Há uma publicação viral a circular no Facebook que diz que quem é vacinado contra a gripe tem um risco mais elevado de contrair o novo coronavírus. Apesar de este post até citar um estudo, é totalmente falso que a vacina contra a gripe aumente o risco de infeção pelo novo coronavírus. O documento referido existe mas é retirado do contexto.

O estudo desenvolve um conceito conhecido como “interferência viral”, o que significa que a “vacinação para a influenza [vírus que causa a gripe] pode aumentar o risco de outros vírus respiratórios”. No entanto, o estudo da Armed Forces Health Surveillance Branch, nos Estados Unidos, foi desenvolvido entre 2017 e 2018, muito antes de surgirem os primeiros casos de Covid-19. Além disso, analisou quatro estirpes sazonais de coronavírus, nunca o SARS-CoV-2 (aquele que proovoca a Covid-19), e nenhuma delas “tem potencial para se propagar como uma epidemia ou pandemia”, clarificou a entidade responsável pelo trabalho ao site “FactCheck.org” .

Uma das publicações que refere que a vacina contra a gripe aumenta o risco de infeção do novo coronavírus

“O estudo não mostra ou sugere que a vacina da influenza tem de forma alguma uma predisposição para potenciar uma infeção com as formas mais graves de coronavírus, como a Covid-19”, diz o excerto. Acrescenta, aliás, que é “essencial que as pessoas continuem a vacinar-se todos os anos contra a gripe, assim que a vacina fica disponível”.

A ideia defendida no post viral não é nova. Numa publicação semelhante , em inglês, é citado um primeiro estudo, de 2017, que diz que quem opta pela vacina da gripe fica mais vulnerável durante qualquer pandemia. Numa imagem capturada de um ecrã, há um tópico destacado que garante: “As pessoas que tomam vacinas da gripe serão as primeiras a morrer numa pandemia global, porque ficaram vulneráveis a infeções”.

Esta suposta profecia não faz sentido. A Organização Mundial da Saúde e diversos epidemiologistas afirmam que a vacina da gripe reforça o sistema imunitário. Segundo o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), a vacina reduz entre 40% e 60% o risco de desenvolver uma gripe . “A vacina desencadeia uma resposta muito específica aos tipos de vírus por ela cobertos”, explicou Catherine Bennett, coordenadora do departamento de epidemiologia na universidade australiana de Deakin, à agência AFP .

O tratamento não é capaz de eliminar outras ameaças — como o novo coronavírus — mas, garante a especialista, “a vacina não enfraquece o sistema imunitário ou altera o risco dos recetores de contraírem outras infeções”.

Também de acordo com a Direção Geral da Saúde não há ligação entre as duas doenças . “A COVID-19 é causada por um novo vírus que se designa SARS-CoV-2 e a gripe é causada pelo vírus influenza que circula na população há muitas centenas de anos. Ao contrário da gripe, para a COVID-19 a população mundial não apresenta qualquer tipo de anticorpos protetores ou imunidade. Desta forma, toda a população é suscetível à doença. Enquanto que para a gripe existe uma vacina e antivirais específicos para o tratamento, para a COVID-19 ainda se encontram em desenvolvimento”.

A vacinação contra a gripe não vai evitar que uma pessoa tenha o novo coronavírus. Porém, quem não está vacinado tem mais probabilidades de ter gripe e esta pode “enfraquecer significativamente o estado geral de saúde de alguém e torná-lo suscetível a complicações, caso tenham o azar de contrair gripe e Covid-19 no mesmo ano”, indicou o epidemiologista e professor na Universidade do Massachusetts ao “FactCheck.Org”.

Conclusão

A vacina contra a gripe não aumenta o risco de alguém contrair o novo coronavírus. Aliás, esta reforça o sistema imunitário. Isto também não quer dizer que a vacina ajude a travar a Covid-19 — até agora, não há dados que indiquem uma relação entre a gripe sazonal e a pandemia atual. O estudo citado na publicação do Facebook existe mas analisou quatro outras estirpes de coronavírus. Foi realizado entre 2017 e 2018, muito antes de surgirem os primeiros casos do novo vírus.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1 : este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associadas a reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

IFCN Badge