Sara Tavares: “Estive 8 anos sem fazer nada e não foi só por causa da doença. Estava bué zangada”

10 Dezembro 20172.824

Cresceu no Pragal, mas foi em Cabo Verde que encontrou as raízes. Teve momentos em que a música deixou de fazer sentido; mesmo assim continua a viver para cantar. Sara Tavares em entrevista de vida.

O Chuva de Estrelas ficou para trás e Sara nem quer falar muito sobre isso. A conversa no Botequim da Mouraria, na Graça, é pontuada pela sinceridade, mas o verdadeiro entusiasmo surge, isso sim, quando fala em “Fitxadu”, o álbum de originais lançado em outubro deste ano, e na equipa que trabalhou com ela. Conductor (dos Buraka Som Sistema), Loony Johnson, N’du, foram alguns dos que lhe cederam os estúdios e emprestaram o seu talento para ajudá-la a aventurar-se um pouco no mundo da eletrónica. É uma Sara Tavares como nunca a vimos que regressa assim eletrizada — em disco e no palco.

Sara reencontrou o prazer de compor e cantar, depois de um período conturbado. Um tumor benigno no cérebro forçou-a a parar em 2009, mas antes disso já a exaustão se tinha instalado. Havia algum desencanto, algum incómodo. A cantora, que não gosta da ideia de ser “um livro aberto para estranhos”, ainda procura o equilíbrio de se mostrar ao público sem ter de se despir totalmente. Mesmo assim, levanta um pouco a cortina nesta entrevista: fala da infância como maria-rapaz, de como fez as pazes com o seu passado ao conhecer os avós em Cabo Verde, do desconforto que sente com a máquina da World Music.

Fala, também, do enorme prazer de cantar e de estar a “lixar-se para tudo o resto”. Aos 39 anos, Sara Tavares já não é a menina tímida do Chuva de Estrelas, que ouvia e cantava Whitney Houston. Cravou o seu próprio caminho e hoje procura fugir das etiquetas fáceis. Já se sente mais à vontade para dar as suas opiniões, seja sobre que tema for: “A Madonna vem para aqui e acha que tem de conseguir o visto. Mas tu consegues um visto na América assim? Eu quando tenho de ir lá tocar passo as passas do Algarve para conseguir um visto”, comenta, entre risos, ligeiramente irritada com o que crê ser a sobranceria “do Ocidente”. Gostava de ver uma “coligação lusófona” e enerva-se com o estado do mundo; mas não há nenhuma irritação, nenhuma ferida, que não passe quando fecha os olhos e põe um disco de Stevie Wonder a tocar.

Sara Tavares assumiu desde logo a informalidade da conversa que começou de imediato por “tu”.

Cresceste no Pragal, Almada. O que recordas mais da tua infância ali?
Recordo-me de brincar muito, muito, muito. Dos amigos e da minha avó, claro, personagem incontornável.

Eras muito maria-rapaz? Li que jogavas muito à bola.
Super! Achava as raparigas uma seca. Achava-as muito maricas. No Pragal, precisamente, a frente do Cristo Rei dava para o rio e então havia aquelas ribanceiras. Mas era um bocadinho perigoso, então as raparigas não tinham muita coragem. Eu ia e era muito fixe. As crianças têm uns anjinhos que as protegem, não é?

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

E o futebol?
Eu levava muito a sério. Fui federada. Joguei em três clubes: no Figueirinhas em Cacilhas, no Pombal, que era mais no centro da Almada, e depois joguei futebol de 11 nas Terras da Costa. Aí foi quando desisti. O campo no futebol de 11 é muito grande, eu sou pequena, era um esforço muito grande. Tinha para aí 15 anos.

Mas esse gosto pelo futebol ficou, ainda acompanhas?
Por acaso não gosto de ver futebol. Mas gostava muito de jogar, tinha muito prazer em jogar. Sonhava com golos. Gosto de ver os campeonatos do Mundo e Europeus, mas de resto não vejo. Vejo outros desportos, os Jogos Olímpicos… Eu gostava era da sensação da ação. Também pratiquei atletismo, tinha muita velocidade quando era pequena.

E em casa, com a tua avó [dona Eugénia, que a criou como neta], que bons momentos recordas dela?
Tive uma infância normal. Apesar de não ter crescido com os meus pais, foi normal. Fui à escola, à creche, voltar para casa….

Onde jogavam dominó, não é?
Ah sim, jogávamos dominó. Não tínhamos televisão em casa, então os serões em vez de serem passados a ver televisão, eram passado a jogar dominó ou cartas.

Já nessa altura cantavas muito ou foi uma coisa que surgiu depois?
A memória mais antiga que tenho de cantar foi para aí com 9 anos. Cantava bastante quando chegava a casa, depois de fazer os trabalhos de casa.

Eras boa aluna?
Era, gostava. Aliás, há dias estive a puxar ali no meu Instagram uma imagem que partilharam da escola primária e aquelas fotos da turma. Eu estou lá com um grande sorriso! A 1ª classe é uma coisa que adoramos todos. Aprender a escrever… Adorei a escola. Só na 2ª classe é que não gostava porque mudei de professora e era uma professora mais à moda antiga, que ainda dava com a palmatória. Era mais arcaica. Usava métodos um bocado à Hitler, um bocado estranhos [risos]. A partir daí já foi uma relação mais estranha com a escola, mas de qualquer maneira gostava muito. E como não tinha irmãos em casa, gostava muito de ter aquela gente toda para brincar no recreio.

Era a oportunidade para ir descer pela ribanceira abaixo…
Isso era depois das aulas, quando já estava em casa e já podia ter ordem de soltura. Naquela altura ainda podíamos brincar na rua, pelo menos no Pragal. Havia muitos campos abertos, as nossas mães e pais deixavam-nos andar tardes inteiras. Nas férias de verão podíamos ir até à Costa a pé e voltar, e ninguém sabia onde é que andávamos. Era incrível, não nos acontecia nada. Era: “Às tantas horas tens de estar aqui”. E nós íamos, voltávamos, pintávamos a manta… [risos].

O que é que faziam? Davam só uns mergulhos?
Olha, pescávamos!

Quem te ensinou?
Ensinávamo-nos uns aos outros, arranjávamos umas canas, com aquelas plantinhas, as espigas. Pegávamos nas canas dos canaviais e depois aquelas espigas punhamos nas canas e fazíamos uns lacinhos. Às vezes passeávamos lagartos com aqueles lacinhos, apanhavas o lagarto, punhas o laço no lagarto e passeavas o lagarto. Fazíamos carrinhos de rolamentos, a descer desde o Cristo Rei cá para baixo… O Pragal é um monte. Então vinhas, vinhas, vinhas, vinhas, “desviem-se!” e tal, uns a correr atrás uns dos outros. Emprestavam-se bicicletas… Nunca tive uma bicicleta, mas os meus amigos emprestavam uma bicicleta para 10 e cada um ia à vez. Havia umas cabanas que fazíamos no meio do mato, havia um pub… Na horta do avô de um amigo meu, ele tinha construído com umas madeiras. E o que é que havia dentro do pub? Ele tinha lá uma telefonia e umas latas de sumo. Era um pub! E tinha escrito pub na porta e só uns é que podiam lá entrar, tinha porteiro.
Ainda tenho cicatrizes… Subíamos às árvores, depois caía e ia para casa muito caladinha deitar-me. A minha avó percebia logo: “Estás deitada. O que é que aconteceu?” e eu “Nada, estou com sono”. Sono às três da tarde…[risos].

E quando chegavas a casa com as cicatrizes, ouvias?
Ela ralhava-me muito. E desenvolveu o sentido argumentativo em mim. Nunca me deu, nunca me bateu. Mas ralhava muito, às vezes mais valia que me desse uma palmada.

Mas também compensava se calhar com outros carinhos?
Era muito fofa. A minha avó era muito fofinha, mesmo.

Li uma entrevista em que dizias que apesar de tudo te sentias um bocadinho diferente, por a tua avó ser branca e tu não [não tinham laços de sangue]. Era algo em que pensavas muito?
Eu achava normal, mas sentia que havia algo… Do lado dos bairros — o Bairro Branco, o Cor de Rosa, o Amarelo — viviam os africanos todos. E eu vivia deste lado. Quando andava na escola primária, andava com o pessoal do Pragal, depois comecei a andar na preparatória e no liceu. E no liceu automaticamente tive muita empatia com o pessoal africano. Comecei-me a aperceber de muita coisa, do quão eram marginalizados… Coisas básicas. “Como é que tu não sabes cuidar do teu cabelo?”, perguntavam, e eu dizia “a minha avó não me sabe pentear”. Não havia uma mãe ou uma tia que soubesse tratar dele.
Comecei-me a aperceber também que as outras pessoas do Pragal não me marginalizavam a mim, mas marginalizavam os outros dos bairros. “Estes pretos vêm para aqui fazer confusão!” E eu comecei a pensar, comecei-me a aperceber das diferenças. “Mas tu não és, tu és quase branca”, diziam.

Nessa altura tinhas 15, 16 anos?
Foi na adolescência, sim. Aos 18 saí do Pragal porque a minha avó faleceu e vim para Lisboa. Vim a aperceber-me disso também noutros sítios, noutros lugares, que havia racismo até em Cabo Verde, entre os próprios cabo-verdianos, porque uns são mais claros outros mais escuros. O racismo não vem necessariamente da cor da pele, vem da estupidez. Da ignorância.

"Comecei-me a aperceber também que as outras pessoas do Pragal não me marginalizavam a mim, mas marginalizavam os outros dos bairros. “Estes pretos vêm para aqui fazer confusão!” E eu comecei a pensar, comecei-me a aperceber das diferenças. “Mas tu não és, tu és quase branca”, diziam."

Foi ao conheceres esses novos amigos que começaste a pensar sobre isso?
Sim, ao conhecê-los e ao visitar a casa deles, a ver as condições em que viviam. As pessoas dizerem que os prédios deles estavam todos estragados, que eles eram uns selvagens… Eram factos, nenhum daqueles prédios tinha elevador a funcionar. Mas tinha a ver com a segregação, tinha a ver com as condições de vida que eles tinham. A mãe estava a trabalhar no Estoril, se fosse preciso, ou na Baixa da Banheira, e tinha de sair tipo às cinco da manhã de casa e voltava à noite. Deixava os putos sozinhos o dia inteiro em casa. E eles vão fazer o quê? Pintar a manta, como nós fazíamos. Nós no Pragal não tínhamos elevadores, íamos cavar buracos nas hortas dos outros ou roubar os pintos das capoeiras. Eles tinham elevadores. Mas eu tive uma infância muito feliz, bastante rica… Tive a riqueza de estar muito perto da cidade, do campo, da praia.

Como é que surgiu a ideia de participar no Chuva de Estrelas? Alguém te disse ‘vai lá’?
Apareceu o anúncio na televisão. E eu tinha uma melhor amiga — que tenho, ainda — que me disse para mandar uma cassete.

Foste de autocarro para lá, não foi?
Apanhava-se o barco de Cacilhas para o Terreiro do Paço e depois autocarro. Fui com um vizinho, porque era preciso assinar um termo de responsabilidade e eu era menor. Ia contente.

E quando o programa acabou, tinhas alguma coisa pensada sobre a música que querias fazer?
Não, naquela altura nem sequer tinha pensado nisso, estava na escola, não tinha pensado na profissão que era possível ter. Até porque nem terminei o liceu. Ficou por decidir, a escolha fez-se por si. Ao longo dos anos, quando chegou aquela altura de ter ganho o concurso e a oportunidade… O prémio era fazer um disco, era um automóvel e um disco. Na altura o A&R da BMG [era Tozé Brito, responsável do departamento Artistas e Reportório da editora] dava total liberdade de fazer o disco que quiséssemos. Lembro-me de ele me ter dito: “Se quiseres fazer um disco de assobio, podes fazer um disco de assobio”. Era mesmo livre.

E isso foi bom ou bloqueou-te?
Não me bloqueou. Eu de facto sonhava muito em casa, cantar por cima dos discos era uma coisa que me dava muito prazer. E antes de ir ao concurso cantava na Igreja, portanto era uma coisa que eu sabia que me dava muito prazer. Achava que não era possível fazer uma vida profissional disso, mas sonhava. Então achei que tinha de aproveitar a oportunidade de uma maneira que me fosse autêntica, a ver se plantava ali algo a sério que desse frutos. A única coisa que me lembrei que fosse real foi cantar gospel, que era o que eu fazia de mais verdadeiro, a cantar na Igreja. Então o primeiro disco que fiz foi “Sara Tavares e os Shout”. Mas depois voltei à escola, porque sabia que o gospel não era uma coisa vendável, não tinha um circuito… Mesmo dentro da Igreja — porque há um circuito dentro da Igreja onde se pode fazer carreira, porque é grande –, eu não queria. Eram as minhas referências musicais, mas não eram uma referência de profissão.

Sara Tavares e os Shout, em 1996 (D.R.)

Querias fazer outro tipo de percurso?
Queria, mas não estava bem decidido. Eu também gostava muito de desenhar… Por isso tive de voltar à escola para ver se pensava melhor. Então fiquei dois anos à noite, mas a BMG chamou-me para fazer outro disco, já fora do âmbito do prémio. E depois tive de pensar mais a sério. Aí quis ir a Nova Iorque, porque identificava-me com a Lauryn Hill, com esses cantores do RnB, do hip-hop.

Que aqui não havia muito.
Que aqui não havia. E pensei: “Com quem me identifico? Gosto daqueles. Onde é que eles fazem música? Ali. Quem são os produtores? São aqueles.” E falei com o A&R outra vez e disse: “Olha, gosto destas pessoas e gostava de trabalhar com quem eles trabalham.” E ele disse-me: “Essa cena é completamente fora da caixa e acho que não vai ser possível.”

Porque não havia mercado para isso em Portugal?
Não há. “Estás a ser miúda, mas se quiseres pago-te um bilhete e vais à tua responsabilidade”. Ele não se responsabilizou, só pagou o bilhete. Eu fui lá à BMG, bati à porta do A&R de lá e tal e reuni-me com o tal produtor que eu gostava da Lauryn Hill.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Quem era o produtor?
Chama-se Andre Slevin. É latino, já não me lembro se é mexicano, se cubano. Falámos e ele achou que eu não tinha material, canções feitas. Mas tivemos umas conversas super fixes. Comprei umas guitarras, falei com o A&R também… Ele disse “tens de trabalhar com o Clive Davis, com o Baby Face, são os produtores da Whitney e da Toni Braxton”. E eu depois pensei “não!”. Comecei a sentir: “Sou bué lisboeta, afinal não”. Estava ali a ver-me em Nova Iorque, em Times Square, fui visitar as igrejas, fui ver gospel e pensei: “Ya, fixe. Mas não sou daqui”.

“Absorvi, gostei, mas não é para mim”.
Porque, tipo, estás sentada com eles [produtores americanos] e perguntam-te: “De onde é que tu vens?” E tu tens de dizer “venho de Lisboa”. “O que é que falas?”, “Português”. “O que é que tens na mala?” e automaticamente tu queres mostrar o que tens na mala. Foi aí que comecei a fazer um rewind e a dizer “olha, eu tenho de partilhar o que tenho de meu”. Comecei a pesquisar outros produtores, outras músicas e comecei a procurar os artistas afro-francófonos. E anglófonos, mas sempre afros. O Salif Keita, o Omou Sangaré, a Miriam Makeba… Naquela altura eu conhecia a Whitney Houston mas não conhecia a Miriam Makeba! Erros crassos.
Então comecei a fazer essa pesquisa toda e fui dar a um produtor congolês, o Lokua Kanza. Fiz o primeiro disco meu de fusão, que foi o “Mi Ma Bô”. Esse foi o disco que tinha a pretensão de ser lusófono, afro-europeu, mas acabou por ser uma coisa muito francófona.

Por influência dele também…
Muito por influência dele, porque ele tinha 20 anos a mais do que eu. Foi tudo feito em França, por músicos franceses e africanos — muitos congoleses, muitos das Antilhas… Não foi feito com músicos portugueses. Aprendi muito sobre o estúdio, como se monta um disco e depois apliquei isso no “Balancê”. Acho que a partir do “Balancê” é que encontrei uma linguagem.

"Mi Ma Bô", disco de ouro (D.R.)

Foi a tua grande explosão, dentro e fora de Portugal. Nomeada para vários prémios, disco de platina… Como é que foi o disco ter aquele sucesso, estavas à espera? Sentias-te realizada com aquele disco?
Eu estava super feliz. Aliás, quando vejo as fotos, até no tamanho do cabelo que eu tinha…. Tenho umas grandes dreads, estava saudável, estava feliz. Andava a tocar guitarra bem, estava cheia de saúde.

As coisas parecia que encaixavam?
As coisas estavam a encaixar, tinha músicos muito bons à minha volta. Estavámos a entender-nos bem. Até tinha uma lenda da música de Cabo Verde a tocar comigo guitarra, o Boy Gé Mendes, um cantor que eu admiro imenso. É uma influência, para mim, gigante. Tem um reportório lendário em Cabo Verde, e estava a tocar guitarra de acompanhamento na minha banda!

Como é que surgiu essa participação dele?
Ele era muito meu amigo e eu ia aos concertos dele. Quando ele vinha a Portugal às vezes ficava na minha casa e eu pedia-lhe para me ensinar coisas na guitarra. Fazia canções e pedia-lhe para desenvolver essas próprias canções na guitarra. E depois às tantas estávamos muitas horas a completar as minhas guitarras e depois gravávamos. E eu estava também a ajudá-lo a fazer as maquetes dele, porque também tenho esse lado, tenho uma logística boa. Ajudo muitos dos meus colegas a organizarem as canções deles, a gravar… Tenho disponibilidade. Consigo passar dias com eles, “agora vamos fazer isto”, “agora vamos fazer aquilo”… Se calhar não sou assim para mim, mas sou para os outros. E fiz muito isso para ele.

Dá-te gozo ajudares alguém a compor e a organizar?
Dá-me muito gozo. Porque quando alguém é muito talentoso, tu também queres… Porque o Boy Gé, por exemplo, é muito talentoso, mas não se consegue organizar. E eu vou lá arrumar que é para poder ouvir! Sou madrinha do filho dele, passámos muitas horas juntos e de repente passámos a ter prazer a tocar juntos. Daí a passar para o palco foi um instante.
Eu estava muito contente com o “Balancê”. Acabámos por trabalhar mais, mas estávamos com uma editora que ao princípio foi muito positiva na relação com eles, que era a World Connection, uns holandeses. E foi fixe trabalhar fora de Portugal, demos a volta por fora. Estava a ser neutro, não estava a ser tratada como um produto português, nem como um produto cabo-verdiano, estava a ser tratada como música.

Não te sentiste posta numa caixinha?
Não. Eles fizeram esse trabalho bem. Estavam a trabalhar também com a Mariza e vimos o trabalho que fizeram com ela, porque tinham uma visão neutra. Se calhar se a Mariza tivesse sido divulgada ou comercializada por uma editora portuguesa teriam logo tido alguns bloqueios, porque a Mariza é africana, a cantar fado. Bloqueava-os logo. A Cesária nunca fez a carreira dela… Tentou muitas vezes passar por Portugal, mas foram os franceses que a deram a conhecer ao mundo. Às vezes há bloqueios. Já conheces um amigo e sempre conheceste o teu amigo louro; de repente custa-te ver o teu amigo com outros olhos.

"Vi a Cesária Évora no aeroporto. Foi de cadeira de rodas lá fora fumar. E a primeira vez foi precisamente 'olha, esta é a Sara, conheces a Sara?' e ela 'sim, perfeitamente, podes ir comprar-me um maço de cigarros?'. A primeira vez conheci-a com o cigarro e a última vez que a vi também." 

Achas que isso acontece em Portugal com as editoras?
Às vezes não têm sequer a elasticidade ou o dinheiro… Muitas vezes são sucursais das outras editoras internacionais. Temos estado a assistir nos últimos 10 anos, 15 anos, a muitas editoras a fechar.

Falaste ainda há pouco da Cesária. Chegaste a conhecê-la?
A primeira vez que estive com a Cesária tinha p’ra aí 15 anos. Estivemos juntas várias vezes ao longo dos tempos. A última vez que a vi foi há uns anos, antes de ela falecer. Parece que não faleceu… Via-a no aeroporto. Foi de cadeira de rodas lá fora fumar [risos]. E a primeira vez foi precisamente “olha, esta é a Sara, conheces a Sara?” e ela “sim, perfeitamente, podes ir comprar-me um maço de cigarros?” A primeira vez conheci-a com o cigarro e a última vez que a vi também. Dessa vez ela pediu à Ana Zé, que é a produtora dela, para me dar um disco que ela gravou na rádio de Cabo Verde quando era muito novinha, o primeiro disco que tinha gravado. É um disco em que ela tinha uma voz super diferente, muito simples. E ela era um doce. Era como dizia, um copo de água. Uma pessoa super transparente.

A tua ligação a Cabo Verde… Quando é que foste lá a primeira vez?
Tinha 16 anos.

E quando é que começaste a sentir “há coisas aqui onde me revejo”?
Cabo Verde exigiu-me que fizesse parte da minha música. Cabo Verde sentou-se no meu colo: “Estamos aqui, somos parte de ti. Fala em crioulo por favor, canta esta morna.” Eu estava uma vez em casa e o Paulino Vieira, que é só um grande génio de Cabo Verde, ligou-me para casa e disse: “Preciso que te encontres comigo porque preciso de te falar de umas coisas”. Fui ter com ele e ele ensinou-me p’ra aí 10 canções que fazia questão que eu soubesse. Eram músicas de embalar, outras eram mornas… Eram 10 clássicos de Cabo Verde que eu tinha de saber! E a primeira vez que fui foi a convite do Cavaco Silva, numa visita oficial, cantar com uma banda de lá, os Tubarões. Toda a gente se organizava para me ensinar crioulo. Era o Bana, a Cesária, a Celina… Os grandes todos à minha volta, com muito carinho, a ensinar-me. Não é “queres que Cabo Verde faça parte da tua cena?”, é “nós fazemos parte”.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Isso foi bom ou sentiste que foi imposto?
Em relação à infância, em que às vezes me tinha sentido confusa e até… Até não era tanto por causa do racismo, era a ausência dos meus pais. De repente o país inteiro eram os meus pais. E eu dizia tipo “ya, obrigada” [risos]. Em Cabo Verde às vezes tens problemas em chegar ao fim de um dia e não estares enjoado — dão-te tanta comida, tanto afeto, que às vezes tens de te resguardar para não ser demais. De facto colmatou aquela cena que eu sentia de não pertencer a lado nenhum. Tu sais do avião em Cabo Verde e és de lá. Mesmo que não sejas de lá! Já foste a Cabo Verde?

Não.
As pessoas adoram-te. Porque o pessoal é bué simpático, mesmo. Há um ou outro que é mais brincalhão, de uma forma mais reguila, mas são super simpáticos. Então os mais pobres… Têm sempre de te dar um ovo, um pacote de leite, um sumo, uma fruta.

“És uma de nós agora.”
Não sei se é aquela coisa de ilhéu ou de terem tanta necessidade de sentirem novidades de fora. Tu és uma novidade, tu trazes uma camisola nova, um dizer novo. És um telejornal em forma viva. Eles têm uma forma de te agradecer isso.

E de que forma é que isso passou para a música? O que é que agarraste?
Tive o privilégio de conhecer muitos dos escritores, muitos dos atores, pessoas da cultura de Cabo Verde. E só vim a perceber mais tarde o quão relevantes eles eram para a cultura de Cabo Verde. Estava sempre com um bloco. Era muito tímida, então estava sempre a tomar notas. Não percebia o que as coisas queriam dizer, porque não percebia o crioulo todo, principalmente o de Santiago, que é um crioulo mais parecido com o português arcaico. Não percebia algumas expressões e apontava e depois ia perguntar o que é que queria dizer. E tomei sempre muita atenção.
Fui conhecer os meus avós ao interior da ilha e percebi muita coisa. Percebi a ausência do meu pai. Percebi que a minha avó é igual ao meu pai só que em mulher, era fotocópia. Mas também era o inverso do meu pai, era de uma doçura… O meu pai é muito ácido. Ela era o reverso da mesma moeda. E percebi porque é que as famílias cabo-verdianas são tão disfuncionais, que 90% das crianças são educadas pelos tios, pelos avós, porque é um país de emigração. E são os emigrantes que alimentam os que estão lá. Portanto ajudou-me imenso a fazer as pazes com os meus pais. Na minha música, passou a ser uma música não só espiritual, de fé, mas concreta. Eu agora sinto isto, não sinto isto no futuro.

“Já sinto isto”?
E dou valor a isto. E estou mais em paz. Depois com a coisa da World Music… Já são coisas diferentes. Tive de aprender a lidar… São outros quinhentos, a cena da World Music.

"Fui conhecer os meus avós ao interior da ilha e percebi muita coisa. Percebi a ausência do meu pai. Percebi que a minha avó é igual ao meu pai só que em mulher, era fotocópia. Mas também era o inverso do meu pai, era de uma doçura… O meu pai é muito ácido. Ela era o reverso da mesma moeda." 

Não gostas de ser posta debaixo desse chapéu?
É um termo muito pejorativo, muito pernicioso.

Porque mete no mesmo saco coisas muito diferentes?
A World Music é supostamente a música do Terceiro Mundo. E não é o Terceiro Mundo que manda na World Music. Continua a ser o Ocidente, que é dono das editoras, das agências, dos festivais… E que define o que é a World Music. Continuam a ser os media, que dão as cinco estrelas aos discos. Eu achei o máximo, a primeira vez que ouvi o termo. Porque achava que era a música global, a arte universal. A arte da fusão. Mas não. É turismo sem sair, é o turismo que vem até nós. A música da Somália… Em vez de sairmos daqui do Botequim, vem até nós. Ou seja, não pode ser um somali moderno, tem de ser uma coisa de folclore. E aí é que a coisa se torna perniciosa. Via-me sempre a ter de responder ao “vem de Portugal? Então, fado?” Cabo Verde: “Cesária?” E eu dizia não. Então… “You’re not authentic.”

Disseram-te isso?
Um monte de vezes. E tu gastas muita energia. “Não, não, não, não, não.” Mas as pessoas não têm de saber… E às tantas “ok, tenho de simplificar”. Mas porque é que eu tenho de me simplificar? Parece que tens de travar o teu desenvolvimento para poder acompanhar o metabolismo do teu consumidor. Eu lia muitas críticas a outros músicos, como o Richard Bona… “Está a tentar ser o Marcus Miller”. Está a tentar? Porque é que ele não pode tocar jazz? Não pode ser moderno? O Marcus Miller pode viver no ano 2017, mas o Richard Bona tem de se manter no ano de 1997. Why? Zanguei-me muito. Por isso é que estive oito anos sem fazer nada, não foi somente por causa de doenças. Fiquei bué zangada com isto. As pessoas ficavam impressionadas porque eu falava bem inglês… What the fuck? [risos].

Há essa incompreensão na World Music mas também se estende a outras áreas, é isso?
Completamente. Isto é só a banda sonora do que se está a passar. A crise dos refugiados, a crise climatérica… Para mim o kuduro é a banda sonora da Guerra Civil em Angola. O facto de os governos serem aliados a favor do capitalismo e não da qualidade do planeta ou da qualidade de vida do ser humano… Não tem lógica.

Foi sobretudo essa irritação que te fez parar? Li que à altura dizias que o ritmo estava a ser muito intenso… Sentiste-te sugada pela máquina?
Eu parei em 2009. Em 2010 retomei, mas nada parecido com que era. Mas eu parei de urgência, tive um tumor no cérebro. Tive de ser operada.

Ou seja, se não fosse isso não terias parado?
Sim, iria cumprir a agenda. Mas teria de ter parado mais cedo ou mais tarde, porque tinha muitas crises de cansaço. Já estava a dar muitos sinais de exaustão. Mas porque gostava muito e na vida é-nos ensinado que ser campeão é que é bom, continuava a puxar por mim. E porque também estava a ir a sítios fantásticos, a conhecer malta fantástica. Tinha o peso de estar a alimentar uma equipa… A Cesária viajou até ao fim, há imensos exemplos de músicos que fazem até ao fim e às vezes não é por eles, é porque uma equipa que não ganha direitos de autor depende deles. Pesa-te. E é lixado. As pessoas compram bilhetes, são dinheiros irrecuperáveis. Mesmo que tenhas um atestado médico que te permita não cumprir esse compromisso, as pessoas perdem dinheiro. E podia estar outro artista naquela sala. Então quando dizes “não vou”, pensas em tudo isso. Não sou exatamente um artista de rock

Mas tiveste de parar, não foi uma escolha.
Não. E foi um alívio. Acho que foi a maneira que a vida arranjou de me aliviar.

Na tour pelos Estados Unidos, em 2007, durante o período mais intenso de trabalho da sua carreira (D.R.)

Nesse momento em que soubeste que tinhas de ser operada, pensaste que ias poder voltar à música?
Na altura conversei muito, procurei muitos médicos e descobri logo com quem podia tratar-me. Explicaram-me logo que era resolúvel, havia a operação e um tratamento pós-operatório. Voltei ao trabalho nove meses depois.

Apesar de tudo foi uma coisa rápida. Mas houve ali um período em que achaste que podias perder a fala, não foi?
Eles explicaram-me que se tirasse tudo o que tinha na cabeça, ia ficar sem a função da fala. O cérebro está cheio dos nossos comandos, se tiras uma coisa, vai alguma coisa à vida.

Para uma cantora, receber essa notícia… O que é que pensaste?
Há uma coisa que se chama plasticidade do cérebro. O cérebro recupera ao longo dos anos. Não é certo, mas ele pode recuperar as ligações. Se o caminho passa por aqui e tu fazes um corte aqui — e deixas de ter essa função — ele pode reconstruir esse caminho. Por isso é que as pessoas fazem terapia quando têm um AVC, por exemplo, e conseguem às vezes voltar a ter essas funções.

Quiseste acreditar que isso podia acontecer, que tudo ia correr pelo melhor?
Sim. E deram-me muita fé que se podia fazer. E não tive problemas!

Nove meses depois estava tudo bem. Mas não voltaste logo à música, pois não?
Nove meses depois estava a fazer um concerto.

Mas não um álbum [não gravou nenhum álbum entre “Xinti”, em 2009, e agora o “Fitxadu” em 2017].
Ah, sim. Mas gravei coisas com outras pessoas. Fiz viagens, fiz uma peça de teatro para crianças, que é o Bom Feeling. Comemorei os 20 anos de carreira no S. Luís…

No espetáculo dos 20 anos de carreira (ALFREDO MATOS)

Aproveitaste para fazer outras coisas que te apeteciam não tão amarradas ao calendário. Essa paragem forçada deu-te mais à vontade para fazeres as coisas conforme queres?
Sim. A palavra ‘fitxadu’ quer dizer… A tradução em inglês é mais fiel do que em português, é “close“, “close to my heart“, “perto”. ‘Fitxadu’, apertado no meu coração. Deu para voltar a trazer a música para perto, trazer o controle para perto. O controle do prazer, o centro do prazer. De certa forma também fechar aquela coisa da chateação. Houve uma altura aí há dois anos que me lembro de fazer um concerto em Cabo Verde, no Crioulo Jazz, e ter dito à minha manager e aos meus músicos: “Olhem, só vos quero dizer que vou deixar de cantar.”

Eles ficaram a olhar sem perceber, não?
Não, eles disseram “a gente entende”. Porque eu estava sempre muito zangada na estrada. Disse: “Assim não vale a pena, estou sempre de fronha”. Eu gosto que os artistas que vou ver estejam contentes. Acho que estão a fazer um ‘desserviço’… Ou então estão ali armados em bonecos, estão a rir e de facto estão a fazer um esforço para rir. Isto faz algum sentido? Então disse “era só para vos dizer que vou deixar de cantar” e até me deram palmadinhas nas costas! Todo o mundo disse: “Tenho muita pena, mas entendo”. E a partir dali, o facto de ter dito aquilo iniciou outro processo fixe. Porque eu disse: “Não quero!”

Porque expressaste essa raiva?
Não é a doença que te tira a voz. Já muito depois disso disse “tenho voz, mas não me apetece”. Tenho uma carreira e tenho esta possibilidade profissional que me faz pagar renda e que me alimenta, mas não quero.

Porque é que não te apetecia?
São muitas coisinhas. Às vezes é a expectativa das pessoas, irritava-me. É seres um livro aberto para estranhos, às vezes. Eu sou muito fechada. E qualquer estranho se mete na rua, tu não tens maneira de te proteger. Se uma pessoa é educada diz “bom-dia, Sara”. Se uma pessoa é peixeira diz-te “eh pá, não falas a ninguém?”. Eu estava farta disso. Assim que punha o pé na rua… Por exemplo, quando tinha o cabelo cortado [por causa da operação], muita gente me dizia “estás gorda, ficavas muito melhor com o cabelo comprido”.

Diziam-te isso na rua?
Sim. E naquele estado frágil, em que ninguém sabia o que se passava… Não há carreira que pague isso. O que é que dá o direito de chamarem [sussurra] filho da puta ao Ronaldo? O que é que dá o direito a ti de chamares nomes? Tu não conheces! Fartei-me. Comecei a fazer contas, “até posso ganhar xis de direitos de autor, ou de cachet“, mas se calhar mais vale ser massagista, ter uma horta e ganhar menos. Havia pessoas que entravam no Facebook e diziam: “Gostei de tudo. Mas gostava mais do cabelo assim”. Eu a falar disto ainda me sinto defensiva, acho que ainda se sente. Porque quando fazes música, não vendes só música. E principalmente o público não está educado para… Mesmo em família, eu sento-me a ver televisão e os pivots dos telejornais, as pessoas dizem logo “ai esta está despenteada, o que é que lhe deu para vestir assim hoje? Está gorda! Está velha!” [risos] Tu conheces algumas jornalistas do telejornal desde muito novas, começas a vê-las a tapar a barriga na televisão… É triste envelhecer em público.

E o que é que te fez agora dar o clique e querer voltar?
O Stevie Wonder [sorri]. Eu oiço o Stevie Wonder e que se lixe o resto. O Stevie Wonder continua a dar-me muito prazer, o Bob Marley continua a dar-me muito prazer, fecho os olhos e oiço a Cesária ou a fadista aqui de Alfama e ela está-se a lixar para o resto. E eu tento fazer o mesmo.

Como é que foi regressar a estúdio tanto tempo depois?
Fiz muitos processos antes de chegar a este disco. Fiz muitas famílias de canções até chegar a esta famíliazinha pequena. Tinha muitas canções, fui diminuindo, fui fazendo outras… Riscava, riscava, riscava. Tive três pessoas-chave com as quais compus — bem, uma não, que é a minha manager –, as outras foram o Kalaf e o Double. O Double é um rapaz do hip-hop e o Kalaf deves saber quem é. E o N’du, que fez a pré-produção comigo. Eles ajudaram-me a fazer um conceito, a escolher as canções, a esculpi-las. Para cada canção tinha várias letras, vários textos.

Em estúdio, durante as gravações do “Fitxadu” (D.R.)

Deste uma entrevista ao Público em que falavas que quiseste ir procurar as várias “Lisboas africanas”, que não estão por vezes tão presentes na rádio. Onde foste?
Este disco foi feito entre Santos — a sala era na Rua da Boavista, chamava-se Boavista 77 –, Massamá, Cacém… Procurei mais uma rede de amigos, não fiz questão de afirmar nada em especial, a cena foi fazer um team work. Fiz questão de usar esta gente que está toda aqui, com o plus de usar a eletricidade, porque acho que cada vez mais o pessoal da música eletrónica está a ganhar terreno.

"Fartei-me. Comecei a fazer contas, 'até posso ganhar xis de direitos de autor, ou de cachet', mas se calhar mais vale ser massagista, ter uma horta e ganhar menos."

E cada vez mais a música que se pensa que vem da África lusófona é feita cá. Como na altura a música eletrónica que tocava em África era feita na Holanda — pá, o Tó Semedo, os Quatro, os funanás e as kizombas da vida eram feitos na Holanda, porque os grandes produtores estavam lá a viver. E agora, o Nélson Freitas, o C4, o Matias, o Yuri da Cunha… Cá são responsáveis por grandes hits e pensa-se que é feito lá em Angola. Os panos que compras no Senegal, se fores lá ver, são “Made in Amsterdam” [risos]. Isso é irónico e é engraçado. Lisboa está a ser um entreposto bem fixe e bem rico. Temos de valorizar isso. O disco podia-se chamar “Made in Lisbon”. Na linha de Sintra, na Apelação, na Baixa da Banheira, no Barreiro… Aí é que estão os grandes produtores da música de dança. E estão mesmo a fazer grandes cenas. A malta pensa que são gajos estrangeiros, mas não, vêm de Massamá e da Reboleira e produzem música no home studio deles. Portanto, “Made in Lisbon”.

Estás preparada para voltar a subir ao palco?
Estamos a ensaiar e já fizemos dois concertos. Estou mais do que preparada. A malta está-se a divertir bué a reinterpretar o disco.

E voltaste a divertir-te a cantar?
Completamente.

Texto de Cátia Bruno, fotografia de João Porfírio.
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