São vários as intervenções do jornalista da SIC José Gomes Ferreira (JGF) que vão, todas as semanas, parar às redes sociais, quer as do seu programa “Negócios da Semana” quer os comentários de análise que faz no telejornal da estação de televisão do grupo Impresa. Ontem, surgiu um rumor, difundido no Facebook e no Twitter, que argumentava que o programa semanal do jornalista tinha sido suspenso, uma vez que o seu programa não tinha ido para o ar na passada quarta-feira, como é habitual, por volta das 23h00. O autor do post diz ainda o seguinte: “A informação que veio de dentro da SIC, de um jornalista amigo, só posso dizer que o JGF foi chamado para uma reunião e foi pressionado para não ter as intervenções que tinha, não aceitou e disse que não admitia pressões. O sindicato dos jornalistas sabem da reunião e devem lançar uma nota.” Atingiu as 1.5 mil partilhas. Trata-se, no entanto, de uma publicação falsa.

A alegação surge depois de José Gomes Ferreira tecer vários comentários sobre a não recondução de Vítor Caldeira na presidência do Tribunal de Contas, tendo o Governo optado pela nomeação de José Tavares para aquele lugar. Na noite de 5 de outubro, Gomes Ferreira considerou o “assunto gravíssimo” e ligou-o a outros episíodios: a “exclusão” da procuradora Ana Carla Almeida da corrida à Procuradoria Europeia (que vai investigar eventuais fraudes com os fundos europeus); a escolha de Vítor Escária para chefe de gabinete de António Costa (depois de já ter exercido essas funções na governação de José Sócrates e de ter um passado ligado à gestão destes fundos); a eleição do ex-secretário de Estado José Apolinário para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve; e a não recondução de Joana Marques Vidal à frente da Procuradoria-Geral da República.

“Isto assemelha-se, estranhamente, a um tempo em que um senhor, José Sócrates, as duas primeiras coisas que fez quando chegou ao poder foi substituir o Procurador-geral da República, pondo lá o seu amigo Pinto Monteiro, e influenciar a decisão de eleição do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, para que se escolhesse Noronha de Nascimento. A seguir, foi o que se viu. Só ficou a contas com a Justiça quando aqueles senhores deixaram de exercer os cargos. Estamos a reeditar esse tempo? É tempo de o Presidente da República e o primeiro-ministro esclarecerem se querem reeditar esses tempos”, questionava o jornalista no passado dia 5 de outubro.

A publicação que sugere um afastamento de José Gomes Ferreira não faz qualquer referência ao motivo que teria levado o programa “Negócios da Semana” a ser suspenso, mas surge cerca de uma semana depois de estes comentários terem sido feitos na SIC Notícias.

“É tudo mentira. Costumo tirar o programa da grelha quando há assuntos do dia e da véspera muito importantes, como era o caso, por ter sido o dia do recorde do número de novos casos de Covid-19.” O desmentido ao Observador veio do próprio José Gomes Ferreira, que acrescentou ainda que “não houve nenhuma decisão superior de retirar o programa da grelha, nem chamada de atenção, nem reunião, nem qualquer contacto com o Sindicato de Jornalistas”, acrescentou. Ou seja, todos os pontos referidos nos vários posts virais foram desmentidos pelo também director adjunto da SIC.

Tal como o Observador apurou e verificou, nesse dia houve também jogo da seleção nacional. Sendo que, nos dois dias anteriores, e a propósito da apresentação do Orçamento de Estado, José Gomes Ferreira esteve sempre em antena a analisar o documento. Até porque, sendo um programa que depende exclusivamente do jornalista, se o próprio não estiver disponível — quer por estar de férias ou por outro impedimento (por exemplo, de agenda noticiosa, com a informação de um número recorde de novos casos de Covid-19 ou porque joga a seleção nacional) –, o “Negócios da Semana” não é emitido.

Questionado sobre a polémica, o diretor-geral de informação do grupo Impresa, Ricardo Costa, respondeu assim: “Numa altura em que tanta gente mede a febre, talvez seja útil recorrer ao termómetro antes de se escreverem parvoíces no Facebook.” Fica claro que nem José Gomes Ferreira nem os seus superiores confirmam o que é dito nas diversas publicações virais.

Outra das informações que circulava na internet sobre esta suposta suspensão do programa era, precisamente, a possibilidade de já ter sido enviada uma queixa para o Sindicato. Algo que foi também desmentido por aquela entidade ao Observador. Sofia Branco, presidente do Sindicato de Jornalistas, e São José Almeida, do responsável máxima do Conselho Deontológico, garantiram que não tinham recebido qualquer indicação, carta ou queixa referente ao jornalista da SIC.

Conclusão

Não é verdade que José Gomes Ferreira tenha sido suspenso das suas funções, quer de jornalista, comentador ou apresentador do programa “Negócios da Semana”. O próprio desmentiu as informações veiculadas através das redes sociais, que lançaram a suspeita de que o seu programa tinha sido suspenso por pressões superiores e por ser incómodo para o governo. É igualmente mentira que o Sindicato de Jornalistas tenha recebido qualquer queixa sobre este caso, informação que foi confirmada também ao Observador pelo instituto.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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