Foram horas a esperar agarrados ao telemóvel, entre pausas para cigarros e uma curiosidade atenta aos resultados que iam aparecendo, sem grandes reações visíveis ou audíveis. No Palácio de Xabregas, onde os liberais estiveram a acompanhar a noite eleitoral, sentia-se a hesitação no ar: não houve projeções iniciais claras, não houve deputados eleitos ao princípio da noite, demorou a haver algum tipo de certeza. E no final a certeza que chegou foi morna: a IL cresce, ganha votos e um novo deputado, mas a vitória não impressiona e não lhe deve bastar para cumprir o objetivo final de participar na governação do país.
A história desta campanha da IL girou, por vezes por vontade de Rui Rocha e por vezes apesar dela, à volta da hipótese de existir um Governo que juntasse AD e IL. O líder da IL ia encontrando formas de se esquivar às perguntas sobre o tema — “queremos fazer uma coligação com os portugueses”, repetia, perante a impaciência dos jornalistas — mas sempre deixando claro que, pela IL, as negociações aconteceriam. Chegou a apontar o nome do ministeriável Carlos Guimarães Pinto — e acabou a campanha a prometer que esta noite saberia “assumir as responsabilidades” e “interpretar os resultados”.
Só que, quando os resultados chegaram, havia pouco para interpretar: a hipótese de um acordo à direita sempre fora assente em duas premissas alternativas — AD e IL teriam de ter maioria juntas, ou pelo menos a AD precisaria da IL para somar mais deputados do que a esquerda toda junta — e nenhuma se cumpriu. Por isso, Rocha subiu ao palco já passava das 23h da noite, uma primeira reação mais tardia do que a de qualquer outro partido, para constatar que a configuração parlamentar “é a que é” e que as maiorias possíveis “já estão constituídas”, pelo que resta à IL continuar a trabalhar a partir do Parlamento. É essa a sua “posição de princípio”, mesmo que entre os liberais se garanta que, se Luís Montenegro telefonar a Rui Rocha, este atenderá para ouvir o que a AD tem para dizer (ou oferecer, caso esse cenário ainda se coloque).
Assim, em clima de festa — não fosse a IL ter conseguido, ainda que por pouco, superar o resultado de 2024 — Rocha deixou a porta aberta para “conversas e todos os contactos” nos próximos dias, mas reiterou por várias vezes que a sua ideia é que a IL continue, como aconteceu ao longo deste ano (depois de a ideia de acordo também ter falhado em 2024), a caminhar sozinha. “Somos fiéis a nós próprios, por muito que isso nos leve por vezes a caminharmos mais devagar”, sentenciou.
Quanto a Luís Montenegro, houve, sim, um telefonema, para os parabéns da praxe e nada mais do que isso, jurou Rocha; durante a noite, especulava-se entre os seus apoiantes que a AD poderia tentar uma aproximação à IL para tentar a tática do “abraço de urso” — tentar juntar os partidos numa mesma solução para ‘engolir’ os votos dos liberais e a autonomia do partido. A diluição da IL numa plataforma à direita preocupava, de resto, o partido, que acreditava que só com um crescimento forte poderia justificar juntar-se a Montenegro e ter força para impor medidas relevantes a um novo Governo da AD.
No entanto, à medida que a noite avançava, restavam poucas dúvidas: “A AD tem mais deputados do que a esquerda”, concluía um dirigente em conversa com o Observador. “Parece que estamos isentos dessa responsabilidade”, sentenciaria Rocha. Ou seja: aos olhos dos liberais não haveria grande utilidade em juntar forças com Montenegro, correndo o risco de que esse acordo favorecesse a AD e diminuísse as hipóteses da IL de marcar a diferença. Por isso mesmo, Rocha prometeu que os liberais continuarão “iguais a si próprios” — aprovando medidas que considerem positivas, criticando as demais com a mesma assertividade — e que não trocarão a sua posição de “ética, rigor, transparência” no futuro.
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Na reação de Rocha foi ainda possível constatar o espanto que se estendeu um pouco por todo o espetro político, tendo em conta o resultado do Chega e o impacto que provoca no sistema político como um todo: o presidente dos liberais disse-se preocupado, responsabilizou o PS por ter “alimentado” o fenómeno “enquanto lhe deu jeito” e prometeu, mantendo o discurso em que tem insistido desde que decidiu aprovar a moção de confiança do Governo apesar das duras críticas que fez ao caso Spinumviva, continuar a comportar-se como “o adulto na sala” — serão precisos muitos, com muito “bom senso”, neste próximo ciclo.
ANTONIO PEDRO SANTOS/LUSA
Após hesitações, Rocha assumiu: “Queríamos ter crescido mais”
Antes da entrada de Rocha na sala, ao som dos Queen — a “We Will Rock You” serviu-lhe de banda sonora durante toda a campanha, à chegada aos comícios –, os liberais passaram horas de incerteza. Essa incerteza era tanta, tendo em conta as margens alargadas das projeções iniciais que previam que pudesse tanto perder como ganher deputados — e ficar à frente ou atrás do Livre –, que nem sequer se fez a habitual reação aos números da abstenção, que costuma acontecer pelas 19h. A essa hora, os jornalistas eram aconselhados a aproveitarem para ir jantar, prevendo-se que antes das 20h — hora das projeções iniciais — não houvesse nada a dizer.
E assim continuaram por várias horas. Na sala, ouvia-se uma seleção de música entre o registo elevador e os hits da rádio, só interrompida para ouvir Hugo Soares na primeira reação às projeções e, horas mais tarde, Pedro Nuno Santos. “Assobia para o lado”, aconselhava Carlão nas colunas, enquanto o tempo passava e a IL não tinha notícia de nenhum deputado eleito que pudesse festejar. Numa sala à parte, Rocha e os principais dirigentes do partido encontravam-se reunidos e a acompanhar os resultados, sem circularem pelas salas onde dezenas de militantes se iam juntando.
A primeira boa notícia acabou mesmo por ser a eleição de Rui Rocha, por Braga, festejada com gritos na sala. A partir daí, os liberais foram festejando o primeiro, segundo e terceiro deputados por Lisboa (com a estreia da dirigente Angelique da Teresa), o primeiro e segundo pelo Porto (com a entrada do secretário-geral, Miguel Rangel, no Parlamento), o deputado mantido por Aveiro (Mário Amorim Lopes), a deputada mantida por Setúbal (Joana Cordeiro). As eleições destes deputados iam-se registando taco a taco com os do Livre, que durante a campanha foi insistindo que poderia disputar o lugar de quarta força política com os liberais.
Só com a noite mais avançada é que os liberais começaram a ter a certeza de que iriam ter motivos para celebrar, e já pelas 23h, com a eleição de Jorge Teixeira como quarto deputado por Lisboa (um lugar que a IL tinha perdido nas últimas eleições e que agora recupera), a festa começou. Os gritos de “liberal” ouviram-se em força, já com as contagens a nível nacional quase fechadas. Até aí, as manifestações mais audíveis tinham sido quando Mariana Mortágua apareceu no ecrã para assumir a derrota do Bloco de Esquerda (com militantes da IL de punho no ar, a imitar a bloquista, e a tirarem fotografias às televisões); mais tarde, reações semelhantes ao verem Pedro Nuno Santos a anunciar a demissão (uma decisão aplaudida na IL, com gritos de “chora!”, em contraste com os apupos que se ouviram assim que o socialista atacou a “credibilidade” de Luís Montenegro).
Mantendo os mesmos lugares que tinha em 2024 e somando-lhes o quarto deputado por Lisboa, e com sensivelmente mais 11 mil votos do que no ano passado, a IL acabaria a noite com 330.149 votos e 5,53% em percentagem, faltando apenas contar os votos dos círculos da imigração. “Dissemos que íamos crescer, crescemos em percentagem, em votos, e recuperámos o quarto deputado em Lisboa”, celebraria Rocha no palco.
Ainda assim, apesar do clima de festa depois do alívio que a eleição de Jorge Teixeira representou — uma vez que Rocha tinha estabelecido como meta da IL ter “os melhores resultados em eleições legislativas de sempre”, e para isso era preciso eleger pelo menos nove deputados –, o líder dos liberais reconheceu: “Queríamos ter crescido mais, obviamente. Creio que fizemos muito para merecer a confiança dos portugueses. Assumo esse ponto mas fizemos tudo o que pudemos, mas não teria feito nada diferente”.
Com a estratégia que adotou e que agora diz que não mudaria, Rocha conseguiu cumprir a sua meta mínima, mas por pouco e sem conquistar o grupo parlamentar mais forte que acredita que lhe poderia carimbar o passaporte para o Governo. A promessa que deixa agora é de “dignificar o Parlamento”, que mudou radicalmente, embora para a IL quase tudo tenha ficado na mesma.