A página de Facebook “Frente Anti-comunista Portuguesa” publicou um link para uma notícia onde se garante que o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi premiado pelas Nações Unidas pelo combate à fome no seu país. Esta informação é enganadora, por ser descontextualizada e apresentada de forma enganadora.

De facto a Venezuela foi destacada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla inglesa) em 2013 pelo combate à subnutrição. Esse reconhecimento vem relatado num comunicado da FAO publicado em 2013, onde se refere que “desde o ano 2007 a Venezuela manteve a percentagem [de pessoas subnutridas] abaixo dos 5%”.

Portanto, ao contrário do que a notícia promovida pela página de “Frente Anti-comunista Portuguesa” sugere, não é um reconhecimento recente — nem de 2015, como está escrito nesse artigo; nem de 2019, data de publicação do artigo. Aconteceu em 2013, tendo sido à altura recebido pelo já então Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, numa cerimónia celebrada em Roma. Foi nessa altura que foi feita a fotografia que acompanha a notícia veiculada pela página de Facebook “Frente Anti-comunista Portuguesa”.

E já à altura aquele reconhecimento recebeu críticas por parte da oposição venezuelana. “É inexplicável como a FAO está a premiar a escassez, a inflação, a desnutrição e a falta de produção na Venezuela”, disse, em 2013, o deputado opositor Julio Borges.

O facto é que, em 2019, e com o agudizar da crise venezuelana (política, social, económica, securitária, migratória, humanitária, entre outras áreas), que em 2013 vivia apenas a sua fase mais inicial, a própria FAO reconheceu que a situação na Venezuela mudou drasticamente desde que destacou o país pelo combate à subnutrição. No relatório “The State of Food Security and Nutirition in the World” de 2019, a organização dá conta de um aumento exponencial da taxa de subnutrição naquele país, que passou de 6,4% da população em 2012-2014, para 21,2% em 2016-2018.

Tabela do relatório “The State of Food Security and Nutirition in the World” de 2019, da FAO

Não é apenas a FAO que destaca esta realidade na Venezuela. No ranking Global Hunger Index (GHI), que junta os 117 países do mundo com menor segurança alimentar, também se refere um aumento abrupto da subnutrição naquele país.

“O resultado da Venezuela piorou para o dobro desde 2010, refletindo a severa escassez alimentar e as crises económicas e políticas que têm tomado o país nos últimos anos. Hiperinflação, um PIB em rápida contração, uma proporção desproporcional das receitas do petróleo juntamente com uma menor produção petrolífera, e uma má governação caracterizada por uma corrupção galopante e uma autocracia crescente têm contribuído para a situação”, lê-se no relatório do GHI de 2019.

No relatório da GHI são apresentados os níveis de subnutrição ao longo dos anos que sugerem duas coisas. Primeiro, na altura em que a Venezuela foi distinguida pela FAO, em 2013, o nível de subnutrição tinha realmente caído. Depois, esse nível de subnutrição disparou, chegando aos níveis mais altos desde que a estatística é feita:

  • 1999-2001: 16,4% de prevalência de subnutrição na população total
  • 2004-2006: 10,5%
  • 2009-2011: 3,1%
  • 2016-2018: 21,2%

Esta queda abrupta da nutrição da população venezuelana foi também registada pela ENCOVI que, desde 2014, mede vários parâmetros de qualidade de vida na Venezuela. De acordo com aquele estudo, 64,3% dos venezuelanos tinham perdido peso em 2017, numa média de 11,4 quilos por cada um. Em 2016, a média de perda de peso já tinha sido de 8 quilos num ano. O mesmo estudo determinou que 9 em cada 10 venezuelanos não conseguiam pagar a sua alimentação diária.

Conclusão

É verdade que a Venezuela (e não Nicolás Maduro) foi distinguida por um organismo da ONU pelo seu combate à fome — mas isso passou-se em 2013, ano em que os números da prevalência de subnutrição na população daquele país eram radicalmente diferentes daqueles que se verificam atualmente e que começaram a subir desse ano e se acentuaram com a grave crise venezuelana.

Esta notícia com seis anos tem sido alvo de aproveitamento e distorção por parte de várias páginas de Facebook e sites que veiculam notícias falsas, que procuram sempre passar a ideia de que a distinção da ONU é recente — algo que seria incompatível com a atual escassez alimentar e níveis de subnutrição na Venezuela, que são amplamente conhecidos do público em geral e também reconhecidos em 2019 pela FAO que, em condições manifestamente diferentes, destacou o combate à fome na Venezuela em 2013. Por isso, mesmo não sendo errado referir que a Venezuela foi destacada pela ONU pela redução da fome, é sem dúvida enganador dizer que tal aconteceu em tempos recentes.

ENGANADOR

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