, quase como se nos sussurrasse ao ouvido, até o instrumental e a portentosa voz da britânica ascenderem aos céus e Lianne mostrar que é uma das melhores cantoras do presente.

Letrux – Deja-Vu Frenesi

Começar um disco assim faz-nos tirar o chapéu a Letícia, Letrux de nome artística, cantora e compositora brasileira que em 2017 lançou um disco aclamado (Letrux Em Noite de Climão) e este ano voltou aos álbuns: “Todo o corpo tem água / lágrima, suor e gozo (…) lágrima, suor e porra / ou a gente chora ou a gente sua ou a gente goza / só não pode magoar”. O álbum tem outras boas canções, como “Dorme Com Essa”, a mais sussurrada e ingénua-sensual “Cuidado, Paixão” (a acabar com um coro e percussão excelentes, como só no Brasil poderíamos ouvir), “Fora da Foda”, com Lovefoxxx (Cansei de Ser Sexy) como convidada, ou “Sente o Drama” com Liniker. Mas há algo de místico-sexual nesta cantiga incrível, na força rock com que Letrux canta “não deixa secar nem deixa magoar / não deixa!”, na eletrónica espacial. É uma grande canção de um grande disco de uma grande artista, solta de pruridos.

Mac Miller – Circles

As perturbações, as dores interiores e os vícios levaram Mac Miller, jovem estrela de um hip-hop melódico e jovial que ainda assim sabia flirtar com o R&B e o funk com bom gosto, demasiado cedo, demasiado prematuramente: tinha apenas 26 anos quando morreu em setembro de 2018, na sequência de uma overdose. No início deste ano foi lançado um álbum póstumo intitulado Circles, com canções em que Mac Miller estava a trabalhar pouco antes de morrer e que o produtor Jon Brion, que estava envolvido no processo, completou depois da morte do rapper e cantor. O tom elegíaco desta canção, quase de despedida, arrepia pelo prenúncio de tempestade. Há quem escreva nos comentários que este disco é quase como “um adeus para o mundo” e é por isso que é ao mesmo tempo comovente, triste e belo. Ouvimos Mac Miller rimar, naquele estilo que tinha, meio balbuciante, e é impossível isto não nos deixar emocionados:

Well this is what it look like right before you fall
Stumblin’ around, you’ve been guessin’ your direction
Next step you can’t see at all
And I don’t have a name, I don’t have a name, no
Who am I to blame, who am I to blame though?
And I cannot be changed, I cannot be changed, no
Trust me, I’ve tried
(…)

It’s gettin’ pretty late, gettin’ pretty late
And I find it goes around like the hands that keep countin’ the time
Drawin’ circles

Nap Eyes – Mark Zuckerberg

Será Mark Zuckerberg um fantasma, perguntam mordazes os Nap Eyes, um conjunto de rapazes canadianos bem-comportados, que pelos óculos de massa, roupas e postura só podiam fazer esta música: um indie-rock literato de quem ouviu todas as boas bandas clássicas do rock alternativo e “inteligente” — The Velvet Underground fase Loaded à cabeça — e de quem leu e refletiu muito sobre os temas que inquietam a humanidade letrada e formada. Depois de um bom arranque de carreira com discos interessantes em 2015 e 2016 (canções como “Dark Creedence”, “No Fear of Hellfire”, “Mixer”, “Stargazer” e “Lion in Chains” precisam urgentemente de ser descobertas), de um passo em falso com um disco de 2018 que não trouxe nada de muito novo ou interessante face ao que estava para trás, os Nap Eyes insistiram e lançaram em 2020 um disco muito recomendável, Snapshot of a Beginner. Não sendo um disco com a força e novidade de Thought Rock Fish Scale (2016), que os apresentou ao mundo como “nova grande banda de indie-rock”, tem um conjunto de boas canções, a mais catchy e acelerada das quais esta “Mark Zuckerberg”. O que vale é que como ninguém liga grande pevide aos Nap Eyes, o fundador do Facebook não ficou com as orelhas a arder por alguém cantar isto:

Is Mark Zuckerberg a ghost?
Maybe, maybe
Where are his hands?
And why don’t you ever see them public?
And what does he do with all that sand?
He collects sand, right?
I think I read that somewhere
Seems innocent enough

Nas – Ultra Black

Não seria má ideia o rapper Nas repensar a sua estratégia de ação e intervenção musical daqui em diante. Com um álbum de estreia, Illmatic, que ficou na história como um dos melhores discos de sempre do hip-hop (e ainda por cima tinha apenas 20 anos quando o disco saiu), aquele que é para muitos o melhor rapper norte-americano, o que é capaz de escrever melhores rimas, rappá-las com o ritmo certo e melhor jogar com o sentido das palavras, anda há anos a editar regularmente discos que ninguém ouve com grande atenção e de que ninguém se lembra passado algum tempo. Em Nasir (2018), ainda tentou ensaiar a estratégia do regresso — não editava um disco há seis anos —, mas o álbum não convenceu totalmente, pela curta duração (sete temas, 26 minutos) e por se pressentir alguma falta de inspiração. Em vez de voltar a esperar e ver se da próxima aproveitava melhor o impacto mediático da ideia de “regresso”, lançou um novo disco somente dois anos depois, agora em 2020. King’s Disease, o novo álbum, é mais interessante e completo do que Nasir, mas as expectativas são tão altas que o que seria um bom disco para um rapper mediano não satisfaz totalmente. Ainda assim, está lá esta “Ultra Black”, um single em que Nas se volta a apresentar cheio de força, com um instrumental excelente (o que não tem sido constante na sua carreira), a reclamar os méritos e o orgulho na sua negritude em tempo de Black Lives Matter e tensões raciais (“To Africa, you say, ‘go back’ / I stay pro-black“).

Noname – Song 33

A história do hip-hop também se fez das picardias entre rappers que originaram canções: basta lembrar o duelo lírico entre Jay-Z e Nas (e tantos outros houve), que deu origem a um tema absolutamente mítico do segundo, “Ether”. Esta “Song 33” surge também nessa senda histórica. Noname, uma das mais rappers e artistas norte-americanas mais originais do presente, que lançou em 2018 um grande disco intitulado Room 25, tem passado estes meses a criar clubes de leitura e a posicionar-se como ativista política e social radical nos EUA, questionando o financiamento policial e o que considera serem problemas estruturais da sociedade norte-americana. Acusando o toque de rapper algo alheado das discussões presentes, ou apenas incomodado pela intelectualidade de Noname, J. Cole decidiu visá-la indiretamente numa canção chamada “Snow On The Bluff”. A rapper de Chicago respondeu-lhe à letra em “Song 33”, mais um tema que mostra que está num campeonato à parte da maioria dos intervenientes atuais do hip-hop americano. Na canção, que tem instrumental do produtor Madlib, Noname desafia o patriarcado, lembra as vidas de raparigas que se perdem na vida (One girl missin’, another one go missin’), aponta a mira ao ego de rappers que a atacam (I guessthe ego hurt now) e deixa uns versos assassinos para o sentido de oportunidade de J. Cole:

He really ’bout to write about me when the world is in smokes?
When it’s people in trees?
When George was beggin’ for his mother, saying he couldn’t breathe
You thought to write about me?
(…)
Yo, but little did I know all my readin’ would be a bother
It’s trans women bein’ murdered and this is all he can offer?

Perfume Genius – Describe

Comecemos pelo disco: Set My Heart On Fire Immediately, lançado este ano pelo norte-americano Michael Alden Hadreas — conhecido como Perfume Genius — é de longe o melhor da mão cheia de álbuns da sua carreira. É aqui que as tensões abordadas por Michael nas canções, que atravessam temas como a sexualidade, o amor e desamor ou as distopias minoritárias, melhor se explanam, com canções pop devedoras do rock, da eletrónica, de paisagens sonoras ambientais e da pop mais sinfónica. Há canções mais populares neste disco, como “Your Body Changes Everything” e a ótima “On The Floor”, mas nenhuma me parece ter a força e o peso de “Describe”, em que a pop de Perfume Genius se assemelha a pop-trovão, em que ouvimos Michael cantar como se estivesse a sair dos escombros de uma fossa pessoal e estivesse a pedir alguém que lhe descrevesse as coisas boas da vida — como o amor que um desgosto já não permite lembrar com lucidez.

Phoebe Bridgers – Kyoto

O culto indie em torno de Phoebe Bridgers andava a ser alimentado há tanto tempo que as expectativas para o seu segundo álbum a solo eram enormes. Era preciso acertar e em Punisher, Phoebe Bridgers ajoelhou críticos e melómanos, encantados pelas suas canções trágicas, tristíssimas, frágeis como bonitos lamentos românticos. É difícil saber se o disco seria recebido da mesma forma se o mundo não estivesse deprimido, confinado em sua casa e a sentir que a vida é tão miserável como parece quando Phoebe Bridgers canta as suas tristezas — mas se a sua fórmula musical e modo de cantar não são especialmente originais, são boas o suficiente para o mundo ter encontrado a sua nova princesa da melancolia e ironia letrada (ainda mais agora que Angel Olsen já faz canções épicas, avassaladoras no som). Nesse campeonato, em que Phoebe Bridgers se ocupa na maior parte do disco, há boas canções como “Garden Song” e “Moon Song” (e, na verdade, como todas as outras), mas é quando em “Kyoto” acelera o ritmo, parecendo reagir e responder ao invés de lamentar, que se mostra com mais vitalidade, força e originalidade. Ainda há melancolia, sim, mas a melodia já não a reforça até níveis chorosos — também é possível mexer o corpo e ouvir arranjos alegres em lamentos sobre a estranheza da vida e sobre ter-se um pai insuportável.

Porridge Radio – Sweet

Meio mundo que segue a música alternativa esperava que 2020 fosse o ano dos Idles, a banda britânica que ao vivo é uma força bruta, que conjuga um rock pesado e acelerado, quase punk, com letras que não são só sobre beber cerveja e engatar miúdas e que tinha um disco anunciado para 2020. Só que em março um conjunto de rapazes e raparigas que formaram uma banda em Brighton, em 2015, lançaram o seu segundo álbum e é impossível não ver a diferença: à atitude, ao nervo, à energia dos Idles que parte do rock alternativo dispensou aburguesando-se, os Porridge Radio juntam grandes canções. Essa é a diferença: até quando a canção é tareia rock é, com os Porridge Radio, uma grande canção. Um disco que começa com “I’m bored to death let’s argue” (tema: “Born Confused”) é coisa para atrair interesse e aos Porridge Radio bastaram esses 11 temas para se afirmarem como uma das melhores bandas rock destes tempos. Em “Sweet”, o segundo tema e um dos singles, a letra cantada com angústia (às vezes quase palavra-vómito) intromete-se entre pedaços instrumentais que são, essencialmente, guitarras e bateria furiosas e barulhentas. “Sweet” é a canção que nos dá vontade de finalmente purgar as frustrações e raivas todas, virar o mundo de pernas para o ar, partir os pratos todos lá de casa, juntarmo-nos à grande Dana Margolin e gritar com ela a plenos pulmões: “You are such a nervous wreck / You can see it in the way you treat yourself”.

Roisin Murphy – Murphy’s Law

Também temos cantigas para dançar. Não há muita gente que saiba melhor como fazê-las do que Róisín Murphy, grande figura dos Moloko, conhecedora da música pop e da música eletrónica e da fórmula certa para conjugar as batidas dançantes numa canção pop. Em “Murphy’s Law”, que foi single do álbum que lançou este ano, Róisín parece que vai só envolver o ouvinte numa batida suave, eletrónica para dançar balançando o corpo descontraidamente, mas a cantiga agiganta-se quando canta “Every since we broke up / I’ve been afraid to go out / But I won’t be a prisoner / Locked up in this house”. E mais tarde chega ao refrão, a disco instala-se de vez e na pista que por enquanto (até à pandemia dar tréguas) é só imaginária está o caldo entornado, já não dá para escapar à dança ridícula de românticos boémios dos anos 80.

Rosalía – Dolerme

Não apareceu em quase lista nenhuma de melhores canções do ano, o que indica que duas uma, ou o mundo está surdo ou somos nós que estamos errados (a segunda hipótese é estatisticamente mais provável). A 24 de março andávamos já todos em casa, assustados com a dimensão da “montanha” (Covid) que ainda faltava “escalar”, quando a cantora espanhola de flamenco-pop e flamenco-reggaeton Rosalía meteu na gaveta uma canção mais catchy, feita com um rapper da moda (seria “TKN”, que lançou depois com Travis Scott?), e preferiu desvendar um tema bem diferente. “Dolerme” é uma canção curta, simples, mas seja pela qualidade seja porque naquele momento serviu de banda sonora de escape, aparece por aqui. E aparece por aqui por causa da guitarrinha inicial, da linda voz de Rosalía a cantar chateada por ver o ex com outra — “essa bitch que agora tens, baby” — e por causa da evolução da canção: quem diria que de repente, ali e metade, carrega com força no autotune e nos soa bem e viciante antes de voltar a retirar o efeito de voz e mostrar o seu belíssimo aparelho vocal? A canção parece quase “amadora”, com uma ou outra transição estranha de ritmo; mas é isso, a voz de Rosalía a cantar com emoção e o seu instinto para melodias certeiras que nos encantam, numa artista que lançou também a flamencizada “Juro Que” e o dueto viciante “Yo x Ti, Tu x Mi” com Ozuna.

Sault – Wildfires

Não há como contornar: os Sault foram a sensação de 2020. É verdade que no ano anterior já tinham lançado dois discos, mas foi neste, em que editaram outros tantos, que se tornaram uma das bandas referências da música atual (e da música negra atual). Misturam no caldeirão várias estéticas sonoras da antiga e da nova música negra, dão-lhes um toque de mistura e produção eletrónica que vestem as canções com uma roupagem nitidamente nova e original, e acertam na mouche. Esta “Wildfires”, em particular, é uma grande cantiga: a batida inicial faz logo abanar a cabeça, a voz feminina (será de Cleo Sol?) a cantar docemente sobre mentiras de branco, a dizer a um destinatário que devia ter vergonha pelo sangue que tem nas mãos (que é culpa sua), a dizer-lhe para tirar o crachá porque “todos sabemos que foi homicídio”. Esta canção existe porque George Floyd foi asfixiado e morto por gente de uniforme e porque apareceu um movimento chamado “Black Lives Matter”. E é a melhor cantiga de protesto de 2020, porque o seu mérito não reside apenas na letra interventiva mas na voz da cantora, na produção instrumental, nesta neosoul e soul eletrónica que flirta com as batidas do hip-hop.

The Weather Station – Robber

Saiu mesmo na ponta final do ano mas é tão boa que entra para a lista de melhores canções de 2020. Comecemos pela autora: The Weather Station é o nome do projeto artístico de Tamara Lindeman, uma canadiana que já foi atriz mas que se tem dedicado mais à música. Já com três álbuns no currículo, Tamara tem evoluído de uma folk mais clássica, próxima do universo de Joni Mitchell (notória no álbum que editou em 2015, o recomendável Loyalty), para um universo musical capaz de abraçar fórmulas sonoras menos clássicas, mais inventivas e originais. No último disco, de 2017 e homónimo, flirtava com o (bom) rock rural americano. Nesta canção, que tal como outra (“Tried To Tell You”) antecipa a edição de um álbum no próximo ano, há uma novidade que prenuncia boas notícias. Há sopros jazzísticos trazidos por um saxofone, uma percussão diferente, um swing novo, há uma autora que aqui emprega a sua escrita cuidada e poética para criticar um sistema económico-financeiro em que há ladrões e há vítimas de roubo — e o roubo é permitido pelas “palavras”, “agradecimentos”, “leis”, “bancos”. A canadiana que antigamente se debruçava sobre as emoções interiores expande-se agora às relações entre pessoas que não apenas amorosas ou de amizade. Mas é pelo swing que nos conquista.

Tom Misch, Yussef Dayes, Freddie Gibbs – Nightrider

É curioso que um ano que não foi muito rico em grandes discos de hip-hop tenha originado tão boas canções de hip-hop — como é o caso desta “Nightrider”, que é hip-hop mas não é apenas hip-hop. Incluída em What Kinda Music, um álbum feito a meias pelo cantor de neosoul e R&B Tom Misch e pelo baterista e produtor musical mais ligado ao jazz (a um jazz relativamente popular, aberto ao diálogo com outros ritmos e outras sonoridades modernas) Yussef Dayes, esta é uma canção brutalmente relaxante, tipo ansiolítico. Durante três minutos navegamos no groove desta neosoul e jazz-funk cantado que se espreguiça e se distende, espécie de música pacifista para dia de sol. Mais à frente Freddie Gibbs entra com muita pinta no beat. Entre rimas e canto, entre o groove e o delicioso embrulho jazzístico, temos uma grande cantiga de cinco minutos.

Waxahatchee – Fire

Considerado quase consensualmente o melhor disco que Katie Crutchfield fez com o nome artístico Waxahatchee (é o quinto da sua discografia), Saint Cloud é uma guinada artística. Mesmo nas canções anteriores, mais inspiradas no indie-rock dos anos 90 e início dos anos 2000, a norte-americana tinha um sentido melódico e um instinto para a composição notórios — oiça-se “Silver”, a canção que Avril Lavigne teria feito se fosse mais letrada e alternativa. Ou seja, já havia uma capacidade para escrever canções apelativas ao ouvido. A diferença é que eram menos (havia canções insípidas em todos os discos) e a fórmula indie-rock começava a parecer algo esgotada.

Este novo disco é outra coisa: foi-se a produção mais ‘suja’, mais rockeira e mais barulhenta, vieram as canções mais rurais, mais baladeiras, com a voz mais límpida a comandar (os instrumentos seguem-na, fazem a cama para ela, têm a função de suportar as palavras e o canto). E que canções esta s, que baladas atormentadas pelos demónios interiores (o vício anterior do álcool, as inseguranças confessadas) de quem já os consegue cantar porque encontrou finalmente paz. Todo o disco é muito bom, há temas de eleição como “Can’t Do Much”, “Lilacs” e “The Eye”, mas esta “Fire” com a tensão inicial, o falsete de arranque, a voz e a emoção de Katie condensadas em pouco mais de três minutos que nos esmagam o músculo que bombeia sangue para o sistema circulatório. Há-de ser banda sonora de muita gente com desgostos amorosos, anotem o que vos escrevo.

Yves Tumor – Gospel For a New Century

Até 2020, Yves Tumor era para muita gente sinónimo de artista experimental, pouco acessível, restrito às blackboxes, palcos e festivais pequenos da Europa (passou por Portugal sem grande notoriedade). Isso pode mudar com Heaven To a Tortured Mind, disco que editou em 2020. E pode mudar pelo disco mas sobretudo por duas grandes canções: “Kerosene!”, que também merecia figurar nesta lista, e esta “Gospel For a New Century”, que aliás é a primeira faixa e por isso pode ajudar a trazer mais ouvintes para a sua música. Nesta pop melódica mas também ruidosa e elétrica, pujante, que recupera o lado artsy do glam mas para uma sonoridade mais contemporânea, Yves Tumor acertou em cheio. Há nitidamente uma tensão sexual na sua música, como pressentimos quando o ouvimos aqui, qual rock star ou pop star esquizóide e barulhenta dos tempos modernos, a cantar o refrão: “This ain’t by design, girl / Take it softer / You know I’m out my mind, girl / Don’t make this harder / Come and light my fire, baby / How much longer ’til December?“.

Menções honrosas: “The Divine Cord” (The Avalanches, MGMT, Johnny Marr), “Yesterday” (Loyle Carner), “Ring” (Sylvain Esso), “House Music All Night Long” (Jarv Is), “Hit Different” (SZA, Ty Dolla $ign), “Exile” (Taylor Swift, Bon Iver), “Un Dia” (J. Balvin, Dua Lipa, Bad Bunny, Tainy), “No Fit Vex” (Burna Boy), “Monarch Season” (Jennifer Castle), “Welcome To Hard Times” (Charley Crockett), “Close My Eyes” (Will Butler), “Make Me An Offer I Cannot Refuse” (Sufjan Stevens), “Every Now And Then” (Ka), “Todas Las Madres Del Mundo” (Silvia Perez Cruz), “Sleeping Without You Is a Dragg” (Swamp Dogg, Justin Vernon, Jenny Lewis), “Serpentine Prison” (Matt Berninger), “Home” (Caribou), “You Should Call Mum” (Little Simz), “Campfire” (Kevin Morby), “Euthanasia” (Nick Cave)