Entre os grandes avanços das civilizações humanas estiveram, em diferentes fases e de diferentes modos, a canalização e tratamento dos esgotos. Embora os sistemas de encaminhamento e tratamento de esgotos remontem à antiguidade, o seu desenvolvimento foi imposto pelas grandes aglomerações urbanas. A mistura de substâncias e de micróbios que chegam a um esgoto tem evoluído com as civilizações humanas. Com a crescente sofisticação das sociedades, nos esgotos têm-se acumulado moléculas sintéticas usadas como fármacos, produtos de cosmética, ou de higiene pessoal ou doméstica.

Em muitas regiões do mundo, embora infelizmente muitas ainda fiquem de fora deste cenário, os esgotos são tratados, nas designadas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR). As ETAR permitem que a água seja devolvida à natureza livre de grande parte das impurezas que os humanos lhe introduzem. E assim se fecha o que pode ser designado como o ciclo urbano da água.

Na era da Big Data os esgotos podem ser muito mais do que uma água suja que será tratada antes de devolvida à natureza! Os esgotos podem ser usados como espelho da comunidade que os produz e desse modo servir áreas que vão desde a sociologia à saúde.

A comunidade científica tem vindo a propor que os esgotos sejam usados em vigilância epidemiológica. Por exemplo, a definição de padrões de uso de substâncias ilícitas, como anfetaminas, cocaína ou heroína tem beneficiado do uso desta estratégia de vigilância. Igualmente, foi usada para avaliar a eficácia das campanhas de vacinação contra a poliomielite. E, mais recentemente, foi proposta abordagem similar para a vigilância de bactérias resistentes a antibióticos que possam ser um perigo para a saúde humana.

Analisar esgotos tem vantagens, por exemplo, além de não depender do depoimento ou cedência de amostra de cada indivíduo e das condicionantes éticas que lhe possam estar associadas, dá uma imagem do todo em vez da parte. Concretamente, pode permitir avaliar se um dado tipo de substância química ou agente biológico está a aumentar ou a diminuir ao longo do tempo, se é maior num distrito do que noutro ou se tende a ser mais elevado no inverno do que no verão. Enquanto pelo método clássico de vigilância epidemiológica se observa cada árvore, através do esgoto poderemos ver toda a floresta, bem como as suas clareiras e zonas densas. Esta visão do todo em vez da parte tem vantagens e se o retrato obtido for confiável, pode permitir ações preventivas e proteger a saúde humana.

Então e para a Covid-19? A possibilidade de implementar este tipo de vigilância epidemiológica está a entusiasmar cientistas em diversas partes do mundo. O material genético (ARN) do vírus que causa a Covid-19 (SARS-CoV-2) tem sido detetado em fezes e em esgotos, o que cria uma interessante oportunidade para desenvolver métodos de vigilância epidemiológica. Pela análise do esgoto de uma dada zona seria possível estimar o número de indivíduos infetados, incluindo os casos assintomáticos. Este tipo de vigilância permitiria atuar por antecipação, antes mesmo de haver contágio massivo na comunidade. Assim, perante um alerta seria possível ativar medidas de controlo, por exemplo de isolamento, antes de haver aumento de casos de contágio. Poderia ter sido útil para medir a eficácia da implementação das medidas de confinamento, como poderá ser útil para prever um segundo surto epidémico. Claro que há ainda várias questões por responder para poder usar este tipo de sistema de vigilância com total fiabilidade, mas este é mais um exemplo de como a Covid-19 veio estimular a ciência por esse mundo fora!