Cecília Arraiano será a primeira mulher a presidir a Academia Europeia de Microbiologia. A partir de 2026, a investigadora portuguesa do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade NOVA de Lisboa (ITQB NOVA) vai liderar o “grupo de elite” que define as estratégias da investigação a nível europeu, após o seu antecessor, o alemão Kenneth Timmis, ter renunciado ao cargo “por motivos pessoais” ao fim de um ano de mandato.
Para além de ser a primeira mulher, é também a primeira portuguesa e cidadã de um país do sul da Europa a chegar ao topo da hierarquia deste coletivo 16 anos após a sua fundação. “Vai ser uma surpresa para muitos verem um grupo de elite ser liderado por uma mulher de um país da periferia”, afirma ao Observador. A Academia, como explica a investigadora, é como um “conselho científico ultra especializado”. “É um grupo escolhido por todos os cientistas da Federação Europeia das Sociedades de Microbiologia”, acrescenta, referindo que os membros deste coletivo são “pessoas com um grande destaque a nível internacional”.
“Vai ser um desafio durante três anos. A Academia integra investigadores de muita qualidade e eu também vou dar o meu melhor”, admite. Quando assumir a posse, confessa que vai receber “a batata quente”, devido aos trabalhos que ficaram suspensos com a renúncia do seu antecessor alemão. Enquanto presidente, para além de assumir a responsabilidade de organização do congresso anual dos investigadores do setor, passa ainda a coordenar as várias task forces que existem dentro da organização.
“São grupos que se dedicam a vários tópicos. Por exemplo, temos um que tem como objetivo definir estratégias para evitar o crescimento de publicações científicas que não são revistas como deve ser, aquelas que não são acreditadas devidamente e são autênticas máquinas de fazer dinheiro”, explica. Outro grupo vê o impacto da microbiologia na educação, uma vez que o conceito é abordado “em todas as etapas do ensino”. Ao mesmo tempo, olham para o impacto dos micróbios no campo da saúde, da sociedade e mesmo na legislação, estando em contacto direto com os decisores políticos europeus, com o objetivo de influenciar políticas.
Só toma posse no dia 1 de janeiro, mas Cecília Arraiano já tem o rumo definido para quando se tornar oficialmente presidente da Academia Europeia de Microbiologia. “Vou insistir para informar a comunidade, tentar traduzir de uma maneira simples isto que aprendemos, que parece complexo, mas tentar fazê-los perceber. Tudo é vida, é o que me apaixona”.
A demissão inesperada, a nomeação reticente e o longo processo de eleição que terminou com “júbilo” unânime
O processo de nomeação foi extenso, uma vez que a convocação das buscas por um novo líder não estavam no calendário dos 149 investigadores que pertencem à Academia. Quando Kenneth Timmis anunciou a sua decisão de abandonar o cargo que ocupava há um ano, o conselho de administração comunicou um prazo para que os restantes cientistas nomeassem a sua sucessão. “A nomeação tinha que ser feita por dois membros e apoiada por outros quatro”, explica ao Observador a nova presidente, referindo que os membros nomeadores não podiam ser portugueses.
Foi um investigador espanhol e outro britânico que decidiram colocar o nome de Cecília nos hipotéticos boletins. A portuguesa, “reticente”, não aceitou de imediato a candidatura à presidência da Academia Europeia de Microbiologia. “Tenho muitas coisas para fazer, tenho um grupo grande”, conta a cientista, referindo que enquanto coordenadora do Laboratório de Controlo da Expressão Génica do ITQB NOVA, não queria uma função que exigisse muitas deslocações do trabalho que estava a supervisionar em Oeiras.
“O que me convenceu foi uma conversa com o presidente da FEMS (Federação Europeia de Sociedades de Microbiologia), que mencionou o facto de nunca ter havido uma mulher a liderar, bem como ninguém do sul da Europa. E comecei a pensar: eu gosto muito de ser portuguesa e tenho muito orgulho nisso”, recorda a bióloga de formação. “É uma grande oportunidade para destacar Portugal e ser a primeira mulher neste grupo distinto”, acrescenta.
Nomeação aceite, o processo habitual dita que todos os nomes avançados são compilados e vão a votação. Todos os membros votam e quem tiver mais votos ganha. Mas o caso de Cecília foi “especial”. “Fui a única pessoa nomeada”, relata ao Observador, pelo que foi apenas convocada uma “reunião excecional”, em que decidiram enviar um email a todos os fellows da Academia, para averiguar se existia alguma oposição à eleição de Cecília para o cargo de topo.
Durante duas semanas, as respostas foram chegando e, no fim de novembro, a portuguesa descobriu que os muitos comentários que receberam continham apenas “júbilo”. Assim, após uma nova reunião com o conselho de administração e com a presidência da Federação, foi oficializado internamente no passado dia 9 de dezembro que Cecília Arraiano seria a próxima presidente da Academia Europeia de Microbiologia.
“Não queremos que as mulheres e os homens sejam iguais de maneira nenhuma. Temos é que ter igualdade de oportunidades”.
Portugal é representado por cinco mulheres portuguesas dentro da Academia. Porém, até 2016, nunca tinha existido uma portuguesa a integrar aquele círculo de “elite” da Microbiologia europeia. Cecília Arraiano foi a primeira — e a segunda pessoa de Portugal a carimbar presença no coletivo.
Antes de chegar a esta posição no topo do setor, a investigadora esteve, durante onze anos, no Comité Executivo da Federação Europeia de Bioquímica (FEBS) recebendo o “Diplôme D’Honneur” da mesma. Foi, também, a primeira de Portugal a tornar-se membro da Academia Americana de Microbiologia. Ao longo destes anos, percebeu que havia uma grande diferença entre homens e mulheres na Ciência. “Quando era mais nova, nos EUA, sentia que não havia diferenças entre ser homem ou mulher. Quanto mais velha sou, mais me apercebo dos telhados de vidro”, admite ao Observador.
Durante anos, Cecília avaliou projetos científicos candidatos a financiamento europeu. Revela que “era sempre muito chamada a atenção” para verificar se existia “balanço” entre géneros nas equipas dos projetos internacionais. “Qual é o meu choque quando, em 2023 — e agora continua —, quando estava a avaliar outro tipo de candidaturas, e me são dados muitos projetos, dos quais vários só tinham homens a liderar”, conta. Na sua avaliação, disse: “Isto não pode ser assim, tem que haver uma distribuição saudável”. Em resposta, a agência referiu que o “balanço” entre géneros só era necessário para os alvos da investigação — como os ratinhos ou a amostra analisada —, não os investigadores.
“É inacreditável como isto recuou e ninguém notou. Ou se alguém notou, escondeu”, desabafa. Agora, sendo a primeira mulher a chegar àquela posição de topo, garante que a sua visão não vai mudar — até porque foi uma das razões que também a fez aceitar aquelas nomeações para o cargo. “É bom chamar a atenção em certas coisas e agora tenho a possibilidade de alertar para estes vícios e problemas”, acrescenta. “Não queremos que as mulheres e os homens sejam iguais de maneira nenhuma. Temos é que ter igualdade de oportunidades”.
Além de mulher, ser portuguesa foi o outro fator que pesou na hora de tomar a decisão de avançar com a candidatura para o cargo. Desde a génese da Academia há 16 anos, três dos seus quatro presidentes foram alemães e o outro era francês. “A indústria é muito dominada no norte da Europa”, aponta Cecília Arraiano. “Dizem que somos um país da periferia”, continua. Agora, a investigadora portuguesa acredita que terá a oportunidade perfeita para “fazer a diferença e chamar a atenção para os excelentes cientistas que temos em Portugal”.