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epa12355000 Portuguese rider Joao Almeida of UAE Team Emirates-XRG wins the 13th stage of La Vuelta a Espana cycling race, over 202.7km from
Cabezon de la Sal ot L'Angliru, northern Spain, 05 September 2025.  EPA/Javier Lizon
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▲João Almeida admite conquistar uma grande volta no futuro

Javier Lizon/EPA

▲João Almeida admite conquistar uma grande volta no futuro

Javier Lizon/EPA

"Só deitei a toalha ao chão no último quilómetro da etapa 20": João Almeida, entre a histórica Vuelta e o futuro nas grandes voltas

Fez aquilo que só Agostinho tinha feito e promete não ficar por aqui, ambicionando vencer uma grande volta no futuro. Ao Observador, Almeida falou sobre a Emirates, a Seleção e o ciclismo português.

Volta ao País Basco, Volta à Romandia, Volta à Suíça e Angliru. São muitos os locais em que João Almeida deixou a sua marca no decorrer da temporada de 2025. A primeira parte do ano foi de sonho, com o português a vencer três das mais importantes provas de uma semana do circuito mundial, e a expetativa era grande para o que se seguia. O regresso à Volta a França, para apoiar Tadej Pogacar, acabou por não ser positivo, com o Pantera a abandonar a principal prova do mundo devido a queda. Seguiu-se um período de recuperação, que chegou a colocar em causa a Volta a Espanha. Almeida recuperou, preparou o regresso à Vuelta e fez história, ao vencer no mítico Angliru e ao terminar no segundo lugar do pódio, a apenas 1.16 minutos de Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike), algo que não acontecia desde o segundo lugar de Joaquim Agostinho, em 1974.

Em entrevista especial ao programa E o Campeão é…, da Rádio Observador, o ciclista de A-dos-Francos lembrou a participação na corrida espanhola, com enfoque ao seu segundo lugar, à vitória no Angliru, à falta de apoio da sua equipa e ao despedimento de Juan Ayuso, durante a competição. João Almeida explicou ainda a sua forma de correr no seio de pelotão e a sua característica de não reagir de pronto aos ataques, e frisou que, no futuro, o grande objetivo passa pela conquista de uma grande volta. O regresso à Volta a Itália está em cima da mesa já no próximo ano e o Bota Lume aponta ao top 10 nos Campeonatos da Europa, realizados no início de outubro em França, onde vai correr ao lado de Afonso Eulálio, António Morgado, Nelson Oliveira (apenas no contrarrelógio) e Rui Costa.

[Ouça aqui a edição especial de “E o Campeão É…”, com João Almeida:]

Episódio especial: João Almeida “Eu só acreditei em mim”

[Veja aqui a edição especial de “E o Campeão É…”, com João Almeida:]

A vitória no Angliru é o momento que guarda com mais saudade da participação na Volta a Espanha?
Sim, sem dúvida. Foi uma Volta a Espanha muito boa e esta vitória no Angliru foi histórica. Foi especial.

Com que sabor termina esta Vuelta? O doce de um segundo lugar ou o travo amargo por não ter conseguido chegar ao lugar mais alto do pódio?
Acho que o doce. Foi muito bom. A sensação que tenho é que não daria para vencer e bater o Vingegaard. Terminámos num belo segundo lugar e com aspirações para fazer melhor no futuro.

Acreditou até ao fim que era possível chegar à vitória ou, a dada altura, atirou a toalha ao chão e concentrou-se na manutenção do segundo lugar?
O único momento em que deitei a toalha ao chão foi no último quilómetro da etapa 20, em que o Vingegaard já ia sozinho na frente… [risos] Já sabia [que estava perdido]. Até lá sempre acreditei, porque há momentos bons e momentos maus, e o adversário pode ter um momento mau. Há muita coisa que acontece e nós não temos a capacidade de saber. Há tanta coisa que pode interferir com um atleta. Temos de acreditar sempre nisso e também em nós próprios, e foi isso que eu fiz.

Até esse derradeiro quilómetro da etapa 20, o João olhava para o Vingegaard e pensava: “Ele não está bem, eu vou conseguir”. O que passa pela cabeça de um ciclista nesse momento?
Que ainda não o estou a ver [risos]. Não me sentia muito bem. Nos últimos dias sentia-me doente, estava engripado, mas não tinha nada a perder. A única coisa que estava na minha cabeça era dar o meu máximo e tentar metê-lo em dificuldades. Não deu, mas demos o nosso melhor e tentámos.

"Normalmente coloco-me sempre da forma em que dá para poupar mais e gastar menos energia. Às vezes estar muito na frente acaba por não ser positivo."
João Almeida, corredor português da UAE Team Emirates

Porquê aquela colocação em corrida no pelotão?
Tem vindo a melhor. Já foi bem pior. Normalmente coloco-me sempre da forma em que dá para poupar mais e gastar menos energia. Às vezes estar muito na frente acaba por não ser positivo. Podemos estar mais bem colocados, mas depois gastamos energia que nos vai faltar mais tarde. Às vezes o segredo é saber quando não gastar, daí a colocação, por vezes, não ser a melhor.

E a capacidade de explosão? Nota-se que há ciclistas que fazem o chamado “esticanço”. O João vai buscá-los, mas vai depois. Porquê?
Sinceramente acho que a minha capacidade de ‘esticar’ é bastante boa, mas às vezes já estou muito no limite e não consigo, ou não é bom fazê-lo nessa altura. O que a gente gasta numa altura vai fazer-nos falta mais tarde e, numa subida, já não se vai buscar aquilo que se gasta. Prefiro deixar para o fim o esticão, porque depois a fadiga é superior. Tento sempre correr da forma mais inteligente e económica que consigo.

E deixar para o fim as chamadas Almeidadas…
Exatamente.

Na primeira semana chegou a altura em que a Emirates começou a distribuir cartas. No meio de tudo isso apareceu a notícia do [Juan] Ayuso ter sido despedido. Como é que um líder de equipa consegue ir falando sem nunca tocar no Ayuso, mas ao mesmo tempo digerir em termos internos essa saída?
É algo que já sabíamos.

Antes do início da Vuelta?
Sim. Nós já sabíamos que ele ia sair.

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Ficou um pouco a ideia que o facto de Ayuso não o ajudar nesta Vuelta precipitou a saída.
Mas não. Não sei o porquê de a equipa querer anunciar nessa altura. Ele já ia sair há mais tempo. Já se falava há alguns meses.

Foi-vos explicado porque é que ele ia sair?
Não. Penso que ele simplesmente queria oportunidades, talvez na Volta a França, como único líder… Numa equipa com Tadej Pogacar não é fácil fazer toda a gente feliz e há atletas que querem ter oportunidade no Tour. Pogacar é o melhor ciclista do mundo e talvez de sempre. É um ciclista muito competitivo hoje em dia e acho que o que ele faz, quase ninguém fez.

Ficou a ideia, em algumas etapas, que o João chegava ao final sem os companheiros de equipa, enquanto o seu rival direto tinha dois/três a acompanhá-lo até aos derradeiros quilómetros. Faltou-lhe equipa?
Talvez um diazinho faltou… Não vou desmentir porque acho que houve um dia em que podíamos ter feito melhor e não fizemos. No geral estivemos excelentes. A equipa apoiou-me bastante. Há muito trabalho que é invisível e que não se vê nas câmaras, na parte inicial e quase até ao fim. Chega a um certo ponto em que é cada um por si, e ter um companheiro não faz diferença nenhuma. Por exemplo, em subida não faz qualquer diferença. Acho que nenhuma equipa é perfeita e nós não estivemos perfeitos, mas demos o nosso melhor.

Pagou-se algum preço pelas fugas que [Jay] Vine, [Marc] Soler e Ayuso foram fazendo? Pagou-se algum preço na terceira semana devido a esse tipo de estratégia?
Diria que não. Acho que a minha equipa esteve bastante bem na terceira semana. Estivemos lá quando tínhamos de estar. Há etapas que não são etapas para a geral e para corredores como eu e Vingegaard. Há etapas que são para a fuga e as etapas que eles venceram foram dias para a fuga, não essenciais para a geral. Eles estarem ou não comigo era insignificante.

Esta edição é inevitavelmente marcada pelos protestos pró-Palestina, contra a Israel Premier Tech, que encurtaram o contrarrelógio de 27 para 12 quilómetros. Antes de começar a Vuelta, o contrarrelógio era um ponto estratégico para recuperar tempo?
Sim, sendo um contrarrelógio plano, dá-me mais vantagem porque sou um corredor mais pesado do que ele [Vingegaard]. A vantagem estava do meu lado. Em 12 quilómetros consegui ganhar algum tempo. Em 27 talvez ganhasse mais, mas acho que não faria a diferença para vencer a Vuelta, mas nunca se sabe.

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De forma simples, o que é o vosso jantar e o pequeno-almoço?
A nossa alimentação é quase tudo hidratação, com muitos hidratos de carbono, pão, massa, arroz, batata… evitamos carnes vermelhas e optamos mais por carnes brancas por causa da digestão. Obviamente comemos muita quantidade de comida e tudo é importante. Ingerimos muito bicarbonato de sódio, em algumas etapas ou contrarrelógios.

Dá-se bem com o bicarbonato de sódio?
Sim, mas também são quantidades pequenas, de 19 ou 20 gramas. Alimentação e hidratação é tudo. Podes ter as melhores pernas do mundo, mas se não tiveres tudo bem delineado, vais perder.

Porque é que fazem bicicleta estática antes e depois das etapas?
O nosso corpo é como um carro: tem que aquecer para estar num ótimo estado para estar nas melhores condições. Neste caso fazemos para preparar o corpo para um esforço muito intenso e depois o oposto, acalmar e recuperar ativamente. A recuperação ativa é o método mais eficaz que existe. Acalmamos o corpo, “limpamos” os nossos músculos e recebemos nutrientes com coisas boas.

O que é, afinal, o pequeno-almoço e o jantar de um ciclista num dia de Vuelta?
Ao pequeno-almoço como bastante pão com doce. Temos panquecas, waffles… São tudo receitas otimizadas para serem saudáveis e com pouca gordura. Também gosto bastante de comer cereais. O almoço é improvisado, porque corremos à hora de almoço. A refeição pós-etapa costuma de ser massa como omelete, em que meto um bocadinho de queijo – tenho uma veia italiana [risos]. O jantar volta a ser muitos hidratos de carbono. Na corrida também comemos imenso, através de géis e bebidas açucaradas. Na corrida ingiro, no mínimo, 1.500 calorias. A média diária deve estar sempre acima dos cinco mil. É muita comida [risos].

Para quando uma Volta a Portugal?
Boa pergunta. A Volta a Portugal antigamente tinha mais atenção e valor, havia mais interesse das equipas. Hoje em dia não tem tanto e está numa altura do calendário que não é a melhor. Tem vindo a perder a sua essência e o seu valor.

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▲ João Almeida bateu Jonas Vingegaard no mítico Angliru

AFP via Getty Images

O que aconselha aos jovens que gostam de ciclismo? Equipas nacionais ou estrangeiras?
A grande montra é internacional. Para começar, cá, com uma evolução nacional, mas depois internacional. Lá fora é onde há mais experiência e conhecimento. É um sacrifício e é mais duro, mas também há uma recompensa maior.

O efeito Seleção é importante para a exposição do ciclista em termos internacionais?
Sim, sem dúvida. A Seleção foi muito importante para o meu desenvolvimento. Quando corríamos em Portugal dominávamos, mas depois chegávamos às corridas da Seleção e não éramos competitivos o suficiente. Foi o ideal. Ganhei muita experiência na Seleção e com o selecionador José Poeira, que nos deu os meios e a experiência. Foi essencial para mim perceber o que é que eu queria.

Devido aos protestos pró-Palestina, teve que se improvisar a cerimónia final da Vuelta. Foi numa garagem e o pódio foi construído com recurso a geleiras. Como surgiu a ideia?
Foi um belo pódio humilde, num parque de estacionamento e em que os lugares do pódio eram geleiras. Foi organizado pelas equipas que tinham um lugar no pódio, a Visma e a Q36.5, e gostei. Foi mais simples, mais exclusivo e parecia uma coisa de amigos.

O Jonas Vingegaard diz que foi um dos melhores momentos da carreira. Também o marcou desta forma?
Diria que sim, concordo.

A organização fez bem em encurtar o contrarrelógio da 18.ª etapa?
Em termos de segurança acho que sim. Um percurso mais pequeno é mais fácil de controlar em termos de segurança. Acho que foi uma boa ideia.

Era um assunto falado no pelotão?
Sim. Começou-se a falar no dia anterior, mas em termos de organizações. Depois rapidamente percebemos que ia ser encurtado.

Quem rodeia um chefe de fila durante três semanas? Alguma vez houve mesmo um co-liderança ou era uma espécie de bluff?
Sim, no início a ideia era mesmo essa. Até ia ser bom taticamente porque tínhamos dois líderes e a Visma só tinha um. Queríamos gastar o Vingegaard assim. Sabíamos bem a realidade, que a preparação do Ayuso não tinha sido a melhor. Fomos realistas. Também houve um desconectar mental na etapa de Andorra e as coisas ficaram mais bem esclarecidas.

Como se faz a gestão diária ao longo de três semanas? Por exemplo, quando o [David] Gaudu ficou com a camisola vermelha, todos diziam que ia ser bom para o Vingegaard.
A mentalidade é focar sempre na recuperação. Ter a camisola vermelha implica ir à cerimónia protocolar, fazer entrevistas, conferência de imprensa… é mais uma hora e meia extra, em que estamos focados em recuperar, em que falhamos o tempo da nossa refeição. Tudo conta ao fim de 21 etapas. Uma hora de sono por dia, são 21 horas. É muita hora de sono. Tudo conta e temos de priorizar a recuperação.

"Futuramente, o meu objetivo é ganhar uma grande volta, independentemente de qual é que seja. Já consegui ganhar algumas provas de uma semana e já estou satisfeito com o meu palmarés de corridas de uma semana."
João Almeida, corredor português da UAE Team Emirates

No Predictor do Eurosport nunca vimos tanto o nome de João Almeida. Isso criou algum tipo de pressão ou o facto de estar a desafiar Vingegaard era um estímulo?
É um bocadinho indiferente, não olho muito para essas previsões. Foco-me mais em mim, sei o que tenho nas pernas e a abordagem à corrida é independente desse tipo de coisas. Mentalmente é algo que nem me passa pela cabeça.

O futuro passa pelo Tour? Com que objetivo? O que tens como objetivos para o futuro?
Futuramente, o meu objetivo é ganhar uma grande volta, independentemente de qual é que seja. Já consegui ganhar algumas provas de uma semana e já estou satisfeito com o meu palmarés de corridas de uma semana. Acho que uma Grande Volta é aquilo que eu mais ambiciono e esta Vuelta deu-me mais confiança. Se é Giro, Tour ou Vuelta, não sei. Ainda não planeámos o próximo ano. Talvez faça o Tour, talvez não, também tenho de conciliar com o que o Tadej quer, que tem prioridade. Gostava de voltar ao Giro. Já não faço há algum tempo e tenho uma história especial com o Giro.

E que história é essa?
Foi a minha primeira Grande Volta, onde estive 15 dias de rosa, aquela camisola super bonita. Gostava de lá voltar e tentar ganhar ou discutir a corrida. Gostava imenso de voltar ao Giro, mas a Volta a França é a número um e quando se está lá sente-se claramente que é a número um.

A ausência do Campeonato do Mundo é opção tua?
Sim, exato, e também falei com o selecionador. A preparação para o Mundial não ia ser boa, não ia chegar bem e ia chegar cansado da Vuelta. Também fiquei doente. Não ia fazer grande coisa e preferi dar a oportunidade a outro atleta, para ter essa experiência e mostrar-se. Para fazer número não fazia sentido. Prefiro focar-me no Europeu, que é na semana seguinte.

Sentes algo especial em representar Portugal nas provas internacionais?
Sim, sem dúvida. Gosto muito do apoio da minha equipa, mas quando se tem a bandeira de Portugal ao peito, a sensação é outra. Representar a nossa Seleção é algo especial que só quem representa percebe. Estamos a representar um país. Não há ali interesses de patrocinadores e queremos dar o nosso melhor, e mostrar do que é que somos feitos.

Os Europeus são dia 1 [contrarrelógio] e 5 de outubro [prova de fundo]. Há alguma meta em particular?
Dar o meu melhor e estar na frente de corrida a discutir. Não tenho metas de resultados, mas quero dar o meu melhor. Talvez ficar nos dez primeiros seja o meu objetivo.

O que pensas da evolução do ciclismo de estrada em Portugal?
Está em decadência. Esperamos que melhore e que evolua na direção certa. Temos potencial para fazer bem melhor.

Ajudaria se os três grandes tivessem ciclismo?
Sim, sem dúvida. Trazia mais atenção e de certeza que iam investir mais no ciclismo. Ia haver mais mediatismo, mais corridas… Depois isto é uma bola de neve.

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