Afinal, continua a haver educação sexual nas aulas de cidadania ou não? O Governo garante que sim, que a sexualidade continua a fazer parte do currículo, embora de forma subtil, às vezes encoberta por outros temas, que a ocultam, mas sem a esconder completamente. Já a oposição à esquerda escarnece dessa suposta presença dissimulada e insiste que a sexualidade tem de estar presente de forma mais directa, sem filtros, e não misturada com outros temas. No fundo, é o velho debate entre quem prefere cinema erótico e quem gosta mais de filmes pornográficos.

O debate está intenso, com várias opiniões a defenderem e a atacarem a posição do Governo. Umas dizem que não há referências a sexo na Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania e nas Aprendizagens Essenciais nos documentos disponibilizados para consulta pública, outras dizem que o sexo está lá, mas é preciso ler com atenção. Tenho ouvido todas, algumas muito bem fundamentadas, mas até agora não houve nenhuma que me tenha convencido. Porque nenhuma foi emitida por um jovem de 15 anos. E, para farejar sexo em documentos administrativos, só confio num adolescente com as hormonas aos saltos. Se não conseguir encontrar uma referência a sexo, por mais vaga que seja, é porque não está mesmo lá.

Percebe-se a polémica. Quem é de esquerda não pode ficar de braços cruzados a ver a educação sexual ser retirada do currículo escolar, pois recorda-se automaticamente dos tempos tenebrosos antes das aulas de cidadania. A epidemia de gravidezes adolescentes era de tal ordem que todas as escolas secundárias tinham creches para os bebés das raparigas do 7.º ao 9.º ano. A partir do 10.º ano já não era preciso, porque os filhos mais velhos das alunas tomavam conta dos irmãos mais pequenos. Quem namorava estava sempre no hospital: ou a tratar de ossos partidos por violência do companheiro, ou a tratar doenças sexualmente transmissíveis. As DST eram tão vulgares que a equipa que ganhou o interturmas no meu  último ano de liceu alinhava com: Sífilis à baliza, o Zé Herpes a defesa, o Chatos à esquerda, o Chico Sidoso à direita e o Hepatite Berna a pivot. Fartou-se de marcar golos. Os guarda-redes encandeavam-se com a cara amarela. Era a barbárie.

Mas quem é de direita deve igualmente agir, pois também tem boa memória e lembra-se com nitidez dos tempos tenebrosos durante as aulas de cidadania. As crianças mudavam de sexo a cada recreio, na lista de material a adquirir no início do ano vinha sempre um brinquedo sexual obrigatório (ainda hoje tenho para aqui 4 ou 5 vibradores que o meu filho mais novo usa para fazer corridas no corredor – emocionantes, diga-se, embora o Philips ganhe quase sempre). A C+S do meu bairro mudou de nome: o “S” passou a ser de “Sodoma”. E a festa de Natal era no peep show. Era a barbárie.

Ninguém parece querer ceder, mas julgo que vai ter de se chegar a um compromisso. Há espaço para consensos, sobretudo em matérias que são incontroversas.  Por exemplo, por mais que lhes custe, os conservadores devem aceitar que é necessário ensinar que antes de uma relação sexual é preciso colocar o preservativo no pénis do rapaz; e os progressistas, por muito que lhes doa, devem aceitar que não se pode ensinar a colocá-lo no pénis da rapariga.