Está em todo o lado: nas janelas que nos separam da rua, nas lentes dos nossos óculos, no copo por onde bebemos água, no frasco de perfume. O vidro é hoje tão omnipresente e banal que assumimos que sempre existiu. “A verdade é que é um material difícil de produzir e só começou a ser amplamente difundido a partir da época romana, especialmente entre os séculos I e IV d.C.”, explica a cientista Mafalda Costa.
Até à sua difusão na época romana, acredita-se que o vidro era um bem de luxo, reservado às elites. Mas, para ter essa certeza — e outras —, é preciso estudá-lo através das Ciências do Património, uma área que cruza as ciências sociais e humanas, como a Arqueologia e a História da Arte, e as ciências naturais, como a Química e a Geologia. E é, também, isso que se faz no Laboratório HERCULES, da Universidade de Évora, onde Mafalda Costa está a desenvolver investigação.
A cientista chegou a este cruzamento entre dois mundos porque, apesar do interesse pela História, acabou por escolher a licenciatura em Geologia. “Talvez porque a Geologia é a ciência que conta a história da Terra.” Mais tarde decidiu estreitar o foco — “passei da história da Terra para a história de um bocadinho da Terra, que é a humanidade” — e fez o mestrado ARCHMAT (Archaeological Materials Science), dedicado à aplicação de métodos científicos na análise de materiais arqueológicos e do património cultural. O programa foi partilhado entre três universidades: Évora, em Portugal, Salónica, na Grécia, e La Sapienza, em Itália.
▲ Em vez de cortar o objeto para chegar ao núcleo preservado, o projeto de Mafalda Costa tenta desenvolver um método capaz de usar vidro degradado como fonte de informação, preservando as peças
António Carrapato
Mas o interesse pela investigação e pelas ciências do património começou em casa: é filha de dois bolseiros de doutoramento Fulbright — pelo que passou parte da infância nos Estados Unidos —, sendo que a mãe, nas últimas décadas, também se dedicou à área das ciências do património.
Foi já no doutoramento em Arqueologia e em Ciências da Terra e do Espaço, feito entre a Universidade de Évora e a Universidade de Ghent, na Bélgica, que optou por se dedicar ao estudo do vidro. “Desde logo porque é um material bonito e acho que temos de gostar daquilo com que trabalhamos no dia a dia.” Por outro lado, “fazer vidro é como fazer um bolo: é uma receita com vários ingredientes”, sendo que esses ingredientes são matérias-primas de origem geológica, como a areia (sílica), sais minerais (natrão) e fontes de cálcio (fragmentos de calcários ou conchas). Assim, é uma escolha que se cruza com a sua formação de base em Geologia.
Assinaturas químicas que contam histórias
Durante muito tempo, os arqueólogos sabiam que o vidro era amplamente usado no Império Romano mas não tinham a certeza onde era produzido nem como circulava. Só há algumas décadas, através de técnicas de análise química e isotópica — ou seja, das variantes de um mesmo elemento químico — passou a ser possível analisar a composição do vidro e tirar conclusões.
O vidro herda características de todos os materiais usados na sua produção. É essa “impressão digital” que os investigadores procuram decifrar para determinar a origem das matérias-primas: partindo da análise do objeto final, tentam chegar à sua proveniência. “É quase como fazer a história ao contrário: começamos pelo fim para tentar chegar ao início”, diz a cientista.
O ingrediente mais importante para os estudos de proveniência, no entanto, é a areia. Parte-se do princípio de que a areia usada para fazer o vidro não era trazida de muito longe em relação ao local de produção. A lógica é simples: “Hoje podemos transportar facilmente toneladas de areia em camiões, mas, quando o transporte era feito com cavalos, burros e barcos, não.”
Foi assim que se percebeu que o vidro romano tem composições muito consistentes entre si, o que indica que não era fabricado localmente em cada cidade, mas sim em alguns grandes centros produtores. Os resultados permitiram identificar duas zonas principais de produção: o Egito e a costa da Síria-Palestina. Em ambos os casos usava-se um tipo de sal natural (natrão), com origem possível no Vale do Natrão, ou Uádi Natrun, como fundente.
Isso permitiu compreender e mapear as rotas comerciais da época: acredita-se que o vidro bruto (produzido em grandes blocos ou lingotes) era transportado por mar até oficinas espalhadas pelo Mediterrâneo onde era derretido e manipulado para formar taças, jarras, contas e vidros de janelas.
Investigar o passado preservando cada fragmento
O vidro que chega até nós a partir das escavações arqueológicas é, na verdade, uma versão muito transformada do material original. “O vidro é um material que só resiste à água até certo ponto”, explica a investigadora. “Depois de centenas ou milhares de anos enterrado, sempre em contacto com a água do solo, está degradado.”
O vidro que Mafalda está atualmente a estudar, com o apoio de uma bolsa Pós-doc Junior Leader da Fundação “la Caixa”, no valor de 305 mil euros, é da Idade do Ferro — que remonta a diferentes alturas consoante a região do mundo, mas que, de forma geral, se situa entre cerca de 1200 a.C. e 500 a.C. Por isso, os sinais dessa transformação são visíveis a olho nu e fazem com que este vidro tenha um aspeto muito diferente do que conhecemos hoje. “A primeira coisa que se nota é uma perda da transparência; depois começa a descascar como as cebolas.” Pode ainda apresentar depósitos de minerais à superfície, que criam manchas esbranquiçadas ou castanhas. O resultado é um material arqueológico tão fascinante quanto frágil, cuja análise requer técnicas específicas para decifrar o que resta da sua composição original.
Durante décadas, os estudos de proveniência — que procuram determinar a origem do vidro — concentraram-se apenas em amostras “limpas”, o chamado pristine glass, isto é, o vidro não degradado. Mas essa prática tem um problema óbvio: o vidro que chega até nós, vindo de escavações arqueológicas, está quase sempre alterado à superfície. Isso implica fazer, com instrumentos específicos, microcrateras no vidro até atingir uma profundidade em que o material já não esteja alterado. O reverso da medalha é que o danifica.
Com este projeto, a ideia é, segundo a cientista, “mudar o paradigma de como fazemos os estudos de proveniência em vidros”. A pergunta que Mafalda Costa fez foi simples: “Será que não conseguimos saber o mesmo a partir da parte degradada do vidro, evitando assim desprezar material?”
Em vez de cortar o objeto para chegar ao núcleo preservado — como se faz hoje —, o projeto procura desenvolver uma metodologia capaz de usar o vidro degradado como fonte de informação, preservando a integridade das peças. O desafio é provar que a camada alterada à superfície ainda contém dados químicos úteis para identificar a origem do vidro, sem que seja necessário danificá-lo.
▲ “Quero desenvolver uma maneira de fazer análises ao vidro o menos invasivas possível”, diz Mafalda Costa. “Conseguir pegar no objeto, estudá-lo, voltar a pôr no museu — e ninguém saber que lá estive”
António Carrapato
Para isso, a investigadora está a tentar perceber até que ponto certos elementos químicos, como o zircónio — que é um dos mais importantes para distinguir entre o vidro produzido no Egito ou no Levante —, permanecem estáveis mesmo à superfície do vidro degradado.
Se esses elementos se mantiverem inalterados, seria possível fazer análises precisas sem precisar de vidro “fresco”. “Hoje, ou se parte o objeto para chegar à parte interna, ou não se consegue analisá-lo de forma a determinar a sua proveniência. Eu quero desenvolver uma maneira de fazer análises o menos invasivas possível: conseguir pegar no objeto, estudá-lo, voltar a pôr no museu — e ninguém saber que lá estive.”
Neste momento, a cientista está a fazer a prova de conceito, escolhendo amostras de vidro de natrão da Idade do Ferro para testar a viabilidade do método. Se funcionar, o impacto poderá ir muito além do vidro arqueológico e ser usado na cerâmica vidrada e em azulejos, mudando o paradigma de análise de tudo o que é vidrado.