Cinco litros de água, 50 gramas de sal grosso e 150 mililitros de lixívia: diluir tudo e colocar num borrifador. É esta a fórmula que circula em redes sociais, como o Facebook, como sendo a receita chinesa para higienizar a casa, as maçanetas das portas e dos carros, as chaves, o volante, os sapatos e até o asfalto. A informação consta de uma imagem onde se lê, também, que esta foi uma lição que os próprios chineses levaram aos italianos para que conseguissem matar o novo coronavírus que conseguirá sobreviver até 72 horas numa superfície. Mas será mesmo assim?

A receita parece a de uma mezinha caseira, mas na verdade poderá estar baseada, em parte, nas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que foram inclusivamente transpostas pela Direção-Geral da Saúde, em Portugal. A orientação da DGS, a 10 de março, dirigida aos hotéis e alojamentos para que controlassem a infeção, tem sido seguida por outras entidades, como a Direção Nacional da PSP, que já assumiu utilizar água e lixívia, quando se viu a braços com uma rutura de stock no desinfetante.

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Segundo essa recomendação, e à data, dava-se como provável que o vírus pudesse sobreviver durante horas em superfícies secas e até 6 dias em superfícies com humidade. “A OMS aconselha o uso de lixívia (solução de hipoclorito de sódio), numa concentração de pelo menos 5% de cloro livre, e álcool a 70º, para as superfícies metálicas ou outras, que não sejam compatíveis com a lixívia, de modo a evitar corrosão ou danificação”, lê-se.

Para a desinfeção de superfícies, por seu turno, a DGS recomenda: se existir “presença de sangue, secreções respiratórias ou outros líquidos orgânicos” deve usar-se papel absorvente com uma solução de água com lixívia, “na proporção de uma medida de lixívia, para 9 medidas iguais de água”. Deve deixar-se atuar durante 10 minutos, passar o local com água e detergente, enxaguar só com água quente e deixar secar ao ar.

Na desinfeção comum de superfícies, sem a presença daqueles vestígios, deve lavar-se primeiro com água e detergente e aplicar a lixívia diluída em água, na seguinte proporção: uma medida de lixívia em 49 medidas iguais de água. Mais uma vez, deve deixar-se atuar a lixívia durante 10 minutos, enxaguar apenas com água quente e deixar secar ao ar.

A informação que circula nas redes sociais, porém, dá uma medida diferente: em cinco litros de água, 150 mililitros de lixívia. Ou seja, no caso de não existir sangue ou secreções, para 150 mililitros deviam, sim, ser usados em 7,35 litros de água (multiplicando os 150 mililitros por 49), seguindo a recomendação oficial. Havendo aqueles resíduos, no entanto, os 150 mililitros teriam que ser dissolvidos em 1,35 litros de água (nove vezes mais). A DGS também não refere o uso de sal nesta solução.

Outra informação que parece não estar correta na publicação que circula nas redes sociais é a de que esta tenha sido uma receita dada pelos chineses, que se encontram em Itália, aos italianos. Objetivo: ajudá-los no combate à pandemia da Covid-19. Isto porque a recomendação da DGS foi emitida a 10 de março (portanto, da parte da OMS seria anterior) e a equipa de oito médicos chineses que se deslocou inicialmente a Itália, para ajudar no combate à pandemia, chegou àquele país três dias depois, a 13 de março. Nessa data, já a recomendação da OMS existia.

Quanto à informação de que o vírus pode permanecer vivo até 72 horas nas superfícies, poderá ter correspondência com um estudo publicado pelo New England Journal of Medicine, que sugere que o vírus que origina a Covid-19 consegue sobreviver até três dias. Mas não em todas as superfícies. A durabilidade de 72 horas acontece, segundo o estudo, apenas em plástico ou aço. O mesmo não se pode dizer em relação ao cobre, material que limita a sua existência a um período de quatro horas.

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Conclusão:

A publicação circula nas redes sociais e que indica que é possível desinfetar superfícies com uma solução de água, lixívia e sal tem um fundo de verdade, porque a própria Organização Mundial de Saúde (e a DGS em Portugal), o recomendam. Mas as quantidades sugeridas não são as corretas.

Segundo as orientações sanitárias, para superfícies onde exista sangue ou secreções a quantidade deve ser uma medida de água para nove de lixívia. Se não existirem esses sinais, poderá ser usada a proporção de uma medida de lixívia para 49 de água. Não se fala em misturar sal. Ainda assim, há regras: é preciso lavar primeiro com detergente e depois com água quente e deixar secar naturalmente. Só assim se poderá matar o vírus.

De facto, o novo coronavírus pode viver até 72 horas numa superfície, como atesta também a publicação, mas não em todas. No cobre, por exemplo, sobrevive até quatro horas.

Outra informação que parece pouco correta é de que a receita indicada foi levada pelos chineses à Itália, isto porque a equipa chinesa que foi tentar ajudar aquele país — que tem enfrentado uma mortalidade diária de cerca de 600 mortos — já aterrou no local depois de ter sido emitida esta recomendação.

De acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

Enganador

De acordo com a classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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