Não há dinheiro. Há cadeados a fechar os portões do Estádio Ennio Tardini, existem pouco mais de 40 mil euros na conta e o risco de desaparecer. É assim que está o Parma, um clube que recentemente foi comprado por um euro. Duas vezes. Outrora, nos tempos idos de 90, jogadores como Asprilla, Buffon, Cannavaro, Dino Baggio, Brolin, Crespo, Stoichkov, Sensini, Thuram e Zola brilharam com aquela camisola às riscas amarelas e azuis e venceram vários canecos do Velho Continente. Uma dessas camisolas que mais pareciam pijamas morava, junto de dezenas, na cave de Peter Schmeichel na casa de Birre, onde viveu quando jogava no Sporting. Era de Nakata.
Agora, adivinha-se o fim. O jogo contra a Udinese, no passado domingo, foi cancelado por não haver dinheiro para pagar a segurança no estádio. O próximo é em Génova e o capitão de equipa até já disse que se for preciso deslocam-se em cinco ou seis carros de jogadores. Esta é a história de um clube que foi maior na Europa do que em Itália… e que se aproxima perigosamente do precipício.
VIDEO: Caos Parma, lo sfogo di Crespo http://t.co/E99m2w7qQA
— skysport (@SkySport) February 21, 2015
“Nem sequer temos água quente para depois dos treinos e os rapazes ficam doentes muitas vezes”, lamentava Hernán Crespo há poucos dias. A antiga glória do Parma, que por lá brilhou entre 1996 e 2000 (e depois 2009-2012), é o treinador dos juniores. “Estamos numa desgraça. É uma situação horrível. Está a queimar-se o trabalho de anos. Vi este complexo ser construído tijolo a tijolo. (…) Se não mudarmos de instalações, as coisas vão correr muito mal. Se for preciso, e já o temos feito, levamos os miúdos para outro lado com os nossos carros”, afirmou o antigo avançado, que venceu uma Taça UEFA, uma Coppa e mais uma Supertaça Italiana no Ennio Tardini.
O Parma vive num inferno. Não paga aos funcionários desde julho, está condenado à Serie B e, se os clubes da Serie A não chegarem a um acordo para salvar o clube, pelo menos para acabar a época, perderá as restantes partidas do atual campeonato por 3-0. Se não encontrar um investidor ou alguém que o compre (ou acerte as contas), o Parma arrisca-se a fechar portas (ou cair para o futebol amador). O clube cancelou o jogo de domingo, dia 22, contra a Udinese por não ter dinheiro para pagar a segurança no estádio. O Parma ainda tentou jogar sem adeptos nas bancadas, mas nada feito. A Associação de Futebol Italiano recusou. Os adeptos marcharam diante do estádio e colocaram faixas que diziam “fechado devido a roubo”, conta o Guardian.
Agora segue-se a partida contra o Genoa, longe do Ennio Tardini. Como vai ser? “Estamos a começar as preparações para o jogo contra o Genoa”, explicava no início da semana Alessandro Lucarelli, o capitão do Parma. “Se não houver um autocarro, arranjamos cinco ou seis carros e viajamos juntos. Estamos preparados para pagar a viagem”, assegurou o defesa central de 37 anos.
▲ Alessandro Lucarelli, 37 anos, é o capitão. Chegou em 2008.
Marco Luzzani/Getty Images
O tom é amargo, de quem está magoado e já sente a camisola misturar-se com a sua pele. “É como estar num filme. Vimos acontecer tudo o que era possível imaginar, com quatro presidentes esta época”, desabafou à Radio Anch’io, citado pelo Guardian. “Quando não jogámos ontem [domingo] fiquei com um mau pressentimento. (…) Estamos preparados para jogar, mas queremo-nos sentir protegidos, tem de haver respeito pelo Parma e não apenas pela intenção de o campeonato continuar.” As palavras do canhoto, que é irmão de Cristiano Lucarelli, fizeram depois ligação direta com o coração: “Se for necessário, estou preparado para jogar na Serie D pelo Parma. Depois de sete anos, sinto que esta camisola é a minha e estou disponível para jogar por este clube em qualquer divisão.”
Mas quem viu o que se passou na última época não poderia imaginar um desfecho tão trágico. Os Ducali, como são conhecidos, até conseguiram a qualificação para a Liga Europa, com um surpreendente sexto lugar, roubando uma vaga europeia ao Milan. O desafio foi lançado no início da época pelo treinador Roberto Donadoni e atletas como Cassano, Amauri e Biabiany cumpriram-no. Esta gente conseguiu, aliás, bater um recorde do clube: 17 jogos sem perder, entre novembro e março.
O clube italiano não garantiu a licença para participar na Liga Europa devido a irregularidades financeiras. O Supremo Tribunal de Justiça Desportiva assinalou que o clube não cumpriu o pagamento de 300 mil euros em impostos, por isso deu razão à Federação Italiana.
Mas os sinais da tempestade chegariam depois deste encontro com a glória, que só aconteceu graças ao bis de Amauri contra o Livorno na última jornada. O clube italiano não garantiu a licença para participar na Liga Europa devido a irregularidades financeiras. O Supremo Tribunal de Justiça Desportiva assinalou que o clube não cumpriu o pagamento de 300 mil euros em impostos, por isso deu razão à Federação Italiana de Futebol.
O presidente de então, Tommaso Ghirardi, ficou fora de si: “Para mim, o futebol termina hoje. Podem continuar sozinhos”, reagiu Ghirardi, em declarações à Gazzetta dello Sport, citado pelo Público. “Estou muito amargurado com o sistema desportivo e ainda mais com esta sentença. Conseguiram fazer-me abandonar o mundo do futebol”, desabafou. Mas não ficaria por aí: “Só um idiota poderia pensar que isto é um ato ilícito da minha parte, de tentar poupar 300 mil euros depois de ter gasto 13 milhões e agora de ter perdido oito milhões por não participar na Liga Europa.” A vaga seria ocupada pelo Torino.
Ghirardi tentaria imediatamente vender o clube. Sem sucesso. Só conseguiria em dezembro: o comprador seria um empresário albanês, Rezart Taci, que compraria o clube por um euro. Um euro. A época começou tremida e o fundo da tabela seria o destino a curto prazo — atualmente tem apenas 10 pontos em 23 jogos (perdeu um ponto por incumprimento). Em janeiro, Felipe e Cassano rescindiram o contrato. Já Acquah, Bidaoui, Cordaz, De Ceglie, Souza, Paletta, Pozzi, Rispoli e Ristovski saíram cedidos. Pozzi, por exemplo, foi emprestado com uma opção de compra de mil euros, conta o El Pais.
▲ Varela e Cristián Rodriguez assinaram pelo Parma em janeiro. Nem imaginavam qual era a situação do clube...
Getty Images
É um prédio em chamas, com fado incerto. E foi exatamente nessas condições, sem terem conhecimento, onde se enfiaram Cristian Rodriguez e Silvestre Varela, antigos jogadores do FC Porto. “De fora, vemos as coisas de forma diferente. Pensei que o Parma apenas tinha problemas para ganhar, mas há muitos mais problemas”, disse o canhoto à Kaiser Magazine, citado pelo jornal A Bola. “Não sabia que o clube não pagava salários a alguns jogadores há seis meses. Não me arrependo, venho para dar o máximo. O meu objetivo era mostrar-me. Estava feliz no Atlético Madrid, onde conquistei muitos títulos, mas treinar e viver bem em Madrid não me chegava. O que queria era jogar e é isso que estou a fazer”, explicou o uruguaio.
Segundo a Gazetta dello Sport, o Parma tem uma dívida a rondar os 195 milhões de euros, embora, como explica o Guardian, a dívida líquida assente em créditos pendentes coloca esse valor nos 96 milhões. Quando Ghirardi tomou posse, em 2006, essa mesma dívida estacionava nos 16 milhões, o que representa um aumento colossal. Em novembro, Ghirardi disse a Lucarelli que não colocaria nem mais um euro no Parma. Dito e feito.
A aventura do albanês durou menos de dois meses, nos quais nem sequer se encontrou com os jogadores. O Parma voltaria a mudar de mãos, em fevereiro. Desta vez foi um empresário de Milão a agarrar as rédeas do clube, por um euro. Outra vez. Um euro, senhores. O atual dono chama-se Giampietro Manenti, que garante ter o dinheiro para arrancar o Parma desta situação, mas tarda em resolver o assunto. “Eu tenho o dinheiro, não sou louco. Não estou a fazer bluff. Fiquem calmos… Assim que tenhamos tudo no lugar, eu posso explicar tudo o que aconteceu nos últimos dias”, explicou Manenti.
“Ele [Manenti] mostrou-nos um documento do banco demonstrando que havia 100 nilhões de euros disponíveis para investir no Parma. Nós tivemos algumas dúvidas, porque era um grande valor”, contou Lucarelli, sobre a entrada do novo dono. O ponto de interrogação mantém-se ainda hoje.
Até o presidente da camara de Parma, Federico Pizzarotti, quis ajudar na salvação do clube da cidade, contactando vários empresários que poderiam contribuir com algum dinheiro. A esperança do autarca passa por evitar o encerramento do clube, garantindo uma “falência assistida” durante o verão para que tenham um lugar na próxima edição da Serie B, o segundo escalão. O jornal Parma Today classificou esta como a semana “mais feia da história, a pior de sempre”. E com muita propriedade, diga-se. Afinal, este clube resistiu à falência da Parmalat em 2003. Abanou mas resistiu, e perdeu o direito à grandeza de outros tempos. Agora, o futuro é incerto.
O QUE TEM O PARMA DE ESPECIAL?
O legado europeu e um sem fim de craques nas suas fileiras. Ficávamos aqui o dia inteiro se começássemos a lembrar todos, mas ficam alguns nomes: Zola, Stoichkov, Asprilla, Cannavaro, Buffon, Sensini, Chiesa, Dino Baggio, Verón, Crespo… Chega? Há tantos. Até Carlo Ancelotti, que por lá jogou entre 1976 e 1979, foi treinador do clube, e até foi no Ennio Tardini que a sua carreira deu o grande salto: em 1998 mudou-se do Parma para a Juventus. Hoje é um treinador especial, consensual, tranquilo e vencedor.
E esta gente não esquece o Parma. Faustino Asprilla, por exemplo, jogou no Ennio Tardini entre 1992 e 1996, antes de saltar para o Newcastle, que estava na moda na altura na Premier League. As coisas não correriam nada bem e regressaria ao seu Parma, para lá ficar mais dois anos (1997-99). A história de Asprilla confunde-se facilmente com o clube da camisola às riscas: o colombiano está ligado às duas conquistas da Taça UEFA, à Supertaça Europeia e à Taça das Taças. Ah! E a uma Coppa, a tal contra a Fiorentina de Batistuta e Rui Costa. Asprilla, hoje com 45 anos, não sabe largar a mão do clube onde mais brilhou: “Parma estará sempre no meu coração”, escreveu no Twitter. Noutro tweet disse ainda “estar grato para toda a vida ao Parma” e agradeceu por o clube fazer com que os colombianos acordassem cedo num domingo de manhã.
O colombiano, que na seleção dava nas vistas ao lado de Valderrama, lançou até uma petição para salvar o Parma. “Não queremos que a equipa de futebol Parma desapareça. Vamos tentar encontrar uma solução para esta equipa que deu tanta felicidade e bom futebol ao mundo. (…) É importante porque é um clube tradicional com mais de 101 anos. O Parma é um ícone do bom futebol do mundo”, escreveu no texto que endereçou à FIFA e à Liga de Futebol Italiana. Para já, conta com 225 assinaturas. Já que tocámos na lengalenga do bom futebol, vale a pena recordar aqui alguns golos deste senhor avançado.
Sarò grato tutta la vita al @ParmaFC per tutto ciò che ha fatto per me e perchè è riuscito a fare alzare presto la domenica ai colombiani.
— Faustino Asprilla (@TinoasprillaH) February 21, 2015
firmiamo questa petizione per salvare@ParmaFC http://t.co/vZJxMAAtHX
— Faustino Asprilla (@TinoasprillaH) February 23, 2015
As redes sociais são, aliás, um autêntico museu da emoção, saudade e memória. Basta escrever “Parma” no Twitter e é ver um sem fim de desabafos, histórias, artigos, vídeos e fotografias de lendas de outrora. É irresistível não perder uns minutos a desenrolar o lençol da rede social do pássaro azul. Exemplos?
Cara #Parma , da regina del Subbuteo a puttana degli improbabili ➡http://t.co/GCm1FzJANS#SaveParma @TinoasprillaH pic.twitter.com/r6sA81tkwp
— Alfredo De Vuono (@AlfredoDeVuono) February 23, 2015
L'ultima vittoria del Parma a Roma risale al 1997. Finì 1-0 con rete di Hernan Crespo. #SkySerieA pic.twitter.com/8DHXxbxl6j
— skysport (@SkySport) February 13, 2015
https://twitter.com/FuteNoticias_/status/569310681742385153
https://twitter.com/futmais/status/570030299293335554
No que a nós diz respeito, portugueses, o Parma tem algum historial quanto à aposta em jogadores portugueses. O mais sonante é, sem dúvida alguma, Fernando Couto, que saiu do FC Porto em 1994. Passados dois anos seria transferido para o Barcelona, mas seria na Lazio que vincaria o seu nome na Serie A. O regresso ao Parma aconteceria em 2005, e por lá ficaria até pendurar as botas, em 2008.
Sérgio Conceição também lá passou, mas apenas uma época, em 2000/01, após dois anos na Lazio (quem sabe tenha sido o hat-trick à Alemanha no Euro-2000 que convenceu os Ducali). Daria tanto nas vistas no Ennio Tardini que o Inter avançaria para a sua contratação. Hoje em dia andam por lá dois: Silvestre Varela, como já vimos, e Pedro Mendes, um jovem defesa central formado no Sporting.
Mas especial, especial foi as conquistas no Velho Continente. O Parma nunca foi campeão italiano, ganhou apenas três Taças de Itália (92, 99 e 2002) e a Supertaça Italiana em 1999. “Apenas” porque soa a migalhas para quem tem no museu duas Taças UEFA (95, 99), uma Taças das Taças (93) e uma Supertaça Europeia (93).
A década de 90 foi mágica para esta gente. O primeiro troféu a sério foi conquistado em 1992 contra a Juventus de Roberto Baggio, Schillaci, Peruzzi, Paolo Di Canio e Conte. Nevio Scala conduziu os jogadores do Parma à vitória na Taça de Itália: perderam a primeira mão por 1-0, mas Melli e Osio dariam a volta no Ennio Tardini.
Seguiu-se em 1993 a Taça das Taças, em Wembley. O rival foi o Royal Antwerp, os heróis Minotti, Melli e Cuoghi (3-1). A partir daqui foi sempre a subir. A Supertaça Europeia chegou no mesmo ano vs. Milan: Sensini e Crippa cobriram o golo solitário de Jean-Pierre Papin.
O duplo brilharete na Taça UEFA aconteceu em 1995 e 1999. Primeiro, com Fernando Couto em campo, despacharam novamente a Juventus, cortesia de Dino Baggio, que marcou dois golos (1-1, 1-0). Quatro anos depois, os homens que tantas vezes jogaram com uma cruz gigante na camisola deram um valente show contra o Marselha: Crespo, Vanoli e Chiesa deram forma ao 3-0.
Recordemos a caminhada europeia que colocou Parma no mapa? Então vamos a isto, moedinha na máquina do tempo…
Taça das Taças vs. Royal Antwerp (1993); 3-1
Supertaça Europeia vs. Milan (1993); 2-0, 0-1
Taça UEFA vs. Juventus (1995); 1-0, 1-1
Taça UEFA vs. Marselha (1999); 3-0