O ensino superior dos Estados Unidos está a perder poder de atração junto dos estudantes  internacionais, ameaçando um dos seus maiores ativos estratégicos. A combinação de políticas  migratórias mais restritivas, cortes no financiamento à ciência e um ambiente de crescente  hostilidade face a estudantes estrangeiros está a afastar talento qualificado. Um artigo recente  da The Economist reforça este diagnóstico, traçando um cenário preocupante para as  universidades norte-americanas, historicamente reconhecidas como destino de excelência para  estudantes internacionais. A confirmar-se esta tendência, não estaremos apenas perante mais  uma flutuação cíclica na mobilidade académica internacional, mas sim diante de uma mudança  estrutural, cujas implicações se farão sentir a nível global.

Só no último ano, os dados oficiais do SEVIS indicam uma quebra de 11,3% nas matrículas de  estudantes internacionais nos EUA, representando menos 130.000 estudantes. A perda é  particularmente acentuada ao nível dos mestrados, onde a queda ultrapassa os 20%, afetando  sobretudo estudantes vindos da Índia e de outros países asiáticos. Esta realidade não é apenas  simbólica: pode representar uma quebra superior a 4 mil milhões de dólares em receitas para  as instituições norte-americanas, muitas das quais dependem fortemente da propina paga por  estes estudantes.

Perante este cenário, a pergunta impõe-se: e nós?

Portugal pode — e deve — encarar este momento como uma oportunidade estratégica para se  posicionar como destino atrativo de talento internacional. A quebra da hegemonia americana  abre espaço para países médios, com bons sistemas de ensino superior, estabilidade política e  qualidade de vida. Mas este espaço só será ocupado por quem tiver uma visão estratégica clara  e capacidade de ação coordenada.

Em primeiro lugar, importa reconhecer que a atração de estudantes internacionais não se  resume a uma fonte de receita, constituindo igualmente um vetor de inovação, de  internacionalização e de desenvolvimento económico e científico. Talento atrai talento, e  talento atrai investimento. A mobilidade académica é hoje uma dimensão central da economia  do conhecimento.

Em segundo lugar, é essencial garantir condições concretas de atratividade. Isso implica  estabilidade nos vistos, percursos claros de integração e de permanência, apoio ao alojamento  e ao emprego qualificado e uma verdadeira valorização da ciência e do ensino superior. O “ciclo  virtuoso” de atração e retenção começa no momento da candidatura e prolonga-se muito para  lá da graduação.

E, em terceiro lugar, é urgente reforçar os mecanismos de promoção internacional de Portugal  enquanto destino académico. Países como a Alemanha, a Holanda, a Austrália ou o Canadá têm  estruturas públicas robustas e bem financiadas que articulam diplomacia, educação e promoção  económica. Também a vizinha Espanha criou, em 2015, a SEPIE — Servicio Español para la  Internacionalización de la Educación — com resultados visíveis no crescimento da captação de  estudantes.

Portugal continua sem uma entidade nacional dedicada à promoção do seu ensino superior no  mundo. Esta lacuna tem consequências evidentes — desde a descoordenação de esforços à  dispersão de mensagens e à perda de oportunidades. Impõe-se, por isso, a criação de uma  estrutura congénere, capaz de integrar a dimensão educativa na estratégia de promoção  externa do país. A internacionalização do ensino superior não pode continuar a depender da  ação isolada de instituições ou de boas vontades individuais.

Os dados estão à vista. Os fluxos internacionais de estudantes estão a mudar. Se Portugal quiser  afirmar-se como um destino relevante neste novo mapa, tem de agir. Agora.