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Jules Monnier

Jules Monnier

Xafarix. Bar de Luís Represas chumbou na avaliação de Loja com História em 2024 e CML ainda não retirou o título

Bar de Luís Represas obteve apenas 4 pontos na reavaliação de 2024. Ano e meio depois, mantém distinção, com a CML a afirmar que o processo está em análise. Senhorio denuncia favorecimento.

Mais de um ano e meio depois de ter sido feita uma reavaliação negativa, que previa a retirada do estatuto de Loja com História, o Bar Xafarix, fundado pelo vocalista e guitarrista dos Trovante, Luís Represas, em 1986, continua a manter a distinção que alcançou em 2018. O senhorio denuncia o caso, recordando que, logo à primeira, o bar de Santos também não teve pontos suficientes para se juntar à lista dos espaços distinguidos em Lisboa. Vinte meses depois de ter alcançado apenas quatro dos 18 pontos máximos, o Bar Xafarix ainda é Loja com História, com a CML a justificar que o processo se encontra em análise, “estando a ser objeto de avaliação”.

O caso remonta ao início de 2024 quando foi assinado um contrato de “cessão de exploração” do Bar Xafarix entre a Viravolta – Atividades Hoteleiras Lda, representada pelo cantor português Luís Represas, e a Coruja Filosófica Lda, de Pedro Pereira, o empreendedor de turismo que assumiu a gestão do bar em meados de 2023. Com este contrato, a vertente de comédia do histórico bar, já praticada desde o início da sua abertura em meados dos anos 90, passou a ser mais marcada, com a imprensa nacional a noticiar a mudança de estratégia do Xafarix, que passaria a ser “um clube de comédia stand up para estrangeiros em Lisboa”.

O proprietário do prédio, que atualmente é um Alojamento Local, e do bar, Antoine Monnier, da empresa Hermitage Castelo, denuncia que só teve acesso a este contrato, que acusa ser um subarrendamento, semanas depois de ter sido assinado, uma vez que a carta que o informaria sobre esta mudança foi enviada para a morada errada. Quando teve conhecimento, contactou a Câmara Municipal de Lisboa solicitando que fosse realizada uma nova avaliação das Lojas com História ao espaço. De notar que o Bar Xafarix recebeu a distinção em dezembro de 2018 e que, segundo o Regulamento Municipal de Atribuição da Distinção “Lojas com História”, esta tem a validade mínima de quatro anos, sendo automaticamente renovada, exceto nos casos em que “sofram alterações, durante este período, com prejuízo dos critérios de atribuição que estão subjacentes à mesma, é lhes retirada a distinção”.

▲ O espaço do Bar Xafarix aquando da distinção de Loja com História

Lojas com História

Face ao pedido de Antoine Monnier, a reavaliação foi realizada em julho de 2024. De acordo com o Regulamento Municipal de Atribuição da Distinção “Lojas com História”, para ser considerada Loja com História, a loja tem de satisfazer duas regras: cumprir obrigatoriamente um critério em cada núcleo e cumprir mais de 50% dos critérios, no total dos três núcleos. Esses critérios são Atividade, onde é avaliada a longevidade reconhecida, o significado para a história comercial da cidade, a existência de oficinas e/ou produção própria [não aplicável à restauração], a produção nacional [não aplicável à restauração], o produto identitário e/ou existência de marca(s) própria(s); o Património Material, onde é avaliado o projeto de espacialidade, o mobiliário e iluminação, os suportes de comunicação, a decoração, o projeto total, o espólio/acervo e a salvaguarda e divulgação; e o Património Cultural e Histórico, onde é avaliada a coesão e proximidade, o significado para a história, cultura e memória coletiva dos cidadãos e a salvaguarda e divulgação. Cada espaço pode cumprir até 18 pontos (três para a Atividade, nove para o Património Material e quatro para o Património Cultural e Histórico).

Segundo a avaliação à qual o Observador teve acesso, o Bar Xafarix teve um total de quatro pontos finais: um ponto (33%) para a Atividade, três pontos (33%) para o Património Material e zero pontos (00%) para o Património Cultural e Histórico. “Face à mudança de atividade não se verificam as condições para manter a pontuação”, lê-se em nove dos critérios que tiveram a avaliação negativa. Foram eles o significado para a história comercial da cidade, o produto identitário e/ou existência de marca(s) própria(s), o mobiliário e iluminação — com uma nota sobre como o mobiliário existente era, à data, “vulgar, sem caracterização particular (tipo IKEA)” —, os suportes de comunicação — com uma nota sobre como “quase todas as referências ao Xafarix foram retiradas” —, a decoração — com uma nota sobre como os discos de Ouro, Platina e Dupla Platina atribuídos aos Trovante tinham sido retirados das paredes —, o projeto total e toda a secção do património cultural e histórico, onde se lê que o Xarafix “já não disponibiliza espetáculos de música ao vivo”.

Esta reavaliação viria depois a ser assinada pelos técnicos a 2 de setembro de 2024 e pela coordenadora do grupo de trabalho da CML, Sofia Pereira. As partes interessadas foram depois notificadas a 19 de dezembro de 2024, no entanto, em janeiro de 2025 Luís Represas enviou uma carta à CML na qual se mostrava contra a proposta de retirada de distinção. A 9 de abril de 2025, os técnicos encarregados do caso enviaram as suas conclusões sobre a avaliação a Sofia Pereira, nas quais propunham que a CML deliberasse a retirada do título.

“Considerando que os espaços distinguidos como LcH devem ser defendidos em função da sua importância para a Memória Coletiva e Cultura da cidade e partindo do principio que o desígnio da Música ao Vivo foi o aspeto mais relevante para a sua distinção, sendo assim fundamental para a continuação do espaço com a distinção. Propõe-se assim que a Câmara Municipal delibere a retirada da referida distinção“, lê-se na conclusão dos técnicos.

Nos três meses que se seguiram, Antoine Monnier não teve qualquer tipo de resposta das Lojas com História e da Câmara Municipal de Lisboa aos e-mails com pedidos de esclarecimento sobre se o processo já estava concluído, uma vez que a visita ao Xafarix foi feita em julho de 2024. A 18 de julho de 2025, o proprietário do prédio tem por fim uma resposta da coordenadora do grupo de trabalho da CML que explica que a avaliação foi comunicada a Luís Represas e que o mesmo “entretanto procedeu à reposição de diversos elementos identificados como não conformes” e que o estabelecimento ia ser alvo de uma nova visita e reavaliação com o objetivo de concluir o processo e ter uma resposta final. Ao Observador, a defesa de Antoine Monnier afirmou que “os diversos elementos” que foram repostos são “encostar uma moldura a uma parede, colocar uns poucos discos nas paredes e pôr um gato no palco.”

"Não são interessados na Loja com História, a única coisa que lhes interessa é o estatuto“
Antoine Monnier

A 5 de setembro de 2025, Sofia Pereira informa Antoine Monnier de que a análise técnica foi concluída e que o processo ia ser submetido à apreciação do Conselho Consultivo do programa Lojas com História numa reunião que aconteceria no dia 22 de setembro. O Observador teve acesso à ata da reunião e não há qualquer menção ao Bar Xafarix.

“Então eu tenho aqui uma pessoa que tem o estatuto de Loja com História, mas que não tem nada a ver com Loja com História. Mas como ele é o Luís Represas, que é um cantor conhecido, uma pessoa conhecida, parece ter todos os direitos acima da lei”, acusou o senhorio, defendendo que o programa é “uma coisa muito boa para a cidade” mas que neste momento está a beneficiar o artista. “Quando você tem o estatuto de Loja com História, não pode ser retirado do local. Dá uma segurança para as lojas antigas e é uma coisa que é boa para a cidade. Só que há gente que aproveita, há pessoas que aproveitam isso para se esconder por baixo. A única razão pela qual o Luís tem esse estatuto e está a insistir em ficar com ele é porque ele quer dinheiro para sair do espaço. Mas ele já lá não vai. Agora é um lugar que faz stand-up comedy. E toda a gente sabe disso, a Câmara também, mas estão a utilizar o estatuto de Loja com História para se proteger de qualquer coisa“, continuou.

Face às várias tentativas da defesa de Antoine Monnier de obter resposta sobre o processo, a Câmara Municipal de Lisboa respondeu em fevereiro de 2025 afirmando que o caso não está esquecido.

O Observador entrou em contacto com a Câmara Municipal de Lisboa para pedir esclarecimentos sobre se foi de facto realizada uma segunda avaliação ao Bar Xafarix e se essa avaliação deu pontos suficientes para manter o estatuto de Loja com História, uma vez que passaram 20 meses desde a primeira reavaliação que determinava a retirada da distinção. A Câmara Municipal de Lisboa declarou que o “processo em apreço se encontra atualmente em análise pelos serviços competentes, estando a ser objeto de avaliação, de modo a assegurar o rigor, a conformidade com os critérios em vigor e o respeito pelos procedimentos aplicáveis ao programa Lojas com História”. “A tramitação destes processos pode implicar a recolha e verificação de informação adicional, bem como a articulação com as diferentes entidades envolvidas, o que poderá justificar algum prolongamento dos prazos inicialmente expectáveis”, justificam, garantindo que o cumprimento dos critérios que sustentam a atribuição do estatuto estão a ser considerados, assim como a “eventual necessidade de reapreciação em sede própria, designadamente no contexto das reuniões do Conselho Consultivo”. Em reação, ao Observador o senhorio lamentou que “há um ano e meio que nos dizem a mesma coisa. Esse é o cerne do problema e essa resposta ilustra perfeitamente o caso.”

Contactado pelo Observador, o vocalista e guitarrista dos Trovante, Luís Represas, confirmou que houve uma reavaliação que avaliou negativamente o espaço que fundou em 1986 mas que a decisão foi contestada e “as coisas voltaram à normalidade”. Por sua vez, o sócio Carlos Almeida afirma que foi feita uma “inspeção normal” e que a mesma foi solicitada à CML pelo próprio Xafarix porque tinha sido feito um “restyling” do espaço. “Não é reavaliação. Houve um pedido nosso para nos fazerem uma inspeção para ver se estava de acordo com aquilo que é os pergaminhos da atribuição do título Loja com História”, explica ao Observador.

O músico Luís Represas em entrevista à Agência Lusa sobre o novo álbum a solo e concertos nos Coliseus, na sede da Lusa, em Lisboa, 16 de fevereiro de 2024. (ACOMPANHA TEXTO DE 23-02-2024) JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

“Nós estivemos a fazer obras e o senhorio foi dizer à Câmara que nós não estávamos a cumprir os requisitos da decoração. O que é que ele viu no dia em que foi lá? Viu paredes despidas, não tinha os discos de Platina dos Trovante, não tinha as fotografias do Luís e dos Trovante, não tinha o gato do Xafarix, que é um símbolo. Nós tivemos a fazer um restyling, porque somos obrigados a ter uma manutenção daquilo”, acrescentou, afirmando que a CML visitou o espaço e concluiu que “está dentro dos pergaminhos”.

Ao Observador, o sócio de Luís Represas defendeu ainda que, apesar dos serviços prestados pela Republic of Comedy desde 2024, o Bar Xafarix continua com uma programação musical regular. “Eu não sou obrigado a ter música ao vivo todos os dias”, afirma, explicando que “o Republic of Comedy é um grupo de pessoas que fazem prestação de serviços de comédia”. Nas redes sociais, o grupo que organiza espetáculos de stand up comedy apresenta-se sediado no Bar Xafarix. No site oficial, tem uma programação regular dos espetáculos que decorrem semanalmente. Atualmente, também o Xafarix tem um site disponível online, onde dão a conhecer a programação musical.

Bar Xafarix não conseguiu a distinção de Loja com História à primeira

O Bar Xafarix concorreu pela primeira vez à distinção de Loja com História a 19 de junho de 2017. A visita técnica, realizada a 12 de novembro de 2017, concluiu que o espaço não cumpria os requisitos suficientes para ser distinguido, uma vez que dos 18 pontos máximos da avaliação, alcançaram apenas nove, e cada um dos três critérios exige que o resultado seja de mais de 50% em cada um, e a avaliação foi de 40%, 44% e 75%. Na época, Luís Represas foi informado da avaliação negativa e avançou com um pedido de reavaliação: a 26 de janeiro de 2018, a Câmara Municipal de Lisboa distinguiu o Xafarix como Loja com História, tendo alcançado uma pontuação de 12 em 18 pontos. A 13 de dezembro de 2018 sai no Boletim Municipal a lista das Lojas com História, onde está incluído o Bar Xafarix.

Já na época, Antoine Monnier mostrou-se contra a distinção do Bar Xafarix como Loja com História, alegando que o estabelecimento não apresentava “quaisquer elementos patrimoniais materiais, culturais ou históricos que mereçam ser preservados” e que “o único objetivo pretendido pelo estabelecimento com a candidatura é o de obter a proteção prevista no regime jurídico do arrendamento face à ação especial de despejo intentada”, lê-se nos documentos aos quais o Observador teve acesso.

A Hermitage Castelo adquiriu o prédio onde se encontra o Xafarix em 2015 e o espaço “virou Loja com História em 2018 quando o advogado deles teve a ideia de que seria uma boa coisa a fazer para se proteger de nós“. “Fizemos uma reclamação na Câmara mas não estava tão óbvio como agora. Agora é tão óbvio porque eles nem estão aqui, estão a subalugar, e obtiveram três pontos. E não é mais uma loja deles, nem têm o símbolo, eles nem compraram a placa de Loja com História para pôr à porta. Não são interessados na Loja com História, a única coisa que lhes interessa é o estatuto“, acusa.

O programa Lojas com História pretende apoiar e promover o comércio tradicional local, como marca identitária de Lisboa, bem como salvaguardar as lojas que ainda existem com características únicas e diferenciadoras da atividade económica e cuja história se confunde com a da própria cidade. A classificação de Loja com História protege assim o espaço de um eventual desalojamento graças a uma moratória de cinco ou dez anos assim como o acesso a um fundo municipal que comparticipa eventuais obras até 80% das despesas elegíveis, até ao montante limite de 25 mil euros, ou mesmo na totalidade, em casos excecionais, se ultrapassarem o limite de 25 mil euros.

Subarrendamento ou consórcio?

Está atualmente na justiça um processo entre a Hermitage Castelo Lda e a Viravolta – Atividades Hoteleiras LDA no qual a defesa de Antoine Monnier denuncia que o contrato de “cessão de exploração” do Bar Xafarix entre a Viravolta – Atividades Hoteleiras Lda e a Coruja Filosófica Lda é, na prática, um subarrendamento do espaço e da extensão quiosque da CML, que se encontra no Largo da Esperança, incluída no contrato.

“Eles não têm nenhum interesse na loja agora, só estão a subalugar. Mas isso não me interessa, o que me interessa é que eu acho que não é normal um país democrático onde esse tipo de coisas acontece porque também não é bom para a Loja com História, porque torna-se uma coisa um pouco política que não é normal. Não é esse o objetivo do programa Lojas com História”, defende Antoine em conversa com o Observador, revelando que a sua discordância com a situação “é uma coisa moral”, mas que se conseguirem fazer com que a empresa de Luís Represas deixe de ser sua inquilina, o que levaria ao encerramento do Xafarix, “com certeza que queremos fazer alguma coisa com o espaço, seja um restaurante ou um bar”, como fizeram com as lojas de rés do chão dos outros Alojamentos Locais que gerem na cidade. “Isto foi tudo feito por uma razão: o Xafarix já não é o Xafarix”, garante.

Por sua vez, Carlos Almeida defende que não se trata de um subarrendamento mas sim de um contrato de consórcio com a Coruja Filosófica Lda. “Nós temos um consórcio. É com uma pessoa que está a desenvolver aquilo comigo lá dentro. Eu vou lá todos os dias, praticamente. Não estou lá, mas vou lá todos os dias. Por isso eu estou à frente daquilo”, explica, acrescentando que “o Pedro Pereira é o nosso consórcio, que está lá a desenvolver um negócio connosco”.

Ao Observador, a defesa de Hermitage Castelo Lda afirma não fazer qualquer sentido, em nenhuma das reações estabelecidas, falar-se em consórcio. “Nem entendo em que contexto, jurídico ou outro e no caso em apreço, tal se poderia aplicar”, afirmou.

Quanto a Luís Represas, o músico explica apenas que já está afastado do negócio “há muito tempo” e que quem está atualmente responsável pelo espaço tem, “em forma de palavra de honra, de cumprir os compromissos necessários a que aquilo continue Loja com História”. “E a única coisa que eu tenho, e contratualmente com eles, o que existe é que eles devem preservar as características, as características da Loja com História e do Xafarix, sempre”, acrescentou.

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