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O treinador de 43 anos estava a realizar a primeira temporada no V. Guimarães até se mudar para Alvalade
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O treinador de 43 anos estava a realizar a primeira temporada no V. Guimarães até se mudar para Alvalade

NurPhoto via Getty Images

O treinador de 43 anos estava a realizar a primeira temporada no V. Guimarães até se mudar para Alvalade

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Um mês e meio de ideias próprias até dar prioridade ao conforto: como Rui Borges venceu ao voltar ao ponto de partida

Chegou no Natal, começou por implementar próprio sistema, não resistiu à onda de lesões e teve humildade suficiente para dar conforto à equipa. Como Rui Borges voltou ao ponto de partida para ganhar.

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Foi uma espécie de caminho das pedras até conseguir construir um castelo. Rui Borges é campeão nacional e levou o Sporting ao bicampeonato, um feito que não alcançava desde os anos 50 — e é impossível não recordar o que o treinador natural de Mirandela teve de fazer, adaptar e reajustar para terminar a temporada no primeiro lugar do Campeonato.

Apresentado em pleno Natal, depois de uma viagem-relâmpago ao Minho para almoçar com a família já após uma reunião final com Frederico Varandas em Lisboa, Rui Borges foi o sucessor da aposta falhada em João Pereira. Mas também foi, acima de tudo, o sucessor da aposta bem-sucedida, histórica e memorável em Ruben Amorim.

Se é verdade que começou por implementar as próprias ideias, algo que Frederico Varandas antecipou desde logo que faria, também é verdade que só demorou mês e meio a conduzir a equipa de volta a um conforto que teve resultados. Asfixiado por lesões, por um plantel pouco profundo e por um balneário onde nem o mercado de inverno apresentou grandes soluções, Rui Borges não teve pruridos em recuperar os três centrais e colocar o Sporting a jogar como tinha jogado nos quatro anos anteriores. E foi assim que ganhou. 

O treinador natural de Mirandela foi apresentado no dia 26 de dezembro, depois de uma viagem-relâmpago ao Minho para passar o Natal com a família

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Quando Rui Borges foi apresentado como o novo treinador, no dia seguinte ao dia de Natal, o Sporting era um clube ainda perplexo com o que tinha acontecido. Ruben Amorim tinha saído há cerca de um mês, no meio de uma euforia tremenda na sequência de uma goleada imposta ao Manchester City e uma reviravolta épica contra o Sp. Braga, e tudo o que aconteceu a partir daí gritava tragédia.

Com João Pereira, que seria sempre o substituto de Ruben Amorim mas no fim da temporada e depois de um processo mais alargado de adaptação e evolução na continuidade, o Sporting somou quatro derrotas, três vitórias e um empate — sendo que dois dos triunfos foram na Taça de Portugal e dois dos desaires aconteceram na Liga dos Campeões. Os quatro pontos em 12 possíveis no Campeonato culminaram na perda da liderança, precisamente num empate sem golos com o Gil Vicente que abriu a porta à ultrapassagem do Benfica, e também culminaram na saída do treinador que está agora no Alanyaspor da Turquia.

A solução estava no Minho. Rui Borges estava a realizar uma boa temporada no V. Guimarães, principalmente na Liga Conferência — os vimaranenses não perderam na fase de liga e só ficaram atrás do Chelsea na classificação —, e mereceu o voto de confiança de Frederico Varandas para dar a volta à situação para lá de inesperada que se vivia em Alvalade. João Pereira foi dispensado no dia 23 de dezembro, ao final da tarde, Rui Borges ficou internamente fechado ainda na noite desse dia, depois de conversas exploratórias anteriores, e teve um Natal de loucos: viajou para a capital para selar acordo no dia 24, tendo sido visto nos aeroportos de Porto e Lisboa, voltou a viajar para o Minho para almoçar com a família no dia 25 e foi apresentado a 26.

Quando Rui Borges foi apresentado como o novo treinador, no dia seguinte ao dia de Natal, o Sporting era um clube ainda perplexo com o que tinha acontecido. Ruben Amorim tinha saído há cerca de um mês, no meio de uma euforia tremenda na sequência de uma goleada imposta ao Manchester City e uma reviravolta épica contra o Sp. Braga, e tudo o que aconteceu a partir daí gritava tragédia.

E logo nesse dia, no dia da apresentação ainda em clima natalício, Frederico Varandas vincou aquela que seria a principal diferença entre João Pereira e Rui Borges. “Olhando para trás, o problema foi que João Pereira não pôde ser João Pereira. Perdemos Ruben Amorim e também não conseguimos ter João Pereira. Inconscientemente, teve de adaptar-se e fazer com que uma máquina montada continuasse a rolar à medida do ex-treinador. Olhando para trás, fosse João Pereira ou outro qualquer, infelizmente iria passar por isto. Hoje, não tenho dúvidas de que o treinador que aqui vai ser apresentado, Rui Borges, vai poder ser Rui Borges. Vamos ter um treinador que vai poder ser Rui Borges, porque assim lhe é permitido”, explicou o presidente leonino em pleno Auditório Artur Agostinho, em Alvalade.

“O problema foi que o João não pôde ser o João…”: Varandas defende João Pereira no adeus, da parte técnica à “nobreza de carácter”

E teve razão — durante mês e meio, pelo menos. Rui Borges trazia consigo um sistema tático preferido, um 4x3x3 que também podia ser um 4x4x2 a defender ou uma espécie de 4x2x3x1 a atacar, e não abdicou dessa ideia quando trocou o V. Guimarães pelo Sporting. Mesmo que, naquele mesmo dia e no momento em que foi apresentado como treinador dos leões, tenha admitido desde logo que poderia adaptar-se às rotinas dos jogadores.

“Poderá acontecer, não é linear. Já defendi em 5x2x3, em 4x4x2, já ataquei em 4x3x3, 4x2x3x1, 4x1x4x1, já construí a três… O sistema é o início, depois tem a ver com dinâmicas. Mais do que o sistema tenho de os fazer acreditar e, em pouco tempo, mostrar pequenas coisas que podem ser importantes. Gosto de sentir os jogadores o mais confortáveis possível. Se assim não for, não consigo tirar rendimento deles e não me torno melhor treinador. Sem fugir à minha ideia, mas tenho de tentar perceber o outro lado. A malta de fora tem batido muito nisso, mas o. sistema é muito relativo. O ser humano é feito de hábitos e, para os perder, tem de os ir diluindo. São as tais dores de crescimento”, explicou.

Rui Borges viveu recentemente um dos momentos mais emotivos no Sporting, contra o Gil Vicente, quando fez um sprint para celebrar o golo da vitória com os jogadores

EPA

Certo é que, logo na estreia, não abdicou mesmo das suas ideias. Por muito que essa mesma estreia fosse em Alvalade, contra o Benfica, num dérbi que obviamente valia a liderança do Campeonato. Bastou olhar para o onze inicial para perceber que, por uma das primeiras vezes em mais de quatro anos, o Sporting iria a jogo com uma linha defensiva de quatro elementos: Eduardo Quaresma a lateral-direito, Matheus Reis a lateral-esquerdo, Diomande e Jeremiah St. Juste como centrais.

Um golo de Geny Catamo ainda dentro da meia-hora inicial foi o suficiente para vencer o Benfica e voltar a colocar o Sporting no primeiro lugar. Na estreia, desde logo num dérbi tão importante, Rui Borges correspondeu, garantiu o triunfo e recuperou a liderança que João Pereira tinha entregado. E aí, naturalmente, também ganhou oxigénio para manter a aposta nas suas próprias ideias.

O pedaço de papel caído do livro, economia como plano B e uma liderança há muito identificada. Afinal, quem é Rui Borges?

A linha defensiva a quatro manteve-se nos 11 jogos seguintes: perdeu com o RB Leipzig e o Borussia Dortmund, na Liga dos Campeões, tal como perdeu a final da Taça da Liga com o Benfica nas grandes penalidades, mas venceu FC Porto, também na Taça da Liga, e ainda Rio Ave, Nacional e Farense, para além de ter empatado com V. Guimarães, Bolonha e novamente FC Porto, agora no Campeonato. O 11.º jogo, porém, mudou tudo.

Certo é que, logo na estreia, não abdicou mesmo das suas ideias. Por muito que essa mesma estreia fosse em Alvalade, contra o Benfica, num dérbi que obviamente valia a liderança do Campeonato. Bastou olhar para o onze inicial para perceber que, por uma das primeiras vezes em mais de quatro anos, o Sporting iria a jogo com uma linha defensiva de quatro elementos.

A meio de fevereiro, em Alvalade, o Sporting empatou com o Arouca num jogo em que Hjulmand foi expulso, Rui Silva fez autogolo e Henrique Araújo converteu uma grande penalidade. O Benfica, que na mesma jornada tinha derrotado o Santa Clara nos Açores, ficou a dois pontos da liderança. E Rui Borges, mês e meio depois de chegar aos leões, mudou a estratégia.

A ressurreição dos três centrais apareceu em território insuspeito, na segunda mão de uma eliminatória já perdida com o Borussia Dortmund na Liga dos Campeões, onde o Sporting arrancou um empate sem golos na Alemanha que recuperou alguma dignidade europeia depois da hecatombe no primeiro jogo. Ainda assim, e de forma algo surpreendente, a decisão manteve-se: no empate com o AVS, o último de cinco jogos seguidos sem ganhar que abriu a porta à igualdade pontual com o Benfica, na vitória contra o Gil Vicente na Taça de Portugal, no triunfo contra o Estoril e em nova vitória contra o Casa Pia, altura em que Rui Borges acabou por apresentar algumas explicações.

“Acho que é natural. Tendo em conta a disponibilidade dos jogadores, fomos um bocadinho ao conforto. Não tivemos muito tempo para treinar, é difícil adquirir comportamentos. Fomos ao conforto, não fugindo à nossa ideia de jogo. Por mais que o sistema seja com três ou quatro defesas, sente-se que a equipa está a ganhar mais fôlego, energia. Quando tivermos toda a gente teremos muito mais qualidade e acredito que vamos continuar a crescer”, indicou o treinador natural de Mirandela, que sempre deu prioridade a uma relação positiva e próxima com o balneário desde o momento em que chegou a Alvalade.

As lesões levaram o treinador leonino a apostar em muitos jovens, como João Simões — que também acabou por se lesionar gravemente

SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Em resumo, Rui Borges explicou que a maneira que encontrou para responder à onda de lesões foi recuperar o conforto — ou seja, fazer uma espécie de flashback e colocar a equipa a jogar como jogava com Ruben Amorim, já que tinha perdido referências como Pedro Gonçalves e Nuno Santos e soluções como Daniel Bragança e João Simões e houve alturas em que não contou com a frescura física de Gonçalo Inácio, St. Juste, Hjulmand, Morita, Geny Catamo ou, de forma mais gritante e preocupante, Gyökeres. Pelo meio, o mercado de inverno só solucionou a questão da baliza, com a chegada de Rui Silva, mas a contratação de Biel não trouxe uma alternativa de confiança para o ataque.

De lá para cá, ao longo de quase três meses e desde o tal empate contra o AVS, os resultados falam por si: o Sporting só voltou a desperdiçar pontos no Campeonato contra o Sp. Braga, no início de abril, e não voltou a perder qualquer jogo, garantindo a presença na final da Taça de Portugal e também a certeza de que chegava ao dérbi em igualdade pontual com o Benfica e com a possibilidade de ser campeão nacional na Luz. Não aconteceu, mas o objetivo repete-se este sábado contra o V. Guimarães e em Alvalade.

“Ele tem versatilidade tática. E quem via as suas equipas, e mesmo no Sporting, verificava que com posse de bola construía a três. Defensivamente, os extremos fechavam e ficava com uma linha de cinco. No fundo, ele adapta o sistema aos jogadores de que dispõe e no qual se sentem mais confortáveis”, dizia, ainda em março e em declarações ao jornal A Bola, Pedro Machado, atual treinador que foi colega de equipa de Rui Borges no Bragança.

A verdade é que, depois de mês e meio em que tentou mesmo ser Rui Borges, as lesões e um plantel curto em profundidade e soluções levaram Rui Borges a ser outra coisa qualquer. Não é Ruben Amorim, também não é João Pereira e nunca quis ser mais ninguém — só soube encontrar o conforto necessário para levar uma equipa que tinha ficado orfã até à conquista de um bicampeonato que chegou a parecer uma missão impossível.

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