Na campanha de 2015 houve um momento de futurologia (ainda que algo fácil). António Costa estava de passagem por Aveiro e numa visita a uma escola encontrou uma bola de futebol no recreio que, mesmo sem grande toque, passou a Pedro Nuno Santos assumindo logo ali a leitura política que o momento teria. Toda a gente riu e o momento passou na comunicação social com a tal interpretação incontornável: estava escolhido o sucessor. Depois vieram oito anos de governação, outros preferidos e outras necessidades, a relação entre os dois esfriou (a comparar com os tempos áureos da geringonça), mas Pedro Nuno acabou mesmo por ser o sucessor de Costa.

Este é o congresso onde se consagra esse passe de bola, com a mesma falta de técnica de há oito anos. Foi tudo de repente, sem preparação. Costa demitiu-se e Pedro Nuno teve de avançar num momento em que se estava a preparar para uma espera de dois anos. Esta sexta-feira, o PS faz a despedida do passado, com a última intervenção de Costa. No sábado e no domingo prepara-se para o futuro muito próximo, com Pedro Nuno a tomar o palco. E pelo meio arruma-se a equipa, com elementos a passarem da frente de ataque dos últimos anos para uma defesa mais recuada, outros a aguardar no banco e outros ainda a passar da bancada para a grande área.

Quem é quem no plantel socialista que se apresenta neste 24º congresso que decorre nos próximos três dias em Lisboa?

Pedro Nuno Santos, o ponta de lança

É o líder mais anunciado de sempre, mesmo assim surpreendeu o momento em que entra em campo, para ocupar o desejado cargo no topo do PS. Pedro Nuno Santos preparava-se para estar nos próximos dois anos no banco, a comentar política semanalmente na SIC, cortando aos poucos o cordão umbilical com o costismo e apresentando a sua própria agenda também paulatinamente. Mas a demissão de António Costa encolheu vertiginosamente esse calendário mais dilatado. O socialista teve de travar a fundo o distanciamento que queria cavar face ao costismo, tornando-o em respeito absoluto pelo seu legado e prometendo até honrar (que é como quem diz executar) o Orçamento deixado pelo Governo. Batizou a sua táctica de “novo impulso”, na tentativa de conseguir ao mesmo tempo o respeito pelo passado (que, de resto, integrou) e a sua promessa de mudança.

Até agora revelou pouco, tendo vindo a ser pressionado para mostrar jogo (ou seja, propostas concretas), o que se prepara para começar a fazer só no discurso de encerramento deste congresso. Depois de uma disputa interna com José Luís Carneiro, tem também a incumbência de unir o partido e já concordou conceder 35% dos lugares nos órgãos de direção do partido ao seu opositor. Mas há outras listas para fazer até ao fim do mês, as de deputados, e por mais que a fachada seja de unidade, é nessas contas internas que ela verdadeiramente se vai construir (ou não).

António Costa, a lenda (viva)

Os últimos congressos do PS em que houve mudança de líder não contaram com o secretário-geral de saída. Em Braga, em setembro de 2011 na entronização de António José Seguro, José Sócrates não apareceu, depois da derrota nas eleições legislativas. Em Lisboa, em novembro de 2014 na coroação de Costa, Seguro não apareceu, depois da dupla-derrota no partido (nas primárias e nas diretas). Mas desta vez não será assim. Costa sai em estilo vítima (de uma Justiça que alguns socialistas colocam debaixo de fogo), com a maioria absoluta interrompida (e a narrativa de o PS ter sido apeado dela pelo Presidente Marcelo) e com resultados económicos (as contas públicas equilibradas) que os socialistas não querem largar como bandeira.

É um ex-líder que o PS quer aproveitar e também é um ex-líder com ambição política intacta e que, por isso mesmo, vai fazer render esta saída com o partido aos seus pés. Promete não vir a ser uma sombra sobre a nova liderança, mas não tem deixado a defesa do seu legado a mãos alheias marcando o seu ponto sobre o que deve ser dito. Esta sexta baixa o pano sobre a sua liderança, mas há no PS quem diga que Costa nem vai chegar a sair do palco, alimentando-se a esperança de que tenha mantido o seu capital político — o próprio acredita que esse está inteiro, quando diz que só está a aguardar o arquivamento do processo-crime contra si. Deixa a porta aberta e o PS estende-lhe a passadeira vermelha para qualquer futuro.

Carlos César, o veterano

É a figura cimeira do costismo que vai manter-se na estrutura do partido agora liderado por Pedro Nuno Santos. Carlos César mantém-se como presidente, a pedido do novo líder, e como um dos conselheiros de topo de Pedro Nuno, tal como sempre foi de António Costa (a amizade entre os dois começou aos 16 anos na JS e seguiu até Costa chegar ao Governo, deixando César ao comando do grupo parlamentar no tempo da geringonça). Num partido renovado onde a geração seguinte vai dominar os órgãos de direção, César vai ser o senador de serviço, conferindo experiência política e mantendo a sua influência.

Nos últimos anos tem deixado clara a sua indisponibilidade para voltar a ter cargos executivos — disse-o sempre que o seu nome foi apontado como ministeriável — e também não tem mostrado inclinação para abraçar uma candidatura presidencial — outro futuro que também lhe é apontado com regularidade –, embora também nunca tenha morrido de amores (notou-se publicamente) pelo nome que estava a ser preparado nos últimos anos, Augusto Santos Silva. Mostra-se confortável no papel de influenciador (e até regulador) do líder que estiver em funções, sobretudo se puder fazê-lo a partir da sua base, os Açores.

José Luís Carneiro, o suplente

José Luís Carneiro é um segurista reformado que ascendeu a altos cargos no partido já na era costista, tendo desempenhado funções como autarca, secretário de Estado das Comunidades, secretário-geral adjunto do PS e ministro da Administração Interna. Saiu-se bem nesta última (e particularmente difícil) pasta e levou esse capital, misturado com muitas críticas à postura e ideologia do adversário, para o mais recente desafio que enfrentou. Avançou para as eleições internas do PS quando mais ninguém da sua ala, a moderada, o quis fazer e saiu do processo com uma derrota doce debaixo do braço: conquistou em pouco tempo 36% dos votos do partido, o que lhe dá peso e estatuto no partido para se posicionar como alternativa a Pedro Nuno Santos — uma espécie de suplente sempre pronto para um cenário em que possa voltar a entrar em campo.

Por agora, Carneiro promete que quer contribuir para a união do partido – mas também já avisou que é ao novo líder que cabe trabalhar para assegurar o bom ambiente no PS. Os carneiristas colocam na lapela os 36% que conseguiram, para lembrar que fazem parte do partido e estão longe de ser uma fação residual. Se os planos de Pedro Nuno saírem furados e o PS não chegar ao poder, essa divisão pode voltar a evidenciar-se, tornando-se mais relevante do que nunca. Dificilmente Carneiro deixará de reclamar a influência que conquistou neste processo, mesmo que também a tenha conseguido por falta de comparência de nomes como Fernando Medina, Ana Catarina Mendes ou Mariana Vieira da Silva.

Francisco Assis, o ala direito

Tornou-se a principal surpresa desta campanha quando apareceu ao lado de Pedro Nuno Santos num almoço, captado pelas câmaras da CNN, e depois o acompanhou à apresentação de candidatura no Largo do Rato. O antigo crítico da geringonça, que esteve isolado no PS durante a era Costa e ficou arrumado como representante da ala direita do partido, regressa à vida partidária em primeiro plano, tendo já sido anunciado como o cabeça de lista à Comissão Nacional dos socialistas.

Resta saber que papel poderá ocupar neste PS, além da integração nos órgãos do partido: não faltam rumores sobre uma possível candidatura à presidência da Assembleia da República ou sobre a sua inclusão num hipotético Governo de Pedro Nuno. Afinal, como recorda ao Observador um apoiante do novo líder, o pedronunismo não pode desperdiçar o apoio de “senadores” reconhecidos até fora do PS, e Assis é um ativo valioso para Pedro Nuno, o maior símbolo do seu esforço para se moderar e matar a imagem de radical de esquerda. Quem ficou desiludido com esta nova associação foram os apoiantes de Carneiro, amigo e ex-chefe de gabinete de Assis. Mas Pedro Nuno acabou mesmo por se tornar o ticket de regresso do antigo eurodeputado e dirigente socialista à vida partidária.

João Torres, jogador na flash interview

Embora se inclua na já longa linhagem de líderes da JS que são, desde os tempos de Pedro Nuno Santos, associados à sua linha política, João Torres trilhou o seu caminho dentro do costismo, onde se destacou pela promoção a secretário de Estado e, de seguida, à função de homem do aparelho do PS (secretário-geral adjunto). Assim que pôde, declarou o seu apoio a Pedro Nuno e já é certo que se tornará um dos homens fortes na era pedronunista, uma vez que já aceitou o desafio de trabalhar como diretor de campanha para as eleições legislativas de março.

Habituado a fazer a defesa do PS na praça pública e em debates inflamados contra os adversários do partido, continuará certamente a fazer esse papel, falando em nome de Pedro Nuno em qualquer flash interview em que se avalie o trabalho (e as jogadas) do novo líder. Torres tem servido também como uma espécie de ponte entre o costismo e o pedronunismo – é, de resto, o nome que foi apontado ao Observador como um representante não oficial de Pedro Nuno nas reuniões de coordenação do Governo, uma vez que assiste aos encontros e põe o novo líder a par do que é discutido e decidido.

Alexandra Leitão, defesa central

Da última vez que o país foi a eleições, Alexandra Leitão era ministra (descrita no interior do Conselho de Ministros como contestatária ou assertiva) e queria continuar – António Costa discordou, ofereceu-lhe a liderança da bancada parlamentar e nada feito. Leitão passou então a ser deputada, sempre próxima do círculo de Pedro Nuno Santos, e ajudou a fundar a associação Causa Pública, que defende a construção de políticas à esquerda. No dia em que Pedro Nuno voltou ao Parlamento, foi uma das deputadas que o acompanharam nesse regresso (e no almoço que o antecedeu); entretanto, foi convidada para elaborar a moção com que este se apresentou como candidato à liderança do PS, e tem agora em mãos o desafio de coordenar o programa eleitoral.

Estando profundamente envolvida no pedronunismo, Leitão não descarta as suas próprias ambições pessoais: não exclui poder vir a assumir um papel em que boa parte da esquerda gostaria de a ver (o de candidata a Presidência da República) nem uma hipotética futura liderança do PS. Por agora, será certamente um nome a ter em conta para um elenco governativo que Pedro Nuno possa vir a formar.

Francisco César, trinco

Estudou na mesma faculdade de Pedro Nuno Santos e foi com ele que começou a sua carreira política, na JS. Francisco César tinha apelido no partido (é filho de Carlos César), mas é no grupo de Pedro Nuno que tem as raízes há anos e foi ele que o agora líder recorreu para lhe organizar a campanha no curtíssimo espaço de tempo ditado pela demissão de Costa. Depois da eleição, Francisco César rumou aos Açores para travar outras eleições antecipadas, as regionais de 4 de fevereiro, e tratar do círculo pelo qual voltará a ser o cabeça de lista do PS nas legislativas de 10 de março. Está para o pedronunismo como um trinco no relvado do futebol, é o elemento que tem sido chamado quando é preciso anular jogadas ofensivas e para distribuir jogo quando é para sair em contra-ataque.

É um dos nomes que faz parte do núcleo duro do novo líder socialista (onde estão também Duarte Cordeiro, Pedro Vaz, Nuno Araújo ou João Paulo Rebelo) e é uma das vozes que vai passar pelo púlpito do Congresso, onde não deixará de aproveitar a experiência PSD/CDS/Chega/IL nos Açores (por onde vai ser cabeça de lista pelo PS nas próximas legislativas) para agitar no ar o fantasma da extrema-direita e da instabilidade governativa que o PS cola à direita.

Duarte Cordeiro, jogador pode estar em fim de contrato

É o mais próximo de Pedro Nuno Santos no PS, amigos desde a faculdade (ISEG), Duarte Cordeiro vê chegar o tempo que desejou no partido no pior momento para si. O seu nome já estava envolvido na operação Tutti-Frutti e a 7 de novembro foi um dos governantes alvo de buscas no âmbito da operação Influencer, um momento que os mais próximos garantem que o fez repensar a carreira e querer o afastamento da política, criticando o Ministério Público em cada conversa que vai tendo à volta. No entanto, não tem estado totalmente fora da banda onde tocou a vida toda e tem aconselhado o novo líder de forma menos pública.

Também ele foi líder da JS (2008-2010) e manteve sempre relação estreita com as camadas jovens do partido. Muita da geração pedronunista podia ser perfeitamente cordeirista (e não é que nunca se tenha falado da possibilidade dessa frente no PS), mas a lealdade de Duarte a Pedro Nuno dificilmente permitira essa via alternativa. Precisamente agora, Duarte Cordeiro aparece a querer arrumar as chuteiras — ainda que o novo líder alimente a esperança de o ver mudar de ideias sobre a carreira política. Seja qual for o desenlace, Duarte vai falar neste congresso como presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa, logo na abertura, mas também no sábado, na altura das intervenções mais políticas. Falta saber se integrará cargos de direção no futuro do partido, sendo certo que se não estiver será apenas porque não quer.

Marina Gonçalves, jogadora da formação

Apesar de não ter passado pelo aparelho da jota, a atual ministra da Habitação foi convidada por João Torres para fazer parte do seu secretariado e fez sempre o seu caminho no PS, onde foi assessora do grupo parlamentar. Foi nos corredores do Parlamento que conheceu o grupo dos ‘jovens turcos’ e acabou por ser convidada para chefiar o gabinete do então secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos. Hoje em dia faz parte do núcleo duro do pedronunismo e é descrita como alguém “extremamente leal” e da total confiança do novo líder, com quem seguramente desempenhará um papel de primeira linha no PS. Ironicamente, no ano passado foi a saída de Pedro Nuno do Governo que levou à sua promoção a ministra da Habitação, uma pasta dura em que a estratégia do Executivo tem sido muito criticada.

No plantel de Pedro Nuno, é um rosto que representa vários outros dos jovens que cresceram na academia pedronunista, das fileiras da jota para lugares relevantes no partido: são os casos da ex-líder da JS Maria Begonha ou do atual líder Miguel Costa Matos, assim como de deputados como Tiago Barbosa Ribeiro, Hugo Oliveira, Joana Sá Pereira ou Hernâni Loureiro (adjunto de Marina Gonçalves).

Augusto Santos Silva, o dispensado

É um dos principais senadores do PS e ocupa neste momento o cargo de presidente da Assembleia da República, mas vê cada vez mais distante o plano que nunca excluiu: chegar a Belém. O partido está perfeitamente consciente de que as sondagens não colocam Santos Silva numa posição favorável para essa corrida (“era um bom Presidente mas não é um bom candidato”, ouviu o Observador), além de estar longe de ser o nome preferido por Pedro Nuno Santos. Nesta eleição interna Santos Silva apoiou, de resto, José Luís Carneiro, a quem apontou qualidades como a prudência, a moderação ou a razoabilidade.

Além disso, no plano ideológico Santos Silva já era visto há muito como um dos rostos mais centristas do PS, tendo nas vésperas do congresso socialista de 2018 protagonizado um debate sobre o rumo do partido, nas páginas do jornal de Público, com Pedro Nuno Santos, via artigos de opinião. Continua a não se rever nas opções do atual líder, tal como outros senadores socialistas que também fizeram parte da campanha de Carneiro – casos de Vieira da Silva ou Fernando Medina –, e dificilmente será a escolha de Pedro Nuno para uma recandidatura à presidência da Assembleia da República, ficando dispensado desse jogo. Mas promete que contribuirá para a união do partido no futuro.

Fernando Medina, no banco

Nunca foi o preferido do partido, que traumatizou em setembro de 2021 quando perdeu inesperadamente a Câmara de Lisboa. O luto de Fernando Medina foi, no entanto, curto, com as eleições antecipadas para daí a uns meses, depois do chumbo do Orçamento de 2022, e Costa a chamá-lo para liderar as Finanças no Governo das maioria absoluta. Podia não ser o preferido do partido, mas sempre foi um dos nomes da confiança de Costa.

Essa proximidade colocou-o diretamente na linha da sucessão (já tinha sido ele a suceder a Costa em Lisboa, em 2014) e, por isso mesmo, como um rival de Pedro Nuno Santos. Sempre estiveram em alas opostas, com Medina a apoiar José Luís Caneiro nas diretas, contra Pedro Nuno. Neste congresso está, por tudo isto, no banco, embora com um capital político de peso, que tem feito por chamar muito a si, sobretudo nos últimos meses: sai com um saldo orçamental positivo e com a dívida pública controlada. É um trunfo de elevado valor político e que Medina faz questão de espetar já na sua lapela, afinal foi dele o apelo constante, desde que é ministro, a uma dívida sempre controlada e, neste Orçamento, até propôs que se reservasse o excedente, à cautela para um eventual dia de chuva. Difere de Pedro Nuno, que não só não vê utilidade nessa reserva, como quer uma redução da dívida mais lenta. São o dia e a noite. Mas as contas certas que Pedro Nuno usa agora como bandeira, têm a mão de Medina que não parece disposto a ver isso cair no esquecimento e a conservar no bolso, como reserva, para uma eventual chuvada que possa cair sobre o pedronunismo.