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Queremos todos que esta doença passe depressa, todos se salvem e possamos voltar à nossa vida normal – isto é, ver futebol, muito futebol. Enquanto isso não acontece, escolhemos 11 dos melhores jogos de sempre, acessíveis na net, segundo regras muito simples: tinham de ser jogos a cores (os a preto e branco são uma confusão enorme para entender quem é quem), com boa qualidade, e representativos das melhores equipas de sempre. Também escolhemos um jogo de cada um dos grandes tugas e um da seleção. Há Pelé e Falcão e Zico e Crujiff e Futre e Rui Costa e Gerrard e Messi e tantos.

Viva o futebol. Viva a saúde.

Brasil-Itália

Final do Campeonato do Mundo, 1970

Foi o último grande jogo de Pelé e, para muitos, é ainda hoje o melhor jogo de todos os tempos – e certamente o futebol contemporâneo nasce aqui. O Brasil individualmente já tinha tido melhores equipas, mas era organizado a progredir como nunca, e tinha Pelé, Jairzinho, Rivelino e Tostão na frente; atrás, a leitura tática permitia-lhes jogar na antecipação. A Itália dava muito pau e estava no pico do catenaccio, um ferrolho lá atrás que procurava capitalizar no erro adversário – como quando empataram 1-1, após aproveitarem um mau calcanhar de Clodoaldo.

Mas na segunda parte o Brasil produziu o melhor futebol alguma vez visto: dois laterais que subiam com inclemência, um médio organizador passador, Gerson, que nos dias de hoje valeria mais que Pogba e foi clara influência no tipo de jogo de Xavi e Modric, muito toque de bola, muito passe curto, a equipa a subir em ondas, a recuperar por antecipação. Para o mito fica o 100º golo de Pelé em mundiais mas, acima de tudo, aquele 4º golo do Brasil, o mais extraordinário golo de equipa alguma vez visto, em que o Brasil recupera a bola na sua defesa-esquerda, vai progredindo com passes curtos, a bola chega a Pelé, que descaíra, e este faz uma pausa após a qual abre na direita para um tiraço do lateral Carlos Alberto.

Holanda-Argentina

Campeonato do Mundo, 1974

Nem sempre quem ganha é quem fica na memória dos adeptos: o Brasil de 82 e a Holanda de 1974 são os expoentes máximos de equipas que, mesmo não erguendo o troféu no final, causaram a melhor impressão na mente dos apreciadores de bola. Neste esmagamento da Argentina, a Holanda começou a vencer o jogo na pressão que exercia sobre o portador, levando os argentinos a cometer erros; a partir daí, o superior posicionamento – em 3-4-3 – e capacidade de antecipação dos holandeses permitia-lhes recuperar infindas bolas e era aí que começava a loucura: os alas a subir, apoios constantes, a procura obsessiva de triangulações, toda a gente a abrir linhas de passe, toda a gente em movimentação constante e, lá à frente, Crujiff, que não parava quieto, caía nas alas, descia para apoiar, conduzia em posse, enfim, dava cabo da cabeça e dos rins dos defesas argentinos. O passe de rutura para o primeiro golo da Holanda é de antologia.

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Brasil-Argentina

Mundial, 1982

Havia samba nas bancadas mas o maior samba foi no campo – até porque estamos a falar da melhor seleção de futebol de todos os tempos, como Pep Guardiola gosta de lembrar. A Argentina, campeã em título, e com uma equipa fabulosa que incluía Passrela, Kempes e Maradona, precisava em absoluto de ganhar – naquele tempo havia duas fases de grupos, estávamos na segunda, e este incluía ainda a Itália, que ganhar à Argentina. Pelo que a única chance de os azuis-celestes passarem era vencer o Brasil pelo maior número de golos possível e esperar que o Brasil ganhasse a Itália por menos número de golos.

O Brasil, que até aí dizimara todos os adversários, jogou na expectativa, fechou o meio, cortou milhares de bolas em antecipação e depois saía a trocar calmamente a bola, antes de usar as subidas dos alas para rasgar a defesa adversária. O Brasil, uma super-equipa com Toninho Cerezo e Sócrates viu Falcão dominar o meio-campo por completo, num festival de lances coletivos ao primeiro toque, do qual se destaca o terceiro golo do Brasil, com mais uma assistência do genial Zico. Porque é que o Brasil não passou às meias-finais? Porque, muito simplesmente, o jogo com a Itália foi a maior roubalheira da história do futebol.

Argentina-Inglaterra

Campeonato do Mundo, 1986

Após muitos anos com a final do mundial de 1970 como maior jogo de sempre, eis que entra em cena Maradona. Mesmo antes do jogo havia muita tensão no ar, que começara em 1966 quando os ingleses chamaram “animais” aos argentinos, pela tendência destes para a falta e para a fita. Só que em 1986 estoirou a Guerra das Falklands, e o jogo tornou-se um caso de vida ou de morte – que se esperava que caísse para o lado inglês, uma seleção de luxo na qual pontificava Lineker, enquanto a Argentina se reduzia a Maradona, Valdano e nove rapazes esforçados que eram vistos como absolutos underdogs. Eram outros tempos, em que havia menos jogos na TV, em que conhecíamos mal as outras seleções: Burruchaga, por exemplo, revelou-se um jogador excecional. Desde o início foi a Argentina a pegar na bola, a tratá-la com carinho, a passar bem, a movimentar-se ao ponto de fazer os ingleses recorrer à falta dura com regularidade. Maradona estava imparável – e depois de marcar o primeiro de mão, o segundo foi um slalom em que passou por 5 ou 6 adversários, naquele que é ainda hoje considerado o melhor golo de sempre.

FC Porto-Bayern de Munique

Final da Taça dos Campeões Europeus, 1987

Podia ser o famoso Porto-Lazio de 2004, ou a vitória na Champions ou as vitórias na Liga Euro. Mas este foi o momento em que o Porto se estabeleceu como colosso – ao bater, pelo caminho, o Dynamo de Kiev e na final o Bayern, à época visto como a melhor equipa do mundo. Apesar de ser o primeiro momento enorme do Porto europeu, não o foi na primeira parte, em que o Porto, tolhido pelo medo, deu uma pálida imagem da sua capacidade. Na segunda parte, contudo, tudo mudou: Madjer, Futre, Jaime Magalhães e Juary soltaram-se, a equipa começou a construir a partir de trás (André recuou para central), os quatro da frente, com as suas movimentações constantes, provocavam nós nos rins dos alemães, o Porto ia desperdiçando oportunidades – e de repente dois milagres que trouxeram justiça a uma das melhores segundas partes da história da Taça dos Campeões Europeus. Um Porto que lembrava o Brasil de 82 ou 86 – só que capaz de vencer.

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Sporting-Real Madrid

Taça UEFA, 93/94

O jogo mais à Sporting da história do Sporting será por certo o da derrota em casa para a final da UEFA, mas não vamos ser masoquistas e fiquemo-nos pelo segundo jogo mais à Sporting da história dos jogos à Sporting: depois de uma espantosa primeira mão em Madrid, contra um Real que contava com Hierro, Luis Enrique, Zamorano e o mago Michael Laudrup, saindo derrotado por 1-0 após mandar três bolas ao poste, o Sporting entrou a todo o gás e logo aos dois minutos Sá Pinto marcava na sequência de um canto. Escassos minutos depois, Juskowiak falhou só com Buyo pela frente. Até que, como não podia deixar de ser, veio um erro colossal, uma saída desastrosa de Lemajic a um centro inofensivo, que permitiu a Laudrup marcar um golo maravilhoso de cabeça (que nunca entraria se Lemajic estivesse na linha de golo). O Sporting (com Figo, Balakov, Sá Pinto, mais tarde ainda Cadete) lançou-se ao ataque, marcou o segundo por Oceano, criou carradas de oportunidades de golo, safou-se de algumas e, nos cinco minutos finais, conquistou o feito épico de não marcar numa sucessão de lances em que era quase impossível falhar. Um épico.

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Bayer Lerverkusen-Benfica

Taça das Taças, 93/94

Regras são regras, e as regras ditam que só são escolhidos jogos a cores e em boas condições, o que elimina as campanhas europeias do Benfica da década de 60. Mas este vale mesmo apenas, porque é daqueles jogos que cansam só de ver o resumo, quanto mais o jogo completo. Na primeira-mão dos quartos-de-final da extinta Taça das Taças o Benfica empatara em casa 1-1 com os alemães, um resultado perigoso devido à regra dos golos fora. De modo que o Benfica foi à Alemanha com uma equipa super ofensiva, que incluía Kulkov, Rui Costa, Paneira, JV Pinto, Yuran e Isaías. Número de médios defensivos: zero. Quando o Leverkusen marcou o segundo, aos 58 minutos, a eliminatória parecia acabada, mas o Benfica repôs a igualdade em dois minutos passando para a frente aos 78. O Bayer ainda conseguiria a recuperação mas as voltas no guião ainda não tinham acabado. Um sumptuoso partidaço.

Portugal-Inglaterra

Campeonato Europeu, 2000

Podia ter escolhido vários jogos de Portugal, do Mundial de 66, por exemplo, ou então do Euro 2004, apesar da derrota na final, ou então a vitória sobre a França em 2016, que nos deu o nosso único europeu de seleções. Mas a qualidade dos jogos antigos é fraca e, de certa maneira, foi com este jogo que Portugal começou a impor-se no futebol mundial. Contra uma Inglaterra historicamente favorita a tudo em que compete, Portugal começou por trocar bem a bola e sofreu dois golos contra o rumo do jogo até então. 0-2 contra Inglaterra costumava corresponder a certidão de óbito, mas primeiro Figo rebelou-se com um remate afortunado, depois o nosso futebol rendilhado espalhou-se pelo relvado e simplesmente dominámos os ingleses até ao empate. Para a ironia ser completa, quando a Inglaterra quis atacar nós aplicámos contra-ataques venenosos, levando a cabo uma pequena vingança pela roubalheira de 1966 e uma das maiores reviravoltas da história dos europeus.

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AC Milan-Liverpool

Final da Champions League, 2005

Quando alguém escreve que “É por isto que amamos futebol” é em jogos assim que está a pensar. Milan e Liverpool eram treinados por homens mais de competições a eliminar que de de campeonatos, mas a diferença de valor entre as duas equipas era abissal: o Milan contava com Cafu, Stam, Nesta, Maldini, Pirlo, Gattuso, Seedorf, Kaká, Shevchenko e Crespo. O Liverpool tinha dois jogadores de futebol (Gerrard e Xabi Alonso), um protótipo de Karius (Dudek), sete indivíduos recolhidos das docas no dia anterior e, là à frente, um Baros tão espantado por ser jogador de futebol, ter uma carreira e poder brincar com os meninos grandes que passou o jogo todo a ir aos encontrões aos centrais italianos, que prontamente o devolviam com um chuto no rabo. É raro haver seis golos numa final, pelo menos na razão inversa ao número de vezes que esperamos ver Baros no chão; e qualquer que fosse a tática de Benitez ela ruiu ao fim de um minuto, quando Maldini marcou de bola parada.

A partir daí Pirlo e Kaká controlaram o meio-campo, lançando contra-ataques venenosos que valeram mais dois golos. O que aconteceu ao intervalo é difícil de entender: certo, Benitz mudou para 3-4-3, colocando Gerrad mais adiantado, e Gerrard marcou o primeiro dos reds. Mas não foi a tática, porque o Liverpool não jogou bom futebol, limtou-se a chutar para a frente (pelo menos sempre que a bola não estava nos pés de Gerrard ou Xabi Alonso): foi uma mistura de sobranceria italiana, cansaço italiano (a equipa tinha uma média de idades de 134 anos), simples fúria inglesa, frangos, o caos. Um épico da capacidade humana para se transcender – ou da capacidade humana para subvalorizar o caos.

Real Madrid-Barcelona

La Liga, 2008/2009

Ninguém esperava que fosse assim: o Real Madrid vinha de 17 vitórias em 18 jogos, numa forma incrível, estava apenas a 4 pontos do Barça e com uma vitória colocava-se numa posição de assalto ao primeiro lugar; mas também ninguém esperava que o Barça estivesse nessa posição: primeiro não era esperado que Pep Guardiola, treinador do Barcelona B, fosse chamado a treinar a equipa principal no início da época; muito menos que este dispensasse jogadores como Ronaldinho e Deco, e optasse por fazer subir à equipa

A desconhecidos como Busquets e Pedro. O início da época foi difícil e o lugar de Pep esteve em risco. Mas de repente aquele futebol de tabelinhas e fintas começou a ganhar e nunca mais parou. De certa maneira este é o jogo em que nasce o mito do Barcelona de Guardiola: quando perante um Real Madrid prenho de estrelas o 11 de Pep produziu um dos maiores porradões da história, iniciando um ciclo de vitórias irrepetível. Dos mais espantosos jogos de todos os tempos.

FC Barcelona-Manchester United

Final da Champions League 2010-2011

As anacondas, em média, têm entre 2,7 metros e 4,5 metros e a capacidade de se esticarem para mais 50% do seu tamanho. O seu método de predação é simples e eficaz: deslocando-se subreptícia mas velozmente, abeiram-se da sua presa, enrolam-se à sua volta antes que a presa note a sua presença, e depois esmagam-na até que a presa deixe de respeitar.

Em maio de 2011, o Barcelona de Guardiola assemelhava-se a uma anaconda: uma sucessão infernal de passes que deixava os adversários zonzos, movimentação constante entre linhas, os três da frente a mudar de posição, os alas a subir, triangulações constantes ao primeiro toque, ao ponto de os defesas adversários não saberem se deviam ficar ou ir ao portador da bola, ao ponto de os adversários não conseguirem respirar, trocar dois passes. Na sequência da Holanda de 74, do Brasil de 82, este Barça foi a maior máquina de sufoco que o futebol conheceu e esta final da Champions o seu apogeu.

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