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O primeiro contacto de Colombo com o Novo Mundo teve lugar, a 12 de Outubro de 1492, numa pequena ilha do arquipélago das Bahamas a que os nativos davam o nome de Guanahani e que o genovês baptizou como San Salvador. O que Colombo encontrou em Guanahani e nas outras três ilhas das Bahamas a que aportou em seguida – e que baptizou, sucessivamente, como Santa Maria, Fernandina e Isabela – deixou-o desiludido, uma vez que não correspondia de todo à imagem que tinha dos opulentos reinos asiáticos que esperara encontrar naquela longitude: não havia sinais de ouro, pedras preciosas ou especiarias, nem de portos buliçosos e vastas cidades e os indígenas andavam nus e as suas armas e utensílios eram rudimentares. Sendo criatura de ideias fixas e de uma auto-confiança desmedida, não se deixou abater e persistiu na convicção de que o reino de Catai (como então os europeus designavam a China) não haveria de estar longe. Por isso, quando os insulares lhe falaram de uma grande ilha rica em ouro, situada a sudoeste e a que davam o nome de Cibao, Colombo logo presumiu tratar-se da ilha de Cipango, mencionada por Marco Polo como sendo um reino insular situado a nascente da Catai e com extraordinária abundância de ouro. A designação “Cipango”, cunhada por Marco Polo e que ganhou curso na Europa medieval provinha do mandarim “Cipan-guo”, de “cipan” (nascer do sol) + “guo” (reino).
A 28 de Outubro, Colombo desembarcou em Cuba e não só não encontrou ouro como constatou que os seus habitantes se encontravam num estádio civilizacional tão incipiente quanto os das ilhas a que aportara anteriormente, pelo que tratou de reajustar a sua “narrativa”: Cuba (a que Colombo deu o nome de Juana) não era Cipango, mas a mítica ilha do ouro deveria estar logo para lá do horizonte. Na verdade, estava a mais de 12.000 km para oeste.
Mapa de 1561 por Sebastian Münster: Por esta altura, o tremendo equívoco de Colombo já se tornara óbvio, mas se o cartógrafo afasta o Japão – sob o nome “Zipangri” – para oeste, ainda o deixa mais perto do continente americano do que do asiático. E isto apesar de os portugueses já terem chegado ao Japão em 1543
Colombo estava toldado pelos seus preconceitos, subestimara grosseiramente o diâmetro do globo terrestre e tinha como única fonte de informação sobre o “Reino do Sol Nascente” as vagas e fantasiosas menções feitas por Marco Polo no seu Livro das maravilhas do mundo. Hoje, qualquer habitante do planeta, onde quer que se encontre, tem acesso a um formidável manancial de informação sobre o Japão, mas persistem no imaginário ocidental muitas ideias equivocadas sobre o país, o que justificou que, no artigo Dos samurai aos pokémon: De que é feita a identidade japonesa?, a pretexto do lançamento de O crisântemo e a espada: Padrões da cultura japonesa, de Ruth Benedict, se desse relevo ao desfasamento entre o fascínio pelo Japão que hoje reina no Ocidente – quer entre os jovens imersos na cultura pop (manga, anime, videojogos) quer entre a meia-idade convertida às “espiritualidades” orientalizantes – e o conhecimento efectivo sobre a história e a cultura japonesas.
Quem queira iniciar-se na descoberta do Japão terá um acessível ponto de partida em A history of Japan: From Stone Age to Superpower (1999), de Kenneth G. Henshall, que foi alvo de reedição portuguesa com o título História do Japão, tradução de Victor Silva e publicação das Edições 70. É uma história concisa e clara e tem o mérito de identificar na história do Japão práticas e factores que contribuíram decisivamente para moldar a identidade do povo japonês até aos nossos dias. Kenneth G. Henshall (n.1950, Grã-Bretanha) tem a seu crédito ser professor de Estudo Japoneses na Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, e ter obra publicada sobre o Japão, quer na vertente académica, quer na divulgação para público não-especializado.
A capa de “História do Japão”, de Kenneth Henshall (Edições 70)
Periferia, precocidade e atraso
A posição periférica e a insularidade do Japão ajudam a explicar algumas das suas particularidades, como a língua, que não tem afinidades com qualquer outra da Ásia Oriental ou do resto do mundo (embora tenha, nos séculos XX e XXI, assimilado milhares de palavras inglesas, que representam hoje cerca de 20% do vocabulário corrente), a elevada homogeneidade genética e o facto de ser governado (ainda que apenas simbolicamente) pela mais antiga dinastia reinante do mundo (ver 2679 anos de solidão: De onde vem a dinastia mais antiga do mundo).
A condição periférica e a área relativamente pequena do arquipélago japonês face à massa continental asiática levaram a que tivesse recebido importantes contributos dos seus vizinhos a ocidente, não só do mais populoso, rico e influente – a China – como da Coreia. Da China vieram, por exemplo, o sistema de escrita (adaptado à fonética da língua japonesa), o budismo (que desenvolveu as variantes locais Jōdo e Nichiren), o fabrico de seda, o cultivo do chá, o fabrico de porcelana e a arte do bonsai. Também da China – directamente ou através da Coreia – veio, há cerca de 3000 anos, uma inovação assaz tardia, como destaca Henshall: “O Japão foi a última das nações asiáticas a adoptar o seu cultivo”, ainda que os japoneses de hoje atribuam “grande importância à associação da nação com o arroz e [pressuponham que este tem] sido cultivado [no Japão] deste tempos imemoriais” (pg.21).
Apesar de ser uma região periférica, onde inovações e modas tendem a chegar com atraso, o Japão pode orgulhar-se de ter sido pioneiro em vários domínios: são japoneses os recipientes de cerâmica mais antigos que se conhecem, datados de c.13.000 a.C. e que marcam o início do período Jōmon (o termo japonês “jōmon” designa o padrão, resultante de pressionar uma corda contra a argila, que caracteriza esta cerâmica).
Vaso Jōmon, c. 11.000-7000 a.C., encontrado em Hinamiyama, Kanagawa
Segundo Henshall, “o primeiro romance da literatura universal” (pg. 46) tem também origem japonesa: intitula-se Genji monogatari (A história de Genji), data de c. 1004 e foi escrito provavelmente por Shikibu Murasaki, uma dama de companhia da corte imperial, pertencente à poderosa família Fujiwara (Shikibu Murasaki era um pseudónimo literário). Claro que o apuramento de qual foi “o primeiro romance” é tarefa ingrata e escorregadia, já que entre o séc. I a.C. e o século II d.C., gregos e romanos produziram obras de ficção literária que poderiam reivindicar esta primazia. O que A história de Genji tem de original, em relação a anteriores incursões no género romance, é colocar o foco na vida interior das personagens, o que leva alguns especialistas em literatura a ver esta obra como o primeiro “romance psicológico” da história.
Shikibu Murasaki numa retrato (necessariamente fantasioso) pelo pintor Tosa Mitsuoki (1617-1691)
Henshall confessa não ter encontrado explicação para a adopção tardia das armas de fogo pelos japoneses. Esta teve lugar em meados do século XVI, pela mão dos portugueses, mas, como Henshall aponta (pg. 74-75), há documentos japoneses da época das tentativas (fracassadas) de invasão mongol, no século XIII, que atestam “que os mongóis possuíam canhões, ainda que primitivos”. Ora se os japoneses do século XVI “desenvolveram imediatamente as suas próprias armas de fogo”, a partir dos exemplares introduzidos pelos portugueses (ver capítulo “Nagasaki, 1580: Bárbaros do Sul no Império do Sol Nascente” em Cinco séculos de comércio livre e proteccionismo, parte 1: 1498-1580), “numa clara demonstração das qualidades de adaptação que lhes são amplamente reconhecidas”, por que razão não fizeram “nenhuma tentativa […] para adaptar ou, simplesmente, imitar as armas mongóis”, para mais sendo previsível que a derrota da primeira invasão mongol, em 1274, resultara, em parte, de um golpe de sorte, e que os mongóis iriam regressar, provavelmente com forças ainda mais poderosas?
Vários séculos mais tarde, o Japão marcaria precedência em dois domínios: “a primeira constituição integral e formal adoptada fora do mundo ocidental, que foi promulgada em 11 de Fevereiro de 1889” (pg. 126); e a Aliança Anglo-Nipónica de 1902, que foi o “primeiro pacto militar concluído em igualdade de condições entre uma nação ocidental e outra não ocidental” (pg. 131).
O episódio da chegada dos primeiros ocidentais ao Japão – portugueses que naufragaram na ilha de Tanegashima, em 1543 – numa gravura de 1817 por Hokusai, que dá destaque à novidade constituída pelas armas de fogo
Raízes históricas do espírito japonês
No Período Tokugawa (também conhecido como Período Edo, 1603-1687), durante o qual o imperador foi remetido a um papel estritamente simbólico e o poder real ficou nas mãos do shogun, Henshall sublinha o carácter totalitário e sufocante da legislação e o extremo rigor e crueldade das punições previstas para quem a transgredisse – estas podiam recair não apenas sob os culpados mas também sobre os seus familiares e vizinhos e “em particular, os chefes de família e as associações de vizinhos eram considerados responsáveis pelos maus actos dos seus membros”. “O princípio do castigo colectivo” tornava as pessoas muito cautelosas relativamente à admissão de estranhos no seu seio […] Quando uma comunidade podia ser punida e até executada pelos maus actos de um estranho, tinha todo o sentido não os aceitar de modo nenhum. Este facto teve uma considerável influência na relutância generalizada que os japoneses sempre manifestaram em se envolverem com estrangeiros” (pg. 82-83).
A crucificação foi uma pena amplamente usada durante o Período Tokugawa: Imagem do livro Punições durante o Período Tokugawa (Tokugawa bakuhu keijizufu), publicado em 1893
A severidade das punições e a rigidez da hierarquia no Período Tokugawa terão possivelmente determinado outro elemento da identidade japonesa que se tem mantido até ao presente: a distinção entre “honne”, o discurso sincero, que reflecte o que a pessoa realmente pensa e os seus juízos, e “tatemae”, o discurso que a pessoa entende que é adequado às circunstâncias e não fere a susceptibilidade do interlocutor. Segundo Henshall, tal dualidade – que, aos olhos ocidentais, poderá parecer hipocrisia – provém do tempo em que “os aldeãos procuravam assegurar-se de que apresentavam uma aparência tranquilizadoramente pacífica e inofensiva aos funcionários do dáimio, independentemente do estado de turbulência real em que a sua aldeia pudesse estar” (pg. 84). Os japoneses estão habituados, há séculos, a viver neste jogo constante entre “aparência exterior” e “realidade interior”, mas um ocidental que tenha de lidar profissionalmente com japoneses pode ser levado ao exaspero pelo carácter ambíguo, evasivo e insincero das respostas que obtém.
Outra característica central da sociedade japonesa é a fortíssima pressão social para a conformidade, expressa pelo provérbio “O prego que se destaca [acima dos outros] deve ser martelado” (ver capítulo “Enviesamentos e omissões” em Dos samurai aos pokémon: De que é feita a identidade japonesa?). Pode encontrar-se um vínculo entre essa pressão e o bushido, o código moral do samurai, sobretudo na interpretação que dele foi feita por Soko Yamaga (1622-1685), como escreve Henshall: “Yamaga foi talvez o primeiro a ver o bushido como uma filosofia moral. Nos seus vários escritos salientou [no bushido] a lealdade e a autodisciplina […] e o desenvolvimento perfeito do homem no seu todo. Saber qual é o seu papel na vida e como comportar-se adequadamente com os outros é por ele particularmente acentuado”. Yamaga também “argumentou que a liberdade do samurai relativamente a uma possível ocupação permitia que se concentrasse no adequado aperfeiçoamento de uma virtude moral e, portanto, servir de modelo para o resto da sociedade, disciplinando os imperfeitos, se necessário fosse”. Henshall destaca como esta moralidade difere da concepção ocidental: não se trata de “uma questão de bem e de mal, mas fazer o que é esperado, no contexto das relações sociais e da ordem. Sai-se da linha e é-se sumariamente punido” (pg.88). Os samurais há muito tempo saíram de cena, a sociedade japonesa é, desde 1945, uma democracia liberal e as leis japonesas não são mais restritivas do que nos países ocidentais, pelo que ninguém teme ser decapitado por um golpe de katana por ter deixado o saco do lixo junto ao contentor cheio ou por falar animadamente ao telemóvel numa carruagem de metro superlotada, mas a pressão para não sair da linha continua hoje presente, ainda que a única punição seja a reprovação social.
O samurai Yatarō Kojima (1522-1582) com uma cabeça decepada, da série Seis heróis seleccionados (1853), por Utagawa Kuniyoshi
É também no Período Tokugawa que pode encontrar-se a explicação remota para as excepcionais taxas de escolarização do Japão moderno. Segundo Henshall, com a ajuda das crenças confucionistas, adoptadas pelo xogunato como modelo de estruturação e controlo da sociedade, a alfabetização tornou-se generalizada: “Os filhos dos samurais e dos nobres eram ensinados em casa ou em escolas especiais dos domínios. Os mercadores ricos criaram escolas privadas. Progressivamente, aos filhos das outras classes foi dada a possibilidade de estudar em pequenas escolas conhecidas como terakoya […], originalmente erigidas sob os auspícios dos templos das aldeias, mas [que] rapidamente se difundiram nas cidades […] Em resultado desta educação alargada, a taxa de alfabetização no final do período [Tokugawa] foi estimada em 45% para os homens e 15% para as mulheres […] Supõe-se que esta fosse a mais elevada taxa mundial, nesta altura. Deu origem a uma tendência duradoura, pois ainda hoje o Japão possui a mais elevada taxa de alfabetização do mundo” (pg. 89-90).
Terakoya (“escola do templo”, em japonês) do período Edo, por Issunshi Hanasato, c.1844-48
Poderia acrescentar-se que em 2021 65% da população japonesa com idades entre os 25-34 anos concluiu o ensino superior, enquanto a média da OCDE é de 47%, e que os alunos japoneses de 15 anos se têm classificado sistematicamente nos lugares cimeiros das provas PISA (Programme for International Student Assessment, da OCDE), em termos de literacia, matemática e ciências, desde que estas começaram a ser realizadas, há 23 anos.
O que mudou desde 2004
A esplêndida história da recuperação económica do Japão após a esmagadora derrota na II Guerra Mundial, que Henshall trata no capítulo intitulado “Uma fénix renasce das cinzas”, foi abruptamente interrompida pelo estoiro, em 1991, da bolha bolsista que tinha vindo a inchar desde 1986 – seguiu-se um longo período de estagnação económica. Em 2004, quando foi publicada a versão revista e actualizada da edição inglesa da História do Japão, Henshall comentou que este fenómeno “tornou o povo japonês ainda mais inquieto”, pois “todo o seu trabalho árduo e todos os sacrifícios para fazer do Japão uma superpotência económica pareciam agora em risco” (pg. 256). Henshall refere “indícios de 2003 de que a recessão pode estar finalmente a terminar” e deposita esperança na concretização do propósito expresso pelo primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi (no cargo entre 2001-2006) de “fazer do Japão uma ‘superpotência com estilo de vida’, em sintonia com a época actual”. Porém, 19 anos depois, não só a economia japonesa continua estagnada como não é previsível que “as décadas perdidas” – assim se designa no meio económico-financeiro, a estagnação japonesa iniciada em 1991 – estejam na iminência de terminar e que o Japão regresse às robustas taxas de crescimento da década de 1970.
Entre os factores que contribuem para este prolongado marasmo está o envelhecimento da população. Em 2020, o Japão tinha a mais envelhecida estrutura etária do mundo, com 12.5% de habitantes com 0-14 anos, 58.3% com 15-64 anos e 29.2% com mais de 65 anos; por comparação, Portugal, que é também um dos países mais envelhecidos no mundo, registava em 2020 13.6% de habitantes com 0-14 anos, 65.5% com 15-64 anos e 20.9% com mais de 65 anos. Mas enquanto Portugal e Itália – outro dos países mais envelhecidos – têm a possibilidade de serem rejuvenescidos pelos influxos migratórios, a natureza mais fechada da sociedade japonesa e a extrema dificuldade da aprendizagem da sua língua e do seu sistema de escrita (que, na verdade, são três sistemas paralelos) torna improvável que venha dos imigrantes uma compensação substancial para a baixa taxa de fertilidade dos japoneses (1.4 filhos por mulher, em 2022; ver capítulo “O crisântemo e a espada ainda é actual?” em Dos samurai aos pokémon: de que é feita a identidade japonesa?).
Evolução da composição etária da população japonesa 1920-2015 e projecção até 2060
Actualmente, o Estado japonês está a promover mudanças de fundo num aspecto essencial da economia japonesa: muitas actividades industriais que tinham sido deslocalizadas para a China, atraídas pela mão-de-obra barata, estão a ser incentivadas a regressar ao Japão. Este empenho japonês no sentido de diminuir a integração das economias chinesa e japonesa resulta dos efeitos desastrosos das quebras nas cadeias de produção associadas à pandemia de covid-19 e da crescente assertividade da China em termos de política internacional – que, no que respeita à questão da ex-colónia japonesa de Taiwan, tem vindo a assumir mesmo contornos agressivos após a visita de Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, a Taiwan, em Agosto de 2022 (ver Formosa mas não segura: Taiwan, uma ilha no limbo).
O Japão tem mantido uma política de estreitamento dos laços económicos e diplomáticos com outros países do Sudeste Asiático e tem desempenhado relevante papel no financiamento e apoio à construção de infra-estruturas, sendo o país líder quando se considera o investimento directo estrangeiro acumulado. Porém, no que respeita a trocas comerciais com os países da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) o Japão foi ultrapassado em 2009 pela China e esta não tem cessado de aumentar a sua influência, representando hoje o triplo das trocas entre o Japão e a ASEAN. E também a Coreia do Sul, cujo comércio com a ASEAN era quase nulo no início do século XXI, se guindou nos últimos anos a uma posição próxima do Japão.
Ponte Nhât Tân, em Hanoi, Vietnam, financiada pela Agência Japonesa de Cooperação Internacional
Um outro ranking transmite indicações ainda mais inquietantes sobre a economia japonesa: a Alemanha, mesmo estando longe de ter um desempenho brilhante nos últimos anos, está prestes a arrebatar ao Japão a posição de 3.ª maior economia mundial. Recorde-se que em 1968 o Japão conseguira superar a República Federal da Alemanha e tornara-se na 2.ª maior economia mundial. Em 2010, o Japão já perdera o 2.º lugar para a China, mas enquanto esta ultrapassagem é, em parte, explicável por a China ter uma dimensão populacional 11 vezes superior à do Japão, a Alemanha de hoje conta com 84 milhões de habitantes, contra 126 milhões do Japão. O acentuado envelhecimento da população japonesa tem dado forte contributo para a estagnação da economia: uma elevada percentagem de reformados implica que uma menor parte da população contribui para a produção bens e serviços, ao mesmo tempo que obriga a que uma importante fracção do orçamento do Estado seja despendido no pagamento de pensões e em cuidados de saúde e geriatria; e, uma vez que os reformados, em média, consomem menos do que a população activa, conduz a uma quebra na procura interna. O PIB, o PIB per capita e a riqueza material em geral não são, claro, os únicos critérios que definem a qualidade de vida de uma sociedade, mas quando se recorre ao indicador abrangente que é o Índice de Desenvolvimento Humano, o Japão ocupa um lugar “confortável” – 19.º, imediatamente acima de da Coreia do Sul e dos EUA – mas distante do pelotão da frente.
O fim da não-beligerância?
Henshall dá o devido relevo ao estatuto do Japão em termos militares e de política internacional, nomeadamente à inscrição no Artigo 9.º da Constituição aprovada em 1947 da “renúncia, para sempre, do povo japonês à guerra como direito soberano de uma nação e ao uso ou ameaça de uso da força como meio de resolução de conflitos internacionais”. A fim de que esta renúncia à beligerância não deixasse o Japão completamente indefeso – para mais num período quente da Guerra Fria – a entrada em vigor, a 28 de Abril de 1952, do Tratado de Paz de São Francisco, que restabeleceu formalmente a paz entre o Japão e as nações aliadas, atou as pontas soltas da II Guerra Mundial na região da Ásia-Pacífico e pôs termo à ocupação militar do Japão pelos EUA, coincidiu com a celebração de um Tratado de Segurança entre os EUA e o Japão, em que os primeiros zelavam pela integridade territorial do segundo, o que permitiu ao Japão manter, nas décadas seguintes, um dispêndio muito reduzido com a defesa, já que o país, em vez de Forças Armadas de moldes convencionais, estava apenas autorizado a possuir Forças de Autodefesa (entidade criada em 1954).
Na década de 1980, o pacifismo japonês começou a erodir-se, ao mesmo tempo que se reanimava um sentimento nacionalista – Henshall aponta como ponto de viragem a visita, em 1985, do primeiro-ministro Yasuhiro Nakasone (no cargo em 1982-87) ao Santuário Yasukuni, onde são celebrados os heróis militares japoneses (entre os quais se contam criminosos de guerra), não a título pessoal, como alguns dos seus antecessores tinham feito, mas na qualidade de primeiro-ministro.
Aspecto do Santuário Yasukuni, erguido em 1869 pelo imperador Meiji
O primeiro-ministro Junichiro Koizumi (no cargo em 2001-06) não só imitou Nakasone como tornou a visita ao santuário numa prática anual entre 2002 e 2006, o que suscitou protestos pela parte de chineses, taiwaneses e coreanos. As visitas formais ao santuário foram retomadas por Shinzo Abe, que ocupou o cargo de primeiro-ministro entre 2012 e 2020 (e fora chefe de gabinete de Koizumi) e assumiu um posicionamento claramente conservador e nacionalista. Em 2014, o Governo de Abe aprovou uma reinterpretação do polémico Artigo 9.º da Constituição, que passou a permitir ao Japão exercer o direito à “autodefesa colectiva” e a entrar em combate no caso de ataque a um país aliado.
Entretanto, em 1992, o papel das Forças de Autodefesa já fora dilatado, sendo autorizado o seu envio para zonas de combate, ainda que apenas em missão de apoio (não de combate directo) e em operações com o aval da ONU. Em 2003, todavia, o Governo japonês introduziu mais uma alteração no estatuto das Forças de Autodefesa, de forma a permitir o seu envio para o teatro de operações do Iraque, ainda que a invasão deste não tivesse sido sancionada pela ONU. Em 2011, a fim de apoiar os vasos de guerra destacados para o Índico para proteger os navios mercantes da pirataria somali, o Japão instalou uma base militar em Djibouti, no Corno de África – a primeira base japonesa no estrangeiro desde o término da II Guerra Mundial. Ainda assim, a despesa com defesa foi mantida abaixo de 1% do PIB, de forma que em 2019, o orçamento da defesa do Japão foi o 9.º a nível mundial (47.600 milhões de dólares).
Evolução da despesa do Japão com a defesa, 1952-2021
O progressivo afastamento do estatuto de não-beligerância acentuou-se em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, as ameaças da China em relação a Taiwan, o apetite da China pela expansão das fronteiras marítimas (contestado pelos seus vizinhos do Sudeste Asiático) e os repetidos testes de mísseis balísticos efectuados pela Coreia do Norte sobre águas territoriais japonesas ou até sobrevoando território japonês (ver capítulo “O que é feito do Japão dos samurai e dos kamikaze?” em Dos samurai aos pokémon: De que é feita a identidade japonesa?).
Um sinal revelador das alterações no equilíbrio geoestratégico na Ásia Pacífico está no aparentemente insignificante arquipélago das Curilas, que desenha um arco entre o extremo nordeste da ilha japonesa de Hokkaido e a península russa de Kamchatka; este encontra-se sob administração soviética/russa desde 1945, mas o Japão invoca argumentos históricos para reclamar soberania sobre as quatro ilhas mais próximas do Japão: Iturup (Etorofu, para os japoneses), Kunashir (Kunashiri), Shikotan e Khabomai (Habomai) (ver capítulo “Ilhas Curilas” em De Kaliningrad a Petropavlovsk: A geografia da Rússia, um país que se diz “cercado”). A China, que, desde 1964, apoiava a reivindicação japonesa, em relação às Curilas mais meridionais deixou de o fazer em Abril de 2023, o que deverá ser visto à luz 1) da “parceria sem limites” entre China e Rússia, anunciada três semanas antes da invasão da Ucrânia pela Rússia; 2) do azedar das relações entre Japão e Rússia nos últimos anos; 3) da disputa sino-japonesa em torno da soberania sobre as Senkaku (Diaoyu, para os chineses), um grupo de ilhotas desabitadas, situadas entre Taiwan e o arquipélago japonês de Ryukyu, que estão sob controlo japonês desde 1895 e cuja soberania só começou a ser contestada pela China na década de 1970; 4) do número crescente de quezílias entre as guardas-costeiras chinesa e japonesa em torno das Senkaku/Diaoyu; e 5) do reforço da presença militar japonesa no arquipélago de Ryukyu.
Residentes japoneses de Iturup, nas Curilas, frente a um templo budista, c.1939
No final de 2022, o Governo do primeiro-ministro Fumio Kishida, do Partido Liberal Democrático (conservador), tal como Abe e o seu antecessor, Yoshihide Suga (2020-21), aprovou para 2023 um orçamento da defesa de 55.000 milhões de dólares, representando um aumento de 26% relativamente a 2022 (o maior aumento desde o final da II Guerra Mundial). O Governo de Kishida anunciou também a intenção de incrementar progressivamente o orçamento de defesa até este atingir, em 2027, 2% do PIB (que, há muito, é também o padrão de despesa visto como desejável pela NATO). Para esta mudança de atitude terão contado não só as ameaças russa, chinesa e norte-coreana acima mencionadas, mas também a percepção, ganha durante o período em que Donald Trump ocupou a presidência dos EUA, de que o regresso ao poder de Trump ou de um Republicano de pendor similar poderá implicar um regresso dos EUA ao isolacionismo e ao incumprimento dos acordos de segurança firmados com o Japão e outros aliados, uma vez que a ideia hoje dominante no eleitorado conservador americano é que os EUA têm de deixar de gastar o seu dinheiro e derramar o sangue dos seus militares na defesa de nações ingratas e parasíticas e focar-se em “fazer a América grande de novo”.
Com efectivos a rondar os 250.000 militares num país com 125 milhões de habitantes, as Forças de Autodefesa do Japão estão longe de figurar entre as mais numerosas forças armadas do mundo (Portugal, com uma posição geoestratégica incomparavelmente mais tranquila, tem 28.000 militares); porém, possuem um elevado nível de sofisticação, como atesta, por exemplo, a sua aposta no Lockheed Martin F-35 Lightning II, um avião de combate americano de 5.ª geração com um custo unitário a rondar 80-100 milhões de dólares (consoante a versão) e de que o Governo japonês planeia adquirir um total de 147 unidades, o que fará do Japão o 2.º maior operador deste avião, apenas atrás dos EUA.
Lockheed Martin F-35 das Forças de Autodefesa do Japão
Omissões, supressões, falhas e enigmas
Na edição original:
● Não há um único mapa, uma falha incompreensível numa obra que, a todo o momento, menciona locais no Japão e nas suas cercanias.
● Apresenta-se a onomástica japonesa segundo a convenção japonesa, com o apelido familiar precedendo o nome próprio; a opção é perfeitamente legítima, mas, uma vez que não é explicitada, muitos leitores assumirão que os nomes seguem a convenção ocidental, cuja ordem é inversa (e que foi a seguida neste artigo).
● Menciona-se, por alturas da pg.91, o apreço da emergente classe de “mercadores ricos” do século XVIII pelas “gravuras coloridas em madeira, que eram muitas vezes sexualmente explícitas. Estas eram conhecidas como shunga (‘imagens da Primavera’), ou, mais geralmente, como ukiyo-e, ‘imagens do mundo flutuante’. ‘Mundo flutuante’ era originalmente uma expressão usada pelos sacerdotes para se referirem à transitoriedade da vida, mas na Época de Edo passou a significar o mundo das relações humanas e, em particular, o das relações sexuais”.
O tema do ukiyo-e – central nas artes visuais japonesas e que exerceu grande fascínio e influência nos meios intelectuais europeus da viragem dos séculos XIX/XX – não merece ser tratado com esta ligeireza e falta de rigor:
1) Pode obter-se uma ideia mais precisa do significado de ukiyo (“mundo flutuante”) recorrendo, por exemplo, a Stephen Addiss, no prefácio a Japanese woodblock prints: Artists, publishers & masterworks: 1680-1900 (2010), de Andreas Marks: “era originalmente um termo budista que se referia à natureza transitória da vida humana. A mensagem era a de que não deveríamos deixar-nos aprisionar pelos nossos desejos e, em vez disso, aceitar o fluxo da vida”. No Período Edo, o conceito sofreu, todavia, uma reviravolta: “se os prazeres são apenas momentâneos, então desfrutemos deles tanto quanto possível enquanto duram, tal como as flores de cerejeira que rapidamente são desfeitas pelo vento ou pela chuva”.
2) O excerto de Henshall acima reproduzido transmite a ideia de que ukiyo-e e shunga seriam praticamente sinónimos e que, portanto, quase todas as estampas japonesas seriam “sexualmente explícitas”. Ora, o “mundo flutuante” alude à cultura e estilo de vida hedonistas da classe média urbana (não apenas “mercadores ricos”), com relevo para o teatro, o entretenimento e os red light districts, fazendo com que, no século XVIII, as estampas se focassem na representação de três tipos de celebridades: actores do teatro kabuki (cujas estampas eram conhecidas por yakusha-e), em torno dos quais existia uma atmosfera de idolatria que só tem par nos anos dourados de Hollywood; “beldades”, ou, para se ser mais preciso, gueixas (cujas estampas eram conhecidas por bijin-e ou bijin-ga); e lutadores de sumo (cujas estampas eram designadas por sumo-e), equivalentes às estrelas desportivas do nosso tempo. Nas primeiras décadas do século XIX, sobretudo graças a artistas como Hokusai e Hiroshige, as estampas de paisagem (meisho-e ou fukei-ga), tema que já tinha tradição nas pinturas chinesa e japonesa, começaram a ganhar popularidade e acabaram por tornar-se, no Ocidente, a faceta mais visível da estampa japonesa. Foram também importantes as temáticas guerreira (musha-e, por vezes representando situações de violência extrema), “aves-e-flores” (kacho-e ou kacho-ga) e erótica/pornográfica (shunga).
“Cuco e azáleas” (1828), kacho-e por Katsushika Hokusai
Ou seja, o shunga era apenas um género dentro do ukiyo-e e não era nem o mais relevante nem o mais prestigiado, como comprova o facto de os artistas assinarem usualmente as suas estampas shunga com um nome artístico diverso do usado nos outros géneros. Não por acaso, a palavra portuguesa “chunga”, com significado de “ordinário, reles” provém das estampas shunga, que, é pertinente realçar, não só eram “sexualmente explícitas” como, frequentemente, representavam posições sexuais acrobáticas e exageravam as proporções dos falos. Já agora, convém esclarecer que no Período Tokugawa, os japoneses estavam familiarizados com a nudez, devido à tradição dos banhos públicos, que, até 1841-43, eram, frequentemente, mistos, o que poderia contribuir para que os japoneses não achassem os shunga tão escandalosos quanto os europeus.
Shunga de 1825 por Keisai Eisen, que se dedicou sobretudo a estampas de “beldades” (bijin-e)
Na edição portuguesa:
● Embora exista uma 3.ª edição, revista e actualizada, desta obra, as Edições 70 limitaram-se a vestir uma nova capa à edição portuguesa de 2005 (há muito esgotada), que tem por base a 2.ª edição inglesa, de 2004. A nova capa constituiria significativo progresso face à colagem amadora que figurava na edição de 2005, mas a estampa “Fogo-de-artifício na ponte de Ryogoku”, da série 100 vistas famosas de Edo (1858), por Utagawa Hiroshige, foi reproduzida de forma tão empastada e sombria que perde quase todo o detalhe e encanto.
“Fogo-de-artifício na ponte de Ryogoku”, por Hiroshige
● O índice remissivo foi suprimido e nem sequer se concede o paliativo de um índice onomástico, o que é inaceitável num livro com evidente vocação de consulta.
● Na versão original, os termos, topónimos e nomes japoneses incluem os sinais diacríticos que distinguem, na transliteração da escrita japonesa para o alfabeto latino, as vogais curtas das longas (como seria de esperar, já que Henshall, como autor de vários manuais de introdução à língua e sistemas de escrita japoneses, está consciente da sua importância). Porém, tais sinais foram suprimidos na edição portuguesa.