É um caso claro de manipulação de imagem. Na passada semana, a fotografia de Jair Bolsonaro e respetiva companhia sentados em torno de uma mesa com vários maços de notas tornou-se viral nas redes sociais. Segundo dados do Facebook, chegou a ser partilhada por mais de 65 mil pessoas. Sob a imagem lê-se: “Aqui ninguém desvia dinheiro para construtoras, aqui a gente desvia para nós mesmos”.

Mesmo que a imagem dos maços de notas sobre a mesa pretendesse ser uma sátira, importa dizer que a imagem foi manipulada e os maços de notas foram adicionados à posteriori. Logo, não é verdadeira.

Imagem tornou-se viral nas redes sociais mas é uma montagem

Trata-se, na verdade, de uma fotografia que, segundo a ferramenta de pesquisa de imagens na internet Tineye, foi usada pela primeira vez em junho de 2018, quando Jair Bolsonaro era candidato à Presidência da República do Brasil (foi eleito em outubro).

Na imagem, pode ver-se, além de Jair Bolsonaro, o filho e senador Flávio Bolsonaro, assim como o ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz (de óculos), e, ao fundo, em camisa xadrez, o ex-segurança e assessor especial de segurança do gabinete pessoal de Bolsonaro Max Guilherme Machado de Moura. Todos estão sentados à mesa de um restaurante, a comer.

Imagem original

Acontece que esta mesma imagem já foi alvo de outras fake news. Como se lê no Estadão e na página de verificação de factos da Globo, várias foram as publicações que se tornaram virais nas redes sociais, em julho de 2019, que sugeriam que o homem, ao fundo na fotografia, com a camisa de xadrez, era o sargento Manoel Silva Rodrigues, militar brasileiro que por aquela altura tinha sido preso em Espanha depois de ter sido apanhado a traficar 39 quilos de cocaína num avião da Força Aérea Brasileira.

Não é verdade. O homem na fotografia é, na verdade, um agente do Batalhão de Operações Policiais Especiais (o BOPE) que se tornou assessor especial de Jair Bolsonaro. Chama-se Max Guilherme Machado de Moura, e, na altura, a informação foi confirmada pelo gabinete de Flávio Bolsonaro, primeiro, e pela secretaria Especial de Comunicação da Presidência, depois. O agente da polícia tinha sido escolhido para integrar a equipa de segurança especial de Bolsonaro, na altura ainda candidato à Presidência do Brasil.

Depois da eleição, Machado de Moura foi nomeado para exercer o cargo de assessor no gabinete adjunto de informações do gabinete pessoal do Presidente e, pouco depois, foi nomeado assessor especial, cargo integrado no gabinete pessoal de Jair Bolsonaro.

A intenção era colar Flávio e Jair Bolsonaro, assim como Fabrício Queiroz, alvo de investigações do Ministério Público, a um militar acusado de tráfico de droga, mas essa informação também era falsa.

A referência ao dinheiro das construtoras, na legenda da publicação, remete para os mega casos de corrupção que envolvem o poder político no Brasil, como a Operação Lava Jato, que levou à prisão empresários poderosos, como o herdeiro da construtora Odebrecht, ex-funcionários de topo da Petrobras, e pesos pesados do poder político como o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, ou o ex-presidente da República Lula da Silva. No topo da investigação desta operação estava o juiz Sérgio Moro, que se tornou depois ministro da Justiça de Bolsonaro, embora se tenha demitido recentemente em confronto com o Presidente por alegada interferência na Polícia Federal.

Conclusão

Mesmo que a intenção da imagem seja, através da sátira, dar a entender que, ao contrário dos políticos do PT (partido trabalhista, de Lula da Silva), os atuais políticos brasileiros “não desviam dinheiro para construtoras” mas sim para eles próprios, a verdade é que se trata de uma manipulação de imagem, sendo por isso falsa. Os maços de notas foram colocados em cima da mesa através de edição de imagem, sendo que a versão original daquela mesma fotografia já tinha sido, em 2019, alvo de outras notícias falsas.

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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