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Temos dinheiro para ser sustentáveis? Uma pergunta fundamental no dia em que a COP26 discutiu as finanças do clima

03 nov. 2021, 20:53
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Fotografia de João Francisco Gomes
João Francisco Gomes
Jornalista
quarta, 03 nov 2021

Está em pleno andamento a aguardada COP26, a conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas em que os países de todo o mundo estão a atualizar os seus compromissos climáticos ao abrigo do Acordo de Paris — e, à conta da cimeira de Glasgow, a crise climática está novamente no topo da agenda mediática.

Com o debate em torno do aquecimento global, da inevitável subida do nível médio das águas do mar, dos fenómenos climáticos extremos que se perspetivam no futuro e já se sentem no presente, da transformação de algumas partes do mundo em desertos humanos ou da possível escassez de recursos, surgem os igualmente inevitáveis apelos públicos, emitidos por celebridades, ativistas, marcas e decisores políticos, para que todos levemos uma vida sustentável.

Transportes públicos, carros elétricos, mais vegetais e menos carne, produtos mais duradouros, e por aí fora. As fórmulas da sustentabilidade quotidiana são muitas e conhecidas. Mas, com frequência, acabamos por esbarrar na realidade: um carro elétrico é significativamente mais caro do que um carro a combustível; os transportes públicos são frequentemente ineficazes, raros ou inexistentes; a alimentação biológica e sustentável também nos custa mais do que a convencional.

Tudo isto resulta de uma economia em larga medida assente no petróleo, como o demonstrou eficazmente a recente escalada dos preços dos combustíveis. Milhares de portugueses cruzaram a fronteira com Espanha em busca de gasolina mais barata, inúmeros setores advertiram para o inevitável aumento de preços de todo o tipo de bens e serviços devido à subida do custo dos transportes e o Governo acabou por intervir, recorrendo ao programa IVAucher para oferecer aos portugueses um desconto de 5 euros por mês em combustíveis.

Temos, de facto, uma economia profundamente dependente dos combustíveis fósseis, com o preço dos combustíveis a influenciar o custo de praticamente todos os bens e serviços que consumimos. Porém, há um fator que ainda não influencia particularmente o preço do que compramos: o custo ambiental. Por isso, ainda pagamos (quase sempre) mais pelo que é sustentável do que pelo que é poluente. Uma mudança de paradigma, dizem os especialistas, poderá inverter esta realidade.

Que as alterações climáticas são dos debates centrais e mais importantes do nosso tempo é algo de que já praticamente ninguém duvida. Mas é legítimo perguntar, olhando para o nosso próprio quotidiano: afinal, temos dinheiro para ser sustentáveis?

Alguns dias antes de virar as minhas atenções para Glasgow, fui em busca de algumas respostas a esta questão frequente entre quem quer ser amigo do ambiente, mas encontra na carteira um dos principais obstáculos à sustentabilidade. Conclusão? É verdade que os produtos amigos do ambiente são ainda mais caros do que os convencionais. Mas também é verdade que isso só acontece porque a economia está desequilibrada no sentido do petróleo. “Em muitos casos, estou a comprar um determinado bem que tem um impacto ambiental que depois vai custar na saúde das pessoas, no abastecimento da água”, respondeu-me o ambientalista português Francisco Ferreira, dirigente da associação Zero. “Tenho bens e práticas insustentáveis que acabo por adquirir mais baratas porque não pago o verdadeiro custo.”

O mesmo apontou o economista guineense Carlos Lopes, ex-secretário-geral-adjunto das Nações Unidas e um dos mais reputados analistas da relação entre o clima e a economia. Os custos ambientais ainda não têm um peso no preço final de bens e serviços, disse ele: “Só se refletem como efeitos colaterais, mas não enquanto custos quando estão a ser explorados os meios ambientais.”

A solução? “Precisamos de mudar a economia”, diz Carlos Lopes. Isso faz-se deslocando o dinheiro atualmente alocado à economia do petróleo para a economia verde. Um exemplo em Portugal: o recurso ao Fundo Ambiental (que arrecada dinheiro oriundo dos impostos sobre o petróleo, entre outras fontes de receita) para financiar o programa de redução do preço dos passes dos transportes públicos. A transição vai difícil e cara, reconhecem a maior parte dos especialistas. Durante esse período, está nas mãos dos decisores políticos implementar medidas que permitam, artificialmente, inverter os equilíbrios económicos atualmente em vigor.

COP26 já começou a dar frutos (mas ainda só no papel)

Para isso, impõe-se que os países adotem uma visão ambiental e climática da economia e das finanças. Foi isso que o ministro das Finanças britânico, Rishi Sunak, tentou ilustrar quando subiu esta quarta-feira ao palco da COP26, em Glasgow, com uma versão verde da clássica pasta vermelha que simboliza o Orçamento do Estado no Reino Unido. Sunak deu o mote para um dia de debate na cimeira sobre a importância de mudar o paradigma do sistema económico e financeiro, de modo a que a economia passe a trabalhar em prol do ambiente — e não no sentido oposto.

UK Chancellor Rishi Sunak Delivers Keynote Speech To COP26

Na COP26, Rishi Sunak fez um breve discurso apontando caminhos sobre como o mundo poderá pagar a fatura da transição climática — que exigirá investimento no imediato, mas compensará a médio e longo prazo. Sunak sublinhou a relevância do investimento público (nomeadamente, através dos compromissos assumidos pelo G20 de mobilizar 100 mil milhões de dólares anualmente para ajudar os países mais pobres a fazer a transição energética) e do investimento privado (através do incentivo à mobilização de capital privado para investimentos sustentáveis). Mas, para Sunak, o grande objetivo deverá ser a transformação integral do sistema financeiro num sistema verde: a obrigatoriedade de as empresas publicarem os seus impactos ambientais e os mecanismos de mitigação será um dos fatores essenciais.

À hora que Rishi Sunak subia ao palco da COP26, a maioria dos chefes de Estado e de Governo que estiveram presentes nos dois primeiros dias da cimeira já se encontravam a caminho de casa, deixando os trabalhos da cimeira entregues às representações nacionais — que incluem ministros, cientistas e outros delegados que, nos próximos dias, vão debater uma série de temas específicos e tentar chegar a um acordo final para todos os participantes da cimeira assinarem na próxima semana.

Para trás ficam dois dias de cimeira de alto nível, que incluíram discursos de peso do Presidente dos EUA, Joe Biden, do secretário-geral da ONU, António Guterres, do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, da chanceler alemã, Angela Merkel, ou do Presidente francês, Emmanuel Macron — e, sobretudo, três compromissos fulcrais:

  1. O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, anunciou o compromisso do país de alcançar a neutralidade carbónica até 2070. A Índia é o terceiro maior poluidor do mundo (atrás da China e dos EUA) e ainda tem uma economia profundamente dependente do carvão, que representa mais de dois terços da sua energia. Porém, até agora, a Índia ainda não tinha assumido o compromisso de alcançar a neutralidade carbónica, enfatizando até aqui a necessidade de os países desenvolvidos ajudarem os países em vias de desenvolvimento a operar a transição energética. O anúncio da Índia deixou o anfitrião da cimeira, o primeiro-ministro Boris Johnson, “cautelosamente otimista” com os resultados da COP26 até agora: “90% do mundo já se comprometeu com a neutralidade carbónica, incluindo a Índia”, disse Johnson.
  2. Mais de 100 países comprometeram-se a travar a desflorestação a nível global — e a reverter os seus efeitos — até 2030. O acordo foi o primeiro grande sucesso da COP26, noticiado na segunda-feira e firmado na terça-feira, e tem especial relevância por ter entre os seus signatários o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que tem jurisdição sobre a Amazónia e que tem sido frequentemente criticado por não fazer o suficiente em defesa de uma floresta tropical descrita como “os pulmões do planeta”. Assinaram ainda o acordo os EUA, a China e vários outros países.
  3. Cerca de 90 países assinaram um acordo impulsionado pelos EUA e pela União Europeia com o compromisso de cortar as emissões de metano para a atmosfera em 30% até 2030. O metano é o segundo gás com efeito de estufa mais emitido no mundo e tem um potencial de aquecimento do planeta muito maior que o dióxido de carbono, estimando-se que seja responsável por quase metade do aquecimento do planeta registado desde a era pré-industrial até hoje. A comunidade científica perspetiva que um corte significativo nas emissões de metano (algo que pode ser feito com poucos custos ou até com lucro para Estados e empresas) possa reduzir o aquecimento global em 0,3ºC até 2040. O impacto poderá ser ainda maior se a Rússia, a China e a Índia também vierem a aderir ao pacto — algo que, até agora, ainda não fizeram.

Naturalmente, estes compromissos assumidos no plano político vão agora precisar de se traduzir em medidas técnicas concretas que permitam que as ideias saiam do papel. Com os chefes de Estado e de Governo fora de cena, caberá agora às delegações dos vários países negociar um acordo final para a COP26 — e caberá aos governos de cada nação signatária assegurar que os compromissos gerais assumidos em Glasgow podem ser alcançados. E a história recente do combate às alterações climáticas mostra que um objetivo escrito num acordo não se reflete necessária nem imediatamente em ações concretas para o atingir. Basta pensar no próprio Acordo de Paris, que pretende manter o aquecimento global até ao final do século bem abaixo dos 2ºC em relação ao nível pré-industrial (e, idealmente, nos 1,5ºC) — os compromissos atuais dos signatários conduzirão o planeta a um aquecimento de 2,7ºC.

Um dos objetivos centrais da COP26 é que os vários países aumentem a ambição dos seus compromissos para que o objetivo de Paris se mantenha ao alcance. Muitos líderes globais, incluindo António Guterres e Boris Johnson, já alertaram para o enorme risco de falhanço da COP26 no que respeita ao objetivo central da cimeira. Será possível colocar no papel compromissos suficientes para limitar o aquecimento global a 1,5ºC? Ou vão falhar os consensos, como em Madrid em 2019? Na próxima edição desta newsletter, já será possível fazer o balanço.

Fotografia
Alterações Climáticas

Temos dinheiro para ser sustentáveis?

As alternativas sustentáveis ainda são mais caras do que os sistemas convencionais — e a transição energética é um desafio à economia atual. Afinal, quanto nos vai custar a sustentabilidade?

Fotografia
COP26

Florestas e metano: 2 acordos alcançados na COP26

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O que se escreve no mundo

Why methane cuts pledged at COP26 may be key to meeting climate goals
National Geographic
Why COP26 agreement will struggle to reverse global forest loss by 2030
The Conversation
Cop26 emission pledges may limit global heating to below 2C
The Guardian
Boris Johnson used to mock ‘eco-doomsters.’ Now he’s a climate champion.
The Washington Post
Biden Tries to Reassert American Leadership, and His Own
The New York Times
Our Planet Is Heating Up. Why Are Climate Politics Still Frozen?
The New Yorker
‘Summers are becoming unbearable’: living on the frontline of global heating
The Guardian
The unlikely protector against Bangladesh's rising seas
BBC Future Planet
Brazil is failing to stop illegal logging of the Amazon
Quartz
The death toll of Europe’s heat wave
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