A 4 de maio surgiu uma publicação de Facebook que, através de uma tabela, dava conta dos números de mortes por um milhão de pessoas, na sequência da Covid-19, apresentando a seguinte conclusão: os media consideraram como casos de sucesso países como Espanha, Itália, Alemanha, Bélgica ou Holanda, e, pelo contrário, consideraram os Estados Unidos da América e Brasil como tragédias. O problema é que os números de mortes retratados na tabela dizerem respeito a um dia específico apenas, sendo que todos os dados sobre a pandemia vão sendo atualizados diariamente. Por isso, esta publicação é enganadora.

Publicação teve mais de 750 partilhas

Segundo a plataforma WorldMeters, que analisa os dados da pandemia em todo o mundo, os números relativos às mortes naqueles países — às 10 horas de dia 4 de maio — estão parcialmente corretos, contendo imprecisões. Se avaliarmos todo esse dia, encontramos números diferentes, mas a publicação escolheu uma hora específica. Mas mesmo que os números da tabela estivessem corretos, não deixa de ser enganador olhar para os números de um dia específico e dizer que os media concluíram que um determinado país foi um exemplo no combate ao novo coronavírus e outros não. Isto porque, com a evolução rápida do surto, a perceção sobre cada país pode mudar rapidamente.

Outro dos argumentos rapidamente desmontáveis é o de que um país, num determinado dia, pode ter mais sucesso do que outro. Até porque cada país tem a sua geografia própria, população, grupos de risco, políticas de saúde pública, fases da evolução do vírus e sistemas políticos diferentes. Por exemplo, os Estados Unidos da América, que contam à data desta terça-feira com 87.653 mortes — sendo o país com mais mortes no mundo –, no dia 4 de maio, contavam com 69.921 mil mortos.

No dia anterior, a 3 de maio, tinham registado 68.597 mortos, ou seja, mais 1056 mortes. Agora, olhando novamente para a publicação, como vemos na imagem, percebe-se que a proporção de mortos por um milhão de habitantes (183) neste país, às 10 horas da manhã, foi uma das mais baixas daquele dia, ao lado do Brasil (33). Espanha — o quarto país com o maior número de mortes até agora –, por outro lado, aparece nesta publicação como um caso de sucesso por parte dos media, e registava naquela data um total de 25.428 mortes. No dia anterior tinha registado 25.264 mortes, mais 164 — um número bastante inferior ao registado nos EUA.

Mas recorrendo apenas à proporção citada pela publicação, é natural que a proporção norte-americana pareça inferior por estarmos a falar de uma população com mais de 60 milhões de pessoas. Olhando só para o número total de mortes, é óbvio que os EUA registaram mais mortes do que Espanha. Os parâmetros de análise são diferentes.

Depois, o post não especifica a que tipo de media se refere, nem fundamenta com os devidos exemplos a que órgãos de comunicação social se refere. O autor da publicação diz que os média consideraram que Bélgica, Espanha, Itália, França, Reino Unido, Holanda, Suécia, Irlanda, Portugal e Alemanha foram, à data de 4 de maio, casos de sucesso. Esta conclusão não é verdadeira.

Basta fazer uma busca rápida por notícias sobre os dois países que causaram maior preocupação no início do surto da Covid-19 na Europa: Espanha e Itália. Por exemplo, a 10 de março, o Observador publicou a seguinte notícia: “Em Itália, os hospitais estão à beira do colapso – e os médicos têm de escolher quem podem tratar”.  Dez dias depois, o jornal Público publicava o seguinte artigo: “Coronavírus em Itália e Espanha: decidir entre quem salvar e quem deixar morrer” .

No mês seguinte, a 28 de abril, a RTP publicava a seguinte notícia sobre a ineficácia do país na contagem dos mortos: “Covid-19. Espanha incapaz de contar vítimas mortais” . Um dia depois, agora sobre o Reino Unido, o Expresso noticiava, citando a agência Lusa, o seguinte: “Reino Unido é o país europeu com o segundo maior número de mortes”. No mesmo sentido,  o jornal Expresso noticiava a 8 de abril o seguinte: “Governo sem chefe e em gestão por tempo indeterminado… Valha a tradição da responsabilidade coletiva”, durante a altura em que o primeiro-ministro Boris Johnson esteve internado, por infeção com o novo coronavírus.

E, por último, a Rádio Renascença, a 17 de março, dava conta da inversão na estratégia do combate à pandemia por parte dos britânicos — a chamada “imunidade de grupo” — porque os números de inftados não paravam de aumentar. Neste momento, o Reino Unido é o segundo país que regista um maior número de mortos: 33.998.

Em nenhum destes exemplos é visível uma análise positiva sobre qualquer um dos três países, deitando por terra a ideia de que os média portugueses determinaram, em uníssono, o sucesso dos dez países referenciados na publicação do Facebook. E tendo em conta que existem diversos títulos editoriais é prematuro e enganoso dizer que determinado país foi considerado um sucesso por todos os jornais, televisões e rádios.

Convém, por último, olhar para os EUA e para o Brasil do ponto de vista dos média portugueses. O grande foco mediático, além do número de infetados e das estratégias adotadas, tem sido as declarações dos presidentes destes dois países, que causam impacto também na Europa, por terem sido citados a desvalorizar o perigo da pandemia.

Por exemplo, a 29 de abril, o Observador dava conta de uma das declarações de Jair Bolsonaro que causou mais polémica: “Lamento, mas quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres”. O presidente brasileiro disse isto no dia em que o seu país ultrapassou a China no número total de mortos (474 óbitos em 24 horas). Já o Diário de Notícias, a 22 de abril, dava conta das valas comuns que estavam a ser abertas em Manaus, capital do estado do Amazonas, por causa do aumento do número de infetados e para se prevenir a propagação do vírus. Um mês antes, Bolsonaro tinha dito que a pandemia não passava de um “resfriadinho”, como citado pela RTP1.

Em relação aos norte-americanos, também têm sido diariamente reportadas as declarações de Donald Trump, como aquela onde sugeria a hipótese de se estudar a injeção de desinfetante nos seres humanos para combater a Covid-19, como noticiado aqui pela revista Sábado, a 24 de abril. Outra das notícias que fez eco em Portugal, e que surgiu de vários órgãos de comunicação social norte-americanos como a ABC News ou o New York Times, dava conta do suposto aviso dado a Trump por parte de serviços secretos norte-americanos, em novembro de 2019, que demonstrava preocupações com um possível vírus na China. Mas não é o mesmo que dizer que os media dizem que os EUA são uma tragédia, embora os EUA sejam o país no topo da tabela em número absoluto de vítimas mortais.

Conclusão

A 4 de maio surgiu uma publicação no Facebook que dava conta do seguinte: os media tinham declarado países como Espanha, Itália, Suécia ou Portugal como casos de sucesso e os Estados Unidos da América e o Brasil como tragédias. Esta publicação, para além de não ter qualquer fundamentação no que diz respeito a que tipo de media se refere, tem, como base, o número de mortos por milhão de habitantes, numa determinada data — demonstrando que nessa data estes dois últimos países tinham registado o menor número de mortos por milhão de habitantes. Sendo que cada país tem a sua geografia, população e fase de evolução do vírus, e que só agora é que os diferentes governos decidiram desconfinar a sua população, é prematuro dizer qual o país que teve maior sucesso no combate ao novo coronavírus. Se olharmos para uma determinada data, é óbvio que determinado país poderá ter um desaceleramento no número de mortos mas se, por outro lado, olharmos para os dados absolutos até agora, os Estados Unidos da América é o país número 1 no número de mortes.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

IFCN Badge