“Um já está!” O aniversário de Marcelo no Liceu, no Museu e na Cais

09 Março 2017

No dia em que comemorou o primeiro ano de mandato, o PR teve uma quinta-feira cheia, com atos simbólicos e indiretas políticas. Foi ao liceu, ao museu, vendeu a Cais e condecorou primeiras-damas.

Marcelo andou o dia todo a conduzir o próprio carro, sozinho, deixando a viatura de Estado para os seguranças. Foi assim que chegou, esta quinta-feira, à porta do Liceu Pedro Nunes, onde nos anos 60 chegou a exibir a sua mota Pachancho, “a mais baratinha“. Uma geringonça, que o pai lhe ofereceu por ter o 19 de média que lhe tinha prometido. Marcelo chegou à Estrela já depois de falar ao telefone com o primeiro-ministro, que, mesmo em Bruxelas, lhe ligou a felicitá-lo por completar um ano em Belém. Em Lisboa, o Presidente começava uma quinta-feira igual a tantas outras. Deu uma aula, vendeu revistas Cais, passou por três exposições e ainda condecorou duas antigas primeiras-damas. É também o primeiro ano sem Cavaco Silva, que não se livrou de referências implícitas.

No liceu, onde foi aluno 7 anos, Marcelo voltou a ser professor por umas horas. Respondeu a tudo, ou quase tudo, porque se recusou a fazer uma auto-avaliação do primeiro ano mandato. De 0 a 20, pediu uma aluna. Mas, Presidente fugiu à pergunta, mesmo lembrando os tempos em que dava notas a políticos na rádio: “A auto-avaliação é sempre suspeita. Uma pessoa nunca se pode separar de si mesma“.

Antes da aula, Marcelo foi ao bar do seu antigo liceu beber um sumo de laranja

Os alunos do liceu quiseram também saber o que Marcelo iria fazer quando saísse da Presidência. “Faltam quatro anos“, disse aos alunos; “Faltam nove“, insistiria mais tarde uma amiga com quem se cruzou pela hora de almoço. Aos estudantes, o Presidente acabou por responder que, quando saísse de Belém, iria “dar aulas”, “fazer palestras”, mas não resistiu a deixar indiretas ao antecessor: “Não vou escrever sobre os primeiros-ministros com quem trabalhei, nem vou escrever um livro de memórias. O que se passou, passou“. Pouco depois — em mais um almoço “frugal” numa esplanada em Belém — voltava à carga, lembrando o episódio em que Cavaco Silva foi captado pelas câmaras televisivas a comer “bolo-rei” de boca aberta: “Isto faz-me lembrar um político qualquer que foi apanhado a comer com a boca cheia.” Ao final do dia, acabaria por se encontrar com o próprio Cavaco Silva.

Um já está. Mas afinal, faltam quatro ou nove?

No auditório do liceu, Marcelo ia dando conselhos aos alunos que o questionavam. “Segura [no microfone] como se estivesses a comer um gelado, pá”. “Ó tu aí, que tens cara de intelectual, faz lá a pergunta.” E respondia até para além do que lhe era perguntado. A questão foi: “Sempre quis ser presidente?”. Marcelo começou por dizer que não e que o amigo Eduardo Barroso é “o responsável pelo mito urbano” de que ele queria ser “Presidente desde pequenino”. Até porque, na altura, “queria ser professor catedrático.”

Três livros e três momentos

Os alunos fizeram perguntas mais diretas a Marcelo Rebelo de Sousa, como os livros que mais o marcaram. O Presidente, que tantas obras recomendou ao domingo na televisão, apontou três obras:

  1. A Condição Humana“, de André Malraux;
  2. “Ulysses”, de James Joyce;
  3. “Guerra e Paz”, de Lev Tolstói.

Já os jornalistas também perguntaram a Marcelo quais os três momentos mais marcantes no primeiro ano de mandato:

  1. A eleição do António Guterres;
  2. O 10 de junho celebrado com os portugueses em Paris;
  3. A vitória de Portugal no Europeu de Futebol.

Ao longo da vida, contava Marcelo — interrompido a espaços pela campainha da escola (“que me fez sofrer, chegava sempre atrasado…”) — foi um “político ocasional”. Foi deputado constituinte porque “calhou”. Esteve no Governo porque “calhou”. E foi líder da oposição porque, imagine-se, “calhou.” Mesmo que ninguém lhe tenha perguntado sobre a continuidade em Belém, o Presidente chamava uma vez mais o neto Francisco, o seu preferido, à conversa: “O meu neto Francisco disse: ó avô, candidata-te, experimenta, não tens nada a perder. Pode ser que corra bem. Só ponho uma condição: que seja só cinco anos, porque senão não podemos passar tempo com o avô.”

Outro aluno, pouco depois, perguntava a Marcelo, se havia algo na escola que fosse especial para por ali terem passado três Presidentes: Américo Tomás, Jorge Sampaio e o atual chefe de Estado. O Presidente deu uma resposta mais à medida do que queria dizer e insistia: “Ser professor é toda a vida, Presidente da República são só cinco anos”. Deixou, no entanto, em aberto a possibilidade de ficar dois mandatos, mesmo que a pergunta tenha sido apenas: “Arrepende-se de se ter candidato a Presidente?” Marcelo deu voltas à resposta e lá disse o que queria: “No verão de 2020 vou pesar a situação que existe em Portugal e, se sentir de novo o dever de consciência, sou candidato outra vez.

Costa só vê dias de Sol

O dia estava quase de verão e, talvez por isso, Marcelo tenha optado por uma metáfora meteorológica, quando decidiu falar aos alunos — que, mais uma vez, não o tinham questionado — sobre o otimismo de António Costa. “Eu não sou tão otimista como o primeiro-ministro. O primeiro-ministro, ainda não nasceu o dia e diz que vai ser um dia lindo, de sol. Eu digo que poderá ser sol ou chuva, mas que acredito que pode ser sol”, explicou o Presidente.

"Eu não sou tão otimista como o primeiro-ministro. O primeiro-ministro, ainda não nasceu o dia e diz que vai ser um dia lindo, de sol. Eu digo que poderá ser sol ou chuva, mas que acredito que pode ser sol", explicou o Presidente. 

Pela manhã, Marcelo já tinha falado com António Costa, que não se poupou em elogios em declarações públicas e até nas redes sociais.

António Costa foi entusiasta e falou numa cooperação institucional “exemplar”. Pouco depois, ainda no Liceu Pedro Nunes, Marcelo Rebelo de Sousa falava da relação com Costa com alguma frieza: “O primeiro-ministro disse que foi um relacionamento exemplar do primeiro-ministro em relação Presidente da República, que se compreende, aliás, porque o primeiro-ministro só fala por ele e fala pelo Governo.” E acrescentou de forma seca e desinteressada: Da parte do Presidente, o que houve foi um cumprimento da Constituição.” Durante cerca de sete minutos (em som, em baixo) despachou os assuntos de atualidade, antes de seguir para Belém, como mandava a agenda, vender revistas “Cais”.

“Esta tem o João Baião! Compre!”

Marcelo Rebelo de Sousa sentou-se na esplanada do restaurante Sabores de Belém com dois vendedores da revista “Cais”, António Pias e José Barros, fardados a rigor com coletes amarelos. O Presidente só não vestiu um igual porque se esqueceu dele no Palácio de Belém.

Marcelo vendeu revistas "Cais" em Belém

Parte da ação foi sentado, onde aproveitou para um almoço rápido, e para tentar ir vendendo algumas revistas. “Esta aqui tem o João Baião [que é a figura de capa da revista]. Compre. São dois euros”. Acabou até por adquirir algumas e oferecê-las a estudantes que se iam chegando para mais uma selfie. Na edição de maio, ia contando o Presidente, é ele próprio que vai ser o diretor da revista e já definiu o tema: a juventude. O Presidente avança ainda que a edição terá uma “reportagem fotográfica”.

Pelo meio, uma imigrante síria, que já se tinha queixado ao Presidente que não conseguia trazer o marido para Portugal, voltou a pedir a Marcelo que a ajudasse (já o tinha feito antes, ali por Belém). O chefe de Estado dava-lhe novamente um conselho: “Diga-lhe para ir para a Grécia ou para a Turquia, que depois é mais fácil. É difícil vir diretamente para Portugal.” Também houve tempo para a conversa com dois gémeos de 10 anos, o Hugo e o Tiago, que explicaram ao presidente que eram ambos do Benfica. “Viram o jogo ontem? Correu mal…”, ia dizendo o Presidente, que ainda falou na “reviravolta do Barcelona”. Os gémeos iam contando que praticavam taekwondo, o que foi um pretexto para Marcelo confessar que já fez atividades como “aikido, yoga e meditação transcendental”. Sim, leu bem, “meditação transcendental.”

Seguiu-se uma arruada presidencial, em que Marcelo conseguiu vender mais algumas revistas. Balanço: cerca de 30 revistas vendidas. Portanto, 60 euros. António Pias vende a revista há dois anos, desde que ficou “desempregado” e foi “acolhido, bem acolhido, pela Cais”. Atualmente são as vendas que lhe permitem a subsistência: “Vivo da revista, dá para viver”. Os dois vendedores e Marcelo usaram a mesma expressão para definir a venda: “Correu bem.”

Marcelo conduziu o próprio carro durante todo o dia

A venda terminou já para lá das duas e meia e Marcelo pegou mais uma vez no próprio carro com destino a parte incerta. A tal agenda oculta. Ou privada. Ou nem oculta, nem privada, porque aparece sempre uma televisão.

Três museus e uma condecoração relâmpago

Marcelo conseguiu ir ao Convento da Trindade ver uma exposição “Cidade Gráfica. Letreiros e reclames de Lisboa no século XX” sem que nenhum jornalista o detetasse. Isso acabaria por acontecer no Museu do Chiado, quando o jornalista da SIC, José Manuel Mestre, interpelou o Presidente em direto e fez-lhe uma entrevista exclusiva durante cerca de um quarto de hora. O evento era privado, mas tornou-se mais um “Marcelo show” em direto. Falou de arte, de política, da arte da política. Voltou a dizer que Costa é “irritantemente otimista” e prometeu que nunca vai mudar a “maneira de ser”. Falou, basicamente, de tudo, até do medicamento Omeprazol, que confessou que anda a tomar menos. Admitiu que ia continuar a agenda privada e que, dali, ainda iria ver uma exposição de Graça Morais à Fundação Champalimaud.

O dia acabaria em Belém, com a presença de dois dos seus antecessores que foram assistir à cerimónia de condecoração das suas mulheres e ex-primeiras damas. Função que Marcelo não reconhece e sobre a qual, durante a campanha eleitoral, chegou a dizer taxativamente: “A Constituição não prevê tal cargo.” E não prevê. Ainda assim, o Presidente prestou a homenagem numa cerimónia breve, onde falou pouco mais que um minuto. “Uma palavra apenas porque há gestos que não carecem de longo fundamento de tão óbvia ser a sua justificação. Um ano depois de iniciar o mandato presidencial, posso testemunhar o papel nacional e internacional assumido por vossas excelências ao longo de uma década. Cá dentro junto de um sem número de obras sociais, educativas, culturais, com o sentido de serviço e eficiência, lá fora, tornando mais presente o nome de Portugal em iniciativas oficiais e contactos pessoais, com afinco e total entrega”, justificou Marcelo.

O Presidente acrescentou que é de “estrita justiça seguir o exemplo de Jorge Sampaio quando agraciou Manuela Eanes e Maria Barroso” e reiterou que é um “agradecimento por quanto dedicaram das suas vidas a Portugal e que Portugal nunca esquecerá.” Seguiram-se os cumprimentos. O dia de Marcelo foi intenso, mas acabou quando ainda havia sol. O tal que o primeiro-ministro acredita que brilha sempre.

Texto de Rui Pedro Antunes, fotografia de Hugo Amaral.

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