O facto de o novo coronavírus, que está a afetar milhares de pessoas em todo o mundo, estar associado a um elevado grau de incerteza tem feito com que a desinformação em torno desta doença tenha galopado. Esta semana, vários foram os utilizadores de Facebook que partilharam um suposto aviso da Unicef com “informações importantes” sobre este novo vírus e formas de evitar a contaminação. Um desses avisos dizia que se deve “evitar comer gelados ou pratos frios; os alimentos quentes são mais seguros, visto que o calor elimina o vírus”. Nenhum dado é verdadeiro, e a própria Unicef já desmentiu a autoria do aviso, num comunicado divulgado no passado dia 6 de março e reiterado esta segunda-feira no Twitter pela Unicef Portugal.

Publicação de 7 de março com falso comunicado da Unicef

No aviso, podem ler-se recomendações como: “o novo coronavírus é maior do que o normal; o diâmetro da célula é de 400 a 500 mícrons e, por esse motivo, qualquer máscara impede a sua entrada no organismo”; “o vírus não se propaga no ar”; “o coronavírus, quando cai sobre uma superfície de metal, permanece vivo durante 12 horas”; “lavar as mãos com água e sabão é suficiente para o destruir”, ou “quando cai sobre num tecido, permanece vivo durante 9 horas, portanto, lavar a roupa ou colocá-la ao sol durante 2 horas será suficiente para o eliminar”.

Outra das supostas “informações importantes” veiculadas supostamente pela Unicef diz ainda que “o vírus exposto a uma temperatura de 26 a 27 °C morre”, pelo que se deve “evitar comer gelados ou pratos frios; os alimentos quentes são mais seguros, visto que o calor elimina o vírus”. Depois de uma enumeração mais ou menos exaustiva, a publicação termina com a conclusão de que basta seguir estes conselhos que consegue evitar ficar infetado com o vírus que está a propagar-se por todo o mundo.

Segundo dados do Facebook, esta publicação em particular teve mais de quatro mil visualizações nas últimas 24 horas e mais de 700 partilhas. Outra publicação (em baixo, na imagem) com o mesmo aviso falso da Unicef teve mais de 21 mil visualizações só este domingo e mais de 650 partilhas.

Aviso falso da Unicef voltou a ser partilhado este domingo por outra utilizadora em Portugal

O aviso, contudo, é totalmente falso e já foi desmentido pela própria Unicef de várias formas e em várias línguas. Na passada sexta-feira, dia 6 de março, na sequência da proliferação de publicações como estas em várias línguas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância divulgou um comunicado oficial na sua página de internet, a nível internacional, a dar conta de que “uma mensagem que se encontra a circular online em várias línguas a recomendar, entre outras coisas, que se evite o consumo de gelados e comidas frias para prevenir a propagação da doença é totalmente mentira”.

Nesse comunicado, a Unicef pedia mesmo aos “criadores de tamanha falsidade” que parassem de propagar “informação falsa” sobretudo sob o nome de “entidades que estão em posição de transmitir confiança” como é o caso da Unicef: “é perigoso e é errado”.

Já esta segunda-feira, perante a constatação de que a mesma publicação continuava a ser partilhada em língua portuguesa, foi a própria Unicef Portugal que se viu obrigada a desmentir a autoria daquele aviso no Twitter.

A par do desmentido, a organização portuguesa da Unicef acrescentou ainda que, uma vez que “a desinformação durante uma crise de saúde pode levar à paranóia, ao medo e à estigmatização, tornando as pessoas mais desprotegidas e vulneráveis”, está a trabalhar em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, e com entidades governamentais e parceiros online como o Facebook, Instagram, LinkedIn e TikTok para “garantir que a informação disponibilizada é fidedigna, e para alertar para situações em que surgem informações falsas como é o caso desta mensagem que está a circular online”.

Conclusão

É falso que a Unicef tenha aconselhado a não comer gelados e pratos frios por causa do coronavírus, tal como é falso que o aviso que circula nas redes sociais com esta e outras medidas de prevenção contra o novo vírus seja da autoria da Unicef. A própria organização internacional dos direitos das crianças já desmentiu a autoria da publicação e condenou duramente a divulgação de informações falsas sobre uma doença da qual ainda se conhece pouco.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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