Este é um tema que, na maioria das vezes, remete para o fim da vida, desistência e abandono do doente. Na verdade, é exatamente o contrário: cuidados paliativos são sobre a vida e o viver com a melhor qualidade de vida possível, mesmo quando se enfrenta uma doença grave e sem cura. No centro destes cuidados está uma missão fundamental: controlar a dor.
Em cuidados paliativos, como noutras áreas da medicina, a abordagem da dor supera o modelo estritamente biológico/nocicetivo. Adoto por isso o conceito de dor total, de Cicely Saunders, que reconhece à dor, além da dimensão física, as dimensões psicológica, emocional, social, cultural e espiritual do sofrimento. É por isso uma experiência individual multidimensional que suga a energia, altera gravemente o sono e o repouso, destrói o humor e o prazer de viver, afastando a pessoa do convívio social e familiar.
Consequentemente, controlar a dor e o sofrimento a ela associado não é um luxo — é uma emergência de dignidade humana. É também um dos pilares fundamentais, humanizadores, da medicina contemporânea, e por maioria de razão em cuidados paliativos. Longe de ser apenas uma intervenção científico-técnica, representa o compromisso, imperativo ético e humano, de devolver a dignidade às pessoas que enfrentam o período de maior fragilidade das suas vidas. Em cuidados paliativos, quando o foco já não é a cura, o sucesso terapêutico passa a ser medido pela qualidade dos dias que restam e não há qualidade de vida possível onde a dor dita as regras.
A dor total é também a dor associada ao medo do futuro; medo da dependência, da perda de autonomia e da tristeza de ver a família sofrer. Assim, para dar respostas a todas as dimensões, o eficaz tratamento e controlo da dor tem de envolver equipas multidisciplinares, constituídas por profissionais das diferentes áreas da saúde, reconhecendo-se, assim, que aliviar o sofrimento emocional, social e espiritual é tão importante como aliviar o sofrimento físico. É importante, mesmo fundamental, que o trabalho da equipa seja planeado e prestado à medida das necessidades de cada pessoa, considerada como um ser único e irrepetível. É este trabalho coordenado e o cuidado global à pessoa que permitem que o avô possa contar uma história aos netos, que a mãe consiga conversar e sorrir com os seus filhos, que alguém consiga despedir-se dos amigos ou, simplesmente, ter uma noite de sono tranquila.
Historicamente, o fim de vida foi quase sempre associado ao sofrimento inevitável. No entanto, a evolução dos cuidados paliativos veio demonstrar que pode não ser assim e que a dor não é uma fatalidade. Modernamente, tratar e controlar a dor vai muito além da administração de analgésicos, exige uma abordagem holística da pessoa e um tratamento multimodal.
Existem, contudo, obstáculos que precisamos de ultrapassar: as barreiras culturais e o preconceito. O medo infundado do uso de opioides, como a morfina — por parte das famílias e de profissionais de saúde com menos formação na área — a associação da prescrição e administração destes fármacos à proximidade iminente da morte, ou ao risco de dependência, muitas vezes atrasa o alívio eficaz da dor, e do sofrimento a ela associado. Mas está provado — a ciência e a prática médica já demonstraram — que quando usados corretamente e sob supervisão, estes fármacos são seguros e devolvem ao doente algo precioso: o alívio da dor e, com ele, a sua dignidade.
Defendo a necessidade de desmistificar o uso de fármacos analgésicos potentes, como a morfina e outros opioides, assim como da canábis medicinal. O alívio do sofrimento severo não deve ser limitado por tabus, mitos ou preconceitos. Todos os doentes com necessidade devem poder ter acesso aos recursos farmacológicos existentes. É o que a Organização Mundial da Saúde preconiza ao afirmar que se trata de um direito do doente e um dever dos profissionais, especialmente dos médicos.
Na minha perspetiva, a abordagem eficaz da dor em contexto de cuidados paliativos exige a compreensão de que a dor nunca é meramente física e que o seu tratamento tem de ser multimodal. Cuidar de quem está na fase mais vulnerável e de maior sofrimento da sua existência exige saber científico e técnica, mas exige, acima de tudo, empatia e compaixão. Garantir que ninguém sofre desnecessariamente não é apenas boa prática médica. É um ato básico de humanidade. Porque todos temos o direito de viver sem dor, até ao último segundo das nossas vidas.
Investir em cuidados paliativos e na formação contínua das equipas é algo essencial para qualquer sociedade considerada moderna e civilizada. Não é um luxo, mas sim uma necessidade urgente. Controlar a dor não significa encurtar a vida de ninguém. O que realmente importa é garantir que as pessoas possam viver a última etapa da sua vida com o mínimo de sofrimento possível, o que não é apenas uma questão de competência médica, mas também a demonstração de empatia, compaixão e respeito pela dignidade humana.
A forma como cuidamos dos nossos doentes e das pessoas em situação de vulnerabilidade revela muito sobre quem somos como sociedade. É importante lembrar que cuidar das pessoas em momentos difíceis é uma expressão de respeito e dignidade. Portanto, devemos priorizar esses cuidados e garantir que todos tenham acesso a eles, pois isso faz parte do que significa ser uma sociedade verdadeiramente moderna, civilizada e compassiva.
Marília Dourado é licenciada e doutorada em Medicina pela Universidade de Coimbra, onde é professora associada com agregação na Faculdade de Medicina. É diretora e coordenadora do mestrado em Cuidados Continuados e Paliativos da pós-graduação em Medicina da Dor na mesma faculdade e uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade.
Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a Ferraz Lynce (através da sua unidade, FAI Therapeutics) e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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