Há partes do corpo que aprendemos a nomear cedo e sem embaraço. Outras ficam remetidas para o silêncio, mesmo quando doem, incomodam ou mudam a forma como uma mulher se move no mundo. O prolapso dos órgãos pélvicos pertence a essa geografia do corpo feminino que raramente é nomeada — muitas vezes até dentro do consultório médico.
O prolapso acontece quando os músculos e ligamentos enfraquecem e deixam de conseguir manter na posição habitual a bexiga, o útero ou o intestino. Sem esta sustentação, estes órgãos podem deslocar-se, descendo e provocando desconforto. Apesar de pouco falada, trata-se de uma condição frequente, associada ao envelhecimento e respetivo enfraquecimento progressivo dos músculos e tecidos e também a situações que aumentam a pressão intra-abdominal, como a gravidez e o parto, além de profissões fisicamente muito exigentes ou a prática de atividades desportivas de impacto.
O pudor que rodeia esta condição faz com que seja difícil saber ao certo quantas mulheres sofrem com ela, mas alguns estudos referem que, na faixa etária dos 50 aos 89 anos, pelo menos 30% das mulheres experimentam algum grau de prolapso.
▲ O prolapso ocorre quando os músculos e ligamentos deixam de conseguir manter na posição habitual a bexiga, o útero ou o intestino. As malhas procuram reforçar os tecidos e reposicionar os órgãos
Rui Oliveira
A mesma vergonha que leva à falta de estatísticas cria também um problema de agravamento do quadro clínico. Esta é uma condição geralmente progressiva que, nos estádios iniciais, pode ser travada com fisioterapia específica. Quando o diagnóstico é tardio ou não há intervenção, a situação tende a agravar-se e, em muitos casos, a cirurgia torna-se a única opção.
O problema é que a cirurgia, para muitas mulheres, acabou por se transformar num novo foco de sofrimento. Existem várias técnicas cirúrgicas para tratar o prolapso, mas durante décadas uma das abordagens mais utilizadas recorreu à implantação de malhas ou redes sintéticas, concebidas para reforçar os tecidos e reposicionar os órgãos. A partir de meados da década de 2010 começaram a surgir alertas e queixas. A Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora norte-americana, começou a receber um volume crescente de notificações de efeitos adversos associados às malhas transvaginais usadas no tratamento do prolapso dos órgãos pélvicos e da incontinência urinária.
O ponto de viragem chegou em abril de 2019. “A FDA proibiu as malhas sintéticas para o tratamento do prolapso transvaginal porque se percebeu que provocam erosão do tecido vaginal, devido à sua elevada rigidez, estão frequentemente associadas a infeções e apresentam uma taxa de reoperação de cerca de 30%”, diz Elisabete Silva, professora na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e investigadora no Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial (INEGI).
▲ A malha desenvolvida por Elisabete Silva, através de um processo chamado Melt Electro-Writing, deverá incorporar antibióticos e anti-inflamatórios de libertação lenta para controle de infeções
Rui Oliveira
Licenciada em Engenharia Biomédica pelo Instituto Politécnico de Bragança, com mestrado e doutoramento na mesma área pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, a cientista tem desenvolvido uma parte significativa da investigação na área do pavimento pélvico, nomeadamente na modelação da incontinência urinária e do prolapso dos órgãos pélvicos. Desde a proibição imposta pela FDA, em 2019, começou a trabalhar no desenvolvimento de implantes de malha biodegradável, capazes de substituir, com sucesso, as malhas sintéticas banidas nos Estados Unidos.
Em 2024 recebeu um financiamento de cinquenta mil euros da Fundação “la Caixa”, em colaboração com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), com o objetivo de colocar no mercado as malhas que tem vindo a desenvolver, em colaboração com Teresa Mascarenhas, do Centro Hospitalar de São João, Sofia Oliveira, da Faculdade de Medicina, e António Augusto Fernandes, da Faculdade de Engenharia, ambas da Universidade do Porto.
Uma malha que se ajusta ao corpo
O problema das malhas sintéticas — que foram proibidas nos EUA mas não na Europa — é que, na verdade, nunca tinham sido pensadas para o fim que acabaram por ser usadas. “Começaram por ser utilizadas no tratamento da hérnia abdominal e só posteriormente nos prolapsos”, explica a investigadora.
A lógica foi: se funciona ali, provavelmente também vai funcionar aqui. Ora, o problema é que, ao contrário da parede abdominal, o pavimento pélvico está sujeito a forças constantes e em várias direções. Essa pressão contínua, associada à rigidez das malhas sintéticas, acaba por provocar lesões. “É esse efeito que leva ao chamado ‘corte’ do tecido — ou, neste caso, à erosão do tecido vaginal, que é uma das principais complicações pós-cirúrgicas”, diz.
Enquanto nos Estados Unidos estas malhas sintéticas deixaram de ser usadas, na Europa não foram proibidas. Em Portugal, na maioria dos casos, a opção tem sido evitá-las. Os cirurgiões recorrem a suturas ou tentam reconstruir a estrutura com tecido nativa da própria doente. Mas esta abordagem também está longe de ser perfeita. Este tipo de cirurgia falha quase 30% dos casos.
É aqui que entram as malhas biodegradáveis. À primeira vista, a ideia levanta uma dúvida óbvia: se a malha desaparece com o tempo, como é que o suporte se mantém? A resposta está no ritmo da degradação. “O que pretendemos é uma degradação lenta que acontece ao longo de três anos”, explica. “À medida que a malha se degrada, espera-se que se forme fibrose e crescimento de novo tecido, que vai acabar por manter o suporte.”
▲ “Nos EUA foram proibidas as malhas sintéticas para o tratamento do prolapso transvaginal porque se percebeu que provocam erosão do tecido e estão frequentemente associadas a infeções”, diz a cientista
Rui Oliveira
Estas malhas usam uma tecnologia chamada Melt Electro-Writing. Trata-se de um processo de impressão 3D de alta precisão, que permite criar fibras microscópicas, muito mais finas e organizadas e que, neste caso, depois de muitos testes de design, tem a capacidade de se deformar em mais de uma direção, tornando-as adaptáveis à cavidade pélvica.
A investigadora está também a trabalhar para incorporar medicamentos na própria malha. “Porque uma das principais causas das re-operações associadas às malhas sintéticas é a infeção.” A ideia passa por integrar antibióticos e, eventualmente, anti-inflamatórios diretamente na estrutura da malha, permitindo uma libertação lenta e controlada. É também aqui que surge um dos principais desafios técnicos imediatos. A tecnologia de impressão usada recorre a temperaturas elevadas — pouco compatíveis com fármacos, que são sensíveis ao calor. “O grande desafio vai ser baixar a temperatura de impressão.”
Até agora, os testes foram feitos em laboratório e com tecidos, mas ainda não com seres vivos, ou seja, em modelos animais. O projeto está, por isso, numa fase intermédia: o conceito está definido, o protótipo existe e os resultados laboratoriais são promissores — mas o caminho até à aplicação clínica ainda está a ser percorrido. O primeiro passo já está dado: a equipa submeteu um registo provisório de patente, condição essencial para proteger o desenvolvimento do produto. Depois disso, será preciso começar a procurar parceiros na indústria para realizar mais testes e, se tudo correr bem, fazer com que esta malha biodegradável chegue ao bloco operatório.