O médico e virologista Luc Montagnier foi laureado com o Nobel da Medicina em 2008 pela pesquisa sobre o HIV, e é por isso uma figura distinta entre os especialistas, não sendo estranho que a sua opinião tenha sido, por diversas vezes, procurada durante a pandemia.

Na publicação em análise pode ler-se que o virologista “afirmou sem rodeios” que “não há esperança e nenhum tratamento possível para aqueles que já foram vacinados e que “devemos estar preparados para cremar os corpos”, e terá dito também que “todos morrerão dentro de dois anos”.

É verdade que o médico deu uma polémica entrevista à página “RAIR Foundation USA”, em que disse acreditar que a vacinação está a gerar as novas variantes da Covid-19, entre outras afirmações que suscitam dúvidas entre os especialistas. Além disso, admitiu que não concorda com o desenrolar da vacinação durante a pandemia e falou nesse processo como um “erro inaceitável” que está a ser cometido pelos países.

Só que Luc Montagnier nunca disse que os vacinados estariam condenados à morte nem mencionou esse suposto prazo de dois anos. A polémica entrevista de onde teriam saído essas declarações foi publicada a 18 de maio e vinha acompanhada de um vídeo. Além de não encontrarmos essas afirmações, também vale a pena dizer que a própria publicação fez um desmentido quando começou a circular informação enganadora relativamente à entrevista. “O Prémio Nobel não disse tal coisa”, garantem os responsáveis deste site norte-americano.

Já quanto a conteúdo que de facto se encontra no vídeo da entrevista, o Observador procurou a opinião de um especialista na matéria para entender se, como afirma Luc Montagnier, as vacinas contra a Covid-19 podem ajudar a criar novas variantes do vírus. Essa informação é contestada por diversas plataformas de fact-checking e por especialistas internacionais.

O virologista Celso Cunha explica que “as diversas variantes em circulação são consequência de mutações que se fixam no genoma de novas partículas virais infeciosas durante o processo de replicação” e que “as novas partículas virais infetam depois novas células, multiplicam-se e infetam outros organismos”.

De acordo com o especialista ouvido pelo Observador, há duas explicações para o aparecimento de novas mutações do novo coronavírus: “Erros que naturalmente surgem durante a replicação do RNA viral (no caso particular do SARS-CoV-2) e/ou defeitos na reparação ou mesmo ausência de reparação desses erros. Consequentemente, quanto maior for o número de indivíduos infetados e maior o número de vezes que o vírus se replica, também é maior a probabilidade de surgirem esses erros, esses defeitos na reparação e, logicamente, novas mutações e variantes”.

As vacinas podem, neste âmbito, ser parte da solução. “Não protegem contra a infeção, mas ensinam o nosso organismo a melhor lutar contra infeções pelo SARS-Cov-2”, diz Celso Cunha. Até porque, “quanto maior for o número de pessoas vacinadas, menor será também o número de partículas virais circulantes, pois elas são mais rápida e eficazmente eliminadas pelo nosso sistema imunitário. Assim, a probabilidade de surgirem novas mutações e variantes é tão menor quanto maior for o número de pessoas vacinadas, pois haverá menos partículas virais a circular e a replicar-se”.

Além disso, continua o virologista, “quanto mais eficazes forem as vacinas e quanto mais pessoas estiverem vacinadas, também menos frequentemente surgirão novas variantes”. Na prática, destaca o especialista, “o efeito expectável do aumento da vacinação é precisamente o contrário daquele que é ‘propagandeado’, independentemente de a eficácia das vacinas ser de 60% ou 90%. Simplesmente, com vacinas mais eficazes e assumindo que o mesmo número de indivíduos está vacinado, mais rapidamente diminuirá o surgimento de novas variantes”.

Conclusão

O Nobel da Medicina não disse que os vacinados contra a Covid-19 vão morrer “dentro de dois anos”, como alega o post, e essa informação foi prontamente desmentida pela publicação à qual Luc Montagnier deu a polémica entrevista.

Sobre o real conteúdo da conversa, também é preciso clarificar que a literatura científica sugere que não é verdade que sejam as vacinas as responsáveis por criar novas variantes do coronavírus. Pelo contrário, explica o virologista Celso Cunha, quantas mais vacinas forem administradas, menos mutações vão circular.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

IFCN Badge