São milhares de publicações, nos mais variados idiomas, não necessariamente com o mesmo texto mas louvando sempre a mesma iniciativa: o bilionário Elon Musk, proprietário do X e CEO da SpaceX e da Tesla, teria prometido pagar todas as despesas futuras da viúva de Charlie Kirk e dos seus dois filhos, bebés de 3 anos e 16 meses.

De acordo com alguns dos posts, a oferta de Musk teria sido feita logo após a morte do ativista, fundador da Turning Point USA e um dos principais apoiantes e aliados de Donald Trump.

“Imediatamente após o falecimento de Charlie Kirk, o bilionário Elon Musk interveio, prometendo pagar todas as despesas de moradia e educação dos dois filhos de Kirk”, pode ler-se numa publicação partilhada, em português do Brasil, quatro dias depois do atentado que vitimou Kirk, no passado dia 10 de setembro, durante uma palestra na Universidade de Utah Valley.

“Essa ação não só ajudou a família Kirk a aliviar o fardo durante o luto, como também causou comoção nas redes sociais, com muitas pessoas expressando sua admiração pela gentileza de Elon Musk neste momento de lágrimas…”, continua o texto partilhado no Facebook e acompanhado de fotografias do empreendedor sul-africano, cabisbaixo, ao lado de um caixão.

Uma vez que o funeral de Charlie Kirk só aconteceria sete dias depois, no domingo, dia 21 de setembro, num estádio de futebol americano em Glendale, no Arizona, as imagens utilizadas nestas publicações, evidentemente geradas com recurso a inteligência artificial, não correspondem ao momento.

Mas não é necessariamente por isso que a afirmação de que Elon Musk se teria oferecido para assumir todas as despesas futuras de Erika Lane Kirk e dos filhos não é verdadeira.

Na madrugada do dia 11 de setembro, horas depois do homicídio de Kirk, uma página de Facebook chamada “60 Second News” (mas sem qualquer afiliação a qualquer meio de comunicação) publicou este mesmo texto, mas em inglês.

A ilustrar a publicação estava a mesma montagem de três fotografias. Havia ainda uma hiperligação para uma outra página, chamada Top News, onde pode ler-se mais detalhes sobre a pretensa notícia, incluindo uma citação, atribuída a “um amigo da família”: “Elon não hesitou. Ele disse-nos diretamente: ‘Charlie dedicou-se tanto aos outros. O mínimo que posso fazer é garantir que os seus filhos tenham todas as oportunidades para prosperar’”.

Ora, tal como o “60 Second News”, o “Top News” não é um jornal, nem qualquer outro meio de comunicação social. É, sim, percebe-se ao primeiro clique, um portal de notícias falsas.

O post original publicado pelo “60 Second News” foi entretanto apagado, mas o recurso ao arquivo digital da internet Wayback Machine permite perceber que um dos primeiros comentários faz referência a um post idêntico — mas que atribuía a um jogador de futebol americano o mesmo gesto para com a família de Kirk.

Como se não bastasse, uma breve pesquisa na internet devolve pelo menos outras duas publicações em tudo semelhantes, só mudam as fotografias e os protagonistas, o texto é sempre o mesmo. Uma garante que o canadiano Brad Marchand, jogador de hóquei, atualmente nos Florida Panthers, se ofereceu para pagar todas as despesas da família de Charlie Kirk. Outra recorre a fotografias e ao nome do maestro e violinista holandês André Rieu para assegurar exatamente o mesmo.

Noutra tónica, ao longo dos últimos dias têm sido publicadas notícias que dão conta de várias iniciativas de angariação de fundos, lançadas nos Estados Unidos por organismos ou figuras públicas, como o apresentador e comentador conservador Tucker Carlson, para apoiar a família de Charlie Kirk. De acordo com a plataforma GiveSendGo, no dia 19 de setembro já tinham sido reunidos 5,3 milhões de dólares. Ao longo dos dias seguintes, esse valor não parou de aumentar.

Conclusão

Não é verdade que Elon Musk se tenha disponibilizado para pagar as despesas presentes e futuras da família de Charlie Kirk. As publicações que se tornaram virais a dar conta disso mesmo tiveram origem num post que entretanto foi apagado e que fazia referência a uma página de divulgação de notícias falsas. Para além disso, há na internet várias “notícias” idênticas, mas a atribuir o mesmo ato de bondade e gentileza a outras personalidades, como Brad Marchand ou André Rieu.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook.

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