Zahi Hawass, arqueólogo egípcio: “Quando abro um sarcófago sinto sempre emoção” /premium

14 Abril 2019390

A cara mais conhecida da arqueologia egípcia abriu um sarcófago de um sacerdote em direto na televisão. Em entrevista ao Observador, o "Indiana Jones do Egipto" fala das suas descobertas.

Chamam-lhe o Indiana Jones do Egito, numa alusão à personagem de Harrison Ford. Em comum têm o chapéu, a paixão pela arqueologia e a afinidade pelas câmaras. À semelhança do Indiana Jones original, Zahi Hawass também tentou ser ousado: no dia 7 de abril, abriu um sarcófago de um sacerdote egípcio em direto para o Discovery Channel.

Eram duas da manhã no Egito e as equipas estavam prontas para o episódio em direto que viria a durar duas horas — e que passaria em simultâneo na costa leste e oeste dos Estados Unidos. Prontas na medida do possível. Zahi Hawass prometia abrir um sarcófago pela primeira vez em direto para um canal de televisão e corria o risco de o sarcófago estar vazio, de a múmia estar em más condições ou de haver outro qualquer problema durante as filmagens. E não havia plano B, como disse ao Observador.

Mas a múmia estava em perfeitas condições e não faltaram artefactos para contextualizar a descoberta e reforçar a importância que lhe atribuiu. O jornal El País duvida, no entanto, que os investigadores não soubessem o que iam encontrar e que se arriscassem a montar toda uma estratégia mediática para acabarem com a abertura de um sarcófago vazio.

Zahi Hawass não esconde que um dos grandes objetivos do documentário em Al Ghorifa, que vai passar em Portugal no dia 24 de abril — “Expedition Unknown: Egypt Live” —, com a duração de uma hora, é atrair turistas aos Egito para conhecerem as relíquias antigas. Ele próprio é um dos trunfos da empresa Archaeological Paths que organiza visitas a locais que estão normalmente fechados ao público. Um dos principais programas — The Royal Tour — pode chegar aos 8.985 dólares (quase 8.000 euros).

No documentário, são dados a conhecer elementos da XXVI dinastia egípcia — de há cerca de 2.500 anos —, a última dinastia egípcia antes de serem conquistados pelos persas. Este cemitério tem potencial para continuar a ser explorado por mais 50 anos, diz o arqueólogo, mas o papel que tinha a desempenhar termina aqui (pelo menos por agora). O complexo de túneis com mais de 40 túmulos de membros da elite egípcia e artefactos que podiam encher um museu vão continuar a ser exploradas por uma equipa egípcia a partir de setembro. O arqueólogo vai voltar para a sua escavação no Vale dos Reis.

Zahi Hawass já foi ministro das Antiguidades e diretor das escavações em Gizé, Saqqara e no oásis de Bahariya. Fez muitas descobertas importantes, como a dos túmulos dos construtores das pirâmides, em Gizé, ou o Vale das Múmias Douradas, no oásis de Bahariya. Mas não está livre de polémicas. A Smithsonian Magazine diz que o seu reinado enquanto chefe máximo da arqueologia egípcia acabou com a queda de Hosni Mubarak, em 2011. Também viu os jovens arqueólogos protestarem contra ele por não proporcionar emprego aos mais novos. O jornal El País critica ainda a forma como o arqueólogo pegou imediatamente nos objetos com as mãos, perguntando se esta é uma atitude de um cientista ou de alguém que está numa feira ou num espetáculo.

Quando é que este local foi descoberto?
Este sítio foi encontrado há cerca de ano e meio. Mas a história da descoberta começou em 1927, quando um sarcófago foi encontrado. O sarcófago foi então levado para o Museu do Cairo, mas as pessoas esqueceram o local. Até eu, que andei a trabalhar a cinco quilómetros daqui, em 1969 e 1970. Mas há um ano e meio apanharam aqui ladrões e quando foram escavar encontraram 11 túmulos.

Começou a explorar este sítio há um ano e meio, quando foi descoberto?
Não. Quem começou realmente foi o Dr. Mostafa Waziri, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades. Foi ele que encontrou os 11 túmulos. [Mostafa Waziri também participou no documentário referindo que o Egito é seguro e que os turistas estão convidados a vir visitá-lo.]

Zahi Hawass, o arqueólogo egípcio de 71 anos, e o seu chapéu de Indiana Jones — Discovery Channel

Qual foi a sensação de abrir este o sarcófago do sacerdote?
Quando abro um sarcófago, sinto sempre emoção e paixão. Mas quando entrei naquela sala e vi o sarcófago, o rosto parecia de um rei. Além do sarcófago, encontrámos os restos da mumificação, num grande jarro, e os restos da argamassa que eles usaram para fechar o sarcófago. Mas quando o pessoal abriu o sarcófago e encontramos aquela bela múmia [completamente envolta em ligaduras bem conservadas] — e em cima dela uma faixa de metal coberta de ouro e o olho da deusa Ísis com suas asas —, foi um momento que jamais esquecerei na minha vida. Especialmente porque o mundo inteiro estava a ver isto comigo.

O que esperava encontrar?
Estava com medo que a múmia estivesse em más condições, como a primeira múmia que abrimos no túmulo da família [num sarcófago onde estaria o chefe da família e onde praticamente só restam alguns ossos]. Estava com muito medo de que a múmia pudesse estar em más condições, mas graças a Deus não, porque este homem tinha muito bons títulos: foi o sumo sacerdote do templo do deus Thoth, foi diretor dos campos e do trono [o segundo mais importante depois do rei]. E, portanto, quando vi a posição que ocupava, pensei que estaríamos perante uma boa múmia. E porque atrás dela encontrámos uma linda cabeça mágica feita de cera. E isso foi realmente outra grande descoberta.

E o que significa essa cabeça de cera?
A cabeça de cera era semelhante ao que encontrávamos numa dinastia anterior, porque a XXVI dinastia é o renascimento da arte egípcia. Esta cera estava lá para se substituir à múmia, caso esta fosse danificada por ladrões. Podemos reconhecer a pessoa através dessa cabeça.

E se a múmia estivesse em mau estado, tinham um plano B?
Não, não havia plano B ou C. Havia apenas um plano para abrir este sarcófago ao vivo e este era o objetivo do show. Não havia outro plano. Ou se descobria uma boa múmia ou não. Mas esta múmia era incrível.

Porque é que foi importante mostrar a abertura do sarcófago ao vivo na televisão?
Fiquei realmente feliz por poder partilhar a nossa escavação com o mundo, por educar o público, por ensinar os jovens a tornarem-se bons arqueólogos no futuro. Se segue a minha carreira, sabe que gosto sempre de falar com o público. Já fiz muitos programas de televisão e escrevi muitos livros. Tenho o dever, como académico, de escrever livros universitários, mas também de educar o público sobre a emoção e a aventura que é a arqueologia.

Antes de abrirem o sarcófago colocaram uma máscara. Porquê?
Colocámos num primeiro momento, quando abrimos o sarcófago. A múmia pode ter germes que não conseguimos ver. Esses germes podem atingir uma pessoa e ela morrer. E não tem nada a ver com a maldição do Faraó. Quando se abre um sarcófago é preciso proteger o rosto e a respiração. E foi isso que fizemos. Depois tirámos.

Qual o peso da tampa do sarcófago em calcário que os trabalhadores tiveram de tirar?
Quatro toneladas. São trabalhadores treinados, sabem como mover coisas pesadas e já trabalharam comigo antes, em muitos sítios.

Ainda se lembra da primeira vez que abriu um sarcófago?
Não, já abri muitos. Encontrei-os no oásis de Bahariya [no deserto ocidental do Egito, a cerca de 370 quilómetros do Cairo]: num grande cemitério da XXVI dinastia como este, e no Vale das Múmias Douradas. Na minha carreira já abri muitos sarcófagos, mas este sarcófago era de uma pessoa mais importante do que outros que abri no passado. Ele tinha muitos títulos importantes e espero que seja algo bom. Ao mesmo tempo, abrir algo, mas ao vivo, para o público, isso foi uma grande emoção para mim.

"No Egipto, até agora encontrámos apenas 30% dos nossos monumentos. Ainda existem 70% enterrados no chão."

Uma das suas descobertas mais importantes foram os túmulos das pessoas que construíram as pirâmides [mostrava que eram egípcios e que não eram escravos]. Esta nova descoberta é mais ou menos importante?
Isto é muito diferente. Estamos a falar da emoção, em arqueologia, de abrir um sarcófago de alguém que era muito importante, era o sumo sacerdote do templo do deus Thoth e era o diretor dos campos e diretor do trono. Era o segundo mais importante depois do rei. Abrir o sarcófago ao vivo foi realmente incrível para mim.

Que outros artefactos importantes encontrou neste sítio?
Encontrámos por cima da múmia uma banda de metal coberta de ouro e uma imagem da deusa Ísis de asas abertas. Encontrámos os escaravelhos, que significam a existência do falecido, e Ushabtis, estátuas dos servos que vão servir o morto na próxima vida.

Ainda existe muito por descobrir neste local?
O local é muito grande. Talvez tenhamos mais 50 anos de descobertas e escavações.

O que ainda espera encontrar?
Mais túmulos. Esperamos poder encontrar parte do novo reino porque este era um grande cemitério dedicado ao deus Thoth, o deus da Sabedoria e do Conhecimento. Podem ser túmulos anteriores à dinastia 26, do novo reino ou de todo o reino.

Em tantos anos que já tem de arqueologia, cerca de 50, quais foram as principais mudanças que viu acontecer na arqueologia do Egito?
Fiz grandes descobertas no Vale das Múmias Douradas, no oásis de Bahariya. Usei tomografia computorizada e análises de ADN para revelar os segredos das múmias [incluindo do rei Tutankamon]. Encontrei os túmulos dos construtores da pirâmide, em Gizé. Fiz coisas muito importantes na minha carreira para o mundo da arqueologia.

Também mudou a forma como as pessoas faziam explorações no Egito. Quão importantes foram as mudanças que implementou para os artefactos egípcios?
Acho muito importante que se compartilhe o que se faz com o público, não apenas com a ciência. E, portanto, concordamos em fazer isso ao vivo para a Discovery. Assim, também podemos incentivar os turistas a voltarem. Porque dei uma mensagem ao mundo: o Egito é seguro. Precisamos do dinheiro dos turistas para podermos restaurar os monumentos egípcios, que acredito que pertencem a todos nós.

O que quer são mais turistas no Egito, é isso?
Sim.

Porque é que não existem turistas suficientes agora?
Porque depois da revolução de 2011 as pessoas não voltaram. Mas o Egito é estável e seguro agora e precisamos que os turistas voltem.

O que é que ainda falta encontrar no Egito?
Até agora encontrámos apenas 30% dos nossos monumentos. Ainda existem 70% enterrados no chão.

E em relação aos tesouros que existem noutros países, tem conseguido trazê-los de volta ao Egito? Sei que é algo sobre o qual tem trabalhado.
Devolvi 6.000 artefactos ao Egito. E estou agora a preparar um comité de indivíduos do Egito e fora do Egito, para podermos devolver o busto de Nefertiti, que está em Berlim, a pedra de Roseta, que está no Museu Britânico, e o Zodíaco [de Dendera], que está no Museu do Louvre.

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