“O maior presidente da história do Brasil. Em reunião, Bolsonaro informou que quem fosse elogiado pela Folha ou pelo Globo, perderia o cargo. Só estamos testando um negócio aqui”. Estas frases estariam — segundo dezenas de publicações no Facebook e no Twitter — na primeira página do jornal “Folha de S.Paulo” de 23 de maio de 2020. Mas é falso que esta tenha sido a primeira página ou a manchete do jornal brasileiro com maior circulação no país. A edição desse dia nem sequer era parecida. Se, por um lado, houve quem percebesse que se tratava de uma montagem ou sátira, houve também centenas de utilizadores que partilharam a imagem como se fosse verdadeira.

Uma das publicações que partilha a alegada primeira página do jornal “Folha de S. Paulo” sem referir que se trata de uma montagem ou sátira

Primeiro, é importante esclarecer qual era, de facto, a primeira página da Folha de S.Paulo a 23 de maio de 2020. A manchete é sobre o presidente brasileiro, mas sobre um vídeo que regista “insultos, ameaças e a intervenção de Bolsonaro na PF [Polícia Federal“. Há ainda na primeira página várias referências a Jair Bolsonaro, sejam frases na lateral captadas nesse mesmo vídeo ou, por exemplo, a informação que “Presidente diz ter aparato particular de segurança e pede população armada”.

A verdadeira 1ª página da Folha de S.Paulo a 23 de maio de 2020

Ora, a primeira página da Folha de S.Paulo nada tem a ver com a primeira página que circulou por vários utilizadores do Facebook e do Twitter em Portugal e também no Brasil. Isso não significa que não haja qualquer relação entre a primeira página falsa e a verdadeira. Isto porque, nesse mesmo vídeo que é noticiado, o presidente brasileiro disse, segundo o próprio jornal O Globo que “o ministro que fosse elogiado por alguns veículos de comunicação, como o Globo, o jornal Folha de S.Paulo e o site O Antagonista, seria demitido.” Na mesma reunião, como noticiou o jornal que foi visado, Jair Bolsonaro disse que a Folha de S.Paulo era “bosta” e que quem fosse elogiado por essa publicação “perde o ministério”.

Nesse mesmo dia, a 23 de maio, no espaço “O que a Folha pensa” — que corresponde ao editorial do jornal, não assinado — tem como título: “Bolsonaro mente“. Nesse texto, o jornal considera que está provada que a versão do juiz Sérgio Moro — que denunciou que o presidente brasileiro tentou fazer ingerências na Polícia Federal — está correta. Diz ainda sobre o momento que noticia na manchete que é um encontro que “entra para a história dos 130 anos da República no Brasil como um dos episódios mais execráveis do exercício do poder presidencial“. O jornal termina o editorial da seguinte forma: “Dados a baixeza e o desvario mostrados numa reunião formal, assusta de fato imaginar o que Bolsonaro diz em privado.

Apesar desta relação, a primeira página — que seria uma tomada de posição deliberada e uma espécie de pedido de demissão satírico do presidente brasileiro fora do espaço de opinião — é completamente falsa. Os milhares de utilizadores que acreditaram que a capa podia ser verdadeira não ignoraram certamente o historial que existe entre a publicação e o presidente brasileiro.

Ainda a 5 de maio o presidente Jair Bolsonaro disse aos jornalistas que estavam em frente ao Palácio da Alvorada para “calarem a boca” e acusou a Folha de S.Paulo de ser um o jornal “canalha“, “patife” e “mentiroso“. A 18 de fevereiro, Jair Bolsonaro fez também comentários com insinuações sexuais a uma jornalista da Folha (Patrícia Campos Mello): “Ela [jornalista] queria um furo. Ela queria dar o furo [risos dele e dos demais]”. Mais uma vez em frente à Alvorada, e entre sorrisos, Bolsonaro acrescentou: “A qualquer preço contra mim”. Na origem das críticas presidenciais à jornalista estava uma investigação da Folha sobre envios de mensagem em massa de apoio a Bolsonaro. A Associação Brasileira de Imprensa considerou o insulto do presidente de “cobarde”.

Em outubro de 2019, Jair Bolsonaro disse ainda que ia mandar cancelar as assinaturas da Folha de S.Paulo feitas por órgãos governamentais. Em agosto desse mesmo ano, na sua conta oficial de Twitter, Bolsonaro acusou o jornal Globo, a Folha e o Estadão de combinarem manchetes para o atacar.

Com todo este historial de confronto entre o presidente brasileiro e o jornal a Folha de S.Paulo (tal como acontece com o jornal O Globo”) muitos entenderam a primeira página como uma posição pública de confrontação entre o jornal com maior circulação no Brasil e o presidente Jair Bolsonaro. Para os apoiantes de Bolsonaro seria mais uma prova da falta de imparcialidade do jornal e para os críticos de Bolsonaro uma justa sátira. No fim do dia, nada disso aconteceu porque a capa é falsa.

Conclusão

A primeira página da Folha de S.Paulo que circulou pelas redes sociais e que alegadamente se tratava da edição de 23 de maio de 2020 é falsa. Trata-se de uma montagem que apenas tinha correto o cabeçalho. Essa mesma primeira página sugeria que o jornal tinha elogiado Bolsonaro por este ter dito que demitia quem o jornal elogiasse. Logo, o jornal teria colocado como manchete uma fotografia do presidente com a frase: “O maior presidente da história do Brasil”. Na verdade, nesse dia, o jornal escreveu um editorial com duras críticas que visavam Jair Bolsonaro e há um longo historial de conflito entre o Palácio da Alvorada e a Folha, mas o jornal da cidade mais populosa do Brasil não publicou qualquer primeira página sequer idêntica ou nos mesmos termos daquela que circulou.

Segundo o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: Este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associadas a reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.

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