Em 2018, Rafinha Bastos tomou a decisão de deixar o Brasil para tentar a sua sorte nos EUA — para trás ficaria uma carreira de sucesso no humor e na televisão, assim como um nível de fama que o levou a ser alvo de um perfil do The New York Times, mas também de várias polémicas que o desgastaram e o limitaram criativamente. Em terras americanas, passaria a ser um ilustre desconhecido, e era precisamente esse o objetivo. “Eu gostei disso, para mim foi uma experiência de humildade que me fez muito bem”, revela o comediante ao Observador.
Além disso, foi uma aposta ganha. É que o brasileiro de 49 anos não foi para um sítio qualquer, mas para Nova Iorque, uma das “mecas” do humor, que tantos atrai e onde tão poucos singram. Não foi o seu caso. Apresentando-se agora como Rafi Bastos (o “nha” não é um som simpático quando saído de lábios anglo-saxónicos), tornou-se presença habitual em alguns dos mais prestigiados clubes de comédia da cidade, como o Comedy Cellar, o Gotham ou o The Stand, passando a fazer stand-up integralmente em inglês e dividindo palcos com lendas da indústria.
Pode Lisboa ter uma “web summit do humor”? Festival de comédia é “sinónimo da evolução do setor”
Foi justamente um espetáculo dessa natureza o que trouxe para o primeiro dia do festival de comédia Worten Mock Fest, em Lisboa, onde o Observador teve a oportunidade de intercetá-lo para uma curta mas elucidativa conversa sobre reinvenção e os desafios de (re)construir carreira numa língua que não a sua. Como o próprio admitirá, apresentar um espetáculo em inglês em Portugal é uma experiência para si estranha e desconfortável, ficando sempre com a sensação de que está “escondendo alguma coisa”, apesar de o resultado ser “sempre muito legal”.
Sendo um imigrante brasileiro a viver nos EUA, parte do seu espetáculo tem-se baseado nas observações que uma pessoa de fora tem ao chegar ao país, assim como satirizando os preconceitos e estereótipos em relação ao Brasil. No entanto, diz que está a trabalhar para começar a trazer temas mais íntimos para o seu stand-up, procurando assim uma universalidade que não precisa de contextos específicos e ultrapassa barreiras linguísticas. Quanto aos humoristas que preferem desafiar os limites, diz que apoia aqueles que “são independentes”, que “batem no oprimido e batem no opressor” — mas considera que o peso que é dado ao que dizem é desproporcional. “Não sinto que a gente tenha esse poder que nos atribuem”, atira.
▲ Rafinha Bastos e a experiência de ser um anónimo dos EUA: "eu gostei disso, para mim foi uma experiência de humildade que me fez muito bem".
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Ao ter ido viver para os Estados Unidos, os seus espetáculos de stand-up passaram a ser integralmente em inglês. Qual é a sensação de apresentá-los a um público que fala também em português?
É muito estranho e é até desconfortável, porque parece que eu estou escondendo alguma coisa. Eu fico sempre meio ansioso antes do show, para mim é o mais difícil que há, porque a gente fala a mesma língua, tem as mesmas referências e eu não escrevi esses textos necessariamente para o povo que fala a minha língua. Mas, no final, o resultado é sempre muito legal e saio satisfeito, apesar desse desconforto. Até hoje, eu já fiz acho que uns cinco ou seis espetáculos assim em Portugal, em Lisboa e no Porto, e é sempre bom. Mas não é confortável, não vou te mentir, não.
Fica com a sensação de que, mesmo que involuntariamente, cria uma camada extra de contexto que normalmente não existe quando vai atuar para outras nacionalidades? Isso interfere?
Há sempre alguma coisa. Por exemplo, eu construí a maior parte dos meus textos nos Estados Unidos, entre Nova Iorque e Los Angeles, e muitos foram criados para esse público. Mas agora, cada vez mais, estou a torná-los mais pessoais. E quando se tornam pessoais, aí você já não precisa necessariamente de um contexto. Então, estou tentando cada vez mais criar um show que funcione em qualquer lugar do mundo. Porque em Portugal, o obstáculo é a língua — falamos a mesma língua, mas estamos comunicando com uma outra. Mas na Alemanha, por exemplo, há outro desafio, porque eu estou falando outra língua que também não é uma língua que eles falam, e ao mesmo tempo nós não temos nada em comum. E às vezes eu vou atuar no Dubai, e aí eu vou para fazer um show pensando naquele público e descubro que na verdade 60% é um público que fala português. Então, o espetáculo é sempre uma incógnita, independente do lugar em que ele aconteça. Portugal tem essa camada extra, sim, mas todo o show fora dos Estados Unidos é um desafio diferente. Até pelas referências, porque às vezes recorro a produtos que se usam lá. Por exemplo, no caminho daqui, eu estava pensando que tenho uma piada em que falo de serviços de streaming que vocês não têm, o Hulu, o Peacock, entendeu? Como é que eu faço? Adapto para outros serviços que têm.
Era um humorista de grande sucesso no Brasil antes de se aventurar para os Estados Unidos em 2018. O que motivou essa saída?
Eu precisava de um desafio novo na carreira, sentia isso. Conquistei muita coisa no meu país, muita coisa que queria ter feito, eu fiz: série, filme, programa de televisão, talk show. Aí, a partir de um certo momento, eu senti que faltou eu estar empolgado para alguma coisa. E eu sempre tive esse sonho meio distante de tentar uma carreira internacional, que foi sendo empurrado com a barriga, porque a minha carreira no Brasil estava muito acesa. Quando deu uma “baixada” lá, parei de buscar novos projetos e falei “vou me focar nesse negócio de tentar fazer lá fora”, e aí me mudei. No dia que eu acordei e pensei “quero fazer isso”, falei com a minha ex-mulher e com o meu filho e disse “vou para fora, mas vou e volto”. E aí fiquei nessa e estou assim até hoje.
Já mencionou isso em algumas ocasiões, que a certo ponto até sentiu que já tinha uma fama que o precedia no Brasil e que se estava a tornar numa coisa sufocante.
É, até criativamente é um pouco limitante. Você subir no palco e as pessoas saberem quem você é.
É a pressão da expectativa?
Nem é pela expectativa, é mais pela questão criativa. Porque aí o que acontece é que quando as pessoas sabem quem você é, que é um cara famoso, você acaba se tornando muito autorreferencial — fala sobre as suas coisas, sobre os problemas que teve, sobre os programas de televisão que já fez. E aí perde aquele frescor do começo da carreira, onde eu escrevia até sobre cadeiras ou sobre ter comprado um sofá, que era uma coisa que eu gostava muito de fazer e que, com o passar do tempo, fui perdendo esse instinto, porque passei a ser maior do que as coisas que eu observava. Quando eu mudei para fora, voltei a ter esse instinto, de olhar para mim mesmo.
Nessa mudança, revela no mini-documentário que lançou no início do ano como anda muito a pé em Nova Iorque, como essa é uma forma de desanuviar e procurar inspiração. Portanto, necessitava de mudar de ares nesse sentido também.
Eu ando a pé em Nova Iorque e ninguém sabe quem eu sou, posso fazer as minhas coisas e tal. No Brasil, eu tenho muito orgulho de ser um cara conhecido, o carinho das pessoas é muito grande, mas não tenho essa liberdade, o que acaba às vezes me travando criativamente.
Ao chegar aos Estados Unidos, passa de ser um nome com estatuto para um peixe miúdo num aquário grande. Como é que foi essencialmente esse processo de refazer a carreira?
Muito comediante estrangeiro vai para os Estados Unidos e se frustra muito rápido, porque você perde o seu estatuto, você não é mais nada — nem é um peixe pequeno, você não é nada mesmo quando chega lá. E as pessoas não estão muito importadas com a sua fama de onde veio. E se estão, é muito fácil você perdê-la, porque não basta só ser famoso em França, precisa de ser um bom comediante. Ser famoso em França pode te dar duas ou três oportunidades, mas se você não é bom, não volta. Então, para mim, era a oportunidade que eu tinha de me testar como criador de comédia, mais do que como uma pessoa famosa. Eu me coloquei nesse lugar, que posso dizer que é meio desconfortável para um cara conhecido. Muitos outros “gringos” europeus ou comediantes de outros países vão para os Estados Unidos e em três meses falam “eu não vou ficar aqui, ninguém me chama para fazer um show, eu estou gastando dinheiro com aluguer em Nova Iorque e a mulher [do clube de comédia] não responde ao meu e-mail. Porra, eu tenho um especial na Netflix, eu fiz show numa arena no Algarve ou sei lá eu”. E aí um cara se frustra, porque pensa que ninguém está nem aí para ele.
É só mais um, não é?
Sim, ninguém quer saber da sua fama na África do Sul. Mas eu gostei disso, para mim foi uma experiência de humildade que me fez muito bem. E eu gostei das pessoas não me chamarem, de ser eu a conquistar os espaços pela qualidade do que estava fazendo.
Há vários exemplos até de humoristas portugueses que tentaram singrar no estrangeiro para um público anglo-saxónico e não tiveram grande sucesso. O segredo, no fundo, é esse quase baixar de expectativas, de apreciar as pancadas que se leva?
E também ser bom. Eu sou bom. Também não adianta você achar que vai para os Estados Unidos e vai virar [a carreira]. Se você é ruim, não tem para onde ir. Eu confiava muito no meu trabalho, sei que sou um bom comediante — o que não é suficiente, longe disso. Depois de ser bom, tem muita coisa ainda para fazer. E ser bom… bem, eu digo que sou bom hoje, mas às vezes eu olho para outros caras e penso “mas eu não sou tão bom quanto ele, esse cara é muito melhor que eu”. Então eu vou aprendendo e essa régua do que é bom também vai aumentando cada vez mais.
Existe esta ideia de que nós pensamos de maneira diferente em línguas diferentes. Sente que isso também se aplica ao seu humor? Sente-o diferente em inglês?
Não… bom, depende. Sinto que a minha maneira de pensar comédia é a mesma. Obviamente que você está num ambiente diferente, então é naturalmente outra pessoa. Esse mesmo exemplo de que eu acabei de falar, de que você não é ninguém. É claro que isso te coloca num lugar criativo diferente. Então talvez seja isso — a minha forma de observar o mundo é a mesma, mas parte de um lugar diferente. Ou seja, eu sinto que o jeito de criar comédia e a maneira de escrever são muito similares; porém, se eu estou inserido numa realidade diferente, também sou uma pessoa diferente nessa realidade.
No fundo, noutra língua, como estamos limitados por um certo vocabulário ou um universo de palavras que conhecemos, isso de certa maneira vai canalizar a nossa expressão nesse sentido, não é? Portanto, se uma pessoa aprende inglês com filmes ou séries, se calhar vai falar com muito mais calão do que falaria em português. Isso de certa maneira também não torneia e molda a maneira de exprimir-se?
Não sei, não. Na verdade, aquilo que eu faço está muito menos ligado à maneira como eu falo do que às ideias que tenho. Então, sim, realmente há gente que fala inglês melhor, que tem mais opções no seu vocabulário do que eu, obviamente. Mas, às vezes, a ideia não sai da mesma forma, não tem tantas ideias. Existem comediantes que funcionam muito na base da criatividade automática, do improviso e tal, e aí realmente a língua faz muita diferença. Mas no meu caso, como eu escrevo e memorizo o que eu falo, sou muito “CDF” [o equivalente em português europeu a “marrão”] na maneira de escrever, muito chato, muito metódico, muito matemático. Aí já não faz tanta diferença.
Nesta fase da carreira, como definiria o seu humor? Já referiu que estava a tentar passar de um estilo mais de observação para temas mais íntimos.
O humor de observação funciona muito para mim quando eu viajo pelos Estados Unidos, que é onde faço mais espetáculos, porque me coloca num lugar de identificação. As pessoas se identificam muito com aquilo que eu estou dizendo, mas isso não me traz um diferencial tão grande quanto contar as minhas próprias histórias. Então eu acho que é uma questão de amadurecimento, não tem muito a ver com inglês ou português. É realmente louco, porque eu abandonei o humor mais pessoal quando fui para os Estados Unidos para ser uma coisa mais de observação, um pouco mais longe, e agora que consegui construir um público, que tenho seguidores, tento explicar para eles quem eu sou, me tornando mais pessoal de novo.
▲ "Me sinto um comediante muito mais competente hoje do que era há 10 ou 15 anos, eu estou aprendendo. É uma arte que você aprende para o resto da vida."
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Tivemos humoristas envolvidos em processos — de naturezas diferentes, é certo — em ambos os lados do Atlântico este ano — Léo Lins no Brasil, Joana Marques e os Anjos em Portugal. Há alguma leitura a fazer da forma como o humor tem sido entendido publicamente nos últimos anos?
Eu acho que o humor se tornou mais mainstream, o acesso ao humor é muito maior do que na época em que eu fazia [stand-up], antes de entrar na televisão. Então, obviamente, com grandes poderes vêm responsabilidades. Resta ao comediante saber se ele obedece a essas responsabilidades ou não. Eu acho maravilhoso que o comediante não respeite essas demandas. Mas, obviamente, se ele tem uma visibilidade maior, ele vai criar mais controvérsias. E isso vai virar uma questão para ele, mas eu acho que acaba sendo uma questão muito pessoal de cada profissional, sabe? Admiro aqueles que falam, que pensam, independentes, que batem no oprimido e batem no opressor. Eu tenho as minhas opções pessoais na hora de escrever, mas não sou o comediante que vai ficar falando mal dos colegas. Tem muita gente que faz isso, e depois entra na politização. É pá, f**a-se, o cara faz o que ele quiser.
Neste contexto, o papel do humorista pode ser entendido como um teste de stress à democracia? Uma espécie de canário na mina?
Acho que você está dando muita importância ao comediante. Não sinto que tenha tanta importância assim. Acho que ele pode se colocar nesse lugar, que é complicado, é difícil e às vezes não é assim tão criativo. Mas eu acho que as pessoas usam o humor como uma válvula de escape. E sim, você pode dizer alguma coisa ou outra, tocar [num tema] de uma forma ou outra, mas não sinto que a gente tenha esse poder que nos atribuem, não.
Vê-se a voltar para o Brasil como um comediante no ativo?
Há uns dois meses estive no Brasil, testando algumas coisas, fazendo umas piadas, escrevi algum material novo. E me empolguei um pouco, assim, de voltar a fazer um show em português. Mas eu preciso de… Há comediantes que são assim, em que o cara faz stand-up, escreve filme, faz 50 coisas ao mesmo tempo. Eu não, preciso de me dedicar. Cheguei a uma idade da minha vida que preciso saber o que eu estou fazendo. É hora de fazer em inglês? Vou fazer em inglês. Se daqui a pouco eu vou fazer em português, vou ter de parar de fazer em inglês. Não consigo fazer as coisas ao mesmo tempo. Então agora sinto que para mim, criativamente, estou fazendo os meus shows em inglês. Comecei até a fazer show em espanhol, mas que é mais… estou traduzindo muito dos meus textos, não escrevendo tanto. Estou nessa fase do meu processo internacional. Agora, por enquanto, é isso.
Ao fim de quase 30 anos de carreira, como é que define a sua relação com a arte de fazer rir?
Eu gosto disso cada vez mais, cada ano que passa tem desafios e objetivos diferentes. Sinto que essa minha internacionalização abriu muito a minha cabeça e eu tenho aprendido muito. Me sinto um comediante muito mais competente hoje do que era há 10 ou 15 anos, eu estou aprendendo. É uma arte que você aprende para o resto da vida. E se você se deixa empolgar por essa curva de aprendizagem, é um processo muito bonito. Eu estou nesse meio aí, sentindo que tenho muita coisa ainda para aprender.
Pelo que me descreveu, se não tivesse saído do Brasil, talvez essa mesma relação se tivesse tornado, talvez não mais cínica, mas mais rotineira.
Sim, claro. Porque você começa a mirar numa montanha maior, ou numa montanha diferente. Eu estou hoje num processo de crescimento que eu tive no meu começo do stand-up, então agora me estou a colocar nesse outro lugar. Deu-me muita vida para fazer comédia, sem dúvida.