A 3 de maio surgiu uma publicação no Facebook com um vídeo, com um suposto polícia federal brasileiro a desenterrar um caixão “com pedras onde estaria um morto por Covid-19” no estado do Amazonas, no Brasil. Esse vídeo chegou às 969 mil visualizações e teve 30 mil partilhas. No entanto, contém informação falsa.

O vídeo teve, só com esta publicação, mais de 10 mil partilhas

De facto, olhando para o vídeo, é possível ver um conjunto de pessoas próxima de um caixão, enquanto um homem mostra um caixão vazio, sem qualquer cadáver lá dentro. Por um lado, não contém a data em que foi filmado, por outro, no canto inferior direito, contém o logo “G1”,  que pertence à Globo. Ou seja, à primeira vista, não é possível dizer que se trata de um vídeo atual, nem que se refere a alguém vítima de infeção por Covid-19. Não deixa de ser curioso que esta publicação surja numa altura em naquela região brasileira surgiram notícias da abertura de valas comuns para enterrar mortos infetados com esta doença.

Alguns sites de fact checks no Brasil já vieram desmentir esta publicação, até porque o mesmo conteúdo tinha já sido partilhado, mas só em fotografia. Trata-se, portanto, de imagens que remontam a maio de 2017, fruto de uma investigação sobre uma fraude de seguro de vida no município de São Carlos, em São Paulo, como conta a Associated Press, que tem uma secção dedicada a desmentir notícias falsas, a “Checamos”. Através da busca pela origem do frame (imagem retirada de um vídeo) do vídeo, este site percebeu que, de facto, as imagens tinham já três anos desde a sua publicação, mas nem sequer tinham sido feitas no Amazonas. Olhando para o vídeo da Globo e para o vídeo da publicação inicial, é possível perceber que se trata do mesmo, nem que seja analisando os homens presentes no desenterro do caixão, que são os mesmos em ambos os vídeos.

A 20 de maio de 2017 o vídeo foi publicado no G1

A investigação daquele órgão de comunicação social brasileiro descobriu o tal esquema fraudulento, envolvendo quatro pessoas, para obter o dinheiro do seguro de vida. Os suspeitos teriam usado o nome — e os documentos — de uma mulher de Matão para simular a sua morte — porque a mulher, na altura, estaria viva. Ao contrário do vídeo inicial, as imagens são creditadas ao fotógrafo Fábio Rodrigues do G1, que acabou por confirmar a autoria à AFP. “As fotografias e o vídeo fui eu que fiz. Eu estava lá no momento em que o delegado mandou abrir o caixão”, afirmou à agência de notícias. Quanto ao vídeo citado pertence à Polícia Civil daquela região, como garantido pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo ao “Checamos”. Esta situação acabou por ser também reportada pelo portal UOL nesse ano.

Olhando para a página oficial da Polícia Federal também não é possível encontrar resultados de operações no Amazonas sobre supostos caixões enterrados sem corpos , algo confirmado tanto pelo Observador como pelo “Checamos”.  É também necessário dizer que a Agência Lupa também verificou esta publicação, bem como outras semelhantes, declarando-as como falsas.

Conclusão

A 3 de maio surgiu uma publicação no Facebook com um vídeo, com um suposto polícia federal brasileiro a desenterrar um caixão “com pedras onde estaria um morto por Covid-19” no estado do Amazonas, no Brasil. Mas é falso que assim seja: o vídeo remonta a 2017 e diz respeito a um suposto esquema fraudulento em São Carlos, no Estado de São Paulo, onde quatro pessoas terão usado os documentos de uma mulher para simular  a sua vida, apesar de estar viva. Esse esquema foi contado por alguns meios de comunicação social do Brasil, como a Globo ou o UOL Notícias. Já a publicação foi desmentida pelo “Checamos”, secção de fact check da AFP. Não é por isso verdade que se trate de uma situação atual, nem que tenham sido falseados enterros de mortos por infeção da Covid-19.

De acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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