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Mapa interativo do eclipse: saiba o que vai ver onde estiver e leia 14 perguntas e respostas sobre o que precisa de saber para quarta-feira

Um mapa interativo diz-lhe o que pode ver, a que horas e de que forma no local onde vai estar amanhã. É só pesquisar. Para todas as outras dúvidas, tem mais 14 perguntas e respostas.

Texto
Filomena Martins
Webdesign / programação
Mauro Mangas

Se perguntar a alguém quanto dura o eclipse solar de 12 de agosto, é muito provável que ouça a mesma resposta: 26 segundos. Se perguntar onde poderá ser visto, ouvirá muitas vezes outra: Bragança. As duas afirmações têm um fundo de verdade. Mas nenhuma conta a história toda.

Na tarde de 12 de agosto, Portugal vai assistir ao primeiro eclipse solar total visível no continente desde 1912. Durante cerca de duas horas, a Lua atravessará lentamente o disco solar e esconderá o Sol em todo o país. Apenas uma estreita faixa do nordeste transmontano ficará dentro da sombra mais escura da Lua, onde o Sol desaparecerá completamente durante alguns segundos. Em todo o restante território, o eclipse será parcial, mas suficientemente profundo para transformar um fim de tarde comum numa experiência que a maioria dos portugueses nunca viveu.

A luz vai mudar. As sombras também. O ambiente tornar-se-á progressivamente mais estranho à medida que o Sol se transforma num crescente cada vez mais fino antes de iniciar o ocaso. E, porque tudo acontece ao final da tarde, haverá ainda um ingrediente pouco habitual: o eclipse coincide com o pôr do sol, oferecendo um cenário raro mesmo para quem já assistiu a outros fenómenos semelhantes.

É por isso que este não é um acontecimento reservado a quem conseguir chegar à zona da totalidade. Milhões de pessoas poderão observar um dos eclipses mais profundos de sempre em Portugal, com mais de 90% do Sol ocultado em praticamente todo o continente. A diferença entre ver 94%, 96% ou 98% do disco solar será muito menor do que muitos imaginam. O essencial será escolher bem o local e saber o que esperar.

Este guia reúne tudo o que precisa de ter em conta antes de olhar para o céu: o que pode ver e a que horas no local onde está (no mapa interativo em cima) onde observar o eclipse, se vale a pena viajar, como escolher o melhor local, o que realmente vai acontecer durante aquelas quase duas horas, como o fazer em segurança e o que dizem as previsões meteorológicas para um dos acontecimentos astronómicos mais importantes das próximas décadas.

1. O que vai acontecer onde eu estou?

O eclipse será diferente consoante o local onde estiver. Mudam as horas a que começa e termina, a percentagem do Sol escondida pela Lua e até a altura a que o Sol estará sobre o horizonte no momento de maior ocultação.

Para responder a essas diferenças, o Observador preparou um mapa interativo onde basta selecionar o concelho ou o distrito para conhecer, de imediato:

  • a hora a que o eclipse começa;
  • a hora do máximo;
  • a hora a que termina;
  • a percentagem máxima de ocultação do Sol;
  • a posição e a altura do Sol no céu durante o fenómeno.

É a forma mais simples de responder à pergunta que quase toda a gente faz: como será o eclipse exatamente onde eu estiver?

Depois de descobrir o que vai acontecer no seu concelho, há outras decisões a tomar. Vale a pena deslocar-se? Que tipo de horizonte deve procurar? Será preferível o litoral ou o interior? E faz realmente sentido percorrer centenas de quilómetros para ir ao local onde posso ver o eclipse completo apenas alguns segundos?

2. Quais os melhores locais para ver o eclipse?

Resposta rápida: Em qualquer local onde saiba que consegue ver o pôr do sol.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a melhor resposta não depende apenas da percentagem do Sol que ficará escondida pela Lua.



Assim, total, serão apenas 26 segundos e só num pequeno recanto de Bragança

Neste eclipse, o fator decisivo será o horizonte. Como o máximo do eclipse (por volta das 19h30) acontece já perto do pôr do sol, basta uma serra, um edifício, uma linha de árvores ou qualquer outro obstáculo voltado a oeste para esconder precisamente os minutos mais interessantes do fenómeno.

É por isso que um local com 95% de ocultação e horizonte completamente livre pode proporcionar uma experiência muito melhor do que outro onde a percentagem seja ligeiramente superior, mas o Sol desapareça atrás do relevo antes do momento de maior ocultação.

Quem procura o melhor compromisso entre acessibilidade, paisagem e condições de observação encontrará excelentes opções ao longo da costa atlântica.

Se o céu colaborar, e para já as previsões apontam nesse sentido, praticamente todo o país terá condições para acompanhar um eclipse muito profundo. A diferença estará sobretudo no horizonte. Como o máximo acontece já perto do pôr do sol, os melhores locais são aqueles que oferecem uma vista completamente desimpedida para oeste. Estas são algumas das melhores opções por região.

Um bom resumo:

Norte

  • Rio de Onor e Guadramil (Bragança) — os únicos locais portugueses dentro da faixa da totalidade, onde o Sol desaparecerá completamente durante cerca de 26 segundos. O acesso foi condicionado devido ao risco muito elevado de incêndio, mas quem já estiver nestas aldeias poderá assistir à experiência completa.
  • Aeródromo Municipal de Bragança — principal centro oficial de observação, preparado para receber milhares de visitantes depois da transferência das iniciativas inicialmente previstas para Rio de Onor e Guadramil.
  • Moledo, Afife, Cabedelo e Esposende — boas opções no litoral graças ao horizonte completamente aberto sobre o Atlântico.
  • Miradouros do Douro e planaltos transmontanos — boas escolhas, desde que não existam serras ou outros relevos a esconder o horizonte poente.
  • Torre dos Clérigos — se o deixarem subir.

Centro

  • Peniche — provavelmente um dos melhores locais do país fora da zona da totalidade, com vista aberta sobre o Atlântico e as Berlengas.
  • Baleal — outra excelente alternativa, com horizonte completamente livre.
  • Nazaré — sobretudo nas zonas altas voltadas para o mar.
  • Figueira da Foz e Cabo Mondego — muito boas condições para acompanhar o eclipse até ao pôr do sol.
  • Serra da Estrela — claro, lá bem no alto, à espera do Sol pôr-se lá bem longe.

Há outras serras, com os baloiços da moda, com ótima visibilidade para o horizonte, que serão ideais para este eclipse.

Lisboa e Vale do Tejo

  • Cabo da Roca — deverá ser um dos locais mais procurados do país, é a zona mais ocidental da Europa, onde há sempre gente para ver o pôr do sol.
  • Sintra. Há várias zonas da serra, com vista desimpedida para a costa.
  • Ericeira. O mesmo é válido para as praias de Sintra, depois para a Ericeira, Torres Vedras e por aí acima até Coimbra.
  • Guincho e Cabo Raso, Carcavelos — excelentes alternativas, igualmente voltadas para o Atlântico, sendo que em Carcavelos, apesar do areal, é preciso olhar para o lado de Cascais.
  • Praia do Meco, Troia, Comporta, Carvalhal, Melides e Cabo Espichel — todos estes locais têm boas condições para observar o eclipse sobre o mar.

Alentejo

  • Alqueva — horizonte amplo e céu habitualmente limpo.
  • Marvão e Serra de São Mamede — boas opções, desde que o relevo não esconda o Sol.
  • Planícies do Alentejo Central — uma das regiões portuguesas com menos obstáculos naturais no horizonte.
  • Milfontes, Porto Covo e toda a costa vicentina — praias com vista desimpedida, altas, com locais perfeitos para assistir ao fenómeno.

Algarve

O Algarve merece uma nota à parte. O Sol vai pôr-se praticamente sobre o oceano, o que poderá proporcionar algumas das imagens mais fortes do eclipse. Em contrapartida, é também uma das regiões onde poderão surgir com maior facilidade brumas marítimas ou nuvens baixas junto ao horizonte. Mas há zonas que dão mais garantias.

  • Sagres
  • Cabo de São Vicente
  • Costa Vicentina
  • Praias do barlavento algarvio
  • Serra de Monchique

Continuam, ainda assim, a ser algumas das melhores escolhas para acompanhar o fenómeno.

3. Como escolher um bom local?

Escolher o melhor local para observar este eclipse não significa procurar o ponto mais alto da região onde está nem conduzir até ao sítio onde a percentagem de ocultação é ligeiramente superior. Neste caso, há um fator que vale mais do que todos os outros: conseguir ver o horizonte poente sem qualquer obstáculo.

Ao contrário da maioria dos eclipses totais, o de 12 de agosto atinge, repita-se, o máximo já muito perto do pôr do sol. Isso significa que uma serra, um edifício, uma linha de árvores ou até uma pequena elevação podem esconder precisamente os minutos mais interessantes do fenómeno.

Um local com uma vista completamente aberta para oeste proporcionará quase sempre uma experiência melhor do que outro onde o Sol desapareça atrás do relevo antes de atingir a maior ocultação.

Ir confirmar a sua escolha na véspera ou já neste fim de semana pode resolver algumas irritações ou mesmo desilusões no próprio dia.

Antes de sair de casa, vale a pena confirmar alguns aspetos simples:

  • Escolha um horizonte completamente aberto para oeste. Praias, cabos, planícies ou miradouros voltados para o Atlântico são, em regra, excelentes opções.
  • Chegue com antecedência. Os locais mais procurados poderão receber milhares de pessoas e o trânsito deverá intensificar-se nas horas que antecedem o eclipse.
  • Leve óculos certificados para observação solar. Mesmo quando grande parte do Sol estiver escondida, continuará a ser indispensável proteger os olhos durante todas as fases parciais do fenómeno.
  • Consulte a previsão meteorológica mais atualizada. Num eclipse que acontece praticamente ao pôr do sol, uma estreita faixa de nuvens baixas no horizonte pode fazer toda a diferença.

Deve também pensar no conforto. O eclipse desenrola-se lentamente e vale a pena acompanhá-lo desde o primeiro contacto entre a Lua e o Sol (18h30) até ao momento em que o disco solar recupera totalmente a sua forma habitual (20h30, mas dificilmente o veremos já). Água, proteção contra o calor, um chapéu e um local onde possa permanecer algum tempo sem pressa tornam a experiência muito mais agradável do que chegar apenas nos minutos finais.

4. Vale a pena viajar?

Depende da experiência que procura. Se o objetivo é assistir a um eclipse muito profundo, a resposta é, na maioria dos casos, não. Em Lisboa, Porto, Coimbra, Castelo Branco, Évora, Faro e praticamente todo o restante território continental, a Lua esconderá mais de 90% do disco solar. Será um fenómeno suficientemente impressionante para justificar sair de casa e reservar duas horas para o acompanhar, mas talvez não mereça viagens de centenas de quilómetros.

A viagem só faz verdadeiramente sentido para quem pretende viver uma experiência impossível de reproduzir no resto do país: a totalidade. Apenas dentro de uma estreita faixa do nordeste transmontano o Sol desaparecerá completamente durante breves instantes, revelando fenómenos que nunca são visíveis durante um eclipse parcial, por mais profundo que este seja.



Juntam-se dois espetáculos: o eclipse com o pôr do sol

Ainda assim, importa colocar esses segundos em perspetiva. Quem viajar centenas de quilómetros para assistir à totalidade do eclipse viverá exatamente o mesmo eclipse que o restante país durante quase duas horas. A diferença concentra-se apenas no instante em que o último fragmento do Sol desaparece.

E o mesmo é válido se decidir ir para a grande faixa espanhola onde o eclipse atinge os 100%. Ou para a Islândia. Mas pode sempre conciliar o eclipse com uma viagem.

5. Que cuidados devo ter com telemóveis, máquinas fotográficas e binóculos?

Se olhar diretamente para o Sol sem proteção já é perigoso, fazê-lo através de um instrumento ótico multiplica esse risco.

Binóculos, prismáticos, telescópios ou teleobjetivas concentram a luz solar numa área muito pequena, aumentando drasticamente a energia que chega ao olho. Nunca devem ser utilizados sem filtros solares próprios, colocados à frente da objetiva, e nunca junto da ocular. Um filtro mal colocado pode partir-se devido ao calor concentrado e provocar lesões imediatas.

Quem não estiver habituado a utilizar este tipo de equipamento deve privilegiar as observações organizadas por observatórios, centros Ciência Viva ou associações de astronomia, onde o material é preparado por pessoas com experiência.

Vale a pena fotografar o eclipse?

É uma das perguntas mais frequentes. E a resposta é simples: sim. Mas tem de se preparar antes. O eclipse vai decorrer ao final da tarde e evoluir lentamente. Não será um fenómeno que aparece de repente e desaparece logo a seguir. Haverá tempo para fotografar, ajustar o enquadramento e experimentar diferentes composições. O pior que pode acontecer é perder esses minutos preciosos a tentar perceber como funcionam os aparelhos.

Mas a primeira decisão deve ser esta: quer fotografar o eclipse ou quer viver o eclipse? As duas coisas são compatíveis. Mas quem passar quase duas horas exclusivamente preocupado com a melhor foto corre o risco de regressar a casa com boas fotografias e poucas memórias do próprio fenómeno.

  • Telemóvel

Os telemóveis atuais conseguem produzir imagens surpreendentemente boas em muitas situações, mas um eclipse solar continua a ser um enorme desafio. Sem um filtro solar apropriado, o disco do Sol ficará normalmente sobre-exposto, transformando-se numa mancha branca sem detalhe. Além disso, os sensores das câmaras e os sistemas automáticos de exposição têm dificuldade em lidar com um objeto tão brilhante sobre um céu relativamente escuro.

Ainda assim, há formas de melhorar bastante o resultado. Utilizar um tripé, reduzir a exposição manualmente, bloquear o foco e evitar o zoom digital são algumas das recomendações mais úteis. Fotografar a paisagem durante a evolução do eclipse — mostrando também as pessoas, o horizonte ou as alterações da luz — produzirá muitas vezes imagens mais interessantes do que tentar captar apenas o disco solar.

  • Máquinas fotográficas

Quem utilizar uma máquina fotográfica com objetivas intercambiáveis deve ter exatamente a mesma preocupação que teria ao observar o eclipse diretamente.

O filtro solar deve ser colocado na parte frontal da objetiva, nunca entre a objetiva e o corpo da máquina. Além de proteger o equipamento, permite fotografar o disco solar com detalhe durante todas as fases parciais do eclipse.

Teleobjetivas entre 300 e 600 milímetros conseguem mostrar muito bem a evolução do disco solar, enquanto objetivas mais curtas permitem integrar o eclipse na paisagem, explorando precisamente uma das características mais especiais deste fenómeno: acontecer quase ao pôr do sol.

  • Drones

A tentação de levantar um drone será grande. Afinal, um eclipse ao final da tarde parece uma oportunidade perfeita para imagens aéreas.

Antes de o fazer, convém lembrar três aspetos.

O primeiro é a legislação. Nem todos os locais permitem voar drones e, em muitas zonas, poderão existir restrições adicionais devido ao elevado risco de incêndio ou à proximidade de eventos públicos.

O segundo é a segurança. Um grande número de pessoas concentradas a observar o eclipse não é o melhor ambiente para operações improvisadas.

O terceiro é puramente fotográfico. Em muitos casos, um drone não acrescentará grande vantagem. O eclipse acontece no céu, não no solo, e a mudança da luz será praticamente a mesma vista a partir de alguns metros de altitude.

O melhor conselho pode parecer estranho. Há uma tentação compreensível de passar o eclipse inteiro de telemóvel ou máquina fotográfica na mão, preocupado em registar cada momento.

Quem já assistiu a um eclipse costuma dar exatamente o conselho contrário.

Faça algumas fotografias, se quiser. Grave um pequeno vídeo. Mas, quando o fenómeno atingir o máximo, baixe a câmara durante alguns instantes e olhe.

As fotografias poderão sempre voltar a ser vistas. A experiência de observar o céu a mudar lentamente diante dos seus olhos é muito mais difícil de repetir. E, para a esmagadora maioria dos portugueses, esta poderá ser uma oportunidade única na vida.

6. Quanto do Sol vai desaparecer em Portugal?

Em praticamente todo o continente, mais de nove décimos do disco solar serão escondidos pela Lua. Em muitas regiões, a ocultação ultrapassará mesmo os 95%.

À medida que se avança para nordeste, essa percentagem aumenta gradualmente até atingir os 100% dentro da estreita faixa atravessada pela sombra central da Lua.

Na Madeira e nos Açores, o eclipse também será visível, embora com uma ocultação menor do que no continente, 75%.

Para a maioria dos portugueses, será o eclipse mais profundo observado ao longo da vida e uma oportunidade que dificilmente voltará a repetir-se: o próximo do género é em 2144, ou seja, dentro de 118 anos. 

7. O eclipse dura mesmo 26 segundos?

Ao longo dos últimos meses, poucos números foram tão repetidos como os 26 segundos da totalidade. Tornaram-se quase uma espécie de cartão de visita do eclipse de 12 de agosto, mas ajudam pouco a perceber aquilo que realmente vai acontecer.

Esses cerca de 26 segundos correspondem apenas ao período durante o qual o Sol ficará completamente ocultado pela Lua na pequena faixa de território onde o eclipse será total em Portugal. Para todos os restantes observadores, e mesmo para quem estiver nessa zona privilegiada, o fenómeno começa muito antes e termina muito depois.

Pouco depois das 18h30, a Lua toca pela primeira vez no disco solar, a primeira ‘dentada’, e inicia uma progressão lenta que se prolonga durante cerca de uma hora até ao momento de maior ocultação. Segue-se depois um percurso inverso, igualmente demorado, até abandonar completamente o Sol, já perto das 20h30.



Olhar para o eclipse sempre com óculos certificados

É precisamente nessa evolução lenta que reside grande parte do fascínio de um eclipse. Primeiro quase não se nota diferença. Depois, o disco solar transforma-se num crescente cada vez mais fino, a luz começa a perder intensidade, as sombras mudam de forma e a paisagem adquire uma tonalidade pouco habitual. Quando finalmente chega o momento da maior ocultação, o fenómeno já dura há muito tempo e continuará a evoluir durante quase outra hora.

Os 26 segundos existem e têm um enorme significado para quem conseguir assistir à totalidade. Mas representam apenas o ponto culminante de um espetáculo que, na realidade, se desenrola durante quase duas horas e transforma gradualmente o céu muito antes de o Sol desaparecer por completo.

8. Porque é que este eclipse é diferente?

Os eclipses solares não são fenómenos raros. Todos os anos ocorrem pelo menos dois e, nalguns anos, podem acontecer até cinco. O raro não é a Lua passar entre a Terra e o Sol; o raro é que a estreita sombra projetada pela Lua atravesse um território densamente habitado e, ainda mais improvável, que passe exatamente sobre o mesmo país.

A faixa onde um eclipse é total tem normalmente apenas algumas dezenas ou poucas centenas de quilómetros de largura e desloca-se sobre a superfície terrestre a mais de mil quilómetros por hora. Na maioria das vezes cruza oceanos, desertos ou regiões praticamente desabitadas. É essa combinação de precisão astronómica e acaso geográfico que transforma cada eclipse total num acontecimento irrepetível para quem vive debaixo da sua trajetória.

Portugal conhece bem essa raridade. O último eclipse solar total observado no continente aconteceu em 17 de abril de 1912. Mais de um século separa esse momento daquele que será vivido na tarde de 12 de agosto de 2026.

Mas este fenómeno distingue-se por outro motivo. Ao contrário da maioria das imagens de eclipses que vemos em livros ou documentários, o Sol não estará alto no céu. Quando a Lua começar a ocultá-lo, o astro já estará a descer para o horizonte e continuará esse movimento durante todo o fenómeno. No momento de maior ocultação encontrar-se-á apenas alguns graus acima da linha do horizonte, criando uma combinação pouco frequente entre a luz quente do pôr do sol e a diminuição progressiva da luminosidade provocada pelo eclipse. É essa conjugação que faz prever algumas das imagens mais fortes de todo o acontecimento.

Não é por acaso que milhares de astrónomos amadores, fotógrafos e caçadores de eclipses escolheram Portugal e Espanha para acompanhar o fenómeno. Muitos planeiam estas viagens durante anos, seguindo a sombra da Lua pelo mundo para viver apenas alguns segundos de totalidade.

Em alguns pontos da faixa da totalidade em Espanha, onde o eclipse ocorrerá apenas minutos antes do pôr do sol, será possível assistir a um efeito visual muito raro, frequentemente descrito como um "duplo pôr do sol". Primeiro, a totalidade mergulhará a paisagem numa escuridão semelhante ao crepúsculo. Minutos depois, quando a Lua deixar de cobrir completamente o Sol, a luz regressará durante um breve instante, antes de o astro desaparecer definitivamente no horizonte. Esta sucessão de dois "entardeceres" em poucos minutos só é possível porque o eclipse coincide com um Sol muito baixo sobre o horizonte.

9. Por que 99% não é 100%?

À primeira vista, esconder 99% ou 100% do Sol parece praticamente a mesma coisa. Afinal, a diferença é de apenas um ponto percentual. No entanto, do ponto de vista da observação, esses dois números representam experiências completamente distintas.

A explicação está na extraordinária luminosidade da fotosfera, a superfície visível do Sol. Basta permanecer descoberto um fragmento minúsculo do disco solar para inundar toda a paisagem de luz e esconder completamente a coroa solar, a atmosfera exterior do Sol, milhões de vezes menos brilhante. Enquanto existir esse pequeno crescente luminoso, continuaremos perante um eclipse parcial, mesmo que quase todo o Sol já tenha desaparecido.

Tudo muda quando desaparece o último ponto de luz. A luminosidade ambiente cai de forma abrupta, o céu escurece, tornam-se visíveis os planetas e as estrelas mais brilhantes e surge finalmente a coroa solar, normalmente invisível devido ao brilho intenso da fotosfera. É também nesse instante que aparece um dos momentos mais famosos de qualquer eclipse total: o chamado anel de diamante, produzido quando o último raio de Sol atravessa um vale da superfície lunar imediatamente antes ou depois da totalidade.

É por isso que os astrónomos insistem tanto nesta distinção. Um eclipse de 99% não é um eclipse total "quase completo". É um eclipse parcial extremamente profundo. A diferença pode parecer insignificante em termos de geometria, mas é enorme naquilo que realmente se observa.

Isso não significa que quem estiver fora da zona da totalidade vá assistir a um fenómeno menor. Muito pelo contrário. Um eclipse com 95%, 97% ou 98% de ocultação continua a ser um acontecimento extraordinário e será provavelmente o mais impressionante que a maioria dos portugueses verá durante toda a vida. Simplesmente, existe um conjunto de fenómenos físicos que só acontece quando o disco solar desaparece completamente.

10. O que vai acontecer no céu?

Ao contrário da ideia que muitos têm, um eclipse não começa com uma mudança súbita da luz. Durante os primeiros minutos quase parece que nada acontece. A Lua toca discretamente na extremidade do Sol e continua a avançar de forma tão lenta que o olho humano dificilmente percebe qualquer alteração na paisagem.

É apenas quando uma parte significativa do disco solar já desapareceu que as transformações começam a tornar-se evidentes. O Sol deixa de ser um círculo perfeito e passa a apresentar a forma de um crescente cada vez mais estreito. Pouco depois, começam a mudar também as sombras. Tornam-se mais nítidas, mais contrastadas e revelam um fenómeno curioso: a luz que atravessa pequenos espaços entre as folhas das árvores ou qualquer outra abertura deixa de projetar manchas circulares e passa a desenhar dezenas de pequenos crescentes solares no chão.

À medida que o eclipse se aproxima do máximo, a própria paisagem começa a adquirir um aspeto pouco habitual. Não escurece como acontece antes de uma tempestade nem assume as cores de um pôr do sol normal. A luminosidade perde intensidade de forma gradual, os contrastes aumentam e instala-se uma sensação difícil de comparar com qualquer outro momento do dia.

É precisamente essa transformação lenta que torna um eclipse tão marcante. Não existe um instante em que tudo muda de repente. O mundo vai ficando progressivamente diferente até que, quase sem dar por isso, a paisagem já não parece iluminada da mesma forma que alguns minutos antes.

11. Por que motivo muda tanto a luz?

Quem nunca assistiu a um eclipse imagina, muitas vezes, que o céu escurece simplesmente porque o Sol deixa de estar visível. A realidade é bastante mais interessante.

A atmosfera terrestre funciona como um gigantesco difusor de luz. A luz solar não ilumina apenas aquilo para onde olhamos diretamente. À medida que atravessa o ar, vai sendo espalhada pelas moléculas da atmosfera, pelas partículas em suspensão e pelas gotículas de água, difundindo-se em todas as direções. É esse processo que explica, por exemplo, porque continuamos a ver claramente a paisagem mesmo quando o Sol fica atrás de um edifício ou porque o céu permanece azul muito para além da zona onde se encontra o Sol.

Durante um eclipse profundo, essa fonte de iluminação vai diminuindo de forma contínua. Quanto menor é a área visível da fotosfera, menor é também a quantidade de energia que chega à atmosfera e, por consequência, menos luz é espalhada sobre a paisagem. O resultado não é apenas um ambiente mais escuro. As cores tornam-se menos saturadas, os contrastes aumentam, os objetos parecem ganhar contornos mais definidos e instala-se uma luminosidade invulgar, frequentemente descrita por quem a observa como metálica, fria ou quase artificial.

No eclipse de 12 de agosto haverá ainda um elemento adicional. Como o Sol estará já muito próximo do horizonte, a sua luz atravessará uma camada muito mais espessa da atmosfera do que aconteceria ao meio-dia. Essa passagem reforça naturalmente os tons dourados e avermelhados característicos do final da tarde. O eclipse junta-se depois a esse processo natural, reduzindo progressivamente a intensidade da luz enquanto o Sol continua a descer. É esta combinação entre um eclipse profundo e um pôr do sol que poderá produzir algumas das imagens mais bonitas de todo o fenómeno.

12. A temperatura pode mesmo descer?

Pode, embora não exista uma resposta única para todos os eclipses. Quando a Lua cobre uma parte significativa do Sol, a quantidade de energia que chega ao solo diminui rapidamente. A superfície terrestre deixa de aquecer ao ritmo habitual e o ar imediatamente acima começa também a arrefecer. Quanto maior for a ocultação e mais estáveis forem as condições atmosféricas, mais evidente tende a ser essa descida de temperatura.

Em eclipses totais já foram registadas diminuições de vários graus Celsius, embora os valores variem bastante consoante a estação do ano, a hora do dia, a presença de vento ou nebulosidade e até o tipo de solo. Um terreno seco ou urbano, por exemplo, reage de forma diferente de uma floresta ou de uma superfície coberta por vegetação.

Rui Agostinho, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, lembra precisamente que a temperatura pode baixar durante um eclipse profundo, sobretudo quando a ocultação é muito elevada e o vento é fraco. Mais do que o número indicado pelo termómetro, aquilo que muitas pessoas recordam é a mudança súbita da sensação térmica. O calor perde intensidade, o ambiente torna-se inesperadamente fresco e instala-se a perceção de que alguma coisa deixou de funcionar como é habitual.

Essa alteração faz parte da experiência. Não é apenas uma questão de astronomia; é um fenómeno que também se sente na pele.

13. E o que vai acontecer com os animais?

Também eles podem reagir às alterações rápidas da luminosidade. Ao longo das últimas décadas, vários estudos científicos e inúmeros relatos recolhidos durante eclipses totais registaram mudanças temporárias no comportamento de diferentes espécies. Algumas aves interrompem o canto e regressam aos locais onde costumam passar a noite, insetos de hábitos noturnos começam a produzir sons característicos do entardecer e determinados animais reduzem subitamente a atividade, como se o dia estivesse prestes a terminar.

Estas reações não acontecem sempre da mesma forma nem são observadas em todos os eclipses. Dependem da profundidade da ocultação, das condições meteorológicas e, naturalmente, das espécies presentes em cada local. Ainda assim, existe um padrão suficientemente consistente para que muitos investigadores considerem que a alteração rápida da luz é capaz de perturbar temporariamente os ritmos biológicos regulados pelo ciclo diário.

Quem observar o eclipse numa zona rural ou junto de áreas naturais poderá, por isso, reparar em pequenos detalhes que normalmente passariam despercebidos: um silêncio inesperado, aves a procurar abrigo mais cedo do que seria habitual ou insetos a iniciarem comportamentos típicos do final do dia.

Não é um espetáculo garantido. Mas é uma possibilidade real e mais um dos motivos pelos quais um eclipse profundo é muito mais do que uma simples curiosidade astronómica.

14. O que realmente se sente durante um eclipse?

É provavelmente a pergunta mais difícil de responder e, ao mesmo tempo, aquela que mais vezes é feita a quem já assistiu a um eclipse total.

A ciência consegue explicar ao segundo a trajetória da Lua, calcular com enorme precisão a duração de cada fase do fenómeno e descrever todas as alterações físicas que ocorrem na atmosfera. Muito mais difícil é traduzir aquilo que os observadores sentem quando a paisagem começa lentamente a transformar-se.

Quase todos descrevem primeiro a estranheza da luz. Não parece um pôr do sol, nem um dia nublado, nem uma tempestade que se aproxima. É uma luminosidade completamente diferente, difícil de comparar com qualquer outra situação. Depois surge a sensação de que o ambiente está mais fresco, de que o silêncio aumentou e de que a paisagem ganhou um aspeto pouco habitual, como se tudo estivesse ligeiramente fora do lugar.

É precisamente essa sucessão de pequenas mudanças — nenhuma delas particularmente espetacular quando observada isoladamente — que torna a experiência tão marcante. A temperatura pode baixar, as sombras mudam de forma, algumas aves alteram o comportamento e o céu adquire uma tonalidade invulgar. Nada acontece de forma brusca. Tudo evolui lentamente, durante quase duas horas, até ao momento em que percebemos que o mundo à nossa volta já não se parece com aquele que existia quando o eclipse começou.

Talvez seja por isso que tantos astrónomos insistem em dizer que um eclipse deve ser vivido e não apenas observado. As fotografias conseguem registar o Sol. O que dificilmente conseguem captar é a atmosfera criada por um fenómeno que transforma discretamente a luz, a paisagem e até a forma como percebemos o tempo durante alguns minutos.

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