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Rubel. O príncipe encantado da nova música brasileira /premium

Era uma vez um carioca que lançou um álbum na internet e ganhou milhões de fãs. Agora, troca o conto de fadas por "Casas", o melhor disco MPB de 2018. Em Agosto toca em Lisboa, Espinho e Famalicão.

O epílogo do hexacampeonato, sonho deitado no chão da Rússia, a rebolar, não devia ser a imagem que guardamos do Brasil em 2018. Na contra-maré, este ano também nos trouxe a consagração dos novos cantautores da MPB em Portugal, desde a placitude de Cícero, à harmonia de Castello Branco, e as calças arregaçadas e canções reveladoras de Tim Bernardes. Era óbvio que a predisposição melancólica portuguesa receberia de braços abertos estes filhos de Marcelo Camelo, cariocas e paulistas de violão, a desbravar sentimentos, que parecem por vezes despertar mais emoções nesta terra do fado, que na terra do samba.

Assinalado o devido atraso que o tanto mar nos impõe, convém clarificar que assim como nas quedas aparatosas de Neymar, estes seres encantadores estão a trovar álbuns que já deixaram de enamorar o Brasil, e que a melhor MPB de 2018 tem outro nome: Rubel. Sorte grande, Rubel compre a tradição dos novos cantautores e vem espreitar os colonizadores, no Musicbox dia 10 e 11 de agosto, no festival Devesa Sunset em Vila Nova de Famalicão a 17 e com concerto gratuito em Espinho, no Festival OITO24, no dia 18 de agosto.

A capa do álbum “Casas”, de Rubel

Um carioca perdido na terra dos cowboys, Austin, Texas, a desentrelaçar a corda e a segurar pelos cornos uma inesperada vontade de fazer música, sete canções mais rápidas que a sombra, gravadas em apenas quatro dias, com os colegas da república universitária.

Pearl, álbum de estreia de Rubel, criado durante um intercâmbio em Austin, lançado em 2013 no Deus dará da internet, foi a agulha no palheiro que, surpreendentemente, agradou os muitos navegadores de Bandcamp e Soundcloud (pode ouvir o álbum na íntegra aqui), dois anos depois de estar online. A explicação mais razoável é o brilho de “Quando Bate Aquela Saudade” — balada de 24 milhões de visualizações no Youtube, dedilhar country, acordeão que prepara o terreno à declaração de amor, sem ilusões, que isto das grandes paixões tem tudo para dar errado, nada que não se resolva para um homem prático:

“A gente fica longe
E volta a namorar depois”

[“Quando bate aquela saudade”:]

A história de Rubel podia ser esta, raro conto de fadas na era da Internet. No entanto, o compositor carioca, nascido em Volta Redonda, surpreendeu os fãs e distanciou-se do roteiro de intimista cantautor, interrompeu o presente grandioso, adiou o futuro e começou a olhar para trás, para os tempos de escola, pentacampeonato de 2002, com Ronaldo Fenómeno de estranha meia lua capilar na testa.

Casas, segundo álbum, funciona como uma melodia infinita, circular nas recordações de infância, um único retrato no álbum de fotografias, uma única canção que contamina as restantes 14, de folk com alma eletrónica, repleto de batidas contemplativas, a sonhar acordado com castelos de areia. O timbre em constante loop é uma armadilha narrativa que podia ser apenas o melhor álbum MPB de 2018, mas é ainda uma forma engenhosa de Rubel resgatar da criancice soluções ingénuas, como amar ao próximo, ou apenas amar alguém.

No fim desta viagem nostálgica, quem sabe, pode estar um Brasil menos descrente. Afinal, quando éramos crianças tudo estava ao nosso alcance, até um pentacampeonato.

"Eu tinha um piano em casa, os meus dois irmãos tocavam, apesar de não serem músicos profissionais. Esse piano foi a minha porta de entrada. Ficava brincando muito no piano, um dia meu irmão achou que tinha jeito e decidiu me matricular numa aula de violão, aos 9 anos."

O álbum “Casas” termina com uma ode ao pentacampeonato, mas a canção “Colégio” faz um retrato da sua infância pouco futebolístico: “Dois times jogando bola/ O magrelo pegou com a mão/ Sai logo de campo, idiota/ Melhor ir tocar violão”.
É porque essa canção é a única do disco que não é minha, é do Gustavo Rocha. A verdade é que sou uma pessoa bem desconectada do futebol. A “Colégio” traduz melhor a minha experiência, sempre fui o pior jogador da turma.

Como era Volta Redonda na época do pior jogador da turma?
Volta Redonda é uma cidade do interior, muito menor que o Rio de Janeiro, tudo gira em torno de uma usina siderúrgica. Depois da Segunda Guerra Mundial, num acordo com os Estados Unidos, criou-se a usina, sendo que não existia cidade antes da usina. Volta Redonda é muito sossegado, todo mundo se conhece, são praticamente todos funcionários da usina.

Incluindo a sua família?  
Sim, o meu pai era engenheiro e a minha mãe professora de português.

E a música, como entra nesta história de usinas?
Eu tinha um piano em casa, os meus dois irmãos tocavam, apesar de não serem músicos profissionais. Esse piano foi a minha porta de entrada. Ficava brincando muito no piano, um dia meu irmão achou que tinha jeito e decidiu me matricular numa aula de violão, aos 9 anos. Fiquei totalmente apaixonado pelo instrumento e continuei a estudar violão.

Em “Casas” voltou a este tempo de infância. Porquê?
Por muitos motivos. Este disco foi uma busca musical e pessoal de qual é a minha casa hoje. Cheguei aos 25, 26 anos, com a sensação de não saber mais qual era a minha casa. Então decidi visitar todas as casas que tinha passado, como essa da infância ou da adolescência. Musicalmente também quis brincar com muitos géneros e elementos diferentes para tentar entender onde me sinto à vontade.

[“Colégio”:]

O corpo é sempre o mesmo, uma melodia descansada no violão aliada ao lirismo meloso que deixa verbos no ar, para agarrar na linha seguinte, corte e costura de palavra a palavra numa inventiva facilidade que cabe a poucos na música brasileira. Sim, aqui podia ser um Caetano Veloso, Jorge Mautner, Tom Zé, quem mais ousaria um álbum sobre casas, infraestruturas que nos seguram, e apresentar esta concepção melindrosa num embrulho com lacinho de embalo ligeiro.

“Eu juro, não esperava essa bagunça toda
Carro engarrafado, sono fundo, o coração na boca”

Canta em “Sapato”, com groove suave na sola, a consentir a bagunça que é este querido da folk se agarrar a uma batida de surpreendente persistência. A mesma eletricidade conduz ainda para dentro do “Colégio”, uma variação da batida, e uma certeza inquietante, que mesmo com toda esta tabuada de um mais um, lancheira na mão, toca o sino, sobe e desce escadas, “o mundo não vai te poupar”. A trautear sempre por esta estrada, de tijolos amarelos, enfrenta os infernos presentes na vida adulta, recorda o poder da força enquanto jovem padawan, com qualidades para dar e vender:

“A mente forte de um jedi
A cuca fresca de um pinguim
Os olhos virgens de criança
E a flor de uma mulher”

[“Sapato”:]

Nesta viagem procurou recuperar uma certa pureza perdida?
Sim, queria recuperar uma certa essência do que era meu. Mas aprendi que é impossível recuperar essa pureza, a vida vai mudando e consoante amadurecemos perdemos essa essência. Por outro lado, descobri nesta viagem que não precisamos de ter a amargura da vida adulta.

Não encontrou uma “casa” para chamar de sua?
O que descobri foi que não existe uma casa, existem muitas, somos formados por todas as casas que compõem a nossa vida, as físicas, onde moramos, e metafóricas, que são as pessoas, como a família e namoradas. Demorou para entender que não existe uma única casa para voltar, e ainda bem que assim é, pois cada uma destas casas tem uma função específica na construção da gente.

Muitas destas canções descrevem a crença que tinha em criança. É uma reação ao Brasil descrente de 2018?
Nunca tinha pensado dessa forma [pausa]. Acho que sim, talvez seja importante não renegar esse momento tão triste e obscuro da nossa história, aproveitar o que está a acontecer para entender o que é o nosso Brasil. A grande maioria do Brasil hoje, estatisticamente, é conservadora, existe uma real possibilidade de eleger um Presidente de extrema direita [Jair Bolsonaro], então também temos de conversar com esta casa. Existe uma divisão muito grande, entre esquerda/direita, e se conseguíssemos dialogar talvez pudéssemos procurar soluções para um futuro melhor.

"Gosto muito de discos contínuos, sem pausas. A ideia era que você apertasse o play e o disco o conduzisse do início até ao fim, que pegasse você ao colo, ou como num filme, tivesse uma ação narrativa."

“As lágrimas são como Temer/ Necessário colocar pra fora”. O grito de rua é de Rincon Sapiência, e de tantos outros brasileiros, flow lento, malandro, parceria improvável com o carioca de violão introspetivo, que resulta uma segunda vez com Emicida em “Mantra”, um rapper ainda mais combativo.

A prece a Deus, a São Jorge, de velinha e trompete, na companhia do rapper paulista amigo de Capicua, é uma súplica por alguma união nacional nesta pista desoladora, onde “a gente não consegue nem sambar”. É uma esperança. Como se diz no Brasil, se organizar direitinho todo mundo transa, isto é, que fiquem todos satisfeitos. Qualquer reza incute repetição, mantra, um coro de gente esperançosa, aqui a pedir a “Caetano e Caymmi/ Que nos ilumine”.

A luz que guia o mago Rubel é esta repetição, a mesma manjedoura onde o baiano Dorival Caymmi comia palavras e trocava por singelos refrões e chavões, a ser repetidos até entrar na nossa cabeça o que é que exatamente a baiana tem. Este hipnotismo é o principal truque de Rubel, a carreira das canções passa por nós sem darmos pelas paragens, distraídos, saímos do colégio e estamos com um “Cachorro”, “com pouco de pressa, com muito de fé”, a tentar que o canto “os nós amoleça/ Do pé, do peito do pé, do peito e do coração”.

[“Cachorro”:]

Esta repetição constante dá a ilusão de loop, como se fosse sempre a mesma música.
Gosto muito de discos contínuos, sem pausas. A ideia era que você apertasse o play e o disco o conduzisse do início até ao fim, que pegasse você ao colo, ou como num filme, tivesse uma ação narrativa.

Quando é que percebeu a possibilidade de cruzar a sua música com a linguagem hip hop?
Há três anos comecei a ouvir muito hip hop americano e brasileiro, como Emicida, Criolo, Rincon Sapiência, Kanye West e Chance the Rapper. Fiquei muito fascinado pela forma inovadora que os caras produzem, pelo domínio das palavras, pela poesia. Fiquei pensando se haveria forma de fazer uma mistura da minha música com este universo, e passei dois anos experimentando, tive que aprender tudo novamente. Queria estar entre rap e MPB, mas não queria soar a um experimento, queria uma obra completa.

O Emicida e Rincon não estranharam o tipo de “Quando Bate Aquela Saudade” querer uma parceria?
Eu queria isso, é muito engraçado fazer um troço completamente diferente, sair do lugar de conforto. Posso fazer qualquer coisa agora, um disco de forró. Mas teve gente que criticou, falando que enlouqueci.

Se este disco fosse igual ao “Pearl”, perdia o interesse?
Ficaria chato. A pior coisa que pode acontecer é fazer uma coisa sem paixão, queria fazer o disco que gostaria de ouvir.

O “Casas” é uma reação ao sucesso de “Pearl”?
Sim, eu queria pegar no melhor do primeiro disco e mudar. É um pouco como a nova trilogia de “Star Wars”, ela homenageia os filmes antigos, mas traz elementos novos.

"Estava sem nada para fazer e decidi recuperar o disco. Anunciei na internet que ia fazer um concerto. Comecei a receber mensagens do Sul do Brasil, do Nordeste, a pedir para tocar na cidade deles. O disco não teve assessoria, não teve gravadora. Foi como um viral preguiçoso que demorou dois anos."

“Faz, ou não faz, não existe tentativa”, deve ter pensado o cantor. Usar os ensinamentos práticos do mestre Yoda para gravar um disco, enquanto os restantes colegas da república universitária certamente se entretêm com beer pong ou qualquer outro jogo que termine com ressaca de manhã e desenhos fálicos na testa.

Pearl, álbum de quem quer levar a vida com calma, foi uma surpresa que a internet brasileira revelou apenas dois anos depois do lançamento, numa altura que o próprio compositor já era um homem formado, longe do frenesim musical de Austin, a fazer contas ao fim de mês, sem as corriqueiras preocupações de declamar novas paixões e amizades ao violão.

[“Partilhar”:]

A história invulgar de sucesso do primeiro disco ficou famosa no Brasil. O “Pearl” foi a consequência do ambiente de Austin?
Sim, estava imerso no ambiente musical de Austin, cheio de aventuras, jovens e experiências. Montei o estúdio no quarto da casa, gravei o disco e voltei para o Brasil. Queria apenas transmitir o que passei naquela temporada em Austin, sem pretensão de montar uma carreira. Isto foi em 2013. Os meus amigos e amigos deles, umas 100 a 200 pessoas, ouviam muito o disco e foram aos primeiros concertos.

Certamente já estava muito satisfeito com essa conquista.
Muito, era maravilhoso. Depois achei que tinha sido bom e o disco tinha acabado. Voltei para os Estados Unidos para trabalhar com cinema, fui demitido passado seis meses e voltei para o Rio. Estava sem nada para fazer e decidi recuperar o disco. Anunciei na internet que ia fazer um concerto. Comecei a receber mensagens do Sul do Brasil, do Nordeste, a pedir para tocar na cidade deles. O disco não teve assessoria, não teve gravadora. Foi como um viral preguiçoso que demorou dois anos.

Hoje, uns anos depois, já consegue analisar a razão deste sucesso inesperado?
É difícil, eu chutaria que é a força das canções, são muito poderosas. Já toquei essas músicas de todas as formas, e emocionam sempre. Foi uma bênção conseguir compor estas músicas.  

Não se fala muito de Rubel em Portugal, não se ouve na rádio. Porém, quando anunciou o concerto aqui em Lisboa, no Musicbox, a sala esgotou muito rapidamente e agora está a esgotar a segunda data. As surpresas nunca acabam?
É mesmo? Isso é muito emocionante. Só posso ficar feliz, poder cruzar o atlântico para salas lotadas é a recompensa concreta de todo meu trabalho. Foi um longo caminho, a música independente é uma luta.

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