Passou dias e anos com dor. Trabalhava com muitas dores e encolhia-se perante a necessidade de pedir para ir para casa. Sentia que não conseguia estar no escritório, mas tinha medo do preconceito. Sabia a razão, mas desconhecia o diagnóstico. E o mesmo demorou 25 anos a chegar. Afinal, não era normal ter dores menstruais, as mesmas que a impossibilitavam de estar sentada a trabalhar.
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Rahila Latif chegou a ouvir um comentário de uma diretora de recursos humanos que não a compreendia: “Como é que ela não aguenta se todas menstruamos e estamos aqui?”A menstruação chegou aos doze anos. As dores insuportáveis, como descreve, aos 14. Não conseguia ir às aulas nem ter uma vida normal. Seguiram-se idas regulares ao hospital, toma de medicação, e uma juventude roubada. “Desde as primeiras dores ao diagnóstico de endometriose passaram-se 25 anos”, partilhou, num relato profundo e pausado à jornalista Sofia Teixeira, no mais recente episódio do Crónico – Como vivo com isto. A imagem é de Mariana Alvarez Costa — que acumula a realização e a edição — e de Marco Gomes. |
A doença roubou-lhe sonhos, como o de ser mãe, ela que desde pequena se habituou a ter casa cheia, e levou-a a várias depressões graves. Pode ver o episódio aqui. A doença crónica é uma experiência solitária, mesmo quando há família e amigos”, diz a psicóloga clínica Cristina Catana, com mais de 30 anos de experiência. Será fácil imaginar que relatos como os de Rahila Latif são comuns nas consultas que dá no Centro Multidisciplinar Beatriz Craveiro Lopes, da ULS Almda-Seixal, onde trabalha. “Não me esqueço do que me disse uma paciente: ‘A dor crónica não é democrática. Se a Cristina quiser ir ao cinema, vai. Eu, se quiser, não posso porque não consigo estar duas horas sentada numa cadeira. Não posso ir ao cinema, não posso ir ao teatro, não posso ir a um almoço ou jantar longo.’” Este é o artigo do mês da rubrica O que aprendi com a dor dos outros. |
Não foi a primeira vez que abordámos a endometriose na secção Dor do Observador, e é muito provável que não seja a última. Afinal, esta é uma das doenças que demora mais tempo a ser diagnosticada, e é acompanhada de um sofrimento em silêncio. Recordo a crónica de Susana Fonseca, que relata a sua experiência enquanto doente, mas também como presidente da MulherEndo – Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose. O artigo refere o estudo O que sabem os portugueses sobre endometriose integrado na campanha A Minha Dor não me Define, uma parceria entre a associação e a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, com o financiamento da Gedeon Richter [que contou com uma amostra de 1446 pessoas], onde se concluiu que 30% dos homens inquiridos nunca ouviram falar sobre a doença e 30% das mulheres não diagnosticadas, apesar de já terem ouvido falar, não sabem exatamente do que se trata. |
Este desconhecimento é um dos motes para o convidar a recordar o Explicador que dedicámos ao tema e pode ler ou recordar AQUI. |
Todos os meses trazemos um novo relato em vídeo, mas conversamos também com duplas de convidados no podcast Conversas sobre Dor. O episódio deste mês, que apresento com o jornalista Paulo Farinha, aborda o tratamento da dor crónica e a ligação do centro de saúde às unidades de dor hospitalares. Convidámos Ana Pedro, coordenadora da Unidade de Dor da ULS Amadora Sintra e Bruno Pedrosa, médico de família na USF Ramada, ULS Loures-Odivelas, onde é coordenador da consulta de Dor. Nem todos os casos são graves o suficiente para chegarem às unidades hospitalares, até porque tal não seria sustentável, afirmou Ana Pedro. “O ideal é que as unidades de dor tenham situações mais complexas ou cujo tratamento não seja acessível nos cuidados de saúde primários. Caso contrário, vamos esgotar a capacidade de tratamento”, afirmou. O doente deve estar nos seus cuidados de proximidade, e mesmo quando necessita de aceder a cuidados hospitalares, deve regressar sempre ao seu médico de família, sendo o hospital “um ponto de passagem”. |
Bruno Pedrosa criou uma consulta de dor na USF Ramada e dá resposta duas horas por semana. “37% dos nossos doentes têm dor”, explicou, assinalando que nem sempre é fácil abordar esta queixa em doentes com muitas patologias, que têm diabetes, colesterol, hipertensão, entre outras. Mas como se faz então a articulação entre o médico de família e o hospital? Pode ficar a conhecer melhor este processo ao ouvir este episódio. |
Antes de terminar esta newsletter deixo um resumo dos trabalhos que publicámos no último mês na secção Dor. Se já foi de férias, desejo-lhe um bom regresso ao trabalho. Se está em vésperas de ir, desejo-lhe um bom descanso. Até à próxima newsletter. |