Imagine o seguinte cenário: chega ao trabalho de manhã e a quantidade de e-mails por responder é interminável, a agenda está sobrecarregada, e às 11 horas tem uma reunião para a qual precisa ainda de se preparar, fazer pesquisa e ler alguns relatórios. No final do encontro, cabe-lhe a si fazer um resumo e partilhar com a equipa as conclusões.
O resultado é mais uma manhã passada sem ter feito aquilo para que, provavelmente, foi contratado em primeiro lugar: pensar, criar, resolver problemas, tomar decisões, desenvolver novas ideias ou construir relações.
É exatamente aqui que reside a verdadeira revolução da Inteligência Artificial. Ao contrário do muito que se tem debatido, o verdadeiro potencial desta tecnologia não está em retirar as pessoas da equação. Está no contrário, ou seja, em valorizá-las.
À medida que a IA assume tarefas repetitivas, administrativas e consumidoras de tempo, abre-se espaço para aquilo que distingue o talento humano e só pode ser por este assegurado. Falamos de criatividade, pensamento crítico, capacidade de estabelecer relações, visão estratégica e tomada de decisão.
No fundo, com a IA alarga-se o caminho para que os humanos façam o que nenhuma máquina consegue imitar, isto é, serem pessoas.
Pensar na IA como um meio e não como um fim
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No terceiro episódio do videocast “O Ingrediente Invisível”, o uso da Inteligência Artificial nas empresas esteve em análise, com o contributo de Gabi Chanas, Líder dos Digital Marketing Experts da Nestlé Portugal. Em conversa com Maria João Simões, host da Rádio Observador, a especialista considerou que o receio das pessoas não deve ser o da substituição do seu posto de trabalho pela IA, mas por alguém que usa a IA melhor. Ou seja, há que “pensar na IA como um meio, não como um fim”, afirmou, dando conta de como esta transformação digital se faz sentir no universo da Nestlé Portugal.
Este episódio já está disponível no site do Observador e nas principais plataformas de podcast.
Como a IA já está a ser usada no trabalho
Durante muito tempo, a tecnologia ajudou-nos a trabalhar mais depressa. Mas agora a IA veio acrescentar uma nova possibilidade: ajudar-nos a trabalhar melhor.
Os sinais de que essa transformação já está em marcha são evidentes. Dados do relatório anual da Microsoft Work Trend Index, desenvolvido em parceria com o LinkedIn e publicado em 2024, revelam que 75% dos profissionais que trabalham com informação já utilizam ferramentas de IA no seu dia a dia profissional.
Entre os utilizadores destas ferramentas, 90% afirmam que a IA lhes permite poupar tempo, 85% dizem conseguir concentrar-se melhor nas tarefas mais importantes, 84% sentem-se mais criativos e 83% referem uma melhoria na experiência global de trabalho.
Estes dados deitam por terra a teoria de que a IA se destina a fazer todo o trabalho das pessoas. É que, na prática, os profissionais estão sobretudo a utilizá-la para eliminar tarefas de baixo valor acrescentado, ganhando disponibilidade para atividades onde a sua intervenção, enquanto humanos, é determinante.
Como a Inteligência Artificial está a transformar a Nestlé Portugal
Na Nestlé Portugal, a Inteligência Artificial está a deixar de ser encarada como uma tecnologia de futuro para passar a fazer parte da transformação do trabalho no presente. A abordagem parte de um princípio simples: a IA deve ampliar o potencial das pessoas, e não substituí-las. Por isso, a empresa tem investido em ferramentas, formação e capacitação que permitem às equipas incorporar esta tecnologia no dia a dia de forma segura e responsável, libertando tempo dedicado a tarefas repetitivas ou análises complexas e criando mais espaço para pensar, criar, inovar e tomar decisões.
À semelhança do que defende Gabi Chanas neste episódio de “O Ingrediente Invisível”, ao invés de se perguntar que empregos serão substituídos pela IA, talvez a questão mais relevante seja outra: “Como podem as pessoas utilizar a IA para desempenhar melhor o seu trabalho?”
Gabi Chanas, Líder dos Digital Marketing Experts da Nestlé Portugal
Esta transformação estende-se a diferentes funções da organização. O digital, os dados e a automação são hoje competências cada vez mais transversais, e a IA veio acelerar essa evolução. Em Portugal, uma das prioridades passa precisamente por desenvolver a qualificação dos colaboradores nesta área e proporcionar-lhes ferramentas que possam aplicar no trabalho, conjugando a vertente prática com princípios de segurança, ética e responsabilidade. Ferramentas aprovadas como Copilot Chat e NesGPT fazem já parte das orientações internas da Nestlé para uma utilização responsável da IA.
A aposta passa também pela experimentação e pela aprendizagem. Em outubro, a Nestlé realizou em Portugal o Talent Fest [IA], iniciativa que permitiu aos colaboradores conhecer casos de uso reais, experimentar novas tecnologias e contactar com colegas que já integram IA no seu trabalho. O programa contou, entre outras iniciativas, com partilha de experiências por Embaixadores de IA, demonstrações numa AI Store e sessões dedicadas ao Agent Builder.
Este movimento local insere-se numa transformação mais ampla da Nestlé. A nível global, a companhia está a explorar Inteligência Artificial, machine learning, ciência de dados e análises preditivas para apoiar a inovação. Entre os exemplos estão ferramentas de otimização de receitas, que permitem aos investigadores gerir variáveis como ingredientes, nutrição, custo e sustentabilidade, e uma colaboração com a IBM Research que levou ao desenvolvimento de uma ferramenta de IA generativa destinada à identificação de novos materiais de embalagem de elevada proteção.
No fundo, mais do que automatizar o trabalho, a ambição é melhorar a forma como o trabalho é feito. Se a Inteligência Artificial pode assumir parte das tarefas de menor valor acrescentado, o papel das pessoas ganha ainda mais relevância nas dimensões onde a tecnologia não substitui o julgamento humano: criatividade, pensamento crítico, capacidade de decisão, relações e visão estratégica. É nessa complementaridade entre tecnologia e talento humano que a Nestlé Portugal está a procurar transformar a IA numa alavanca de produtividade, inovação e criação de valor.
61 %
das empresas recorrem à IA para apoiar decisões [Fonte: Eurobarómetro, “Growing Use of AI in European Companies” (2026)]
90 %
das empresas mantêm as pessoas no centro da decisão [Fonte: Eurobarómetro, “Growing Use of AI in European Companies” (2026)]
2 %
das empresas automatizam totalmente este processo [Fonte: Eurobarómetro, “Growing Use of AI in European Companies” (2026)]
Apoio na tomada de decisão
A forma como os trabalhadores usam a Inteligência Artificial parece refletir já a realidade das próprias empresas. Num dos mais recentes Eurobarómetros da Comissão Europeia dedicados ao impacto da IA no trabalho, 63% das empresas europeias admitem utilizar IA e sistemas automatizados ou planeiam fazê-lo no futuro.
A capacidade de analisar grandes volumes de informação em muito pouco tempo permite que gestores e equipas tomem decisões mais rápidas e mais informadas. Como tal, é precisamente para apoio à tomada de decisão que a maioria (61%) das empresas europeias dizem recorrer a esta tecnologia. Ainda assim, a maior parte (90%) reconhece que as decisões são tomadas por pessoas, enquanto apenas 2% diz que são totalmente automatizadas.
A prática das empresas vai ao encontro daquilo que a sociedade continua a defender como princípio essencial, isto é, que a tecnologia deve apoiar as pessoas, não substituí-las.
As competências que a IA não consegue substituir
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O Fórum Económico Mundial analisou o futuro do trabalho e concluiu que a maior parte das competências mais valorizadas até 2030 são, afinal, profundamente humanas:
- Pensamento analítico;
- Pensamento criativo;
- Motivação e autoconsciência;
- Empatia e escuta ativa;
- Resiliência, flexibilidade e agilidade;
- Liderança e influência social;
- Curiosidade e aprendizagem ao longo da vida;
- Literacia tecnológica;
- IA e Big Data.
Fonte: Fórum Económico Mundial, “The Future of Jobs Report 2025”
Este artigo complementa o terceiro episódio de “O Ingrediente Invisível”, um videocast que resulta de uma parceria entre o Observador e a Nestlé Portugal e que se propõe analisar, todas as semanas, os aspetos que influenciam a essência das organizações. Acompanhe o projeto aqui.
Fontes citadas:
https://www.microsoft.com/en-us/worklab/work-trend-index/ai-at-work-is-here-now-comes-the-hard-part
https://europa.eu/eurobarometer/surveys/detail/3696
https://www.weforum.org/publications/the-future-of-jobs-report-2025