|
|
É uma frase feita, mas “a doença não tira férias”. Se pensarmos em quem vive com dor crónica, este momento do ano pode revelar-se desafiante: seja pelo calor em excesso, seja pela contradição de estar em sofrimento enquanto “todas” as outras pessoas descansam e partilham fotografias com paisagens paradisíacas, momentos com amigos e família. Não sei se tem a mesma sensação, mas não lhe parece que, em agosto, o país e as pessoas mudam de direção? Se, por um lado, existe mais tempo para conviver, por outro, pode ser realmente difícil aceitar convites. Ir de férias nem sempre é sinónimo de descontração e paz. Quando se sofre de dor crónica, a dor não fica em casa, sossegada, à espera de tréguas. E também não desaparece quando se passa uma temporada noutro destino. Era bom que assim fosse, mas, invariavelmente, este período pode representar uma bagagem com utensílios, medicação e produtos que atenuem as queixas. |
Algumas páginas de associações de pessoas que vivem com doenças associadas a dor crónica dão algumas recomendações úteis para este período do ano. De qualquer forma, aconselhe-se com o(s) seu(s) médico(s) e peça recomendações sobre a forma mais adequada para aproveitar os dias de descanso, caso ainda não tenha chegado o momento. |
Ricardo Fonseca, 43 anos, é enfermeiro e tem um duplo diagnóstico associado a dor crónica: tem fibromialgia e espondilite anquilosante. Passa o dia inteiro com dores e evita vários convites para sair. “Imaginem o que é andar e doer. Imaginem o que é saltar e doer. Imaginem o que é fazer caminhadas e doer. Trabalhar e doer. Estar sentado a conviver e estar a doer.” As frases, proferidas pelo próprio, integram o arranque do vídeo deste mês da rubrica Crónico – Como vivo com isto. |
À jornalista Sofia Teixeira, responsável por estas entrevistas realizadas em vídeo (com imagem e edição de Mariana Alvarez Cortes), confessou que tem medo de não conseguir, um dia, dar o consolo de que uma criança precisa durante um internamento ou de não ter capacidade de realizar os procedimentos comuns no seu trabalho. Quando divulgamos estes testemunhos na primeira pessoa, é frequente recebermos comentários nas redes sociais e até e-mails de pessoas que se identificam com a invisibilidade da dor crónica. E também com a desvalorização na família, no trabalho, na sociedade. São também relatos que merecem muitas partilhas por outros doentes que lutam diariamente pela sua recuperação e, sobretudo, pela sua vida. |
Para continuar a dar resposta à sua carreira, Ricardo Fonseca toma muita medicação, muitos comprimidos por dia. “Costumo dizer a brincar que pareço um idoso.” É essa “farmácia em casa” que o permite gerir a dor e continuar a desempenhar a sua profissão. Pode ver o episódio aqui. |
A medicação é um dos alicerces essenciais do tratamento da dor, mas não é o único. Para conhecermos o papel da reabilitação, convidámos a médica fisiatra Joana Henriques e a fisioterapeuta e osteopata Tânia Leiria, para participar no mais recente episódio do podcast Conversas sobre Dor. Ambas referiram a dificuldade que pode ser esta jornada, pois além do estigma associado a algumas doenças por parte da sociedade, nem sempre os profissionais de saúde demonstram conhecimento ou empatia pelas queixas dos doentes. É por isso que Joana Henriques “se senta ao lado” dos doentes e opta por uma postura humanista. “Eu não sei nada sobre a vida daquela pessoa, nem sei o que sente.” Neste episódio, Tânia Leiria recomenda que se procure sempre uma alternativa. “A dor nunca é normal. Se alguém lhes disse que é, não desista de procurar outra solução.” |
E quando a medicação e a fisioterapia não são suficientes? A resposta nem sempre é uma cirurgia. Nuno Silva é médico fisiatra e tem vindo a especializar-se no tratamento intervencionista da dor crónica e em cirurgia minimamente invasiva. No artigo que publicámos na rubrica O que eu aprendi com a dor dos outros, conta à jornalista Sofia Teixeira um pouco sobre o seu trabalho e os procedimentos que recorrem a uma agulha em vez de um bisturi, têm menos riscos e uma recuperação mais rápida. É este o futuro do tratamento da dor e, ao final, do dia, o sentimento de ajudar uma pessoa é o que prevalece. “Uma das maiores recompensas do meu trabalho é perceber que ajudei um doente. (…) Nem sempre mudamos o curso da doença, mas podemos mudar a forma como a pessoa vive. Há cada vez mais formas de tratar a dor.” |
E, afinal, quando é que se considera que um tratamento é bem-sucedido? Nuno Silva diz-nos: quando se consegue reduzir a dor em 50%. “Para alguém com dor crónica incapacitante, ter metade da dor habitual é um grande alívio e uma boa melhoria na qualidade de vida.” |
Este tema continua a ser entusiasmante para os profissionais de saúde. Os desafios contínuos obrigam a uma especialização regular e a troca de experiências relativas à prática clínica. A 15 e 16 de outubro, realiza-se o Congresso APED 2026 com o tema “NeuroDor 360º — Uma visão completa da dor neuropática”, promovido pela Associação Portuguesa para o Estudo da Dor, e vai reunir especialistas de diversas áreas para discutir os mais recentes avanços científicos, estratégias terapêuticas e desafios clínicos no diagnóstico e tratamento da dor. |
Deixo-lhe um resumo dos conteúdos publicados no último mês na secção DOR do Observador. |