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Treinos de manhã, grupos de WhatsApp, drones e muito trabalho mental: a vida do Professor Abel até ser campeão em três meses /premium

Após ser sondado, esteve uma semana a estudar o clube. Quis viver no Centro de Treinos, mudou rotinas, superou infeção por Covid-19 e deu cabeça a uma equipa sem pernas: os três meses do campeão Abel.

Quando saiu o nome do Benfica no sorteio da terceira pré-eliminatória de acesso à fase de grupos da Champions, e apesar de haver para a esmagadora maioria uma vantagem teórica dos encarnados no jogo em Salónica, Abel não tinha dúvidas: “O PAOK vai ganhar”. Foi isso que comentou com algumas pessoas mais próximas, foi assim que preparou a equipa para o encontro. E foi assim que trabalhou durante duas semanas o encontro meio no “escuro”, com a pandemia a alterar as habituais pré-épocas e a ter apenas como referências “presentes” os jogos particulares que o clube da Luz realizou em casa com Bournemouth, Sp. Braga e Rennes, juntando depois a isso o que conhecia da ideia de Jorge Jesus e das características individuais dos jogadores. Surpreendeu, ganhou, tornou-se um herói dos adeptos, foi protagonista nos festejos com muitos cânticos e tochas à mistura feitos que se foram propagando à volta do estádio. Estávamos então a meio de setembro. A “loucura” de Abel estava a começar.

Após a saída de Vanderlei Luxemburgo a meio de outubro, o Palmeiras não teve propriamente muita pressa para escolher um sucessor, deixando a equipa nas mãos de Andrey Lopes. Foram vários os nomes cogitados, entre uns que declinaram abordagens iniciais e outros que foram acabando por cair entre opções. Desde que Hugo Cajuda, filho do carismático treinador Manuel Cajuda, transmitiu a Abel a possibilidade de rumar ao Brasil e ao Verdão, não o português mais saiu da lista. Mais do que isso, não mais o Palmeiras saiu da lista de Abel. Assim, e ao longo de mais de uma semana, o treinador foi conhecendo mais do clube: a sua história, os objetivos, os jogadores, a forma de jogar que a equipa tinha. Assim como o PAOK teve de pagar ao Sp. Braga cerca de dois milhões de euros para levar o treinador, também o Palmeiras tinha de garantir um acordo com os gregos para libertá-lo do contrato. Conseguiu, por 600 mil euros. E depois do empate em Espanha, frente ao Granada, Abel passou por Salónica, foi a Braga e rumou a São Paulo, tudo quase de seguida. A chegada, essa, rapidamente se tornou um ponto de partida.

Abel terminou a primeira época no PAOK na segunda posição apenas atrás do campeão Olympiacos de Pedro Martins

Nicolas Economou

Abel foi treinado por Jesus no V. Guimarães mas não tem a forma de pensar do agora treinador do Benfica. Abel foi treinado por Jesualdo Ferreira no Sp. Braga mas não tem a forma de estar do agora treinador do Boavista. Abel foi colega de equipa de Sá Pinto no Sporting mas não tem a forma de ser do agora treinador do Gaziantep. No entanto, como em tudo na carreira, quis dar um cunho pessoal à sua passagem pelo Palmeiras logo a partir do momento em que aterrou em São Paulo. Novo (42 anos feitos já no Brasil, a 22 de dezembro), com menos de quatro temporadas completas nos principais escalões e sem currículo, destacou-se por mostrar saber tanto ou mais do que qualquer outro técnico brasileiro sobre o clube, o que surpreendeu não só jogadores e elementos do staff mas também a própria comunicação social. Abel deixava aí de ser apenas o treinador que tinha ganho dois meses e meio antes a Jesus, o furacão que colocara o Flamengo a varrer tudo antes de regressar ao Benfica.

Abel cruzou o Atlântico porque lhe deram uma equipa. Abel ganhou porque criou uma família (a crónica da final da Libertadores)

Em três meses e 25 jogos, os tempos mudaram. Tanto que se começou a falar de forma repetida no “Furacão Abel”. Cerca de 20 anos depois de ter terminado a licenciatura em Educação Física, uma garantia que quis guardar caso o mundo do futebol lhe trocasse as voltas para realizar a outra ambição de ser professor primário, o treinador não só cumpriu uma carreira de mérito como futebolista como estava na final da mais importante competição da América do Sul podendo tornar-se o segundo português em anos consecutivos a ganhar a prova. Mais uma vez, brilhou. E brilhou porque conseguiu perceber os momentos do jogo, ser sólido a defender, anular os pontos fortes do Santos e lançar o único reforço, Breno, que veio da Série B, para ganhar nos descontos. Em três meses, o Professor deu uma verdadeira lição como nem o próprio poderia imaginar e conseguiu construir um campeão sul-americano.

A alcunha do Professor e “o mau apontamento que é melhor do que uma boa memória”

“Olá família Palmeiras! O meu nome é Abel Ferreira. Queria dizer que vocês têm um estádio maravilhoso, uma academia fantástica, muitos recursos para possibilitar o sucesso de todas as pessoas que trabalham neste clube. Para mim é uma grande honra e uma responsabilidade, é com muita ambição que encaro este desafio. Estou muito feliz e estamos preparados para todos juntos, ao lado dos jogadores, fazer um bom trabalho”. Esta foi a primeira mensagem deixada pelo treinador aos adeptos através das redes sociais do Verdão, algo que foi sempre constante mas que ganhou outro peso nas últimas semanas, quando o clube de São Paulo percebeu que deveria potenciar de outra forma o trabalho e a ligação empática que Abel tinha conseguido criar junto dos seus adeptos numa fase onde a pandemia continua a fustigar a sociedade brasileira e a impossibilitar presença de público nos estádios.

Foi em Alvalade que ganhou os quatro títulos da carreira (duas Taças de Portugal e duas Supertaças). Foi em Alvalade que fez parte da defesa menos batida de sempre no Campeonato em 2006/07. Foi em Alvalade que teve a primeira experiência como treinador, a começar pelos juniores. Foi em Alvalade que ganhou a alcunha do Professor

Depois de uma carreira iniciada no Penafiel, onde fez o percurso de formação, o antigo lateral direito habituou-se aos principais palcos do Campeonato com passagens por V. Guimarães (2000-2004), Sp. Braga (2004-2006) e Sporting (2006-2011). Foi em Alvalade que conseguiu os quatro títulos da carreira, com duas Taças de Portugal e outras tantas Supertaças durante o ciclo de Paulo Bento no clube. Foi em Alvalade que conseguiu vários registos históricos, um que ainda hoje resiste ao tornar-se membro da defesa menos batida de sempre da equipa na Liga com Ricardo na baliza, Tonel e Polga como centrais e Caneira como defesa esquerdo (2006/07, com apenas 15 golos consentidos em 30 jornadas). Foi em Alvalade que teve a primeira experiência de treinador, rendendo na equipa de juniores Sá Pinto (que tinha sido promovido ao conjunto principal) e sendo logo campeão.

Foi também aí que ganhou a alcunha entre os companheiros de “Professor”. Nos estágios ou depois dos treinos, era frequente ver o então jogador com livros sobre futebol ou com um computador onde fazia consultas de páginas de futebol online. Mais: foi no Sporting que chegou a ter um grupo de jogadores que, após os trabalhos, se juntava para conversar com ou sem o técnico sobre o que tinha corrido bem, o que devia ser corrigido, o que podia ser melhorado. Em todos estes cenários, Abel tirava notas. Para ele, valeu sempre mais “um mau apontamento [no caderno] do que uma boa memória”. Até mesmo antes de se lançar na carreira de treinador, aproveitou uma fase onde recuperava de uma lesão grave contraída no joelho ainda na Academia dos leões mas sem contrato para ser comentador televisivo. E com uma “regra”: sempre que terminava de fazer um jogo ou um comentário, perguntava não só aos jornalistas que o acompanhavam mas também a outras pessoas do meio como poderia melhorar.

Abel marcou um dos golos mais marcantes do Sporting em Old Trafford frente ao Manchester United em 2007 (derrota por 2-1 com golo no final de... Ronaldo)

PA Images via Getty Images

“O Abel Ferreira chegou e já sabia o nome de todo mundo. Fala como se conhecesse a gente há algum tempo. Pensei que ele deveria ter estudado. É um cara que, em pouco tempo, dá para ver que é interessado, disposto a aprender, a criar alternativas para o time, a fazer com que o jogador possa melhorar. Ele vive o futebol. Estou feliz com a chegada dele. Espero que os jogadores ajudem na adaptação para continuarmos a vencer”, comentou nos primeiros dias de novembro Raphael Veiga, médio do Palmeiras, a propósito das quatro vitórias logo a abrir do treinador entre Campeonato e Taça do Brasil, sempre sem sofrer golos. Como em tudo na vida e na carreira, o método de Abel foi estudar mas o segredo para se tornar melhor foi estar aberto a aprender. E resultou.

Viver no Centro de Treinos e começar europeízação da equipa com rotinas matinais

“Sou um homem de convicções. Gosto de seguir meus instintos, de me desafiar. Não foi pelo que os outros disseram ou mostraram, foi por convicção que tenho que com o Palmeiras posso acrescentar títulos na minha carreira. Só estando com os melhores isso é possível. Tinha vontade de representar um grande clube, fiz o meu trabalho de casa, como o clube fez ao apostar em mim. O verde e branco é algo que me persegue como jogador e treinador… Vir para cá foi a minha vontade de crescer melhor e de me juntar aos melhores”, revelou em entrevista, justificando também aquela que foi outra das grandes surpresas mal chegou ao Brasil: em vez de procurar uma moradia em São Paulo como é habitual nos treinadores estrangeiros, quis ficar a viver no Centro de Treinos.

Abel fez o primeiro jogo no Campeonato no Rio de Janeiro frente ao Vasco da Gama de Sá Pinto, ganhando por 1-0

“Tenho todas as condições para morar aqui. Atravessei o Atlântico para trabalhar, ganhar, ajudar a estrutura e os jogadores a crescerem, não para conhecer a cidade. Esta é a minha missão. A minha estadia nos próximos meses vai ser aqui dentro porque não nos falta nada, o clube oferece todas as condições para o trabalho na plenitude. Temos que criar a nossa pressão cá dentro para aguentar a pressão lá fora. Quem está num clube como o Palmeiras só pode pensar em vencer, não há outra forma”, salientou. Em pouco tempo, passou a conhecer melhor quem trabalha diariamente com o clube e passou a perceber de perto as dinâmicas do grupo. Dentro de um contexto de pandemia, que assolou praticamente todo o plantel (Abel incluído, mas já lá vamos), o treinador nunca abdicou do princípio de “máxima liberdade, máxima responsabilidade” e aboliu o “eu em vez do nós” em todas as conversas com o plantel. Outro ponto importante: dentro e fora de campo, é preciso falar “a língua dos adeptos”.

Os resultados mudavam, a mentalidade ia mudando. Se em dez dias o Palmeiras venceu Red Bull Bragantino (Taça, 1-0), Vasco da Gama (Campeonato, 1-0), Ceará (Taça, 3-0) e Fluminense (Campeonato, 2-0), Abel ia conseguindo outras vitórias no Centro de Treinos, sempre tendo por base a abertura com os jogadores, o diálogo e a explicação de tudo o que queria fazer para que fosse seguido com tanta ou mais convicção do que a equipa técnica. Exemplos práticos? Apesar de saber que a maioria dos atletas gostava de dormir até mais tarde, o português falou com os capitães e depois com todos os jogadores explicando que, dentro da densidade competitiva que iriam ter pela frente, a melhor solução era passar os treinos para a manhã. Aceitaram. Sobretudo, perceberam. Apesar de saber que muita informação tem tendência a fazer dispersar, foi partilhando de forma global e em particular, jogador a jogador, análises de dados físicos, técnicos e táticos e dos adversários. Aceitaram. Sobretudo, perceberam.

Apesar de saber que a maioria dos atletas gostava de dormir até mais tarde, o português falou com os capitães e depois com todos os jogadores explicando que, dentro da densidade competitiva que iriam ter pela frente, a melhor solução era passar os treinos para a manhã. Aceitaram. Sobretudo, perceberam.

Essa transparência foi também abrindo uma relação mais próxima entre Abel e os jogadores, algo visto pelo técnico como importante tendo em conta o peso que dá à parte mental de qualquer encontro. O grupo de WhatsApp que o próprio criou, e que tem todos os jogadores e equipa técnica, serve sobretudo para marcar treinos, dar informações e partilhar exercícios e jogadas de treino. Ainda assim, seja de forma pessoal ou por telemóvel, o técnico não abdica de falar de forma individual com os seus atletas, dos mais novos que são chamados da equipa Sub-20 ou que estão agora a afirmar-se na equipa (como Gabriel Menino, a grande revelação da temporada e que foi a chave em muitos jogos) aos pesos pesados como Gustavo Gómez, Matías Viña, Felipe Melo, Luiz Adriano ou Rony, o elemento do Campeonato brasileiro com mais olheiros europeus a seguir o seu percurso. Tudo jogadores que já estavam no clube, que fez apenas uma contratação com Abel: Breno, avançado ex-Juventude da Série B.

A expulsão do banco, o surto de Covid-19 e um drone nos treinos

Depois de um empate com o Ceará que valeu na mesma a passagem às meias-finais da Taça do Brasil e da primeira derrota que sofreu com o Goiás para o Campeonato, o Palmeiras, sempre a jogar numa média de 3,5 dias em 3,5 dias, não demorou a restabelecer-se, passou o Delfín nos oitavos da Taça dos Libertadores e voltou aos triunfos no Campeonato frente ao Athl. Paranaense. Abel tinha começado a mudar o chip da equipa em termos táticos e de ideia de jogo, tinha sido também expulso do banco num encontro onde teve uma das conferências mais inflamadas desde que chegou ao Brasil (“Antes de ser treinador, sou homem. Com toda humildade e respeito pedi para falar com o árbitro mas não percebi a arrogância e prepotência dele. E outra: sou religioso. Na igreja tenho que estar calado. Mas estou no futebol, não na igreja”, disse) mas preparava-se para outro “desafio”.

Abel abraça Rony após a derrota por 2-0 frente ao River Plate, "a mais saborosa da carreira" por ter valido na mesma a final da Libertadores

No início de dezembro, apesar de viver no Centro de Treino, nunca ter saído para conhecer a cidade e manter todos os cuidados nas viagens, o português testou positivo à Covid-19 e teve de ficar em isolamento no quarto onde ainda agora vive no hotel existente no complexo que serve de zona de estágios à equipa. Pior ainda, só num mês teve um total de 20 jogadores com o novo coronavírus – ou seja, contas feitas, quase todo o plantel tinha estado ou estava infetado numa altura decisiva nas três competições em que a equipa estava envolvida (sendo a única no país que se encontrava ainda nesse patamar). Foi preciso improvisar e houve um pouco de tudo nesse período.

Vítor Castanheira assumiu o comando nos jogos com o Santos e com o Libertad, a contar para a primeira mão dos quartos da Taça dos Libertadores, tendo no apoio os também adjuntos João Martins e Carlos Martinho, além do observador Tiago Costa. Aí, e como era habitual, um dos elementos da equipa técnica estava numa zona mais alta no estádio (Martinho) e a comunicação através do telefone fazia um triângulo com o banco e o quarto de Abel, sendo que era o treinador principal a dar sempre a última palestra ainda do início do jogo por telemóvel. Nos treinos, a realidade foi outra: o Palmeiras comprou um drone e respetivo software para que Abel pudesse seguir de perto o que estava a ser feito e corrigisse em tempo real o que pretendia. A proposta do Qatar feita pelo Al Rayyan, muito empolada na imprensa brasileira, não chegou sequer a estar em equação pelo técnico. E também com a experiência da Covid-19 Abel, que teve sempre a família em Portugal, conseguiu aprender alguma coisa.

Quando Abel esteve infetado com Covid-19, que assolou quase todo o plantel, o Palmeiras comprou um drone e respetivo software para que o técnico pudesse seguir de perto o que estava a ser feito nos treinos e corrigisse em tempo real o que pretendia. A proposta do Qatar feita pelo Al Rayyan, muito empolada na imprensa brasileira, não chegou sequer a estar em equação pelo técnico.

“Vou dizer exatamente aquilo que senti: na primeira noite tive medo. As pessoas acham que os líderes não têm medo mas confesso que na primeira noite tive medo porque este vírus tem formas diferentes de reagir em todos os corpos. Na primeira noite não queria adormecer porque estava com medo. Felizmente, a partir da segunda noite, tudo começou a estabilizar, deixei de ter febre, comecei a estar normal. Foram dez dias tranquilos. Todas as pessoas do clube ligavam-me a perguntar se precisava de algo, estive sempre acompanhado. As pessoas do hotel foram muito simpáticas comigo, logicamente com a devida distância porque ninguém podia entrar no quarto. Era eu que fazia a limpeza e tratava de tudo, também era bom para passar o tempo. E tenho uma equipa técnica altamente competente, com a tecnologia que temos hoje em dia é possível estar presente. Tive reuniões individuais e coletivas por Zoom. Faltou o contacto e a presença mas tudo o resto esteve lá”, resumiu no regresso. E aprendeu a lição: os poucos jogadores que nunca foram infetados já foram vistos agora a treinar também de máscara.

A psicóloga Gisele, palestras e o hobbie da Fórmula 1 nos (poucos) tempos livres

As duas últimas semanas de dezembro, em que a equipa conseguiu a qualificação para a final da Taça do Brasil e para as meias-finais da Taça dos Libertadores, mantendo em paralelo as possibilidades no Campeonato apesar da distância para os primeiros classificados, provaram que a parte tática e a ideia de jogo do Palmeiras encontrava-se consolidada, também ela contribuindo para uma europeízação do conjunto de São Paulo: uma equipa que podia jogar numa linha de três ou numa defesa a quatro, com um ou dois avançados abertos na frente, mas que ganhara outra noção da ocupação dos espaços com e sem bola que permitiu estabilizar os resultados assentes numa grande solidez defensiva, construindo a partir de trás com um dos médios a recuar na primeira fase, a apostar no jogo entre linhas, com os alas em constantes diagonais dando espaço de projeção aos laterais. A isso juntou também a relevância dos esquemas táticos, sendo que alguns dos golos ou das oportunidades do Verdão foram decalcadas ou adaptadas de bolas paradas de técnicos como Pep Guardiola ou Lucien Favre. Outra nota importante passada aos jogadores: “Em situações de pressão na defesa, é bola para o mato que é jogo de campeonato”.

Abel mostrou-se fascinado após entrar no Maracanã para o jogo mais importante da carreira após três meses em Brasil

A isso Abel tentou juntar o pormenor que considera fazer cada vez mais a diferença na alta competição: a parte mental. E se nos últimos dias o treinador esteve em foco ao orientar um treino na parte de cima da bancada do campo número 1 do Centro de Treinos, chamando depois alguns jogadores de forma individual para falar com eles e mostrar daquela perspetiva o que pretendia deles em jogo no plano tático, a presença da psicóloga Gisele Silva, que trabalha no clube há mais de dez anos tendo começado na formação e subindo depois à equipa principal, foi mais visível. Se nas palestras o treinador tenta sempre puxar por essa capacidade de superação dos jogadores, agora aprendeu a lição da derrota na segunda mão da meia-final da Libertadores com o River Plate, onde perdeu em casa por 2-0 e arriscou-se mesmo a ser eliminado após o 3-0 na Argentina, para perceber que deveria existir um trabalho especial para equilibrar o ambiente e diminuir a ansiedade antes do jogo decisivo.

Entretanto, e nas duas/três últimas semanas, percebeu-se que houve uma “aposta” maior do Palmeiras em Abel através das redes sociais. Das palestras e demais pormenores passados através de pequenos vídeos às iniciativas não só na comunidade mas junto dos adeptos da equipa de São Paulo, como a oferta de alguns bilhetes para a final da Taça dos Libertadores este sábado no Maracanã, o português assumiu um papel principal na vida do clube pelos resultados conseguidos em apenas três meses no cargo, potenciando a imagem do treinador a um nível que não tinha sido tão explorado antes. “Estou a precisar de mais uns elemento para nos ajudar na final da Libertadores”, disse numa videoconferência a uma das adeptas, Fernanda, que não evitou as lágrimas. “Quando nos portamos bem, as surpresas aparecem. Estamos a convocar-te para esta missão, a final da Libertadores. Foste uma das selecionadas. Não precisas de chorar. É só fazer as malas e desfrutar do momento. Todos nós que vamos lá estar contamos com o teu apoio para representar a nossa massa adepta. Vão ser poucos mas vão ser bons”, disse, sobre a iniciativa que premiou quem foi a mais jogos e quem contribuiu mais para o clube nesta fase.

"O meu pai adorava o Alain Prost e eu o Ayrton Senna. Adorava passar tardes a ver corridas com o meu pai. Adorava a determinação, a ousadia, as imagens dele quando ganhou em Interlagos. É qualquer coisa de extraordinário, é inacreditável o quanto ele sofreu para ganhar. Adorei o documentário dele na Netflix. É uma inspiração para o mundo", contou o técnico em entrevista.

Mas o que faz Abel nos (poucos) tempos livres, tendo em conta que o espaço para conhecer a cidade é quase nulo? Ver Fórmula 1 é um dos hobbies. “O meu pai adorava o Alain Prost e eu o Ayrton Senna. Adorava passar tardes a ver corridas com o meu pai. A minha mãe até dizia ‘Vocês são uns tolinhos, ficam a ver os carros a dar voltas’. E eu adorava. Adorava a determinação, a ousadia, as imagens dele quando ganhou em Interlagos. É qualquer coisa de extraordinário, é inacreditável o quanto ele sofreu para ganhar. Adorei o documentário dele na Netflix. É uma inspiração para o mundo”, disse sobre o piloto falecido em 1994 que nasceu em São Paulo. O desporto motorizado sempre foi outra das grandes paixões do treinador, que gosta de andar de mota e tem também um kart. Para já, e para andar a acelerar num Brasil onde realizou 26 jogos em três meses, agarrou-se sobretudo ao trabalho e aos livros para superar a corrida mais louca da carreira até ao momento. E que, em qualquer cenário, vai continuar.

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