Um blogue português escreveu em 2016 sobre o presumível perigo de se consumir salmão de viveiro, alegando tratar-se do “alimento mais tóxico do mundo”, e desde então o texto conheceu inúmeras partilhas no Facebook. “É uma questão de saúde pública. E não há regulador neste mundo que atue em defesa do consumidor”, lê-se no blogue A Arte da Omissão. O autor dos conteúdos é anónimo e costuma escrever em tom de denúncia sobre temas políticos e de saúde.

A principal alegação, puxada para título do referido texto, baseia-se numa frase dita por um ecologista no documentário Filet Oh! Fish, realizado por Nicolas Daniel em 2013 e que a RTP3 exibiu sob o título “Peixe, Criação em Águas Turbulentas”.

Esse ecologista, descrito como “um dos mais respeitados da Noruega”, de seu nome Kurt Oddekalv, “declarou guerra aos criadores de salmão, responsáveis, segundo ele, por uma catástrofe sanitária de grande escala”, ouve-se logo nos primeiros minutos. “O salmão norueguês é o alimento mais tóxico do mundo”, garante Kurt Oddekalv. Em causa está o salmão criado em viveiros, ou seja, aquele que chega ao prato da maior parte das pessoas (o salmão selvagem é escasso e está protegido a nível mundial pela Convenção para a Conservação do Salmão no Atlântico Norte de 1983, que também implica os países da União Europeia).

Um dos posts que partilhou o artigo

O ecologista afirma ainda que num viveiro industrial podem coexistir dois milhões de salmões, uma tal concentração que os faz adoecer, levando “criadores noruegueses” a adotarem “práticas perigosas”, nomeadamente a aplicação de um “pesticida potente conhecido pelos seus efeitos neurotóxicos” com o objetivo de matar parasitas e evitar doenças daqueles animais. “Nos salmões encontra-se ivermectina, diflubenzurão e todo o tipo de produtos químicos”, sustenta o ecologista.

Após a ampla divulgação do documentário, o Conselho Norueguês das Pescas (na dependência do Ministério do Comércio, Indústria e Pescas da Noruega) publicou em 2018 uma nota em tom crítico, alegando não ter havido contraditório, uma vez que representantes dos criadores de salmão não tinham sido ouvidos pelo autor do filme. O Conselho acusou o ecologista Kurt Oddekalv de fazer uma campanha sistemática contra a aquacultura e argumentou que ele não é respeitado por alguns pares de associações ambientalistas. Porém, a mesma entidade admitiu nessa nota que alguns pesticidas legais são mesmo utilizados nos viveiros e que vestígios de pesticidas proibidos na União Europeia podem surgir na carne do salmão por este ser alimentado com vegetais originários de países que ainda autorizam tais pesticidas.

Quanto a antibióticos, foram usados “em 2016 em menos de 0,5% do salmão norueguês” e estão “autorizados pelas autoridades”. “Resultados recentes mostram que o salmão da Noruega é perfeitamente seguro e saudável e pode ser ingerido”, disse o Conselho Norueguês das Pescas. Note-se que a Noruega é um dos principais parceiros de comércio da União Europeia, mas não é um Estado-membro.

Kurt Oddekalv é um ex-militar, fundador da organização Green Warriors of Norway. Num livro sobre ecologia publicado em 2006 por quatro académicos noruegueses, aparece descrito como um ecologista pragmático e mediático, com um “estilo de liderança dominante, o que pode ser considerado inovador” na Noruega.

Independentemente da pessoa em causa, e apesar de ter sido Kurt Oddekalv a utilizar a expressão “alimento mais tóxico do mundo” relativamente ao salmão de aquacultura da Noruega, há fontes que apontam riscos, embora não utilizem uma qualificação tão contundente.

A aquacultura europeia concentra-se fundamentalmente em quatro espécies: mexilhões (39% do volume total), truta (15%), salmão (14%) e ostras (8%), de acordo com dados divulgados pelo Parlamento Europeu. A Noruega produz salmão em viveiro desde o fim da década de 1960 e é hoje o principal exportador em todo o mundo.

Problemas de saúde em peixes de aquacultura estão desde há muito identificados, no salmão em particular. Um artigo do Guardian  denunciou em 2017 a presença de níveis superiores ao normal de químicos em viveiros escoceses. Um professor da Universidade do Havai defendeu recentemente que os viveiros de salmão são “inadvertidamente um local patogénico”, mas afastou a hipótese de este peixe ser tóxico para consumo humano.

A nutricionista Fernanda Martins, citada pela MAGG no ano passado, sustentou que “não há salmão que não esteja contaminado”, uma vez que a alimentação em viveiro é feita de “misturas de vários restos” que levam “hormonas e antibióticos”. De acordo com autoridades de saúde no estado norte-americano de Washington, as “informações disponíveis nos média, na internet e em publicações científicas parecem contraditórias” quanto aos benefícios e malefícios de se comer salmão de viveiro versus salmão selvagem, porém “há consenso entre cientistas e reguladores” no sentido de que ambos são “seguros”. As fontes apresentadas naquele site são todas do início dos anos 2000.

A guerra entre produtores, autoridades públicas, ecologistas e consumidores faz com que os dados disponíveis sejam quase sempre parcelares ou inconclusivos. Ainda assim, muitas vezes é citada a utilização de bifenilos policlorados (PCB), que segundo o Conselho Norueguês das Pescas existem nos salmões de aquacultura em concentrações “seis vezes mais baixas” do que os limites impostos pela União Europeia. Os PCB são possivelmente causadores de cancro, lê-se na site da Harvard Medical School. A exposição dos humanos a substâncias da mesma classe dos PCB “pode aumentar o risco de cancro, causar problemas reprodutivos, alterações no sistema imunitário, malformações” e outros problemas de saúde, informa a Organização Mundial da Saúde, que cita o caso concreto do salmão de viveiro.

Aparentemente, o inseticida avermectina, “muito tóxico para organismos aquáticos” segundo a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, é aplicado no combate a parasitas que afetam o salmão de viveiro no Canadá, na Noruega, no Chile e no Reino Unido. Um artigo recente da revista científica Nature explicava que este inseticida não está autorizado pela autoridade americana do medicamento (Food and Drug Administraton).

Conclusão

Um artigo publicado num blogue português e partilhado ao longo deste ano no Facebook chama a atenção para problemas factuais relativos à qualidade e salubridade do salmão de aquacultura, mas recorre a uma formulação – “o alimento mais tóxico do mundo” – que é atribuível a um ecologista mas não surge corroborada por outras fontes. No caso do salmão de viveiro da Noruega, não se encontram dados conclusivos. Embora as autoridades locais admitam a utilização de químicos tóxicos, alegam que os níveis de toxicidade do peixe ficam abaixo dos limites legais. Porque se trata apenas de verificar a afirmação “o alimento mais tóxico do mundo”, esta deve ser considerada excessiva, à luz dos dados disponíveis.

Assim, segundo o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

Enganador

De acordo com o sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

MISTO: as alegações do conteúdo são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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