“Senhor primeiro ministro António Costa! Gostaria que o senhor me dissesse como vão reabrir as faculdades em maio com o devido distanciamento social se os nossos filhos têm de apanhar o metro e os autocarros para chegarem ao destino, por acaso o senhor tem ideia de quanto é impossível o distanciamento social nestes casos?” Começa assim o texto que, só nas últimas 24 horas, já tem mais de 400 partilhas. Critica os transportes públicos com pessoas que “parecem sardinhas em lata”, fala do “Povo que teve a iniciativa de fazer o afastamento social” e acusa o primeiro-ministro de “pôr tudo isso a perder com iniciativas de comemorar o 25 de Abril com tanta gente” na Assembleia da República.

O problema desta publicação feita no Facebook não está na opinião, mas sim na última frase que se refere à imagem que está a circular. “Isto é o distanciamento social nos transportes públicos!!”, pode ler-se no final do texto. Esta informação é falsa.

Publicação do Facebook mostra fotografia anterior a fevereiro acompanhada da frase: “Isto é o distanciamento social nos transportes públicos!!”

A foto já tinha sido usada pelo menos duas vezes pelo “Mais Semanário”, uma publicação que se dedica sobretudo à atualidade de Póvoa de Varzim e Vila do Conde. A imagem acompanhava uma notícia de 15 de janeiro de 2020, que explicava que quem entrava ou saía numa daquelas duas estações se queixava de horários por cumprir e composições “sobrelotadas em hora de ponta”. Nessa data, ainda não havia casos positivos de Covid-19 em Portugal.

A 6 de fevereiro deste ano, a imagem voltou a sair do arquivo para acompanhar um texto que dizia que a linha vermelha, a que serve Vila do Conde e Póvoa de Varzim, do Metro do Porto, voltaria a ter “veículos duplos nas horas de ponta”. Mais uma vez, também nesta data ainda não havia registos de infetados com Covid-19 em Portugal.

Isto significa que a fotografia não é atual. Foi captada dentro de uma carruagem do metropolitano do Porto muito antes de ser aconselhado o distanciamento social ou de haver sequer casos confirmados de Covid-19 em Portugal. Os dois primeiros foram anunciados a 2 de março e esta imagem não ilustra em momento algum a realidade atual ou as medidas que foram impostas desde que o Estado declarou o Estado de Emergência, também em março.

No dia 18 desse mês foi decretado o Estado de Emergência em Portugal e a 21 o Metro do Porto comprometia-se a assegurar “os níveis de serviço em matéria de segurança e fiabilidade, orientado para o cumprimento das orientações de saúde publica em matéria de distância social”.

Desde 15 de março que as escolas estão fechadas e que não há aulas e desde dia 18 que o teletrabalho está a ser recomendado a todas as empresas que o possam fazer. A maioria do comércio também está fechado desde então e à população tem sido recomendado o confinamento domiciliário, ou seja, que se desloquem apenas para coisas essenciais, como ir ao supermercado ou à farmácia. É por isso impossível que o nível de afluência aos transportes públicos esteja semelhante ao da era pré-pandemia.

Conclusão

Dizer que a imagem mostra como está a ser feito o distanciamento social (ou a falta dele) nos transportes públicos durante a pandemia do novo coronavírus está errado. A foto foi captada antes de serem conhecidos casos em Portugal e já tinha sido usada pelo menos duas vezes, no início do ano, no jornal “Mais Semanário” para ilustrar notícias sobre a hora de ponta no Metro do Porto. Ou seja: foi tirada antes do confinamento e em nada se relacionada com a pandemia de Covid-19. Não ilustra de forma nenhuma o estado em que se encontram os transportes públicos atualmente.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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