Stephan Morais: “Vejo muitas notícias sobre venda de startups portuguesas que são falsas. Muitas. É mentira” /premium

30 Julho 2019543

A "muita desonestidade" que ainda se vê no ecossistema, os "exits" que são falsos e a forma como se gere o falhanço nos media. A entrevista a Stephan Morais, diretor-geral da Indico Capital Partners.

“Há muita desonestidade. Muita. E se os investidores não vão muito a fundo em termos de tecnologia, financeiros e de pessoas… Porque também há muita gente que diz: ‘Não, não. Tenho um cliente, tenho dois clientes e três’. E, depois, de repente, o cliente é a mãe, o tio e o primo, e poderia dizer exemplos de tudo isto. Depois vemos fundos a investir que não fizeram essas perguntas. Obviamente, falharam. Falharam porque nós temos um dever fiduciário de ir ao fundo das questões.” Em entrevista ao Observador, Stephan Morais, 45 anos, fundador e diretor-geral da Indico Capital Partners — o primeiro fundo de venture capital português, independente e privado que conta com mais de 46 milhões de euros para investir em startups — fala de um ecossistema mais maduro, mais profissionalizado, mas não deixa de apontar o dedo às consequências da “moda”: “Atrai muita gente, muitos curiosos e muitos amadores”. Em que é que isto se traduz? Em desonestidade. E onde é que ela está espelhada? Nos jornais.

Vejo muitas notícias sobre exits [quando uma empresa sai da esfera dos investidores porque é adquirida por outra empresa ou dispersa o capital em bolsa] que são falsas. Muitas. As pessoas decidem integrar a sua empresa, porque está prestes a ir à falência, numa outra qualquer startup e mandam uma notícia para os jornais a dizer que é um exit. É mentira. Mais valia dizerem só: não correu bem e decidi integrar a minha empresa numa outra maior.” Sobre os mediáticos unicórnios (empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares), também opta por pôr um pé no travão da euforia: “Essas rondas de capital que se vão fazendo devem ficar numa média de uns 20% — entre os 10 e os 30% — para que os fundadores sejam os donos da empresa. O resultado dessa conta versus diluição do dinheiro é que dá as tais avaliações que parecem loucas. Mas valem milhões? Não, não valem milhões… Isso é o resultado de uma conta matemática. Não valem, claramente. É só uma forma inteligente de se alinhar interesses”.

E sobre o falhanço, várias chamadas de atenção: a importância da verdade, o respeito pelo dinheiro dos outros e a forma como se gere esse falhanço nos órgãos de comunicação social. “Quando se investem milhões de euros não é uma brincadeira e não é para perder. Não é um monopólio. Se correr mal, correu mal. Pronto, somos todos crescidos. E estamos preparados para isso, mas marca muito o fundador e os investidores também a forma como se encerra uma empresa, como se passa para o capítulo seguinte, como se gere esse tal falhanço nos media. E tanto na parte dos investidores que acompanharam esse processo como da parte dos fundadores que acompanharam, isso diz muito sobre os fundadores e diz muito sobre os próprios investidores que estão por detrás. Como é que o fizeram? Fizeram-no bem feito ou deixaram descambar tudo? Descambou porque era inevitável ou simplesmente porque ninguém ligou nenhuma? Isso diz muito sobre as pessoas que estão por detrás desses casos”.

Antes da Indico capital Partners, Stephan Morais administrou Caixa Capital, braço de capital de risco da CGF, durante 4 anos

“A estatística mostra que a vasta maioria das empresas pequenas falha, quer seja um cabeleireiro, café ou uma startup tecnológica xpto”

Porque é que lançou um fundo como o Indico Capital Partners?
Acho que podemos dividir isso em três razões principais: primeiro, o mundo está a assistir a uma revolução tecnológica enorme e Portugal não está fora desse mundo nem dessa transformação digital e tecnológica — que é uma revolução industrial muito significativa e que pode vir a ter consequências muito grandes a nível mundial. Portugal tem vindo a acompanhar essa onda, esta fase do ecossistema existe talvez desde 2011/12/13. Começaram a haver empresas portuguesas que faziam parte desta nova geração de startups e de empresas tecnológicas que deixam uma marca no mundo. Já havia, obviamente, no passado, empresas tecnológicas portuguesas, e existem outras que começaram antes, mas tinham um carácter talvez mais de serviços e mais local, com honrosas exceções. Esta nova fase é uma fase em que as empresas portuguesas, tal como as do resto do mundo, estão a tentar conquistar globalmente os seus mercados. Portugal não está fora, está dentro dessa tendência e faz sentido que quando existam empresas tenha de haver capital para as apoiar e fazer crescer.

Sentia que não havia capital suficiente em Portugal?
Isso tem a ver com a segunda questão, a do porquê: existia capital e já existiam fundos, nomeadamente a Caixa Capital, da qual tive a sorte de estar à frente durante muitos anos, a Portugal Ventures e, antes disso, até a Espírito Santo Ventures. Mas faltava um fundo privado, independente, early stage normal como existe em todos os outros países, só que o mercado português ainda não tinha maturidade para criar esse fundo. Foi necessário ter track record, ter feito operações com sucesso, no nosso caso, onde estávamos anteriormente, que era na Caixa Capital, para que um conjunto de investidores internacionais privados pudessem apostar e investir num fundo desta natureza, dedicado a um país como Portugal.

Não vamos só investir em Portugal, mas esta é a nossa base e é aqui que temos realmente uma grande oportunidade para fazer coisas diferentes e projetar empresas portuguesas para o mundo. Há uma revolução tecnológica, Portugal faz parte e já existe uma base tecnológica grande de empresas que justifique a existência de um fundo — porque poderia não haver. Investimos em muito poucas empresas das que vemos, tem de se ver muita coisa para investir em algumas. Em terceiro lugar, foi preciso ter muitos anos de investimentos e resultados desses investimentos para depois se poder levantar capital de forma profissional. Não há forma de acelerar estas coisas. A razão pela qual só surgimos agora é porque, se calhar, era preciso uma década anterior de trabalho — para podermos mostrar aos investidores internacionais, que valia a pena apostar num fundo de base portuguesa e que há dimensão e qualidade suficiente em Portugal para que esse fundo possa vir a ter sucesso financeiramente.

"Investir em venture capital não é só colocar dinheiro e tentar vender as empresas depois, não é private equity, não é comprar uma fábrica. É um investimento por camadas e isso supõe que temos de conhecer as pessoas da camada seguinte. Estamos aqui agora com esta questão do João Félix, no fundo, os jogadores têm de passar pelo Benfica para um dia irem parar ao Atlético de Madrid, mas, para isso, o Benfica tem de conhecer o Atlético de Madrid e o Atlético tem de conhecer o Benfica. É exatamente a mesma coisa"

Foi difícil convencer os investidores com estes 46 milhões?
Sim, já vamos quase perto dos 50 milhões. Não foi fácil, acho que a base foi realmente começar com o fundo europeu de investimento, que é o maior e mais conhecedor investidor de venture capital da Europa e talvez do mundo. Nunca tinham investido num fundo desta natureza em Portugal, foi um processo que demorou mais de um ano, que depois serviu de base para todos os outros investidores . Mas, essencialmente, o que este tipo de investidores quer ver é se sabemos o que estamos a fazer. Serão estes senhores os que vão encontrar as melhores oportunidades? E essas oportunidades mostraram no passado que são realmente vencedores globais? Que são empresas que podem ganhar à escala mundial?

A equipa de gestão do Indico Capital Partners é composta por Stephan Morais (ex-administrador executivo da Caixa Capital), Ricardo Torgal (ex-gestor de investimentos na Caixa Capital) e por Cristina Fonseca (cofundadora e acionista da Talkdesk). Com 47 milhões de euros, o fundo tem como objetivo identificar, investir e capitalizar as startups ibéricas mais promissoras, investindo entre 150 mil e 5 milhões de euros por empresa. Já investiu em sete projetos:

  • Sound Particles: 400 mil euros;
  • Bitcliq: 600 mil euros;
  • Attentive: 1,1 milhões de euros;
  • Barkyn: 1,7 milhões de euros;
  • Zenkub: 500 mil euros;
  • Tier: 3,25 milhões de euros;
  • EatTasty: 1,1 milhões de euros;

A segunda grande pergunta que os grandes investidores internacionais fazem é: e o mercado português é suficientemente atrativo em número de oportunidades, que permita depois ter uma diversidade de portefólio que seja adequada para ter retornos adequados? E, por ultimo, serão estes investidores os investidores que depois conseguem transportar estas empresas de Portugal para o resto do mundo em termos de novas rondas de investimento? Porque há uma grande diferença entre os players que são amadores e profissionais, que é a base de contactos e de conhecimento internacional que uns e outros têm.

Investir em venture capital não é só colocar dinheiro e tentar vender as empresas depois, não é private equity, não é comprar uma fábrica. É um investimento por camadas e isso supõe que temos de conhecer as pessoas da camada seguinte. Estamos aqui agora com esta questão do João Félix, no fundo, os jogadores têm de passar pelo Benfica para um dia irem parar ao Atlético de Madrid, mas, para isso, o Benfica tem de conhecer o Atlético de Madrid e o Atlético tem de conhecer o Benfica. É exatamente a mesma coisa. E não há espaço para muitos Benfica’s em Portugal. Se calhar há o Benfica, o Porto e o Sporting e em VC é exatamente a mesma coisa. Os bons jogadores tendem a concentrar-se em um ou dois fundos que são depois o passaporte de saída para um grande clube da Champions, que neste caso será um grande fundo europeu ou de Silicon Valley. Não é um jogo amador e acho que isso também mostra que o ecossistema está a entrar numa fase de profissionalismo importante, de um trabalho que foi feito por muitos empreendedores nesta última década e também por alguns investidores que se conseguiram afirmar internacionalmente.

O que nós fazemos é isso: transformar jovens empresas com grande potencial e treiná-las para o nível da Liga dos Campeões. Há umas que conseguimos, outras não, mas para isso temos de ver milhares de empresas. E nós já vimos quase mil empresas nestes dois anos, desde que saímos da Caixa e dessas empresas investimos em oito, das quais já anunciámos a maior parte.

"Hoje toda a gente quer ser uma startup e acha que deve ter investimento de um fundo ou business angel. (...) Para termos rentabilidades de 15 ou 20% anualizadas, ou seja, para duplicar ou triplicar o capital que investem em nós, que é difícil, temos de ter um determinado perfil de empresas no nosso portefólio. E temos de acreditar que, quando entram podem ser aquela empresa que vai ser vendida por centenas de milhões ou de milhares de milhões de euros"

Já viram tantas empresas, investiram em oito, o que é que procuram? O que é que estas têm de diferente das outras?
Isso é uma pergunta muito importante porque acho que hoje toda a gente quer ser uma startup e acha que deve ter investimento de um fundo ou de um business angel. Mas, para se ser investido pelo tipo de capital que temos — que é o venture capital — uma categoria dentro do capital de risco, que é uma categoria dentro dos fundos alternativos, que é uma categoria entre todas as classes de ativos que existem… Para termos rentabilidades de 15 ou 20% anualizadas, ou seja, para duplicar ou triplicar o capital que investem em nós, que é difícil, temos de ter um determinado perfil de empresas no nosso portefólio. E temos de acreditar que, quando entram podem ser aquela empresa que vai ser vendida por centenas de milhões ou de milhares de milhões de euros. E porquê? Porque a estatística mostra que a vasta maioria das empresas pequeninas falha, quer sejam um cabeleireiro, um café, uma lavandaria ou uma startup tecnológica xpto.

E, falhando todas, as únicas que conseguem crescer o suficiente para dar esse tipo de retornos — que compense todas as que falham — são normalmente as tecnológicas, que não estão muito envolvidas no mundo físico: não estão a produzir sapatos, roupa ou a fazer pães. Procuramos empresas que são únicas na forma como resolvem um problema e isso significa que resolvem esse problema de uma forma 10 vez melhor do que a concorrência. Esse problema tem de ser muito grande, à escala mundial, porque depois, quando vamos tentar escalar a empresa, conquistar esse vertical mundial, se o problema não for muito grande pode ser uma solução muito inteligente mas que ninguém quer comprar.

Para ela vir a valer centenas de milhões ou milhares de milhões como a Farfetch, Talkdesk, Outsystems ou, eventualmente, a Feedzai ou a Unbable — que estão a caminho de se tornarem grandes empresas portuguesas à escala mundial — têm de ter um mercado alvo muitíssimo grande, para que possam vir a ter esse tipo de avaliações e para que possamos então vir a retornar o tal capital aos nossos investidores. Um produto único, um mercado gigante e, para conseguir isso, temos de ter uma equipa muito especial. Não são todas as pessoas que conseguem ou querem fazer empresas que venham a valer milhares de milhões de euros. Têm de ser pessoas que, para desenvolverem estas soluções tecnológicas muito avançadas, têm de ser muito especialistas, estar muitíssimo bem preparadas académica e tecnicamente e têm de ser muito ambiciosas. Mas também têm de ser pessoas com os pés na terra e uma certa humildade para trabalhar com os investidores.

Porque os investidores da nossa natureza trabalham muito de perto com as empresas, em termos de definir estratégia, qual é o marketing, como vão ser as vendas, quais são os preços, as parcerias, como se faz recrutamento e novas rondas de investimento. Os fundadores têm de ser pessoas que sejam também agradáveis de se trabalhar, porque se forem personalidades difíceis também não é possível. Claro que há exceções a isto, não é? E há exceções de empresas que por outras razões nós investimos, mas a base é esta: um produto muito diferente, um mercado muito grande, uma equipa muito especial.

José Neves é fundador e líder da Farfetch, o primeiro unicórnio (empresa que vale mais de mil milhões de dólares) português

“A moda das startups atrai muitos amadores. Não, as empresas não valem milhões”

Da outra parte que sobra, normalmente há uma parte significativa que acaba por ser vendida por valores abaixo dos 100 milhões e que as pessoas diriam que é espetacular. Sim, mas não nos esqueçamos que um fundo como o nosso tem uma percentagem pequena das empresas — 10%, 20%, 5% às vezes — e não são essas que vão fazer o fundo ter grande retorno. Uma Farfetch ou uma Talkdesk surgem apenas uma vez por cada ano ou por cada 5 ou 10 anos. E são essas que vão ter os retornos que vão compensar todas as outras. Aceitando essas regras do jogo, as pessoas percebem como é que as coisas funcionam.

"Está a acontecer uma profissionalização. Não há dinheiro que substitua o tempo, é natural... Demorou a Londres década e meia a ser o que é. A Berlim e a Paris também. E, claro, Silicon Valley tem 50 ou 60 anos de avanço. O conhecimento vai-se passando e vai havendo cada vez maior perceção do que é a sério e do que é a brincar"

Falou das pessoas que pensam que isto de ter ou investir uma startup é uma brincadeira. Ainda sente que há esse desconhecimento vindo da maioria dos portugueses? Olha-se já para este ecossistema de uma forma mais profissionalizada ou ainda não?
É uma questão de amadurecimento. Também estava em Londres quando houve a bolha das dotcom, no final dos anos 1990 e início do milénio, e estávamos numa fase parecida no sentido em que as pessoas estavam a descobrir o que era isto da tecnologia e das startups. Havia uma excitação geral, tal como tem existido em Portugal, que às vezes é um bocadinho contraproducente. Porque depois, efetivamente, há muita confusão do que pode ser uma startup e investível. E toda a gente se dedica a querer ser vários atores do sistema, quando não temos condições para a vasta maioria das pessoas e empresas. Não são [startups] e deviam encontrar outras soluções de financiamento.

Acho que a moda — e em particular porque as pessoas também ouvem esta questão de as empresas valerem milhões e isso confunde bastante as pessoas, e convém sempre explicar — atrai muita gente, muitos curiosos e muitos amadores. Mas também se nota, desde 2013, desde que voltei a Portugal, uma evolução enorme tanto da parte dos empreendedores como dos agentes do Estado, como dos investidores. Está a acontecer uma profissionalização. Não há dinheiro que substitua o tempo, é natural… Demorou a Londres década e meia a ser o que é. A Berlim e a Paris também. E, claro, Silicon Valley tem 50 ou 60 anos de avanço. O conhecimento vai-se passando e vai havendo cada vez maior perceção do que é a sério e do que é a brincar.

Agora, as pessoas estão a começar a perceber que há diferenças entre startups, investidores, business angels e por aí fora. E o mercado está a começar a organizar-se, a haver conhecimento mais generalizado, mas estamos longe… Obviamente que não estamos ao nível das grandes capitais europeias e Portugal não é de todo Lisboa, muito menos na área tecnológica. Nós só temos duas empresas em Lisboa, destas oito, as outras são de fora de Lisboa e outra é de fora de Portugal. Estamos no caminho certo para ter mais conhecimento. Estamos no top10 europeu, o que é bom, tendo em conta que na vasta maioria das estatísticas europeias estamos na cauda. Aqui acho que estamos no pelotão da frente, ainda que não mesmo na frente, porque isso não seria realista.

"O resultado dessa conta versus diluição do dinheiro é que dá as tais avaliações que parecem loucas. Mas valem milhões? Não, não valem milhões... Isso é o resultado de uma conta matemática. Não valem, claramente. É só uma forma inteligente de se alinhar interesses"

Houve um abrandamento do investimento nos últimos tempos… Houve ou este arrefecimento aconteceu porque tínhamos estado nesse estado de euforia e as coisas tinham aquecido de mais para aquilo que na verdade estava a acontecer? Abrandámos ou estamo-nos a reajustar para aquilo que deveria ser a nossa dinâmica de investimento em Portugal?
O abrandamento foi conjuntural. O que aconteceu foi que houve um momento em que, quando nós saímos da Caixa, a equipa do Espírito Santo também deixou de investir. Aliás, já tinha deixado de investir há uns anos, a Portugal Ventures também teve um grande abrandamento por não ter fundos naquela altura e por aí fora… Houve um período de dois anos e qualquer coisa em que realmente não havia muitos fundos a operar no mercado. Esses players voltaram agora ao mercado e mais alguns corporates, que também têm fundos pequenos. E estamos a renascer, digamos, como ecossistema de uma forma mais profissional e isso é diferente do abrandamento que é relativo à escala internacional.

À escala internacional talvez o pico tenha sido no ano passado, mas o que há é cada vez uma maior concentração em menos empresas. Ou seja, os investidores estão a apostar e a investir mais em menos empresas e estão a ser cada vez mais exigentes nas métricas que exigem às empresas para serem investidas. Mas depois, quando as empresas passam, digamos, esse crivo, há mais capital disponível, até porque os fundos hoje são cada vez maiores.

Um fundo como o nosso que tem praticamente 50 milhões de euros e que, teoricamente, é o fundo com mais disponibilidade de capital em Portugal — dos fundos que eu conheço — é muito pequenino à escala internacional e está um bocadinho abaixo da média europeia. Os grandes fundos dos EUA têm 500 milhões, mil milhões, 2 mil milhões, 3 mil milhões sob gestão. Estamos a ver aqui uma escala completamente diferente. Repare-se: em Portugal existiram 14 empresas nos últimos oito anos que receberam rondas de financiamento internacionais de 5 milhões para cima — 14! Isso é o que sai por semana em Londres ou algo do género. Portanto, estamos a falar de uma escala completamente diferente. Dito isto, Portugal já criou um conjunto de empresas grandes, à escala mundial, umas unicórnios outras quase unicórnios, que é muito impressionante face a Espanha e outros mercados. Quando as coisas correm bem, correm muito bem, até porque não temos mercado local, que é uma grande vantagem. São internacionais desde o dia 1 ou então morrem. Portanto, é uma grande vantagem ser pequeno.

Falou em unicórnios e avaliações. É assim tão importante ter estes estatutos e atingir estas avaliações?
É e não é. Mais uma vez: a questão das avaliações costuma ser um foco muito grande dos fundadores e pode ser um problema, porque o importante não é tanto a avaliação em si. Estes investimentos fazem-se por camadas, a forma como um investidor olha para esta questão é: quanto dinheiro é que esta empresa precisa para os próximos 12 ou 18 meses? Não é uma perspetiva de quanto dinheiro precisa para os próximos  5 anos. É: quanto é que precisa para em 12 a 18 meses atingir determinadas métricas Outra parte da equação é: quanto é que esse dinheiro, que vamos injetar, devia representar na empresa? Essas rondas de capital que se vão fazendo devem ficar numa média de uns 20% — entre os 10 e os 30% — para que os fundadores sejam os donos da empresa. O resultado dessa conta versus diluição do dinheiro é que dá as tais avaliações que parecem loucas. Mas valem milhões? Não, não valem milhões… Isso é o resultado de uma conta matemática. Não valem, claramente. É só uma forma inteligente de se alinhar interesses.

As avaliações são importantes porque mostram que se houver uma cadencia de avaliações cada vez mais avançadas, feitas por investidores profissionais com reputação, então é porque, provavelmente, aquela empresa está a criar mais valor e há uma expectativa maior. Também é importante porque, depois de entrarmos, quanto maior for a avaliação melhor — porque as nossas participações valem mais. Este é o jogo do venture capital: entrar numa determinada avaliação e, eventualmente, sair o mais rapidamente possível com a avaliação mais alta possível. Agora, o estatuto por si próprio de unicórnio não é importante. Criou-se essa simbologia mítica, porque são tão raros os que chegam lá que, pronto, chamam-se unicórnios. A verdade é que hoje já não são tão raros, existem centenas de unicórnios — o que pode demonstrar que há bolha ou não. Mas, claro, para investidores earluy stage como nós, que entram com avaliações baixinhas, obviamente que para nós quanto mais unicórnio, melhor.

"Acho que, por exemplo, não existe capital suficiente abaixo dos 100 mil euros. Um dos problemas é que quem tiver uma ideia espetacular e quiser deixar o seu emprego tem dificuldade em fazê-lo, porque aquela ronda típica dos family, fools and friends... Se calhar os americanos têm 10 ou 20 mil euros para emprestar a um amigo ou ao sobrinho, mas os nossos não têm dinheiro"

E há bolha ou não há bolha?
No mercado em que há taxas de juro tão baixas surgem sempre bolhas. Tal como no imobiliário, quando começa a haver demasiado capital em determinadas classes de ativos, há um perigo de inflação e, portanto, quem está a investir pode estar a pagar demasiado. Acho que há bolhas e que não há bolhas: ou seja, há bolhas em determinados países e fases do ciclo. Claramente, na minha opinião, na parte mais avançada — empresas que estão na série D, E, até chegar à bolsa ou a uma venda —  se calhar há empresas que foram sobreavaliadas nas rondas finais. Umas sim, umas não. Umas Ubers comportam-se de uma maneira e outras comportam-se de outra. A Zoom, por exemplo, está a ter uma performance muito boa, a Uber se calhar não tão boa, o que leva a entender que se calhar se pagou de mais ou de menos nessa altura. Isso pode vir a afetar alguns países mais do que outros, nomeadamente onde há mais capital. Exemplo: Silicon Valley. Sim, se calhar há capital a mais. França: há capital a mais, há demasiados fundos no mercado. È um dos grandes países mundiais em termos de tecnologia, mas se calhar há mercado a mais. Ou seja, ser um fundador de uma empresa em França hoje é ótimo, pode escolher à vontade… A questão é: o que é que vai acontecer a esses fundos? Só que isto às vezes só se vê passados cinco, dez anos.

Considero que hoje Portugal está numa fase equilibrada. Claramente havia pouco capital até há pouco tempo, agora com o aparecimento do nosso fundo e de mais um ou dois, existe capital para esta fase inicial, entre os primeiros 100 mil a 2, 3 milhões existe capital. Acho que, por exemplo, não existe capital suficiente abaixo dos 100 mil euros. Um dos problemas é que quem tiver uma ideia espetacular e quiser deixar o seu emprego tem dificuldade em fazê-lo, porque aquela ronda típica dos family, fools and friends… Se calhar os americanos têm 10 ou 20 mil euros para emprestar a um amigo ou ao sobrinho, mas os nossos não têm dinheiro.

Há um problema de base: talvez os primeiros 100 mil euros e, depois, para cima dos 2, 3 milhões, considero que Portugal já não tem um problema. É uma falácia dizer-se que não há fundos que façam as rondas B e C em Portugal… Sim, há, são os de Londres, Paris, Berlim e os de todo o mundo que vêm cá constantemente e que iam ao meu escritório na Caixa Capital desde 2013. E por via de mais um ou outro player que vão sabendo, telefonando, para saber se há algum João Félix novo. E vêm cá ver alguns dos treinos. Não é realista pensar que Portugal vai ter fundos de 500 milhões para investir em startups, porque não há mercado para isso.

“Vejo muitas notícias sobre exits [quando uma startup é comprada] que são falsas. Muitas”

Disse há pouco que estamos numa fase mais profissionalizada do setor, mas acha que se investiu sempre bem em Portugal? Ou também se cometeram erros a nível de investimento?
Claramente cometem-se sempre erros e acho que todos nós estamos sempre a aprender. Houve muitos erros cometido, mas a tendência é positiva, o importante é aprender, não voltar a cometer os mesmos erros e, em particular, perceber que isto é uma classe de ativos muitíssimo complexa, que requer profissionalismo, dedicação exclusiva e que, portanto, não é uma brincadeira que se faça assim ao fim de semana ou à noite, enquanto vou ver uns pitch e, de repente, meto ali uns 50 mil euros, porque achei piada aos miúdos. Não é assim que se investe profissionalmente. E mesmo os business angels dos outros países em geral são pessoas que vêm do setor tecnológico, que fizeram os seus próprios exits e que estão então a voltar a investir com algum conhecimento. Todos cometemos erros, mas acho que estamos melhor agora.

"Vejo muitas notícias sobre exits que são falsas. Muitas. As pessoas decidem integrar a sua empresa, porque está prestes a ir à falência, numa outra qualquer startup e mandam uma notícia para os jornais a dizer que é um exit. É mentira. Mais valia dizerem só: não correu bem e eu decidi integrar a minha empresa numa outra maior"

Não há empresas sobrevalorizadas também em Portugal?
Provavelmente, há. Até porque se olharmos para que muitas delas vão falhar, podemos sempre dizer que elas estavam sobrevalorizadas em 100%, não é? Mas há-de haver empresas sobrevalorizadas, sim. Não acho que seja um problema tão grave como vemos noutros países. Nos EUA, é um problema relativamente grave em algumas rondas, alguns locais e por alguns fundos, porque — lá está — depois, quando vamos ver, em Silicon Valley, são sempre os mesmos 10 fundos que têm os resultados todos. Porque a realidade é esta: vêm todos do mesmo lado, todos os sucessos, todos os Facebooks, vêm todos do mesmo lado. São aqueles 10 ou 15 fundos americanos, não é? E, portanto, em Portugal, acho que estamos num momento de equilíbrio agradável e não pode haver nem dinheiro a mais nem dinheiro a menos. Tem de haver uma procura e uma oferta equilibrada, para que nem as empresas sejam sobrevalorizadas, nem fiquem com tão pouco capital que não conseguem desenvolver-se.

É claro que é muito fácil às empresas dizer assim: “Não, não, mas a minha empresa… eu não consigo”. Bom, provavelmente não consegue porque a sua empresa não passa os crivos de um investimento profissional e tem de pensar noutra coisa. Temos de ter esse realismo. A maior parte das empresas não é adequada para venture capital. E é isso que temos de deixar todos de pensar: que isto é um tipo de financiamento para toda a gente. Nem a banca é para toda a gente, nem o VC é. Há muitas soluções e é bom que haja também esta solução agora em Portugal, que não existia.

Já falámos aqui várias vezes em falhanço, mas acha que se lida melhor com o falhanço em Portugal continua a ser um estigma? É fácil para um empreendedor admitir que falhou ou ainda continua a ser uma coisa difícil de lidar?
Mais uma vez, há de tudo: acho que o facto de haver falhanços, falhanços públicos, e de algumas pessoas falarem e até de nós, digamos, estarmos a promover esta classe de ativos que fala em falhanços ajuda a desmistificar. Agora, temos públicos diferentes. Se me perguntar se na sociedade portuguesa o falhanço é bem visto? Não, não é bem visto, porque este ecossistema é uma parte ínfima da sociedade portuguesa. Às vezes, estamos tão por dentro que até parece que existe muito ecossistema… O ecossistema não tem impacto nenhum no mundo português, na economia nacional, é uma coisa muito pequenina.

Neste mundo do ecossistema, o falhanço é visto como uma coisa cada vez mais aceitável, mas há nuances, nomeadamente: vejo muitas notícias sobre exits que são falsas. Muitas. As pessoas decidem integrar a sua empresa, porque está prestes a ir à falência, numa outra qualquer startup e mandam uma notícia para os jornais a dizer que é um exit. É mentira. Mais valia dizerem só: não correu bem e eu decidi integrar a minha empresa — consegui que me aceitassem — numa outra maior. Ou numa outra concorrente. Isso continua a acontecer muito. E acho que esse egocentrismo é ainda um sinal da imaturidade do ecossistema português. Não vou dizer que não aconteça nos outros países, também acontece, nomeadamente nos que são ainda mais imaturos do que nós, mas há que saber aceitar quando a pessoa diz: “A minha empresa não funcionou e arranjei um emprego ali, compraram a minha quota por mil euros e acabou”. Não vou chamar a isto um exit, não é? Diria que 90% dos exit que vejo nos jornais são isto e, por alguma razão, as pessoas nunca dizem por quanto é que venderam.

[Ouça parte da resposta de Stephan Morais abaixo]

"Quando se investem milhões de euros não é uma brincadeira e não é para perder. Não é um monopólio. Se correr mal, correu mal. Pronto, somos todos crescidos. E estamos preparados para isso, mas marca muito o fundador e os investidores também a forma como se encerra uma empresa, como se passa para o capítulo seguinte, como se gere esse tal falhanço nos media"

Há que desmistificar de uma vez por todas e isso é uma chamada de atenção a todos os fundadores, porque não cai bem com ninguém e não cai bem seguramente com os investidores profissionais, que marcam essa pessoa como uma pessoa que não está a dizer a verdade. Para nós, é muito importante que as pessoas nos digam a verdade, porque nós descobrimo-la quer queiramos quer não. Isso é um sinal de que o falhanço ainda não está completamente integrado.

Por outro lado, e os portugueses são muito de: somos os piores ou somos os maiores do mundo. Não pode ser. Também temos de ter algum cuidado com a questão do falhanço, porque efetivamente estamos a falar de investir capital e quem está do outro lado e é nosso sócio não pode brincar com o dinheiro dos outros. Temos de ter respeito pelo capital. Por exemplo, os fundos de pensões que investem na Indico Capital Partners — nós temos um dever fiduciário de proteger esses pensionistas. E, portanto, os fundadores muitas vezes não colocam capital, mas não estamos a jogar ao monopólio, não é? E, portanto, o falhanço, sim, mas o falhanço com consciência. Passamos muito rapidamente do “ai, é impossível falhar, é uma vergonha” para “vamos lá, isto tanto faz, porque o dinheiro não é meu, não é?” Temos de ter essa maturidade e isso é uma questão cultural e, às vezes, geracional e, também, de falta de experiência profissional, mas isto é a sério.

Quando se investem milhões de euros não é uma brincadeira e não é para perder. Não é um monopólio. Se correr mal, correu mal. Pronto, somos todos crescidos. E estamos preparados para isso, mas marca muito o fundador e os investidores também a forma como se encerra uma empresa, como se passa para o capítulo seguinte, como se gere esse tal falhanço nos media. E tanto na parte dos investidores que acompanharam esse processo como da parte dos fundadores que acompanharam, isso diz muito sobre os fundadores e diz muito sobre os próprios investidores que estão por detrás. Como é que o fizeram? Fizeram-no bem feito ou deixaram descambar tudo? Descambou porque era inevitável ou simplesmente porque ninguém ligou nenhuma? Isso diz muito sobre as pessoas que estão por detrás desses casos.

[Ouça a continuação da resposta de Stephan Morais abaixo]

“Vemos pessoas que são desonestas a ter sucesso e pessoas honestas que não têm sucesso nenhum”

Pessoas. Há pouco, no início também falou da necessidade de ter uma equipa especial. Mais do que dinheiro, o que é preciso são pessoas com várias competências para conseguir levar uma empresa a um nível grande, como os exemplos que disse há pouco, uma Talkdesk, uma Outsystems. O segredo está nas pessoas?
Acho que é um conjunto de várias coisas. Realmente, a base está nas pessoas, mas, como em tudo na vida, é preciso ter sorte. A Cristina [Fonseca] conta sempre isto: antes de fundarem a Talkdesk experimentaram três ou quatro coisas antes, até foram poucas, não é? Os criadores da Rovio, do Angry Birds… O Angry Birds foi o jogo número 50, ou 40 e tal. Portanto, experimentaram 40 e tal vezes antes.

Cristina Fonseca é fundadora da Talkdes, do Indico Capital Partners e integra atualmente o conselho de administração da Galp

Depois há que estar no momento certo. Quantas vezes acontece haver pessoas que inventam coisas espetaculares mas que o mundo não está preparado? Por exemplo, as apps. Já existiam apps antes do iPhone, mas antes do iPhone não havia onde vender apps. Portanto, o mundo não estava preparado. E isso acontece em muitos domínios tecnológicos e da nossa vida. Já para não falar da sorte geral de não ser atropelado por um autocarro e de estar no sítio certo na hora certa. A sorte também se constrói e daí vai a questão das pessoas. Se as pessoas estudaram, são realmente profissionais, se dedicam e são sérias, claro que nós queremos acreditar que isso tem um determinado papel no sucesso. Mas é um conjunto de coisas variadas. Não há assim um padrão, porque também vemos pessoas que são desonestas a ter sucesso, pessoas honestas que não têm sucesso nenhum e todas as combinações e permutas.

"Não podemos estar sempre à espera que seja o Estado ou a pessoa A, B ou C, ou que haja um grande padrinho do ecossistema, ou vários. Quer dizer, isto é orgânico. Não pode ser mais. O tempo é que vai educar o ecossistema. (...) Não há nada que substitua o tempo e, às vezes, estamos com muita pressa de andar mais rápido do que o próprio tempo. Não é possível. Tudo demora tempo. As coisas são o que são"

Mas este caminho para o amadurecimento que estava a falar deve passar por onde? Quem é que deve ter aqui o papel de professor do ecossistema?
Acho que não deve passar por ninguém em especial. Não podemos estar sempre à espera que seja o Estado ou a pessoa A, B ou C, ou que haja um grande padrinho do ecossistema, ou vários. Quer dizer, isto é orgânico. Não pode ser mais. O tempo é que vai educar o ecossistema. O tempo é que vai fazer com que as incubadoras sejam melhores, os aceleradores sejam melhores, as universidades preparem melhor os seus investigadores para lançarem empresas, os investidores sejam cada vez mais profissionais e tenham cada vez mais capital e saibam acrescentar mais valor. O Estado invente novos programas que sejam mais adequados e mais ajustados ao que é necessário e não ao que acham que é necessário, e por aí fora. Não há nada que substitua o tempo e, às vezes, estamos com muita pressa de andar mais rápido do que o próprio tempo. Não é possível. Tudo demora tempo. As coisas são o que são.

Vai-se construindo, mas acho que já deu um avanço muito grande. Portugal não era ninguém antes de 2012/13, nesta área de venture capital e startups. Agora, temos umas quantas empresas e pessoas que estão a entrar para a Forbes que criaram coisas espetaculares à escala mundial. Acho que, como país, é impressionante. Esta nova tendência de tecnologia envolve muita criatividade e Portugal, e os portugueses, têm muita criatividade. O desenrasca é muito útil. Claro que tecnologia é ciência, não é? Mas também é inovação e mudança constante. Acho que temos todas as condições para termos empresas boas, empresas grandes, temos um nível educacional já muito bom. Uma das coisas que dizemos aos nossos investidores é que Portugal tem um nível de engenharia muito, muito elevado, apesar de termos muito poucos engenheiros a sair por ano. É uma pena que não haja mais engenharia e que não haja um enfoque maior em criar mais quadros de engenharia em Portugal.

Depois, temos um nível de inglês muito bom, o que é uma diferença muito grande face a Espanha e outros países. Quando falamos com fundadores, eles às vezes têm empresas até espetaculares, mas têm dificuldade em expressar-se e em ser convincentes. Hoje, para se angariar capital e fazer uma grande empresa tem de se ter aquele carisma e aquela capacidade de comunicação na qual já não basta apenas ser bom em Excel ou a fazer código. É uma mistura de várias coisas. Os portugueses também são bons a inglês. Mais uma vez, a aposta na educação nas últimas décadas a dar frutos. Precisávamos era de mais gente. Acho que temos muita gente que tinha capacidade para ir para engenharia, mas há uma certa rigidez também nas entradas nas universidades. Claro, podemos importar pessoas, mas não basta. Também temos de criar mais aqui.

Há pouco, quando falávamos do falhanço, falávamos sobretudo nos fundadores, mas quando é que um investidor falha? O que é o falhanço de um investidor?
Logo à partida há uma grande diferença entre fundadores e investidores. É que os fundadores quando falham chamam a isso experiência. Nós, quando falhamos, nunca mais ninguém nos dá dinheiro para investir. E, portanto, não temos duas hipóteses. Estamos a falar de parâmetros e níveis muito diferentes. Um investidor falha quando falha na sua análise. Ou seja, não percebe que aquilo que está à sua frente não é verdadeiramente diferenciador. Ou que não tem um mercado suficientemente grande para poder vir a ser interessante para outros investidores, eventualmente para poder vir a ser vendido. Muitas vezes vemos investidores… E já agora, vamos aqui desmistificar: muitos investidores estrangeiros, também grandes e conhecidos, não fazem o que se chama uma due diligence profunda.

"Há muita desonestidade. Muita. E se os investidores não vão muito a fundo em termos de tecnologia, financeiros e em termos de pessoas... Porque também há muita gente que diz: "Não, não. Tenho um cliente, tenho dois clientes e três". E, depois, de repente, o cliente é a mãe, o tio e o primo, e poderia dizer exemplos de tudo isto. Depois vemos fundos a investir que não fizeram essas perguntas. Obviamente, falharam. Falharam porque nós temos um dever fiduciário de ir ao fundo das questões"

O que é que isso quer dizer?
Isso significa que quando estamos a olhar para uma empresa e nos dizem: “Faço não sei o quê de inteligência artificial”. E nós dizemos: “Ok, mostra-me o algoritmo”. E eu vou ver o código. Portanto, vamos ver se isso é verdade ou não. Ou quando nos dizem: “Nós faturamos X mil euros por mês recorrente”. E nós dizemos: “Ok, muito bem, mostra-me o Excel e vou ver até à quinta casa como é que fizeste esse cálculo”. Porque, invariavelmente, ou está mal ou é mentira.

Há muita desonestidade?
Há muita desonestidade. Muita. E se os investidores não vão muito a fundo em termos de tecnologia, financeiros e em termos de pessoas… Porque também há muita gente que diz: “Não, não. Tenho um cliente, tenho dois clientes e três”. E, depois, de repente, o cliente é a mãe, o tio e o primo, e poderia dizer exemplos de tudo isto. Depois vemos fundos a investir que não fizeram essas perguntas. Obviamente, falharam. Falharam porque nós temos um dever fiduciário de ir ao fundo das questões e de tentar compreender, sabendo mesmo assim que vamos falhar no sentido em que depois, por outras razões, o mercado pode não estar lá. O produto, afinal, os clientes, afinal, não eram assim tão importante. Não estão dispostos a pagar ou não é uma quantidade assim tão grande que estejam dispostos a pagar. Ok, mas na base, na partida, temos de perceber se aquela tecnologia realmente existe e se faz sentido. Se os clientes existem e fazem sentido, se as pessoas estão dispostas a pagar e se aquilo que está naquele Excel é verdade. E tomam-se muitas decisões — volto a frisar — e não é só nos investidores nacionais, é em grandes casas de investimento mundial, particularmente quando já têm biliões sob gestão e vêm aqui a Portugal meter dois ou três milhões que para eles são trocos, e não fazem as perguntas certas. Também há que desmitificar esta questão: temos sempre o complexo dos estrangeiros, etc. Os estrangeiros são iguais a nós, ou fazem um trabalho profissional ou não fazem.

[Ouça parte da resposta de Stephan Morais abaixo]

Mas há exemplos em Portugal desses?
Há muitos exemplos desses.

E não quer avançar?
Não possa avançar. Até porque ainda não houve uma conclusão, mas já receamos saber qual é a conclusão de alguns desses investimentos. E, portanto, enfim, se calhar para eles também tanto faz porque têm milhares de outras empresas e têm fundos gigantes sob gestão e, portanto, têm outros critérios.

"Há momentos em que se chega à conclusão que, simplesmente, não funciona. Aí, a disciplina do investidor é não meter mais dinheiro. E muitos dos erros que se cometeram no passado, por outros investidores, foi continuar a colocar dinheiro, apesar de claramente a empresa não estar a atingir os resultados"

“Temos a obrigação de ajudar os fundadores a fazer o luto. Porque quando se está apaixonado pelo seu próprio negócio é difícil ver com clareza que não dá”

Há uma coisa que me intriga: durante quanto tempo é aceitável insistir numa empresa que já não está a resultar? Há pouco, falava que esse falhanço tem de acontecer rápido. O que é esse rápido? Durante quanto tempo é que é suposto insistir?
Isso é mais claro. Os critérios continuam a ser os mesmos ao longo da vida da empresa. Portanto, aquele produto é único e tem condições de ser o número um mundial, o mercado é gigante e vai fazer dinheiro. Os fundadores são pessoas sérias e com quem se pode trabalhar e sabem o que é que estão a fazer. Se, em algum momento, pelo menos o produto não for de acordo com o que se esperava, ou o mercado, afinal, não está lá, ou os fundadores revelaram não ser as pessoas que pareciam serem… E, já agora, quando fazemos due diligence, a tal investigação, fazemos uma avaliação psicológica das pessoas. Subcontratamos essa avaliação para percebermos se são pessoas com o tipo de perfil necessário para fazer estas coisas.

Quanto percebemos — e isso percebe-se — que as empresas começam a não atingir os resultados que estavam programados, das duas uma: ou há mudanças que podemos fazer no produto, no segmento que vamos atacar ou na equipa que possam dar a volta — e obviamente que isso é uma decisão caso a caso e momento a momento dizemos: “Pronto, não correu assim, mas vamos mudar um bocadinho para a esquerda ou para a direita e vamos tentar de outra maneira, porque aprendemos com este erro inicial, ou que este segmento inicial não funcionou”. Mas há momentos em que se chega à conclusão que, simplesmente, não funciona. Aí, a disciplina do investidor é não meter mais dinheiro. E muitos dos erros que se cometeram no passado, por outros investidores, foi continuar a colocar dinheiro, apesar de claramente a empresa não estar a atingir os resultados.

E, muitas vezes, por pressão dos fundadores  — que naturalmente estão apaixonados pelo seu bebé e não querem desistir, o que é um erro para os fundadores. Por um lado, não devem desistir se acharem que há realmente uma hipótese, mas se ninguém no mercado está disposto a investir — nem no nacional nem no internacional — e se as pessoas continuam a insistir que devem ir por aquele caminho, bom, então, vão sozinhas. Porque não vale a pena os investidores continuarem a usar dinheiro de terceiros para investir numa coisa que, claramente, o mercado não está a aceitar.

"Temos a obrigação de ajudar os fundadores a fazer esse luto. Porque é difícil quando se está apaixonado pelo seu próprio negócio, às vezes, ver com clareza que não dá. Aí, isso também é humano. Também é normal. (...) O que é uma coisa diferente de as pessoas portarem-se mal na saída e, enfim, as coisas acabarem mal"

Portanto, aí, tem de ser o pulso firme do investidor?
O pulso firme e também aconselhamento. No sentido em que os senhores querem continuar, os nossos sócios querem continuar, muito bem, nós vendemos a nossa quota por um euro, se for preciso, depois com uma cláusula de regresso de boa fortuna não vá acontecer alguma coisa de espetacular no futuro, mas temos também a obrigação de ajudar os fundadores a fazer esse luto. Porque é difícil quando se está apaixonado pelo seu próprio negócio, às vezes, ver com clareza que não dá. Aí, isso também é humano. Também é normal. Isso também faz parte dos investidores profissionais conseguirem aconselhar a dizer: “Olhe, eu acho que isto não vai dar e, portanto, se calhar a tua vida não deve passar por aqui. E ainda tens idade para tentar. Tentaste desta vez vamos tentar de outra maneira qualquer e nós estamos aqui se calhar até para uma próxima”. O que é uma coisa diferente de as pessoas portarem-se mal na saída e, enfim, as coisas acabarem mal.

A Indico já fez 8 investimentos. Consegue sentir que houve algum retorno ou ainda é muito cedo para dizer?
Os retornos estão a acontecer — não em termos de rondas subsequentes, porque ainda é muito cedo (se bem que vamos ver se este ano já acontece qualquer coisa, obviamente). Mas quase todas as empresas estão a progredir da forma que era esperada. Nem todas estão, digo já. Também não vou dizer qual é ou quais é que são. Mas, em todo o caso, é normal e em oito a vasta maioria está a progredir. Algumas estão numa fase ainda de desenvolvimento. Todas têm vendas porque nós não podemos investir sem ter já um produto e algumas vendas. Mas algumas estão mais focadas ainda em produtos, em vendas, mas no fundo estão a transformar-se em empresas mais abrangentes para poderem vir a abarcar mercados maiores.

Por exemplo, a Sound Particles, que está dedicada à parte de filmes épicos em Hollywood, estamos a prepará-la para o setor dos videojogos, que é obviamente muito maior e tem muito mais aplicabilidade. E isso envolve um grande investimento, tiveram agora esta boa notícia do SMI Instrument, fase 2: mais de um milhão de euros de subsídio de fundo perdido na Sound Particles. Para transformar a empresa, em conjunto connosco, para ir para o segmento de jogos e há outras que estão já a vender imenso. E há outras que estão ali no meio e há uma outra que alterações é que temos de fazer. É o normal.

E não tem assim tanto tempo, não é? Estes investimentos foram bastante recentes, mas já dá para fazer esta filtragem.
Já dá para fazer essa filtragem. São investimentos que têm entre seis a dois meses.

"Há muitas vezes essa tendência para o facilitismo de "isto é interessante" e não se fez uma análise competitiva, profunda daquele setor. E, depois, isso leva a que as empresas não progridam da forma que deviam, ou se tornem zombies a determinada altura e, depois, os investidores cometem o segundo erro, que é, meter mais capital onde não devia entrar mais capital nenhum"

Portanto, em seis meses já se consegue perceber o que há afinar.
Já, já. Não temos nenhuma que tenhamos dito — até para descansar aqui o nosso portefólio — que já tenhamos uma conclusão e digamos :”Epá, desculpe isto não vai dar”. Não, não, de todo. Todas elas estão a ir bem e têm equipas excelentes. Mas, obviamente, que há velocidades diferentes e até também porque elas estão em estágios muito diferentes. Temos uma vasta maioria do nosso portefólio em empresas relativamente jovens, que estão a dar os primeiros passos, mas depois temos duas ou três com faturações de dezenas de milhões de euros.

Já estamos aqui na reta final, só duas questões: Qual é o erro que os os empreendedores portugueses mais cometem?
O erro que mais cometem talvez seja subestimar a dificuldade de faturar. Ou seja, isso implica a concorrência e as vendas. Acho que para os empreendedores portugueses é mais natural a parte técnica. Somos um bocadinho tipo Israel — salvo a comparação porque eles obviamente têm também um passado de sucesso tecnológico muito alicerçado no exército e na grande capacidade tecnológica que têm — mas somos muito como Israel nesse sentido. Somos um país de engenheiros, pequenino, sem mercado local, em que as pessoas inventam e são bastante criativas. Depois, temos dificuldade em concretizar vendas. Há falta de quadros de vendas e marketing em Portugal. Nomeadamente, vendas e marketing tecnológico. Frequentemente temos de importar quadros superiores de outros países, que vão desde Inglaterra, Alemanha ou Estados Unidos.

Graças a Deus, hoje, Portugal é um país que está muito na moda. Não só pelo turismo mas por outras questões. As pessoas gostam de viver em Portugal. Gostam de vir para cá. Temos que lhes pagar muito na mesma, por que senão não vêm. Mas é um país no qual é fácil atrair pessoas. Por outro lado, também, muitas vezes, as empresas portuguesas acabam por montar os seus centros de vendas e marketing e de atenção ao clientes nos EUA. Porque dois terços do mercado mundial de software está nos EUA e de uma maneira ou de outra vamos todos lá parar. Até porque a saída — a venda — muitas vezes faz-se lá.

E os investidores? Qual é que é o erro que os investidores mais cometem?
O maior erro que tivesse de generalizar, incluindo business angels e as empresas que fazem investimento e os fundos, é investir em soluções que não são únicas à escala mundial. Esse é o maior erro. Não ir, não procurar empresas que são absolutamente, potencialmente capazes de ser  vencedores globais de uma determinada corrida. Há muitas vezes essa tendência para o facilitismo de “isto é interessante” e não se fez uma análise competitiva, profunda daquele setor. E, depois, isso leva a que as empresas não progridam da forma que deviam, ou se tornem zombies a determinada altura e, depois, os investidores cometem o segundo erro, que é, meter mais capital onde não devia entrar mais capital nenhum.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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