Sporting-FC Porto. Como do clima de guerra aberta nasceu a geringonça contra o “partido” no poder

29 Setembro 2017282

Tão rivais que éramos, tão inimigos que fomos, tão próximos que estamos: desde 2013, a rivalidade Sporting-FC Porto teve ameaças e muita violência, mas vive hoje uma fase de aliança (não assumida).

Todos queriam esconder qualquer coisa naquela semana de maio de 2017. Mas tinham razões distintas. No lado do Benfica, e depois do triunfo a ferros em Vila do Conde, a festa que se preparava para a conquista do tetracampeonato motivava inúmeras reuniões entre vários departamentos do clube e a polícia, mas sempre tentando assegurar o máximo de resguardo para evitar festejos antecipados antes da receção ao V. Guimarães. Entre FC Porto e Sporting, a questão era outra: Nuno Saraiva e Francisco J. Marques, diretores de comunicação dos dois clubes, iam encontrar-se pela primeira vez em Lisboa depois de algumas conversas telefónicas. Ninguém conseguiu manter segredo.

Vamos agora cingir-nos ao encontro entre os representantes de leões e dragões, que chegou a ser apelidado de “Cimeira anti-Benfica” – “É um facto que a reunião existiu, mas é falso que na base da motivação esteja qualquer sentimento ‘anti’ seja quem for”, começou por explicar o comunicado conjunto colocado poucas horas depois dessa capa de jornal. Inicialmente, foi ventilado como tema de conversa o clássico de andebol que se avizinhava. Na verdade, não foi trocada sequer uma palavra sobre esse tema na reunião no 12.º andar do hotel Altis, onde estava também Manuel Tavares, diretor geral do FC Porto Media. Mas muitos outros assuntos foram abordados, naqueles que foram os últimos metros de uma ponte que voltou a ligar ambos os clubes, de relações cortadas há quase quatro anos.

“Concluída esta reunião, verificámos que há caminho que pode e deve ser feito em conjunto, considerando que é muito mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa (…) Entendem os dois clubes estarem reunidas as condições para que seja desencadeado de imediato o processo de reatamento das relações institucionais entre o Sporting e o FC Porto”, rematavam os comunicados oficiais de Sporting e FC Porto, a 11 de maio deste ano. Mas nem sempre foi assim, sobretudo desde 2013, e nos últimos quatro anos a relação atravessou outras tantas fases.

Março de 2013 – Maio de 2013. O respeito

Quando Bruno de Carvalho chegou à presidência do Sporting, Pinto da Costa via o FC Porto de Vítor Pereira lutar até ao fim com o Benfica pelo tricampeonato (que conseguiria, com o “empurrão” do famoso golo de Kelvin). Já os leões, enfrentavam a pior temporada de sempre em termos desportivos, num dos períodos mais complicados em termos “políticos”. As eleições de março de 2013 mostraram bem esse clube “fraturado”. Ganhou o candidato “fraturante”. Assim, e entre os assuntos prementes para resolver logo nos primeiros dias (sobretudo no plano financeiro, onde a situação era caótica), os leões recuperaram algo que tinham deixado cair em desuso: a tomada de posse oficial.

Desde de que assumiu a presidência do FC Porto, em 1982, apenas um líder do Sporting tinha assumido frontalmente o choque com Pinto da Costa: João Rocha. No entanto, percebia-se que a personalidade de Bruno de Carvalho poderia colidir com o homólogo portista.

As campanhas de 2011 e 2013 mostraram um Bruno de Carvalho diametralmente oposto em algumas dimensões enquanto candidato. Antes, surgia como um revolucionário pronto para rasgar politicamente as duas décadas anteriores de alto a baixo; depois, trouxe ao de cima o seu plano económico-financeiro a breve, médio e longo prazo, adotando uma postura bem mais contida para captar o eleitorado que lhe falhara no primeiro sufrágio a que tinha concorrido. Assim, a tomada de posse no auditório Artur Agostinho era uma espécie de “condecoração” de alguém que chegava ao futebol para tentar respeitar e ser respeitado (era importante passar tal imagem). Todas as entidades e clubes nacionais receberam convites. O FC Porto não se fez representar. Mas a ausência não mereceu reparos de maior. Quase passou ao lado.

Desde de que assumiu a presidência do FC Porto, apenas um líder do Sporting tinha assumido frontalmente o choque com Pinto da Costa: João Rocha. Daí para a frente, as relações podiam ser mais próximas, normais ou com umas trocas de galhardetes pelo meio, mas nunca estiveram cortadas, ao contrário do que acontecia com o outro rival Benfica desde 2011, na sequência do dérbi onde parte da bancada na Luz onde estavam os adeptos leoninos ardeu. Com a chegada de Bruno de Carvalho à liderança do clube verde e branco, percebia-se que as personalidades de ambos os líderes podiam originar choques mas, até maio de 2013, apenas por uma vez os dragões foram visados e em resposta às críticas que tinham feito às arbitragem dos últimos encontros. De resto, um respeitoso silêncio.

Junho de 2013 – Junho de 2015. A guerra aberta

A saída de João Moutinho do FC Porto para o Mónaco foi o gatilho que precipitou uma mudança radical na relação dos clubes: várias pessoas do Sporting falavam num claro engano aos leões por parte dos azuis brancos, que atribuíam o preço de 25 milhões ao internacional português no negócio em “pacote”, que envolveu também James Rodríguez, que saiu por 45 milhões (recorde-se que o clube de Alvalade tinha 25% da mais valia de uma futura transferência a receber pelo médio). Pinto da Costa “gozou o prato”, dizendo que o Sporting até deveria agradecer pela valorização conseguida por uma “maçã podre”. Bruno de Carvalho respondeu recordando o caso da “fruta”.

A altercação entre Adelino Caldeira, vice-presidente do FC Porto, e Bruno de Carvalho na final da Taça de Portugal de andebol culminou com um corte de relações institucionais: a Federação tentou que os dois dirigentes se cumprimentassem, mas ao invés houve um confronto verbal tal, que foi audível em todo o pavilhão de Tavira. “Já aviei um em Alvalade, também posso tratar da saúde de outro”, terá dito o responsável azul e branco. O Sporting exigiu um pedido de desculpas, os portistas nem deram resposta. Veio o verão, houve desvios de jogadores seniores e até da formação, continuaram os ataques verbais e aproximava-se o clássico no Dragão, em outubro de 2014.

O ambiente estava de cortar à faca na temporada 2013/14: no Dragão, houve violência entre adeptos, confrontos com stewards, arremesso de objetos e uma série de proibições dos azuis e brancos; em Alvalade, o Sporting cedeu oito lugares separados na tribuna aos dirigentes portistas que ao lado teriam elementos ligados às claques leoninas

O ambiente estava de cortar à faca. De tal forma que, ao contrário do que era normal, Bruno de Carvalho falhou a visita a um núcleo sportinguista antes do jogo por recomendação policial. Nas imediações do Dragão, as televisões passaram em direto cenas de violência entre adeptos que originaram dezenas de feridos e cerca de 100 detidos. No recinto, houve confrontos entre claques leoninas e stewards. No final, os dirigentes leoninos queixaram-se de pontos que ninguém tinha visto como a proibição dos elementos do staff irem para a bancada ver o jogo, as restrições dos stewards à circulação em zonas autorizadas ou o arremesso de objetos. O líder do Sporting falava no tal “sistema”.

A determinada altura, os dois clubes tinham posturas opostas: o Sporting estava sempre ao ataque, o FC Porto desvalorizava tudo o que era dito. Até que, no final desse ano de 2013, e por influência de Bruno de Carvalho, o clube esteve um mês a publicar semanalmente as ligações de delegados, árbitros e observadores no mundo do futebol, os restaurantes mais frequentados nos meandros da “bola”, algumas gravações do Apito Dourado. No jogo em Alvalade para o Campeonato, os leões chegaram a dar oito bilhetes para a tribuna (como é obrigatório por regulamento) aos dragões mas em lugares separados e alegadamente ladeados por elementos das claques verde e brancas. Os portistas não aceitaram e deram a volta, aproveitando um camarote que tinha sido comprado e cedido por uma empresa.

Nunca as relações entre Sporting e FC Porto tinham chegado a este ponto. Mas, com o tempo, as coisas foram começando a serenar. Até porque, no meio de tanta guerrilha, o Benfica ia ganhando títulos atrás de títulos.

Julho de 2015 – Maio de 2017. A reaproximação

O futebol português sentiu um abalo quando se soube que Jorge Jesus se preparava para trocar o Benfica pelo Sporting, em junho de 2015. Nesta altura, as relações entre leões e dragões, ainda cortadas, tinham deixado de estar extremadas. E, em paralelo, havia um dado novo nesta equação que, indiretamente, tinha grande influência: o clube verde e branco tinha também cortado relações institucionais com o rival lisboeta. Estavam em guerra aberta, no seguimento da polémica tarja e cânticos das claques encarnadas num jogo de futsal que evocavam a morte de um adepto no Jamor, em 1996 (seguido de um dérbi de futebol em Alvalade onde se registaram graves problemas).

O que quer que signifique a palavra “sistema” (e cada clube tem a sua definição própria, como já se percebeu), ele tinha mudado: o Sporting percebia que era o Benfica a dominar o futebol português – com tudo o que isso envolve –, o FC Porto percebia que tinha perdido o domínio do futebol português. Sendo que, por uma ou outra razão, estavam “isolados”. Em termos políticos e no plano desportivo. Vendo o rival comum sempre em festa. Houve uma inversão de alvo no discurso até ao momento onde, de forma efetiva, se reaproximaram nas eleições da Liga.

As eleições na Liga, em julho de 2015, mostraram a aproximação entre Sporting e FC Porto: apoiaram em conjunto Pedro Proença contra Luís Duque (que tinha do seu lado o Benfica, entre outros clubes), combinaram pormenores das apresentações públicas nos bastidores. E o ex-árbitro internacional ganhou mesmo.

Em outubro de 2014, no seguimento da saída de Mário Figueiredo da presidência da Liga de Clubes, FC Porto e Benfica foram dois dos clubes que ratificaram por larga maioria Luís Duque como sucessor. Meses depois, enquanto os encarnados mantinham o apoio ao antigo administrador da SAD do Sporting (clube que estava em litígio interno com o dirigente), os azuis e brancos queriam mudar. E foi nesse ponto que as poucas conversas que iam mantendo entre ambos – sobre alguns temas genéricos da indústria do futebol em si, por forma a captar mais receitas para as provas profissionais – se alargaram. Bruno de Carvalho e Pinto da Costa continuavam sem ter contacto direto, mas iam sendo informados por dirigentes próximos e de confiança das aproximações entre os dois clubes.

Pedro Proença foi o “eleito” de ambos para ser lançado na corrida. Nessa fase, até os timings de apresentação de candidatura e apoio público já eram combinados entre Sporting e FC Porto nos bastidores para dar mais força contra Luís Duque, que segurava o Benfica do seu lado da barricada. Cada um foi fazendo “lobbie” para o sufrágio, em julho, entre os conjuntos a si mais chegados. O ex-árbitro internacional ganhou mesmo, com quase 60% dos votos. Os dois clubes perceberam que, juntos, ainda tinham uma palavra a dizer no jogo político que é há décadas o futebol português. Separados, cada um no seu canto, não “riscavam”. Esse “balão de ensaio” funcionou.

As alterações de fundo na estrutura do FC Porto, em outubro de 2016, deram uma nova face a esse período mútuo de reconciliação. O Sporting teve desde 2013 um modus operandi comunicacional centrado apenas numa pessoa, Bruno de Carvalho, algo que começou a mudar com a entrada de Nuno Saraiva para diretor de comunicação dos leões – em vez de uma, passaram a ser duas vozes, também para tentar ir “poupando” a imagem já desgastada do líder verde e branco. Já os dragões, a atravessar um jejum de resultados sem paralelo na era Pinto da Costa, tornaram-se bem mais agressivos no discurso com as entradas de Luís Gonçalves para o futebol e de Francisco J. Marques para a direção de informação e comunicação. Ponto comum: o alvo, Benfica.

Maio de 2017. O reatar de relações

O encontro entre Francisco J. Marques e Nuno Saraiva no hotel Altis, em maio deste ano, foi o primeiro que tiveram em termos pessoais, mas já tinham existido conversas prévias. No comunicado conjunto que selou o retomar das relações institucionais, e que teve o conjunto verde e branco como ponto de partida da iniciativa, foi defendido que os temas abordados nesse encontro privado que se tornara público passaram por “questões fundamentais para o futuro e pacificação do futebol português onde existem convergência de posições”. Alguns exemplos referidos: o vídeo-árbitro, os relatórios de jogo e dos delegados, o regulamento disciplinar ou as claques. Mas, resumindo tudo à sua essência, aquilo que FC Porto e Sporting pretendiam era quebrar a “hegemonia” do Benfica no futebol nacional.

Como se tem assistido nos últimos meses, nunca houve tanta harmonia e contacto nos discursos de FC Porto e Sporting como agora. Veja-se a questão das claques não legalizadas do Benfica: um critica, outro arrasa e, no Mónaco, até Pinto da Costa, que tem estado um pouco mais afastado em termos públicos, veio falar sobre o tema para pedir uma intervenção firme da Federação. Aliás, a consonância é tanta que, no lado sobretudo dos leões, começam a ouvir-se vozes que temem um eventual cenário de subserviência perante os dragões. Dentro de campo, este domingo, cada um tentará fazer pela vida. Nas bancadas, a rivalidade mantém-se, como se percebeu no clássico de andebol desta semana. Em período eleitoral autárquico, é quase como se tivesse sido formada uma geringonça azul e verde para derrotar o “partido” que governa (de formas criticadas por ambos) e que, no seguimento do caso dos emails, tem também endurecido posição no que toca a esta ligação.

Houve apenas uma discordância em forma de arrufo que nasceu e morreu em menos de 24 horas, no seguimento do triunfo do Sporting frente ao V. Setúbal com um penálti de Bas Dost nos minutos finais. “Se tivesse marcado o lance do Coates podia discutir-se, mas este é a brincar. Se o VAR não serve para corrigir…”, escreveu Francisco J. Marques no Twitter. “Acho que ainda vamos assistir a um momento histórico e inédito: o Francisco J. Marques em sintonia com o António Rola [ex-árbitro e atual comentador da BTV]! Como diria o Scolari: “Humm, e o burro sou eu?!?”, respondeu Nuno Saraiva. Ficou por aí. E até houve quem se risse com a troca de galhardetes…

No segundo dérbi realizado na Luz, em novembro de 2013 e a contar para a Taça de Portugal, o Sporting perdeu com o Benfica por 4-3 no prolongamento e Bruno de Carvalho criticou no final do jogo a arbitragem de Duarte Gomes. No meio do discurso, teve uma frase lapidar: “Há razões para acreditar que alianças só mesmo no dedo e com a minha mulher”. O que queria dizer aquilo? Que, na sua ótica, tinha feito bem em recusar as abordagens que foi tendo por parte de dirigentes e empresários para se encontrar com Luís Filipe Vieira, presidente dos encarnados, em privado. Quatro anos depois, a ideia de aliança com o FC Porto até pode ser recusada, mas a verdade é que foi contraído matrimónio na abordagem dos principais focos de discussão no futebol português. Em quatro anos, tudo mudou. Em campo, cada um quer ganhar como se fossem rivais; fora dele, lutam juntos pela verdade desportiva.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: broseiro@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)