O ator, encenador, dramaturgo e diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, é o vencedor da edição deste ano do Prémio Pessoa. O anúncio foi feito esta sexta-feira pela organização e júri, numa conferência de imprensa no Palácio de Seteais, em Sintra.

O júri, pela voz do seu presidente Francisco Pinto Balsemão, explicou a atribuição do prémio a Tiago Rodrigues — o segundo vencedor do Prémio Pessoa oriundo do meio teatral, após a atribuição da distinção a Luís Miguel Cintra em 2005. O jurado recordou o percurso do encenador e ator, em especial a fase posterior à “sua nomeação” para a direção artística do Teatro Nacional D. Maria II.

Lançou um ambicioso projeto de internacionalização da instituição e empregou num novo dinamismo, desde logo reconhecido pela crítica e pelo público”, afirmou Balsemão.

O júri notou ainda a capacidade que o Teatro Nacional “tem vindo a desempenhar na articulação com projetos teatrais independentes e com a circulação de produções em todo o país”, desde que Tiago Rodrigues assumiu o cargo de diretor artístico da instituição. “É hoje presença regular nos principais palcos europeus”, notou ainda Balsemão, acrescentando: “Foi recentemente convidado a encenar para a Royal Shakespeare Company, tendo escolhido para o efeito a sua peça Blindness and Seeing, baseada nos romances Ensaio Sobre a Cegueira e Ensaio Sobre a Lucidez de José Saramago.

O Prémio Pessoa, no valor de 60 mil euros, é uma iniciativa do semanário Expresso e da Caixa Geral de Depósitos, e visa “representar uma nova atitude, um novo gesto, no reconhecimento contemporâneo das intervenções culturais e científicas produzidas por portugueses”.

O júri deste ano foi composto por Ana Pinho, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Maria de Sousa, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques, com Francisco Pinto Balsemão a presidir e Emílio Rui Vilar enquanto vice-presidente.

O percurso de Tiago Rodrigues e os vencedores anteriores

Antes de assumir o cargo de direção artística do Teatro Nacional, Tiago Rodrigues, filho de um jornalista e de uma médica que chegou a escrever textos para jornais antes de fazer teatro, foi um dos fundadores e diretores artísticos da companhia de teatro Mundo Perfeito, que apresentou peças não apenas em Portugal mas também em países da América do Sul, Médio Oriente, Ásia e outros países europeus. Esteve também envolvido no projeto europeu de laboratório artístico “Try Angle”, apoiado pelo Culture Programme da União Europeia.

Quando foi escolhido para assumir o cargo no Teatro D. Maria II, Tiago Rodrigues explicou ao Observador que a instituição “pode ser um projeto muito importante para dar uma grande energia ao tecido teatral português, aos públicos e à relação entre a criação artística e a sociedade. Mais do que um espelho daquilo que é a criação teatral portuguesa, espero que possa ser um agente provocador para os artistas, um espaço em que os artistas possam interpelar o púbico e a sociedade”, desejou, em 2014.

@ ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Para o júri do prémio Pessoa, esse desejo então manifestado concretizou-se e o trabalho de Tiago Rodrigues à frente da instituição foi suficientemente meritório para vencer um prémio que nas edições anteriores havia sido entregue a Miguel Bastos Araújo (2018), Manuel Aires Mateus (2017), Frederico Lourenço (2016), Rui Chafes (2015), Henrique Leitão (2014), Maria Manuel Mota (2013), Richard Zenith (2012) e Eduardo Lourenço (2011).

Entre os outros vencedores anteriores do prémio estão personalidades como José Mattoso (o primeiro vencedor, em 1987), António Ramos Rosa, Maria João Pires, António Damásio e Hanna Damásio, Vasco Graça Moura, João Lobo Antunes, José Cardoso Pires, Eduardo Souto de Moura e Manuel Alegre.

As peças, os prémios e o alerta: os jovens artistas “precisam de teatros”

Nos últimos anos, paralelamente ao trabalho de direção artística do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues foi encenando algumas peças — com grande destaque para Sopro, uma das criações mais aclamadas (pela crítica e público) do teatro português dos últimos anos e que se estreou no Festival de Avignon, em França.

No ano passado, Tiago Rodrigues foi distinguido com o prémio europeu Novas Realidades Europeias e foi por isso felicitado por Graça Fonseca, ministra da Cultura, que afirmou: “É a segunda vez que o teatro português é celebrado no plano internacional através do mais relevante prémio atribuído por um largo conjunto de programadores, críticos, encenadores e especialistas teatrais depois de, em 2010, o Teatro Meridional ter sido distinguido com o mesmo prémio, também em São Petersburgo. Tiago Rodrigues junta-se a uma lista que inclui nomes fundamentais para a renovação do teatro europeu, como os encenadores Romeo Castelluci, Thomas Ostermeier, Katie Mitchell, Christophe Marthaler, Rodrigo Garcia ou as coreógrafas Anne Teresa de Kekersmaeker e Sasha Waltz”.

Já este ano, em entrevista à Rádio Observador, afirmou que o prémio que lhe tinha sido entregue “honrava-o” pessoalmente, mas era também “o reconhecimento da importância de uma casa como o Teatro Nacional D. Maria II” e o reconhecimento do teatro português, “que muitas vezes julgamos que talvez não esteja à altura do teatro de outros países e neste momento, conhecendo cada vez melhor e particularmente bem o teatro que se faz em toda a Europa, acredito que [o teatro português] é um teatro com qualidade, diversidade e sobretudo com potencial e futuro incrível se o soubermos aproveitar”.

Temos uma nova geração de artistas absolutamente fenomenais que têm de ser apoiados, têm de ter casa para trabalhar e precisam de teatros. Muitos desses teatros espalhados pelo país que estão ou vazios ou ocupados em intermitência têm de ganhar nova vida e abrir-se a esses novos inquilinos que são os jovens artistas”, apontou Tiago Rodrigues ao Observador, este ano.

Durante a entrevista, o encenador e diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II lamentou também a dificuldade em apresentar uma peça de teatro em Portugal em digressão longa, durante um longo período de tempo: “O tempo de vida das peças em Portugal é infelizmente muito curto, porque há poucos teatros por onde rodar as peças. De repente está-se a trabalhar três, quatro meses numa peça — e isto é um verdadeiro drama para o teatro português — e depois apresenta-se em Lisboa três ou quatro dias, no Porto dois ou três dias, talvez em mais três ou quatro cidades se [a peça] tiver muita reputação e morre ali”.

Uma pequena polémica com o boicote a Israel

Em 2018, o diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II e recém-vencedor do Prémio Pessoa, Tiago Rodrigues, cancelou a sua participação num festival em Jerusalém, decidindo aderir a um boicote cultural a Israel. Num comunicado em que explicava o porquê do cancelamento após confirmar a participação, Tiago Rodrigues explicava que, embora se opusesse “de forma veemente à opressão do povo palestiniano pelo governo israelita”, começou por aceitar o convite para apresentar a peça “By Heart”, em junho, no Israel Festival, em Jerusalém, “promovido por uma organização sem fins lucrativos que se apresenta como um projeto artístico que promove uma sociedade plural e pacífica”.

Entretanto, o encenador e ator português apercebeu-se, “através das comunicações oficiais do festival”, que a edição deste ano “marca o 70º aniversário da independência do Estado de Israel”. Ora, “a menção desta celebração por parte do festival não é acompanhada de uma única palavra de crítica à conduta do Estado de Israel face ao povo palestiniano durante os últimos 70 anos. Este é um anúncio de grande significado político sobre o qual não fui informado quando fui convidado a participar no festival. Não aceito que o meu trabalho artístico seja usado com motivos políticos sem o meu acordo”.