O meu avô foi um grande ceramista. Com as suas mãos pequenas e dedos papudos enganou a argila com a perícia de poucos e a manha de muitos. Ergueu peças únicas e estranhas que só ele conseguia ver onde antes apenas existia barro. Com talento afiado e criatividade desmesurada, ganhou prémios e medalhas em certames internacionais. A partir da argila construiu também um império de fábricas.
Era um artista. Assim se soprava baixinho no meu círculo familiar, não sem um certo temor mesclado de espanto. Dizia-se a palavra artista envolvida na saliva metálica das suspeições e inflexões desconfiadas. Ser artista era assim uma espécie de maleita, de fatal e malogrado destino. Como ser coxo. Na minha família, a arte era vista como um rafeiro arraçado do mal que desinquietava o equilíbrio dos corpos e a sanidade das vontades. Talvez ainda assim seja. No dia da publicação do meu segundo romance, a minha mãe, assoberbada de amor, confidenciou-me:
“Como é que eu, uma pessoa tão certinha, fui dar à luz a um filho tão maluco?”
Durante a infância e adolescência, as histórias do artista, o meu avô, que me deram aos ouvidos e que arquivei na memória não estavam relacionadas com fornos de altas temperaturas ou técnicas de vidrados, muito menos com sucessos empresariais. O grande ceramista tinha feito muitas coisas além de porcelanas. Tinha enganado este mundo e o outro e era protagonista de feitos e intrujices de fazer ruborescer o demónio. Com um amigo de juventude, construiu uma máquina de fazer dinheiro falso. Enterrado numa cave, passou noites inteiras de meses inteiros a imprimir notas de 5 e 10 escudos. Apenas de 5 e 10 escudos, nada de muito ambicioso, para não levantar sobrolhos e içar bandeiras. Ele ocultava um coração vigarista, mas não era parvo.
▲ O meu avô teria gostado de conhecer o Wolfgang Beltracchi. Consigo ouvi-lo rir ao ouvir a história do genial pintor e ainda mais genial falsificador alemão
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Cansado dos problemas que a qualidade das tintas e a gramagem do papel sempre acarretam quando não servidos por meios técnicos suficientes, decidiu dedicar-se ao ilusionismo e ao hipnotismo. Através de um primo que vivia no Brasil, adquiriu uma dúzia de livros que versavam sobre o assunto. E o meu avô instruiu-se. Dedicou-se. Capacitou-se. Tanto que acabou a trabalhar num circo quando o circo ainda era circo. Numa tenda majestosa, pejada de público, executou com destreza desarmante os seus truques. Ilusionismo. Magia. Prestidigitação. Também hipnotizava animais e pessoas. Como dizia a minha avó, para ele não havia diferença – nem dificuldade alguma – entre hipnotizar uma galinha de domingo, um coelho ou a filha do domador de leões. Era assim. O artista. Apesar de uma fraqueza: não podia ver um rabo de saia. E depois de ver, dava trela e elas caíam. Sabia hipnotizá-las. A carreira circense terminou abruptamente na noite em que o domador de leões apanhou em flagrante delito o presumido hipnotizador equilibrado em cima da filha equilibrista e o perseguiu pelos campos afora com uma caçadeira em riste.
Acontece que o meu avô, e talvez faltasse dizer isto, era também homem de tempera e afã. Se o circo não deu, haveria outra coisa. Haveria sempre. Há sempre. Qualquer coisa. Outra. Bastava dar corda aos sapatos e seguir em frente. Sempre em frente. Intrujar e fugir. Enganar e fugir. O artista. Sempre o artista a conquistar e a moldar o mundo com a sua arte.
Sem pedir licença às botas, e porque prezava muito a liberdade individual e a sua criatividade não casava com a obediência, fintou a incorporação para o serviço militar obrigatório. Andou a monte por montes e valados durante semanas. Quando a polícia o encontrou, escanzelado, sujo e rasgado, junto à fronteira com Espanha, ganhou uma estranha febre. E começou a ter ataques epiléticos. Ganhava febre e tinha ataques epiléticos – qual Príncipe Michkin ou Rodion Românovitch Raskólnikov. Febres de quarenta para cima e tremores e arrepios e suores frios e gemidos guturais e frases mal balbuciadas. Segundo os relatos da época, chegou inclusive a torcer as barras de ferro da cabeceira da cama do hospital com a força que ganhava nos braços durante os ataques mais prósperos. Perante o estranho caso, quando consultado pelo médico militar – talvez hipnotizado pelo meu avô – este diagnosticou-lhe uma trombose venosa recorrente. Foi-lhe perdoada a fuga à incorporação e foi dado como inapto. Até hoje não se sabe se, durante aquele período, o meu avô padecia de alguma desconhecida enfermidade ou se a arte do embusteiro ludibriou termómetros, aspirinas e todos os ramos e patentes tanto das forças armadas como da medicina.
O que se sabe é o que daqui resultou: esquivou-se à tropa, escapou da guerra, fugiu à minha avó e partiu para África.
Após burlar uma boa parte das boas cabeças deste país, de ceifar trezenas de casamentos e de descascar todos os negócios possíveis e imaginários, o meu avô concluiu que por aqui pouco ou nada havia para conquistar. Precisava de mudar de ares, de encontrar outros ventos. E novas cuecas.
Era altura de trabalhar barro novo para melhores porcelanas.
A nada disto eu assisti. Não tinha nascido. São histórias de família que ainda desaguam quando nos encontramos. Da veracidade, não quero saber. Nasceu aqui o meu fascínio por artistas, burlões e intrujões. Nasceu com o meu avô e os seus inauditos feitos. Além do meu nome estranho, que ele escolheu, talvez lhe deva em parte o acontecer da escrita. O moldar o barro. Este inverosímil ofício de tentar contar a grande mentira da melhor maneira possível até que esta se torne na mais bela das verdades.
Um falsificador? Um génio? Um revolucionário?
O meu avô teria gostado de conhecer o Wolfgang Beltracchi. Consigo ouvi-lo rir ao ouvir a história do genial pintor e ainda mais genial falsificador alemão. Que se mistura com arte que se mistura com engano que se mistura com talento. Até Orson Wells, fosse ele contemporâneo, teria inclinado o ângulo de atenção de “F for Fake” para Beltracchi em detrimento do magiar Elmyr de Hory.
O nome, “Beltracchi”, soa a chocolate de primeira. Dá logo vontade de comer.
Para mim, o maior falsificador da história da pintura é um dos maiores génios da história da arte nascidos no século XX. Contradigo-me? Pois bem, contradigo-me. Quem pinta e engana – em quantidade e diversidade – como ele pintou e enganou as luminárias da superioridade artística e intelectual só pode ser um artista extraordinário. Não pode o engano ser visto como uma das formas supremas da arte? Não pode a arte ser considerada uma das formas supremas do engano?
Beltracchi, aproveitando os espaços em branco nos catálogos de grandes pintores e o desaparecimento de inúmeras obras durante a vigência do Terceiro Reich, pintou quadros de fazer inveja rebarbada a Max Ernst ou Heinrich Campendonk, vergados pela tragédia de não terem sido eles próprios a assinar aquelas telas. Beltracchi não copiava. Beltracchi, roubando a técnico e o estilo, pintava obras das quais só se suspeitava a existência. Quadros que nunca tinham sido vistos. Afamados críticos de arte não tiveram pejo em afirmar que eram aqueles os melhores Max Ernst alguma vez expostos e apreciados em galerias, museus ou coleções privadas. Aqueles, os pintados por Wolfgang Beltracchi.
▲ No mundo dos negócios de arte há um antes e um pós Wolfgang Beltracchi. O sublime logro criou uma cisão. Uma rutura. Abriu um buraco que não se consegue tapar
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Sustentando o logro numa narrativa tecida a fio de aranha e à prova de bala – as pessoas acreditam no que querem acreditar –, Beltracchi hipnotizou durante décadas os mais consagrados entendidos em pintura. Manipulando cabeças brilhantes, Wolfgang trouxe à evidência o absurdo e o ridículo e o subjetivo e a fragilidade do negócio. Com inegável talento e domínio técnico, ganhou imensidões de dinheiro e viveu à farta bruta. À farta grande. Levou à risca a primeira frase da Bíblia: onde é que está o dinheiro? Seguiu-lhe o cheiro e gozou-o de corpo inteiro. Provocando com a sua fortuna, e aquando da descoberta do logro, um desafortunado e musculado tremor de terra nas Sotheby’s, Cristhies,’s, Moma’s e Tate’s desta vida.
Beltracchi só foi apanhado pelo deslize de um ego magnânimo, numa manifesta distração da vaidade, por causa de uma anacrónica bisnaga de branco titânio. Ou, quem sabe, o lapso não terá sido mais do que a manifestação inconsciente de uma vontade: a de ser descoberto. Após a escorregadela no branco, Wolfgang enfrentou o mundo e expôs a mentira a par da exposição da sua genialidade. Numa radical experiência social, as confissões de Beltracchi iluminaram tanto o seu ego, inteligência e talento, como as costuras prenhes de ferrugem e bicho caruncho que corroem uma elegante e exibicionista elite.
O facto resume-se: no mundo dos negócios de arte há um antes e um pós Wolfgang Beltracchi. O sublime logro criou uma cisão. Uma rutura. Abriu um buraco que não se consegue tapar. E um buraco destes, um tamanho vazio, assusta muita gente. Como uma febre alta que não se sabe explicar ou o poder oculto do hipnotizador.
Nos dias que correm, é plausível que alguns dos grandes colecionadores privados ou curadores dos mais afamados museus não possam nem consigam garantir que aquele magnífico Fernand Léger, ou aquele estupendo André Derain, são de verdade um André Derain ou um Fernand Léger. Não podem. Nem conseguem. E ainda bem. Porque ambos podem ser um engano perfeito saído do irrepreensível pincel de Wolfgang Beltracchi.
Ele pintou grandes mentiras da melhor maneira possível até que estas se tornaram nas mais belas verdades.
Da veracidade, não quero saber. Não me interessa. As pessoas acreditam no que querem acreditar.
Maurice F. Gonalons, escritor francês de terceira linha, que publicou meia dúzia de livros anódinos nas duas última décadas do século XX, talvez conhecesse as façanhas de Beltracchi, mesmo não conhecendo as diatribes do meu avô. Cansado da falta de visibilidade e atenção que o seu trabalho talvez merecesse, decidiu dedicar-se à obra da sua vida. Nessa empresa, destruiu o casamento, foi rejeitado pelos três filhos e teve de vender a casa que tinha herdado dos pais na Bretanha. Pondo de lado as obrigações terrenas, partiu em busca, qual garimpeiro metafisico, de textos desconhecidos de grandes autores da literatura mundial.
Trabalhou obsessiva e compulsivamente durante anos na compilação de Du Tiroir à la Lumière. Uma reunião de contos inéditos de autores como Anton Tchéckov, Raymond Carver, Flannery O’Connor, William Saroyan, Dino Buzzati, Julio Cortázar, Marguerite Duras, entre outros. O livro teve algum impacto no meio editorial francês, mas a grande vitória de Maurice F. Gonalons já estava assegurada. Nenhum daqueles contos pertencia de facto a quem o livro dizia pertencer. Gonalons, imitando o estilo, a técnica, a semântica, os temas, escrevera ele próprio a prosa daqueles textos sem que ninguém do meio literário francês tivesse sequer suspeitado da autencidade dos mesmos.
Maurice, escritor ignorado e pobremente sucedido, escreveu como os grandes. Fez na literatura o que Beltracchi fizera na pintura e o que o meu avô fez com a puta da vida. Enganaram o mundo e o resto. Intrujões supremos, artistas em verdade. O engano é o instinto da criação.
O mau artista copia. O grande artista rouba.