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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

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Tiago Rodrigues: “Fazer teatro sem grandes condições é que é capitalismo selvagem” /premium

Tiago Rodrigues, Prémio Pessoa 2019, diz que o teatro precisa de mais dinheiro público. Fala num recorde de espectadores no D.Maria II e conta detalhes de uma peça sobre a “beleza de matar fascistas".

Foi em Londres, numa sexta-feira, 13. Tinha acabado de sair da Royal Shakespeare Company, onde ensaiava uma peça baseada em romances de José Saramago, e preparava-se para ir ver o espetáculo “Fairview” no Young Vic. “Foi então que recebi um telefonema do doutor Francisco Pinto Balsemão a anunciar-me o prémio” – o Prémio Pessoa 2019, destacado galardão anual instituído pelo jornal Expresso e pela Caixa Geral de Depósitos. “Primeiro, senti uma grande alegria. Depois, perguntei-me: ‘Será que ainda vamos ao teatro ver a peça?’.” Decidiu ir e acabou por ter uma “noite de teatro fenomenal”. “Celebrámos depois, a comer borrego e a beber vinho até altas horas.”

De regresso a Lisboa e ao Teatro Nacional D. Maria II – onde é diretor artístico desde janeiro de 2015, nomeado pelo então secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado – Tiago Rodrigues explicou esta semana ao Observador como interpreta a atribuição do Prémio Pessoa e como pensa a criação artística.

Ator, encenador e dramaturgo, tem 42 anos e um currículo extenso. Vem acumulando distinções, entre as quais o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras de França e o Prémio Europa de Teatro 2018 da Comissão Europeia. É informal e irónico, tenso e decidido, fala com dicção de ator e põe um entusiasmo na voz sempre que o tema é teatro.

Filho do jornalista Rogério Rodrigues e da médica Arlete Rodrigues, iniciou-se no teatro pela mão de Jorge Silva Melo, passou pela Escola Superior de Teatro e Cinema e logo aos 21 anos integrou a companhia belga tg STAN, depois criando o grupo Mundo Perfeito, ao lado de Magda Bizarro, a sua mulher, o que os levou à internacionalização. Foi também guionista da Produções Fictícias e professor convidado da Universidade de Évora ou da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto. Tem sido descrito como “um dos mais instigantes dramaturgos portugueses”, responsável pela criação de “um novo teatro europeu”.

Prémio Pessoa entregue a Tiago Rodrigues, ator, encenador e diretor artístico do D. Maria II

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Em longa conversa na sala de leitura do TNDMII, Tiago Rodrigues situou o discurso quase sempre no campo ideológico e político. Disse que todos os governos têm sido responsáveis pela falta de acesso das pessoas à criação artística e mostrou-se insatisfeito com a proposta de Orçamento do Estado para 2020 (que atribui ao TNDMII a mesma verba de 2019, cerca de 7,2 milhões de euros, a que acresce quase um milhão de receitas próprias com origem em privados, fundos europeus e outros teatros europeus).

Afirmou que não se vê a exercer cargos governativos, garantiu que “o problema do teatro” não está na relação dos artistas com o público e explicou como é que as decisões do polémico juiz Neto de Moura o instigaram a escrever uma peça com estreia marcada para Viena em maio e apresentação em Lisboa no mês seguinte.

"Este Prémio Pessoa vem falar da qualidade e diversidade do teatro português, num momento em que essa qualidade e diversidade ainda não foi, em termos políticos, compensada com o apoio justo"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Que significado atribui os prémios?
Depende de quem os dá, de quem já os recebeu… Para mim, há sempre uma dose de embaraço no reconhecimento público. Talvez seja timidez, modéstia. Quando se trabalha em teatro, que é uma área onde todo o caminho é tremendamente coletivo, ser destacado tem sempre um sabor injusto, mesmo nos momentos mais felizes.

Mas como ator já está habituado às palmas.
Sim, mas o código das palmas abrange todos, os visíveis e invisíveis. O que é aplaudido é o coletivo que está por detrás de uma obra. Aí, ser o recetor do aplauso está em nome de um grupo que construiu o espetáculo. Ser distinguido em nome próprio causa algum embaraço, que é amplamente compensado pelo orgulho que reconhecemos naqueles que amamos e naqueles que nos amam. Ver uma mãe, como a minha, ou uma atriz com que trabalho há muito, como a Isabel Abreu, ou trabalhadores do TNDMII com quem estou quotidianamente, sentirem-se orgulhosos de mim, e também do caminho que partilham comigo, compensa qualquer embaraço. Isto que nós fazemos em teatro, na arte em geral, não é uma competição, por isso, vejo os prémios como algo que dá visibilidade e atenção. Na vida pública portuguesa, qualquer pretexto que dê atenção à criação artística parece-me positivo. Por outro lado, os prémios têm uma dose de absurdo, porque criam uma meta que está a ser cortada por um vencedor em algo que não é uma corrida ou só o é em conjunto.

Foi para atenuar o embaraço que disse que o Prémio Pessoa é “coletivo”?
Não foi para atenuar o embaraço, é realmente o que sinto. Uma parte do prémio dever-se-á ao impacto do trabalho que eu e outros vimos fazendo nos espetáculos que assino como dramaturgo e encenador, no trabalho aqui no TNDMII, no trabalho que faço com muitas equipas em Portugal e no estrangeiro. Mas é também o teatro português que, de forma geral, está a ser prestigiado, devido à dimensão do prémio e do reconhecimento público que ele implica. Gostava que fosse entendido dessa maneira, porque a minha história é uma história do teatro português. Por muito que o meu trabalho tenha hoje uma dimensão internacional, nunca deixei de viver a precariedade que vejo muitos artistas viver. Por estar na situação em que estou, tenho a fortuna de não ter de enfrentar a precariedade. Mas aqui no TNDMII contacto com muitos artistas e companhias que enfrentam situações dramáticas. Por um lado, é-lhes reconhecida a capacidade e qualidade do serviço público que prestam, por outro, não lhe são dadas condições de trabalho, remuneração justa, etc. Este Prémio Pessoa vem falar da qualidade e diversidade do teatro português, num momento em que essa qualidade e diversidade ainda não foi, em termos políticos, compensada com o apoio justo.

O teatro não é uma profissão precária por inerência?
O teatro pode ser feito de incertezas, como muitas profissões criativas ou artísticas, mas disso não deve fazer parte a precariedade. A realidade que conheço no Reino Unido, em França ou na Alemanha é a de que a incerteza artística e a intermitência do compromisso de trabalho não têm de todo de estar ligadas à precariedade laboral nem de votar à miséria uma grande parte da classe artística.

A precariedade deve-se à falta de apoio da Direção-Geral das Artes?
É um universo muito mais abrangente do que a Direção-Geral das Artes, que é uma roda de uma engrenagem histórica. Em 45 anos de democracia, a criação artística nunca foi uma prioridade em Portugal.

"O grande problema destes últimos 45 anos de democracia em Portugal – e aí acho que todos os governos são cúmplices – é o acesso à cultura não ter sido encarado como um direito constitucional, como o direito à habitação, à paz, à segurança, à saúde, à educação."

Dizer que o problema é histórico não é diluir a responsabilidade do atual Governo?
Se acredito que há uma responsabilidade histórica, não posso dizer que é conjuntural, de um Governo que está neste momento no poder. É preciso uma alteração da atuação por parte da governação, mas também do poder local, do meio empresarial e da sociedade civil que nunca recusa uma eleição por falta de apoio à cultura ou à criação artística.

Porque é que existe falta de apoio?
Por exemplo, o trabalho que foi feito em França desde o pós-guerra não foi feito em Portugal. Não tivemos uma verdadeira descentralização da oferta cultural e da criação cultural. Portanto, temos em Portugal uma coisa absurda em 2019, quase 2020, que é não ter igualdade de acesso à fruição artística e cultural, o que ainda por cima é um direito constitucional [artigo 73ª da Constituição]. A assimetria em termos de acesso à cultura entre interior e litoral, ou zonas rurais e grandes cidades, é de uma violência de terceiro mundo. É inaceitável. Temos muitos teatros municipais espalhados por este país que estão ou negligenciados ou só são usados em dias de festa e efemérides. Temos muitos artistas que não têm espaço de trabalho. Isto equivale a ter centenas de piscinas num país, não as encher com água e depois queixarmo-nos de que as crianças não sabem nadar.

Português Tiago Rodrigues encena Saramago em Inglaterra, com a Royal Shakespeare Company

Não aceita o argumento da lei da oferta e da procura?
Não, não aceito. A história do serviço público em democracia é a história dos direitos, as pessoas têm o direito constitucional à fruição artística e o facto de não a procurarem resulta muitas vezes de essa oferta nunca ter existido. Não se procura aquilo que não se conhece. Se numa determinada escola ou comunidade forem fomentados hábitos culturais, sabemos que esses hábitos serão muito provavelmente uma necessidade no futuro, um hábito natural no dia-a-dia. Se na vila onde a criança cresceu não há cinema ou teatro, é como não haver piscina: não aprende a nadar ou aprende que nadar é uma coisa de exceção, a que não tem direito. O grande problema destes últimos 45 anos de democracia em Portugal – e aí acho que todos os governos são cúmplices – é o acesso à cultura não ter sido encarado como um direito constitucional, como o direito à habitação, à paz, à segurança, à saúde, à educação.

Todos os dias somos confrontados com problemas nesses direitos, na saúde, na justiça, na educação.
Mas em algum momento uma dessas questões foi prioritária em relação à cultura. Nunca a cultura ou a criação artística foram prioridade. No atual momento temos um Orçamento do Estado que aponta um crescimento residual e ainda assim estamos muito aquém das necessidades que existem. Isto não é matéria de opinião, é matéria de facto. A criação artística que existe em Portugal não foi fomentada pela grande dinâmica do apoio do Estado, existe a que resistiu, a que sobreviveu. Todos os anos fecham teatros e companhias, todos os anos centenas e centenas de jovens licenciados em teatro desistem de fazer teatro. O que temos hoje foi quem resistiu aos anos de austeridade, aos últimos 20, 30 anos de negligencia em relação à cultura, e a recompensa é a mesma falta de apoio. Ora, isto é inaceitável e não permite compensar o atraso histórico. Não digo que seja um processo do dia para a noite, mas é preciso coragem política e visão, acompanhadas de orçamento.

"Até ao fim de novembro, as taxas de ocupação andavam à volta de 95%. Isto é significativo num teatro que continua a ser o que faz as carreiras mais longas em Portugal"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Há vontade política na atual ministra da Cultura, Graça Fonseca?
O diálogo que tenho com a ministra da Cultura é enquanto diretor artístico do TNMDII e tem sido um diálogo franco e estreito, que tem permitido melhorar as condições em que funciona este teatro.

No setor, como um todo, esta ministra tem feito um bom trabalho ou não?
Acho que há expectativas. Esta ministra entrou em final de legislatura [outubro de 2018], com uma margem de manobra que me parece bastante reduzida em relação àquilo que era o tempo de legislatura que ainda tinha. Agora tem uma nova legislatura pela frente. Há um horizonte de esperança de que as coisas se possam alterar. Vivemos um momento bastante particular de oportunidade no teatro e na cultura em geral. Veja-se o ano cultural de 2019 no cinema, por exemplo. Foi um ano de excelência. Pedro Costa em Locarno, Tiago Guedes em Veneza, absolutos sucessos de bilheteira de cinema português de autor, como João Maia com o filme “Variações”. São só alguns exemplos. No caso do teatro, e posso falar do TNDMII, ainda falta fechar algumas contas mas este provavelmente será o melhor ano da década em termos de quantidade de público. Já para não falar da música e das artes visuais. Há um fulgor tremendo na cultura portuguesa e acho que no terreno há artistas a trabalhar num patamar de excelência. Este talvez seja, a partir de 2020, 21, o momento certo para que a cultura seja prioridade e mereça um orçamento excecional em relação ao passado.

As políticas culturais do Governo de António Costa são adequadas ou não?
Estando na direção artística de um teatro nacional, tenho dificuldade em pronunciar-me de forma geral ou abrangente. Uma parte dessas políticas são colocadas em prática também pelo TNDMII, que é tutelado pelo Governo e que obedece ao cumprimento de uma parte da missão do Estado junto da população. Como é natural, algumas coisas estão bem e outras, mal. Num setor tão frágil, como é o da criação artística, e já não falo do património, acho que concordamos que estamos aquém do investimento necessário, aquém do financiamento necessário.

Há centenas de artistas que pedem a demissão da ministra por considerarem que “não revela capacidade de escuta nem vontade de diálogo” e é “incapaz de solucionar problemas”. Concorda?
Conheço a posição e não quero comentar.

[Última peça do ano no D. Maria II é um acolhimento: “Ricardo III”, com encenação do alemão Thomas Ostermeier, a partir do dia 31:]

O meio artístico também tem responsabilidades nos problemas?
Julgo que uma das razões pelas quais todos os profissionais das artes e da cultura têm alguma dificuldade de organizar a sua reivindicação se deve precisamente à grande precariedade em que operam. Ciclicamente, os profissionais do espetáculo são confrontados com momentos de crise, têm capacidade de reação no imediato, mas alguma dificuldade em fazer durar a organização dessa indignação. A sobrevivência quotidiana está ligada ao próximo espetáculo, ao conseguir fazer o próximo trabalho, e isso asfixia uma outra capacidade de organização mais abrangente, normalmente ligada aos sindicatos. Vimos a fusão do CENA e do Sindicato dos Trabalhadores do Espetáculo, no CENA-STE, e reconheço uma maior capacidade de organização, mas é um setor em que a precariedade afeta a organização e reivindicação. Insisto. A questão é fundamentalmente orçamental. Quando temos estas conversas às vezes esquecemos uma questão fundamental: o apoio, seja através da Direção-Geral das Artes ou de outros mecanismos, que o Estado dá a criadores de teatro e companhias independentes, é um apoio ao público. É o reconhecimento de que prestam um serviço público que o Estado não consegue prestar naquela região ou daquela maneira. Portanto, o Estado diz “vocês fazem este trabalho, que é um direito constitucional dos cidadãos, por isso vamos apoiar qualquer português que queira ver o vosso trabalho, financiando-o”. Mas o financiamento não é à criação artística, é um financiamento ao espectador, ao povo português. Isto não é uma esmola e não é uma posição de subordinação do artista. O artista não está ali para obedecer ao Estado porque o Estado o apoiou. Ora, a financiamento não pode condenar este serviço a ser mal feito, porque com pouco dinheiro dificilmente se faz bom teatro e se paga aos profissionais de forma justa.

Há quem aponte responsabilidades aos artistas não ao nível da capacidade de reivindicação, mas em termos do conteúdo dos trabalhos.
Isso não corresponde à verdade. Muitas vezes sou confrontado com essas frases feitas: “Ah, pois, o problema do teatro é o público.” A esmagadora maioria das pessoas que propaga esse preconceito há muito tempo que não vai ao teatro e acha-se parte de uma maioria a que não pertence, porque se fosse ao teatro veria que as salas estão cheias. Conto pelos dedos de uma mão as salas de teatro em que entrei este ano e em que havia pouco público. Vejo mais de meia centena de espetáculos por ano e os 40 e tal espetáculos aqui do TNDMII. Seria muito injusto dizer que uma parte do que está a acontecer se deve aos artistas. O trabalho com a comunidade, foram os artistas que o começaram, muito antes de o Estado se preocupar com isso. O trabalho de desenvolvimento de públicos, com escolas, infância, juventude, foram os artistas que começaram a fazer nos anos 70 e só nos anos 2000 começou a ser assumido como necessidade pelo Estado. O trabalho de internacionalização, que hoje é uma bandeira da atuação do Estado junto dos artistas, lembro-me de já o fazer nos anos 90, quando o termo não tinha ainda sido gravado no discurso político. Todo o grande trabalho de política cultural em Portugal tem sido feito de forma pioneira pelos artistas. Depois, à boleia desse trabalho, e acho que bem, o governo central e as autarquias têm reconhecido e em alguns casos apoiado. Não se pode é assacar a responsabilidade a quem o fez antes de ele ser apoiado.

"Encontro muita qualidade e legitimidade em espetáculos que são sucessos de bilheteira e que se pagam a si próprios. Sou espectador habitual daquilo a que se convencionou chamar teatro comercial. Mas o serviço público serve para proteger e promover a criação que não sobreviveria sob as regras do mercado."

Disse há pouco que as taxas de ocupação do TNMII foram este ano as melhores da década. Que números pode adiantar?
Até ao fim de novembro, as taxas de ocupação andavam à volta de 95%. Isto é significativo num teatro que continua a ser o que faz as carreiras mais longas em Portugal: sete semanas, seis semanas. Nas primeiras semanas de apresentação, os público que entra nas salas é o que está atento aos suplementos culturais, que viu o link no Observador sobre aquela estreia, que já tem hábitos culturais. O público que não tem, ouve falar, passa à porta do teatro quando sai do terminal do Rossio, vindo da linha de Sintra, e vê o mesmo cartaz o tempo suficiente para pensar vir ver. As carreiras longas permitem um acesso mais democrático ao teatro. Nem todos os espetáculos permitem isso, mas o que quero dizer é que é mais fácil ter a sala cheia muitas vezes com espetáculos de carreiras curtas, porque mais vezes as mesmas pessoas voltam. Em números absolutos de público, não temos ainda as contas fechadas, mas posso dizer que ultrapassámos fortemente os 100 mil espectadores, o que tem sido a nossa média nos últimos cinco anos.

Mais de 100 mil espectadores entre janeiro e dezembro de 2019?
Exato, mas ainda não sabemos onde o número vai terminar.

É extraordinário.
É, quando estamos a falar de uma sala [principal] de 400 lugares e uma sala-estúdio com cerca de 76 lugares. Desde 2015, tem havido crescimento sustentado nas quantidades de público e estabilizámos à volta dos 100 mil espectadores por ano, contando também com as digressões. Em 2019, assistimos a um aumento bastante acima dos 100 mil. É resultado de um trabalho fundamental. Acho que o público se sente mais próximo do teatro do que aquilo que às vezes se dá a entender quando se fala publicamente sobre teatro, mas há aqui um trabalho muito importante por parte das instituições. O coração da criação são os artistas na relação com o público, mas são os artistas, e compete às instituições garantir a liberdade artística. O meu entendimento de serviço público, que não estará longe de um entendimento mais ou menos consensual, é de que o serviço público está aqui para promover a criação e a diversidade de estéticas, que não sobreviveria segundo as regras do mercado. Encontro muita qualidade e legitimidade em espetáculos que são sucessos de bilheteira e que se pagam a si próprios. Sou espectador habitual daquilo a que se convencionou chamar teatro comercial. Mas o serviço público serve para proteger e promover a criação que não sobreviveria sob as regras do mercado. Da mesma forma, Bernando Santareno não teria escrito o que escreveu – e aproveita para falar dele, porque em 2020 será o centenário do seu nascimento – se o Teatro Nacional e Amélia Rey Colaço não tivessem tido uma noção de serviço público ao reconhecer a qualidade do artista e ao promoverem e montarem os seus espetáculos.

[a entrevista de Tiago Rodrigues a rádio Observador:]

Tiago Rodrigues Ao Vivo

Parece também lógico dizer que Bernardo Santareno nunca teria existido como dramaturgo se não tivesse tido uma profissão principal, que era a de médico.
Penso que teria.

O que é que vai fazer daqui a um ano, caso não seja reconduzido como diretor do TNDMII?
O meu compromisso neste momento é radical e absoluto com o Teatro Nacional. É um projeto que me entusiasma e apaixona e para o qual tenho ainda muitas ideias. Iniciei já uma conversa com a senhora ministra da Cultura sobre o que será o futuro do TNMII, sobretudo defendendo que é importante pensar com bastante antecipação o que será o futuro da direção artística e da atuação do teatro. Neste momento, estou a preparar já o início de 2021 em termos de programação. É uma obrigação decorrente das funções. Saindo em dezembro de 2020, teria de deixar a programação anunciada e contratualizada até ao verão de 21.

Deseja ficar depois de dezembro de 2020?
Julgo que se se reunirem as condições para este projeto continuar, continuaria a apaixonar-me. Por outro lado, se o entendimento for o de que outra pessoa está em melhor posição para interpretar a missão deste teatro, acho que seria interessante ser uma mulher. Já é tempo de o TNDMII voltar a ter uma diretora artística.

Qual seria a diferença?
Por uma questão de equidade e de paridade. O TNDMII foi dirigido por uma mulher durante décadas, por Amélia Rey Colaço [com Robles Monteiro, de 1929 a 1964].

"Achava, muitas vezes injustamente, que uma casa como o TNDMII tinha muitos luxos, se calhar gente a mais, condições a mais, estes veludos todos, os mármores, os dourados"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

E mais tarde também por Agustina Bessa-Luís.
Também, por um período muito breve [1990 a 1993]. Mas Amélia Rey Colaço teve um papel absolutamente preponderante e fundador, uma interpretação singular e muito estável. Essa é uma das coisas que acontecem pouco à frente das instituições culturais e até do Ministério da Cultura: estabilidade e tempo para se colocarem políticas em prática. Achei importante viver este segundo mandato [cada mandato tem a duração de três anos] até porque tenho sentido que muitas das coisas que queríamos fazer desde a primeira hora só sabíamos fazer bem depois de alguns anos de experiência.

Gostaria de exercer um cargo político?
Está completamente fora dos meus horizontes. Entendo que um cargo governativo não seria compatível com um trabalho artístico. Sou acima de tudo artista, depois de pai, marido e cidadão. Preciso de escrever espetáculos, preciso de encenar, preciso de trabalhar com atores.

Está a preparar um espetáculo inspirado no juiz Neto de Moura, com o título “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”. Que peça é esta?
Ainda não está escrita, estamos em fase de pesquisa e sabemos neste momento pouco mais do que aquilo que é público. Não se pode dizer que o juiz Neto de Moura me tenha inspirado, mas foi um impulso.

Há potencial de polémica?
Eventualmente. É uma ideia que começa a partir de uma polémica pública. Os acórdãos do juiz, embora sejam apenas um caso, são um sintoma de como a influência de um patriarcado machista na nossa sociedade pode ser também institucional, neste caso na justiça. A ideia é tentar misturar também outras figuras relativamente controversas da sociedade portuguesa.

Como por exemplo?
São muitos exemplos. Não vou nomear sem ter a certeza de virem a estar no texto, mas qualquer leitor do Observador, puxando um bocadinho pela cabeça e sabendo que Neto de Moura faz parte da lista, se lembra de mais quatro ou cinco nomes. Isso quer dizer que há vários nomes que poderiam ser interessantes nesta fricção entre real e ficção. O que me interessa neste espetáculo é ter uma família ficcional, feita de personagens ficcionais e interpretadas por atores, a confrontar-se com fenómenos da nossa sociedade que são encarnados por figuras que conseguimos reconhecer dos jornais, dos telejornais, da rádio. Neto de Moura é um deles. Sobretudo, é uma família que está face a sintomas daquilo que considero a ascensão de novos fascismos. O termo “fascismo” suscita alguma controvérsia, muitas vezes em conversas sou corrigido, independentemente do espectro político da pessoa que me corrige. Dizem que não posso dizer fascismo, devo dizer extrema-direita ou populismo. Acho que muitas vezes criamos eufemismos que normalizam tomadas de posição, políticas e interpretações da realidade que considero parte de uma máquina e de uma visão do mundo que é fascista. Deve-se dizer que um populista racista está muito próximo do fascismo, sobretudo se tiver uma visão autoritária da implementação da sua visão política.

"Aqui temos uma casa que acarinha os artistas, que cria liberdade, que tem muito conhecimento e tradição no bom sentido, no sentido em que carrega sabedoria que é transmitida aos mais novos, mas sobretudo um sentido de família, de dedicação e amor à arte teatral."

O potencial de polémica pode ser essa discussão.
Sim, mas também pode ser uma montanha que pariu um rato, porque a cosia mais importante não é a polémica, mas a qualidade do espetáculo e a reflexão a que possa levar. Aliás, não sei ainda se Neto de Moura, apesar da sinopse, acabará por estar na peça. Muitas vezes, sobretudo comigo, porque escrevo durante os ensaios e em colaboração com os atores, desviamo-nos da ideia inicial e acabamos noutro lugar, tentando que esse outro lugar em que terminamos esteja mais próximo da essência do que queríamos tratar. Posso garantir que não vou caluniar, não vou apelar à violência, não vou desculpar a violência e vou ter mais cuidado a escrever a peça do que Neto de Moura teve a escrever os acórdãos.

Considera-se uma pessoa de esquerda, apoiou o Bloco de Esquerda nas últimas legislativas, depois de ter apoiado António Costa nas legislativas de 2015. Arrependeu-se do apoio ao PS?
Não me arrependo e não posso dizer que ter apoiado o Bloco se deva a uma desilusão em relação a António Costa. Deveu-se sobretudo a uma convicção em relação ao Bloco de Esquerda.

O que é que não sabia e aprendeu nestes cinco anos à frente do TNDMII?
Aprendi imenso, com pessoas com muito mais experiência de teatro do que eu e, portanto, muito mais experiência na vida. Acima de tudo, houve uma coisa que transformou a minha visão de como faço teatro e, de certa forma, uma parte da minha visão do mundo. Em 2014, tinha uma companhia em que éramos três [Mundo Perfeito]. A partir de janeiro de 2015 [ao tomar posso como diretor do TNDMII], éramos 100. Foi uma mudança muito grande. Eu vinha do teatro independente, com bastantes dificuldades, embora já estivesse num patamar de apoio internacional forte. Trabalhávamos com base no “a gente faz com o que houver, com um computador, três mesas, seis cadeiras, uns panos e projetores”. Fazíamos com pouco e isso tinha para nós uma dimensão política e criativa, de não nos deixarmos quebrar, de fazermos com o que há. Achava, muitas vezes injustamente, que uma casa como o TNDMII tinha muitos luxos, se calhar gente a mais, condições a mais, estes veludos todos, os mármores, os dourados.

Essa visão mudou em que sentido?
Mudou radicalmente. Menos de um ano depois de ter aqui chegado percebi o conhecimento que existe por detrás de muitas profissões que há nesta casa, nas casas de criação. Um ponto, um eletricista de teatro, um pintor de telões, um aderecista, um diretor de cena, um auxiliar de camarim. Vi estas pessoas a trabalhar, ouvi-as a falar do conhecimento específico que têm, do que aprenderam ao longo de décadas sobre como fazer teatro, e percebi que aquilo que era relativamente rebelde na forma como eu fazia teatro, o fazer com pouco e sem grandes condições é que é a forma mais capitalista selvagem e mais fria de fazer teatro, porque é fácil de suprimir, porque também não se cria grande compromisso. Aqui temos uma casa que acarinha os artistas, que cria liberdade, que tem muito conhecimento e tradição no bom sentido, no sentido em que carrega sabedoria que é transmitida aos mais novos, mas sobretudo um sentido de família, de dedicação e amor à arte teatral.

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