Este foi o mote de uma canção que, em 1981, o hoje Nobel da Literatura (2016), Bob Dylan, dedicou à doença do legionário – …But whatever it was, it drove them to their knees. O tema, intitulado Legionnaire’s Disease, aludia a um surto de pneumonia atípica, que em 1976 causou cerca de 30 mortes numa convenção da Legião Americana, reunida num hotel em Filadélfia, nos Estados Unidos da América.

Era uma doença até então desconhecida, cuja origem se veio a descobrir estar associada à disseminação da bactéria legionela através de minúsculas gotículas de água, os aerossóis de que tanto se tem falado a propósito da Covid-19. Neste caso, a transmissão não ocorre entre pessoas, como no caso da Covid-19, mas a partir de uma fonte onde se originem os tais aerossóis. A legionela cresce bem em água quente, sobretudo ao abrigo de amebas, uns micróbios de maiores dimensões que as recolhem no seu interior e lhes dão o que necessitam para se multiplicar. Como hóspedes mal agradecidos, as legionelas rebentam a ameba que as acolheu, escapam-se para a água e daí para o ar através dos aerossóis. Isto pode acontecer em torres de arrefecimento industriais, humidificadores, piscinas, jacuzzis, instalações termais ou sistemas de condicionamento de ar que usem água para refrigerar, o que não é o caso dos sistemas existentes em casas ou nos carros.

A descoberta dos habitats favoritos da também conhecida como “bactéria do ar condicionado” veio alertar para a necessidade de uma cuidadosa vigilância e manutenção destes sistemas, de modo a evitar casos de infecção. A eficaz prevenção da legionelose passa por garantir que os sistemas de água onde se podem gerar aerossóis são sujeitos a vigilância regular, limpeza e desinfecção, de modo a reduzir o risco de crescimento e disseminação da bactéria. Numa chamada de atenção para as falhas que o fecho de instalações devido à Covid-19 pode causar, uma publicação de Julho de 2020, na revista científica EuroSurveillance, dava conta de um caso de pneumonia por Legionella num restaurante em Roma, Itália. Segundo os autores, aquele caso destacava a importância do controlo da qualidade da água e do ar na reabertura de edifícios comerciais ou públicos.

A verdade é que desde a sua descoberta, as infecções causadas por legionela têm vindo a ser reportadas de forma regular, ainda que esporádica, sendo muitas vezes difícil explicar a sua origem ou quais os factores que levaram a mais uma eclosão deste patógeno. De acordo com o Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças, a taxa de notificação anual de casos de legionelose aumentou continuamente durante o período de 2014-2018, de 1,3 por 100 mil habitantes em 2014, para 2,2 em 2018. Excepto no ano de 2014, em que ocorreu o surto de Vila Franca de Xira, com 588 casos, de 2014 a 2018, o número de casos anuais em Portugal tem rondado os 200. Não é possível ver um padrão geográfico muito claro a nível europeu, com países como a Dinamarca, Eslovénia, Espanha, França, Holanda ou Itália entre os que têm apresentado taxas de notificação mais elevadas. Segundo os respectivos Centros para Prevenção e Controle de Doenças, em 2018 foram reportados cerca de 9 mil casos na Europa e 10 mil nos Estados Unidos da América, com taxas de mortalidade que rondam os 8%-10%. Porém, as autoridades acreditam que alguns casos possam nunca chegar a ser diagnosticados, fazendo com que a real incidência possa ser superior.

O que começou como um surto num hotel de Filadélfia, rapidamente se tornou numa infecção com distribuição global. Claro que não foi em 1976 que a bactéria apareceu na natureza. Mas foi apenas depois do surto de Filadélfia que se percebeu, que já em 1940 teria havido surtos que passaram despercebidos e a sua existência será, por certo, muitíssimo anterior. O que mudou não foi a legionela, mas sim os hábitos e a forma como a sociedade se organiza, além do conhecimento científico, que permitiram conhecer mais este patógeno. É assim a nossa complexa relação com os micróbios que nos fazem tombar!