Uma publicação do Facebook, com data de 20 de fevereiro de 2021 e desde então largamente partilhada, alega que o chalet do Jardim da Estrela, em Lisboa, onde funcionou a creche Froebel, foi completamente destruído quando o que estava previsto era a sua reabilitação.

“E desta forma se vai destruindo o que resta do nosso património municipal. O que seria um trabalho de reabilitação deste chalet (Escola Froebel — Jardim da Estrela) para dar lugar a uma biblioteca, teve como fim a sua total destruição”, lê-se na referida publicação na rede social, ilustrada com duas imagens, de antes e depois do início da intervenção.

Projetado por José Luís Monteiro e Duarte Simões, o chalet foi construído em 1882 para acolher um jardim de infância destinado a aplicar e desenvolver em Portugal o modelo de educação infantil do pedagogo alemão Friedrich Froebel. A escola Froebel, como viria a ser conhecida, foi a primeira creche do País, tendo funcionado durante cerca de 120 anos, recebendo crianças entre os três meses e os três anos de idade.

As imagens da demolição são verdadeiras

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O edifício foi votado ao abandono nos últimos anos até que, no final de janeiro, a Câmara Municipal de Lisboa anunciou que as obras de requalificação começariam no início de fevereiro para, seis meses depois, a antiga creche do Jardim da Estrela dar lugar a uma Biblioteca do Ambiente. Desde logo anunciou que a reabilitação previa a desmontagem de toda a estrutura de madeira, com o reaproveitamento das peças saudáveis e a reformulação integral das fundações.

Foi depois do início das obras que começou a polémica à volta do histórico edifício. O movimento Fórum Cidadania Lx insurgiu-se contra a demolição integral do chalet no fim-de-semana de 20 e 21 de fevereiro. Num protesto e pedido de esclarecimentos à CML, o movimento de cidadãos manifestou a sua “estupefação” e o seu “repúdio veemente pela demolição integral do Chalet Froebel, no Jardim da Estrela, que foi concretizada ontem, conforme se documenta em fotos tiradas no local.”

“A nossa estupefação prende-se com o facto de a CML ter anunciado publicamente que aquele chalet histórico por cuja recuperação e bom uso há anos vimos pugnando, seria alvo, finalmente, de uma operação de conservação e restauro. Por isso, essa notícia foi oportunamente objeto do nosso aplauso, independentemente do uso pretendido — biblioteca ‘verde’ — ser passível de discussão e de, mais uma vez, a CML não ouvir os munícipes para este tipo de projetos”, escreveu o movimento. O Fórum Cidadania Lx mostrou-se estupefacto com a justificação da autarquia de que, “durante as obras de requalificação, verificou-se que cerca de 70% dos materiais de origem não estão em condições de ser restaurados, pois encontram-se comprometidos na sua integridade estrutural. De acordo com o projeto inicial, o material que pode ser reutilizado na reconstrução foi selecionado e guardado, e será utilizado no edifício”.

“Como é possível que se avance com a obra sem haver relatórios prévios sobre o seu estado de conservação?”, perguntou o Fórum Cidadania Lx.

A resposta veio na reunião pública de câmara de 25 de fevereiro, onde o vereador do Ambiente da cidade de Lisboa, José Sá Fernandes, garantiu que a reconstrução da antiga creche “não é um pastiche”, como acusou o Fórum Cidadania Lx, e que até “vai ser um caso exemplar de um edifício em madeira que vai ser construído exatamente da mesma forma”. Sá Fernandes, que foi questionado por Ana Jara, vereadora do PCP, afirmou que “praticamente todos os pilares exteriores estavam irrecuperáveis” , tornando inevitável a demolição do edifício.

No comunicado da câmara onde foi anunciada a obra, de 26 de janeiro, era apenas referida “uma intervenção de conservação e restauro” e “a reformulação integral das fundações”. Mas, segundo José Sá Fernandes, a necessidade de demolição foi atestada por um relatório de 2016 da empresa Spy Building. “Há dois relatórios do mesmo dia. Um que analisa as peças que ainda estão sãs. Depois há outro relatório que analisa as patologias”, afirmou o vereador na reunião de câmara, citado pelo jornal Público, sendo que no segundo relatório está escrito que “78% da totalidade dos pilares exteriores encontram-se degradados”.

Segundo a CML, a reconstrução vai obedecer à conceção original do edifício. “Foi possível desmontar partes inteiras e emblemáticas do edifício. Estas peças, devidamente registadas e inventariadas foram recolhidas para a oficina do carpinteiro subcontratado, onde serão alvo de operação de restauro para posterior utilização na reconstrução do edifício”, informou a CML, num post colocado na sua página de Facebook, garantindo que “o material que pode ser reutilizado na reconstrução foi selecionado e guardado, e será utilizado no edifício”.

Conclusão:

Enganador. A requalificação do chamado chalet Froebel acabou por se transformar, de facto, em demolição, como testemunhou — e protestou — o Fórum Cidadania Lx, com fotos tiradas no local. O motivo, de acordo com a Câmara Municipal, deveu-se ao facto de, durante as obras de requalificação, se ter verificado que cerca de 70% dos materiais de origem não estão em condições de ser restaurados, pois estão “comprometidos na sua integridade estrutural”. O material que pode ser reutilizado na reconstrução foi selecionado e guardado, e será utilizado no edifício.

Assim, desde o início que a autarquia avisou que iria reaproveitar apenas as peças saudáveis. Por outro lado, o post ignora o facto de que no lugar do chalet demolido irá surgir um edifício idêntico ao original e que a demolição total se deveu à falta de integridade do material.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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