Tráfico de órgãos, prostituição ou fuga? O que se sabe sobre o desaparecimento de Rosiney /premium

21 Janeiro 2019940

Rosiney desapareceu de Condeixa-a-Nova há dois meses, sem deixar rasto. A família suspeita que tenha caído numa rede de prostituição e aponta o dedo ao dono do restaurante onde a jovem trabalhava.

A história começou como tantas outras: uma jovem, sem filhos e com sonhos, emigrou para Portugal em busca de novas oportunidades. É também a história de Rosiney Trindade de Oliveira, de 31 anos, oriunda do estado do Paraná, no sul do Brasil. “Ela queria mudar de vida como qualquer jovem. O sonho dela era ir para Portugal e dar-se bem como tantos jovens que vemos a dar-se bem”, conta a sobrinha Daiane Pires, em declarações ao Observador.

"Ela queria mudar de vida como qualquer jovem. O sonho dela era ir para Portugal e dar-se bem como tantos jovens que vemos a dar-se bem"
Daiane Pires, sobrinha de Rosiney

O sonho parecia estar cumprido. Em outubro do ano passado, Rosiney mudou-se para Portugal e arranjou trabalho num restaurante em Condeixa-a-Nova, uma vila no distrito de Coimbra. Mas, no início deste mês, a história deixou de ser a de mais uma jovem em busca de oportunidades para passar a ser notícia nos jornais: está desaparecida há mais de dois meses. Esta segunda-feira, várias pessoas manifestaram-se junto ao Consulado-Geral do Brasil, no Porto, contra a falta de respostas por parte das autoridades portuguesas. O caso começou, entretanto, a ser investigado pela Polícia Judiciária. O que se sabe, afinal, sobre Rosiney — e sobre um desaparecimento sem rasto? 

Esta segunda-feira, várias pessoas manifestaram-se junto ao Consulado-Geral do Brasil, no Porto (Foto: Facebook)

Órfã de mãe, formada em Administração e “muito dedicada ao trabalho”

Não foi a primeira vez que Rosiney fez as malas em busca de uma vida nova. Aos 18 anos, deixou o berço — o pequeno município de Nova Prata do Iguaçu, no estado brasileiro Paraná, onde nasceu — rumo à capital desse estado para estudar. Formou-se em Administração e passou os anos seguintes a trabalhar em restaurantes. “Era muito dedicada ao trabalho. Conseguiu juntar dinheiro, comprar casa e carro”, recorda a sobrinha Daiane Pires, ao Observador.

Em 2014, a mãe morreu. Dois anos depois, Rosiney, a mais nova de quatro irmãos, mudou-se para Itajaí, no estado de Santa Catarina, onde já morava o pai, de 55 anos. Era lá que morava quando, em outubro de 2018, decidiu emigrar para Portugal. “Ela costumava conversar com um amigo que tinha em Portugal — não sabemos bem quem — e decidiu ir. Foi com algum dinheiro para se manter lá e foi”, relata Daiane Pires.

Rosiney com o pai, de 55 anos, que vive no município de Itajaí, no estado de Santa Catarina (Foto: Facebook)

Já em território português, a brasileira de 31 anos arranjou, rapidamente, trabalho na cidade da Moita, no distrito de Setúbal, onde ficou a viver de forma temporária. Segundo a sobrinha, Rosiney “estava a tomar conta de uma senhora” quando tomou conhecimento de uma vaga para empregada de mesa no restaurante Restinova, em Condeixa-a-Nova, uma vila no distrito de Coimbra. O contacto foi estabelecido através do site de anúncios OLX, onde o proprietário do estabelecimento, José Correia, costuma anunciar ofertas de emprego. “Foi ela que nos contactou. Foi tudo normal”, explica o dono do Restinova ao Observador.

Quando faltava uma semana para começar a trabalhar no restaurante, conta José Correia, Rosiney ter-lhe-á ligado para acertar pormenores. Nessa chamada, o proprietário terá oferecido boleia a Rosiney. Explica ao Observador que, como tem negócios em Lisboa, todas as quartas-feiras lá vai. “Pedi-lhe que me contactasse até lá, caso não conseguisse ela arranjar boleia. Na quarta-feira, contactou-me. Encontrámo-nos e eu fiz-lhe o favor de a trazer para cima, porque ela já estava sem dinheiro. Veio. Estava tudo normal. Foi apresentada à equipa e começou a trabalhar“, relata o proprietário do estabelecimento ao Observador.

Rosiney trabalhou na Moita, antes de começar a trabalhar no restaurante em Condeixa-a-Nova (Foto: Facebook)

Começou a trabalhar no dia 16 de outubro e tudo parecia estar a correr bem: Rosiney tinha um emprego e até uma casa — estava a viver na casa dos antigos proprietários do restaurante. “Não cobrávamos o alojamento. Como não há transportes para aqui, arranjámos alojamento”, conta José Correia. Nessa altura, Rosiney falava frequentemente com a família: “Conversava com ela toda a semana. Ia perguntando se estava tudo bem. Ela sempre dizia que estava muito feliz que tinha encontrado um trabalho“, contou a sobrinha. Até ao dia 14 de novembro.

Incontactável desde 14 de novembro. Foi despedida no dia antes

Rosiney desapareceu há dois meses sem deixar rasto. Desde o dia 14 de novembro que não há sinais de dela: esse dia foi a última vez que a jovem estabeleceu contacto com a família. O telemóvel está desligado desde então e Rosiney deixou de estar online nas redes sociais. “Todos nós perdemos contacto com ela. Não conseguimos fazer nada”, lamenta a sobrinha Daiane Pires.

Esta terá sido a última fotografia de Rosiney, publicada nas redes sociais. A seu lado está um homem que foi apagado da imagem (Fotografia: Facebook)

No dia anterior, 13 de novembro, confirmou o proprietário do restaurante ao Observador, Rosiney tinha sido despedida porque tinha “problemas muito graves com álcool”. “Foi avisada várias vezes, mas continuou”, justifica José Correia. Neste ponto, a família discorda e acusa até o proprietário de “denegrir a imagem” de Rosiney. “A gente não acredita nem um pouco. Ela nunca bebeu, sempre foi responsável”, garante a sobrinha.

No dia seguinte, Rosiney terá saído “de livre e espontânea vontade” depois de ter recebido uma chamada telefónica e, segundo o proprietário do restaurante, deixando para trás uma mala grande e outra mais pequena e levando consigo apenas uma mala média e toda a documentação. “Disse apenas que estava a espera de um amigo de Coimbra para uma boleia”, explicou ao Observador José Correia, garantindo que não sabe com quem saiu nem a que horas saiu.

O primeiro alerta foi dado pelo próprio proprietário, que se dirigiu ao posto da Guarda Nacional Republicana (GNR) de Condeixa-a-Nova para participar o desaparecimento: “Não achámos normal. Ninguém acha normal uma pessoa sair e ser tão irresponsável ao ponto de nem dizer que se ia embora”. Fonte do Comando Territorial de Coimbra da GNR confirmou ao Observador que foi feita não uma participação do desaparecimento, mas uma queixa de furto, embora não revele quem foi o autor da participação. José Correia garantiu ao Observador que não foi ele o autor dessa participação de furto.

No passado domingo, a PJ revelou que estava a investigar o desaparecimento de Rosiney (Foto: Facebook)

Já a família, foi aguardando novidades dela. “Fomos esperando. Não sabíamos muito bem como as autoridades portuguesas funcionavam”, desabafa a sobrinha em declarações ao Observador. Até que no início de dezembro — já tinham passado duas semanas sem conseguir contactar –, Daiane optou por fazer um apelo nas redes sociais “para ver se alguém que estivesse no país podia ajudar”. O alerta foi visto por Larissa Fabiana, uma empresária brasileira a viver em Portugal, que decidiu ajudar a família de Rosiney: apresentou queixa na Polícia de Segurança Pública (PSP) de Póvoa de Varzim, no dia 20 de dezembro e pediu auxílio ao Consulado-Geral do Brasil, no Porto.

Família acredita que proprietário está envolvido no desaparecimento

A família, desesperada, admite todas as possibilidades: suspeita que Rosiney tenha sido sequestrada por uma rede internacional de prostituição e admite a possibilidade de o proprietário do restaurante de estar envolvido no desaparecimento da brasileira de 31 anos. “Acredito que houve algum problema. Pode ter sido sequestrada para prostituição, para tráfico de órgãos“, disse o pai à Globo.

José Correia, por sua vez, garante que “nunca” teve “contacto com essa realidade” da prostituição. “Esta casa tem 25 anos. Trabalhamos aqui há dez. Sempre trabalhei com pessoas devidamente legalizadas. Estão a atentar contra pessoas de bem. Cheguei a ser acusado de tráfico de órgãos! Agora, tenho aqui um pesadelo por uma situação com a qual não tenho nada a ver”, lamentou o proprietário do restaurante, apontando que, para esta segunda-feira, tinha uma visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao estabelecimento que foi desmarcada. De facto, o local de almoço de Marcelo, no âmbito de uma viagem de Lisboa ao Porto com camionistas, foi alterado e a informação foi comunicada por volta das 10h20 desta segunda-feira: o Presidente ia almoçar no Restinova e alterou o local do almoço para outro estabelecimento.

"Estão a atentar contra pessoas de bem. Cheguei a ser acusado de tráfico de órgãos! Agora, tenho aqui um pesadelo por uma situação com a qual não tenho nada a ver"
José Correia, proprietário do Restinova

O Consulado-Geral do Brasil no Porto recebeu o alerta e, “desde então, tem empreendido todas as diligências possíveis com vistas a colher informações sobre o caso e compartilhá-las com as autoridades portuguesas responsáveis”, disse fonte do Consulado, acrescentando que está a acompanhar “atentamente as investigações e mantém contacto permanente com a família da nacional, à qual tem prestado a assistência cabível”.

A PSP confirmou que recebeu a queixa e que, embora não descarte a hipótese de se tratar de uma fuga voluntária, realizou as diligências normais. No passado domingo, a PJ revelou que estava a investigar o desaparecimento de Rosiney. “Tivemos conhecimento do caso com base em notícias. Como era um eventual crime de sequestro/rapto, foi aberto um inquérito“, disse fonte da PJ, garantindo que, até ao momento, não houve detenções. “Estão a ser efetuadas diligências normais”, adiantou a mesma fonte.

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